Capítulo 5

Tínhamos o costume de ensaiar todos os dias da semana, porém com aquele trabalho de medicina legal, eu e Jane ficamos liberadas apenas três vezes. Minha primeira reunião com Téo seria naquele dia, uma segunda-feira, às oito e meia da noite, de acordo com a disponibilidade dele.

O horário era péssimo para mim, mas não foi muito difícil convencer minha mãe a sair mais cedo do trabalho para me emprestar o carro. Não era todo dia que eu precisava fazer isso, então tinha um bom histórico com ela.

Já não podia dizer o mesmo dela. Encontrar aquele envelope amarelo entre as coisas da vovó, de onde a mamãe tentava me manter afastada, significava que ela tinha mentido para mim? Inclusive a discussão delas mencionava um destino sobre o qual eu precisava ser comunicada e do qual não poderia fugir. Encaixava-se perfeitamente ao texto da herança.

Meu celular vibrou assim que estava chegando à faculdade. “Estou no laboratório, lindinha.” Sorri, apesar de não lembrar quando o tinha autorizado a me chamar assim.

Quando cheguei ao laboratório, fazendo bastante barulho com as minhas botas no corredor vazio, Téo já estava sentado, devidamente vestido com seu jaleco tamanho personalizado, examinando o cadáver.

A sala estava escura, bem diferente do ambiente que costumava encontrar durante as aulas. Apenas algumas luzes funcionavam e isso dava ao lugar um ar sinistro. Fechei a porta e coloquei minha bolsa sobre a bancada ao lado.

— Boa noite. – falei enquanto pegava meu jaleco e olhei-o sobre o ombro quando começou a rir.

— Boa noite?! Sério? Acho que você foi menos formal no dia em que nos conhecemos. – ele juntou as sobrancelhas, olhando-me incrédulo.

— Você não me chamava de lindinha. – retruquei.

— Ah! – ele desanuviou seu rosto e sorriu com os lábios e com os lindos olhos de outono. — Não costumo mentir, então, não tem como te chamar de outra coisa. – não contive meu riso. Estava realmente achando graça disso. — Poxa. Eu te fiz rir. Acho que mereço algo por isso.

— Acho que você me disse que não queria uma nota baixa. – mudei de assunto.

— Ok. Já entendi que vamos apenas estudar. – ele levou a mão espalmada à frente da testa como se estivesse batendo continência. Ele realmente parecia um soldado.

Tomei meu lugar na parte oposta, coloquei minhas luvas e agachei para examinar o cadáver. Será que teria fôlego para ser delegada? Só de estar ali já estava começando a me sentir mal. Aquela pessoa que analisava realmente tinha sofrido alguma coisa e morrido e eu tinha que descobrir o que lhe acontecera ou me aproximar disso.

“Você quer ser delegada?”

“Não sei mais. Talvez tente a promotoria.”

“Pode ser. Você gosta de intimidar os outros.”

“Se sente intimidado?!”

“Melhor eu não responder isso.”

Levantei meus olhos na direção dos dele, prestes a intimidá-lo, mas Téo não estava fazendo nada além de me olhar fixamente. Surpreendi-me e não pude evitar olhá-lo também. Nossos olhos ficaram assim, encarando-se. Até que eu me dei conta do que estava acontecendo. Havia uma tensão no ar e voltei meus olhos para o cadáver sentindo-me ruborizar um pouco.

“E você? O que pretende fazer?”

“Trabalho na área administrativa da delegacia. Acho que tenho fôlego para ser delegado. Se acostumou a conversar comigo sem usar os lábios?”

“Acho que você é bastante persistente.”, ele sorriu.

Fizemos mais alguns exercícios e estava realmente concentrada naquilo até que Téo interrompeu o silêncio.

— Por acaso você conhece algum Joseph?

— Não. Ele é professor? – eu levantei um pouco meu rosto para olhá-lo. Téo riu.

— Não. É o meu tio-avô.

— Quê? Por que eu o conheceria?!

— Ok. Vou contar uma coisa esquisita que aconteceu hoje. – ele virou a cadeira de lado e fiz o mesmo com a minha para ficarmos de frente. — Estava terminando de tomar banho quando minha mãe entrou e disse que tinha algo urgente para conversar comigo. Sabe que eu leio pensamentos como você. Prefere assistir ou ouvir?

— Como assim?

— Posso te mostrar o que a minha mãe queria ou posso te contar. O que prefere?

— Nunca fiz isso, então, acho que prefiro assistir. – ele sorriu como se estivesse feliz pela minha escolha.

— Gosto de garotas corajosas. – ele puxou a manga do jaleco até o cotovelo. — Posso pegar a sua mão?

Automaticamente a estendi e Téo a colocou sobre seu antebraço. Em seguida, fechou o punho e algumas veias abaixo da minha mão saltaram. Não pude evitar percorrê-las com os meus dedos. Como num passe de mágica, comecei a me sentir zonza e apoiei o peso do meu corpo nas costas da cadeira. “Feche os olhos”, ele sussurrou.

Alguns segundos se passaram até que o mal-estar acabasse e desse lugar a uma imagem. Quando eu tenho visões de acontecimentos futuros também é assim, por isso, fiquei mais tranquila com a experiência. A única diferença é que nesse momento as imagens estavam um pouco embaçadas.

Uma mulher se aproximou. Devia ter quase uns cinquenta anos apesar de entre os seus cabelos castanhos claros não existir nem um fio branco. Escutei uma voz de homem que parecia ser de Téo perguntando o que tinha acontecido e então os dois sentaram-se em uma cama. Acho que eu estava vendo tudo como se fosse ele.

“Filho. Você não pode falar sobre a Kate com o seu tio. Nunca.”

“O quê? Por que está me falando isso?”

“Tem muitas coisas que você não sabe, mas é melhor que continue assim.”

Abri meus olhos, mas era como se não os tivesse aberto. Estava tudo preto como se houvesse uma venda em volta do meu rosto. Instintivamente, sacudi o braço de Téo que ainda sentia abaixo da minha mão. “Kate feche os olhos e conte até dez.”

Não sei se contei realmente até dez ou se pulei alguns números. Sério! Só queria voltar a enxergar porque me sentia perdida e quando estava chegando ao último número, Téo surgiu na minha frente. Bem... ele já estava lá, né? Eu é que não estava vendo. Seus olhos de outono pareciam preocupados e percorriam o meu rosto quando os vi.

— Está tudo bem? – ele me puxou para os seus braços e encostou seus lábios no topo da minha cabeça. Podia sentir a respiração dele bagunçando meu cabelo, mas mesmo assim era bom. — Você ficou branca. Não deveria ter aberto os olhos antes que eu avisasse.

— Você não me disse isso. – sussurrei contra o peito dele.

— Eu sei. – ele parecia chateado por isso. Afastei meu corpo do dele e voltei à posição antiga.

— Está tudo bem, eu só brinquei. Você não tem culpa e, não conheço seu tio. – reafirmei.

— Tudo bem. Talvez minha mãe esteja confundindo você.

— Como sua mãe sabe de mim?

— Ela também lê pensamentos.

— E o seu tio? Não lê pensamentos também? – supostamente o tio dele não devia saber de mim, mas para a mente não há limites.

— Não sei se ele também tem esse poder. A questão é que somente o ancestral mais próximo pode ler seus pensamentos plenamente. Por isso ela soube de você.

Mexi a cabeça algumas vezes enquanto ia entendendo a explicação dele. Não precisava ficar tão neurótica porque o tio dele não me descobriria facilmente e eu acho que não estava sendo exatamente perseguida, não é? Ele só não devia saber de mim e isso não significava que ele estivesse procurando.

Outro raciocínio veio a minha mente: mamãe podia ler meus pensamentos plenamente?! Queria dizer que se eu pensasse em um homem sem camisa ela saberia?!

— Calma! Acho que a sua mãe não fica lendo seus pensamentos o dia todo. – ele riu.

— Espero que não. – antes de voltar ao exercício decidi fazer mais uma pergunta, mais para brincar com ele. — Você é muito forte. Isso também é um poder? – ele sorriu satisfatoriamente. Claro! Eu tinha massageado o seu ego e agora ele tinha um sorrisinho torto.

— Você não sentiu o suficiente para saber que é de verdade, lindinha? – posicionou minha mão sobre seu antebraço novamente. — Sabe?! – seu sorriso ficou envergonhado — É bom sentir sua mão deslizando aqui. – ele mexeu minha mão conforme o movimento que eu fizera antes da visão.

Téo estava tentando me seduzir e podia sentir o ar escapando dos pulmões. Estava jogando baixo. Será que alguma garota já tinha resistido a todo esse charme?! Afastei minha mão e virei a cadeira de volta para a bancada. Téo falava de uma maneira que não conseguia imaginar ter apenas um relacionamento aberto com ele. E essa era a minha única opção: R.A.

— Acho que acabamos por hoje. – forcei as palavras a saírem ou acabaria não resistindo. E esse não era o plano, afinal, não queria gostar de ninguém. Téo fechou os olhos por alguns segundos e virou seu assento antes de levantar.

“Não fiz nada demais”, falei enquanto digitava um trabalho na escrivaninha da Lola.

— Nada demais? – ela praticamente berrou as minhas palavras e Jane começou a falar ao mesmo tempo.

— Ela praticamente mandou o cara passear. – a misse falava como se eu não estivesse ali para opinar. — “Acabamos por aqui.” – repetiu o que eu tinha dito a Téo no laboratório. — Depois dessa... – ficou em silêncio e isso significava que nem queria mais comentar.

— Sério! Vocês estão fazendo com que me sinta a megera. – fechei o computador e virei a cadeira para olhá-las.

— Nós?! – as duas falaram e entreolharam-se dissimuladamente. Lola foi a primeira a comentar seriamente.

— Acho que precisa superar esse trauma. Sua mãe sobreviveu a perda do seu pai. É uma mulher forte, cuida de vocês...

— Você deveria tomar como um exemplo e não se amedrontar e nem se envolver com homens que você não gosta só porque é mais seguro. – Jane continuou.

Sabia que elas estavam falando para o meu bem, mas ninguém gosta de ouvir tantos conselhos psicológicos sem pedir. E gostava da barreira que tinha criado. Relacionamentos abertos eram ótimos. Quando eu ficava carente, era só ligar para o Gustavo e estava tudo resolvido e, vice-versa. Se alguma coisa acontecesse com um de nós dois (sofreríamos, óbvio), mas sobreviveríamos.

Tinha sido grossa com Téo, mas nos conhecíamos há uma semana e já dividíamos segredos que somente as pessoas mais próximas de mim sabiam. Será que conseguiríamos ter um relacionamento aberto?! E se eu gostasse dele?

— Acho que deveríamos estar falando sobre o tal tio dele que não pode saber de mim, mas vocês estão mais entretidas com o Téo. – peguei minhas coisas e saí do quarto.