Notas iniciais
Recomendo a música Everything has changed (Taylor Swift e Ed Sheeran). A tradução se encaixa bem neste capítulo! (http://www.youtube.com/watch?v=XnEJjFHcmlE) Espero que continuem gostando e acompanhando!

Bem... como dizer isso... alguns dias (três dias) depois de “discutir” com as minhas melhores amigas, acabei cedendo aos seus conselhos. Conheceria Téo melhor, apesar de que se achasse que pudesse ficar apaixonada, pularia fora. Elas achavam isso impossível, mas é muito normal. Quando a gente gosta de uma pessoa, sente afeto e carinho. Quando estamos apaixonados, é totalmente diferente, nós não temos mais posse do nosso coração. Ele só vai funcionar perfeitamente ao lado daquela pessoa. E, então, bastava gostar de Téo e não ultrapassar esse limite.

Por isso, mandei uma mensagem comunicando da nossa segunda reunião, na quinta-feira. Só que fui obrigada a marcar para as seis e meia e não depois das oito, como Téo pedira. Era aniversário da Jane e tínhamos programado uma festa surpresa no porão da Lola, onde nós ensaiávamos. Não seria mais surpresa se chegássemos depois da aniversariante.

“Prometo aparecer para o trabalho. Não no horário certo, mas aparecerei.”

Não podia explicar por mensagem o motivo do horário porque queria convidá-lo e faria isso pessoalmente. Tinha só mais um probleminha nisso tudo: ficaria completamente sozinha no laboratório. Cadáver não conta, né?

Coloquei o jaleco sobre meu novo vestido cinza, comprado especialmente para a festa, uma luva na mão direita e sentei de frente para a bancada lendo no questionário quais seriam os primeiros passos.

“Primeiro passo: anotar todos os detalhes do corpo. Há furos, tatuagens ou alguma outra coisa?”

Legal! Percorrer o corpo à procura de furos, tatuagens ou qualquer outra marca. Até exatamente onde deveria procurar? Não estava nos meus planos abaixar completamente aquele pano preto que o cobria. Nem que me pagassem.

Conforme encontrava algo, parava e anotava. Ele tinha muitos furos que pareciam provenientes de tiros. Era isso que o professor queria dizer com furos, não é? Em seguida, anotei sobre duas cicatrizes que observei. Uma no pescoço e outra no pulso. Será que ele tentou suicídio?

Agora anotaria sobre a única tatuagem que ficava no ombro direito do rapaz. Nunca tinha visto uma tatuagem de perto e também nunca pensei que a primeira vez seria em um cadáver. Que loucura! Larguei o questionário e dei a volta no corpo para observar de perto aquele desenho.

— Gosta...

— Ai! – berrei com o susto e quando notei que era Téo quem estava atrás de mim, apoiei meus braços sobre a bancada para respirar. — Você quase me mata de susto. – tomei coragem e virei de frente para ele que estava rindo, mas parou no exato momento em que me viu. Seu olhar parou em meu vestido e, tentando disfarçar, Téo foi até a bancada e largou suas coisas.

— Desculpe. Só ia perguntar se gosta de tatuagens. – pegou seu jaleco sem me olhar ainda.

— Acho bonito, mas nunca vi uma de perto. – expliquei. — Você tem tatuagem?

— Quê? – ele respondeu automaticamente e arregalou os olhos, surpreso. — Está tudo bem? – percebi que tentava disfarçar um sorriso.

— Hum... – estiquei meu corpo e olhei para os meus sapatos procurando a melhor maneira de falar aquilo. – Queria pedir desculpas. – entrelacei as mãos.

— Você não tem porque pedir desculpas. – vestiu seu jaleco e se posicionou no lado oposto da bancada.

— Posso ter uma oportunidade de te conhecer melhor? – coloquei minhas mãos sobre a bancada e o olhei nos olhos. Téo abriu um sorriso e inclinou o corpo, aproximando nossos rostos.

— Tenho uma condição. – seus dedos encostaram tangencialmente nos meus. — Posso te chamar de lindinha?

— Ok. Mas se eu inventar um apelido fofinho e vergonhoso para você não reclame. – brinquei.

— Adoraria. Mas tenho um apelido que está no topo da lista que eu desejo ser chamado por você.

— Só acho que é melhor não perguntar qual é. – sorri e me juntei ao seu lado na bancada.

— Não sabia que ficaríamos tão próximos. – não tinha sido uma reclamação, tinha soado mais como “vou ter que lidar com isso sem fazer nada de errado”.

Respondemos todo o questionário e, enquanto arrumávamos nossas coisas, comecei a recitar o discurso que preparei sobre a festa surpresa de Jane. A questão é que preparar o texto é muito mais fácil e contar para ele estava sendo bem inusitado para mim. Acho que nunca chamei um cara para sair.

— Hoje é aniversário da Jane. – fiquei em silêncio um tempinho esperando para saber se ele falaria algo. Téo apenas me olhou e, parecia não entender. Ok. — Vamos fazer uma festa surpresa. – esperei mais um pouco. Quem sabe ele se convidasse ou perguntasse? Mas a única coisa que fez foi olhar-me novamente. — Quer ir comigo? – desembuchei, não havia alternativa, não é?

— Está me convidando para sair, lindinha? – tirou o jaleco e continuou me olhando. — Vou. Mas a minha carona você vai aceitar né? – cruzou os braços sobre o peito.

— Vou, mas não vai se acostumando.

Téo sorriu demonstrando um pouco de surpresa com a minha resposta. Estava tentando ser natural com ele, e era assim que estava acostumada a me comportar. Já no carro, enquanto colocava o cinto, ele parecia pensar alto.

— Você demorou uma semana para aceitar a minha carona.

— Está se gabando por isso? – o encarei.

— Ter uma garota como você como carona é motivo suficiente para se gabar, lindinha. Mesmo que tivesse esperado um ano. – girou a chave na ignição e deu a partida enquanto ouvíamos as recomendações do GPS. Ele tinha pedido que eu digitasse o endereço e agradeci por isso porque era péssima indicando direções.

— Duvido que esperasse um ano.

— Só não vou te contrariar porque está bem arriscado você me fazer esperar um ano pela próxima carona. – ri.

Ainda bem que estávamos nos conhecendo melhor. Téo era divertido e receber elogios a cada dez minutos devia estar no topo da lista de milhares de garotas e não devia ser tão ingrata ao receber isso.

— Devo me preparar para ser interrogado pela sua outra melhor amiga? – ele me olhou pelo espelho central. — Qual o nome dela?

— Lola. Acho que a música não vai permitir isso, mas esteja preparado. Ela é como minha irmã, é minha amiga desde os cinco anos e se ela não gostar de você...

— Quer dizer que devo beijar os pés dela? Rastejar para que me autorize a galantear a irmã dela? Se for isso, eu topo.

—Você é divertido. – recostei a cabeça no banco e olhei para frente. — Mas se eu acreditasse em tudo que você fala.

Téo não falou absolutamente nada a respeito do meu desabafo bem espontâneo. Quem acreditaria que um homem ia rastejar para ser autorizado a galantear? Ele parou o carro bem em frente e toquei a campainha da casa número 1117. Nós tínhamos combinado de ensaiar e dormir na casa de Lola naquele dia (de mentirinha, né?) e, Jane devia chegar dali a uns quinze minutos.

— Oi! – Lola sorriu discretamente tentando demonstrar que nem tinha ouvido falar dele. Ela e Jane eram bem diferentes nesse quesito e era bom ter um equilíbrio na minha vida. — Lola Winloe. – estendeu a mão.

— Prazer Lola. Téo Dáman. – apertou a mão dela. — Kate falou muito bem de você.

—Nós somos assim. – ela sorriu, agora de orelha a orelha. — Ela é minha irmãzinha. – entramos na casa e fomos direto para o porão.

Henrique tinha conseguido um intervalo de trinta minutos em seu plantão e receberia Jane. Assim podíamos ficar lá embaixo apenas aguardando o momento de gritar “Surpresa!”.

“A ideia foi dele?” Não pude evitar perguntar, enquanto seguíamos pelo corredor na direção da escada, se Henrique tinha tomado a iniciativa de tirar uma folga rápida do trabalho.

“Chegou aqui repentinamente e disse que tinha esquecido uns instrumentos. E que não custava nada espera-la. Achei bem esquisito.”

“Esquisito é pouco...”.

Interrompi minhas palavras e meus pensamentos assim que senti os dedos dele percorrerem a parte interna do meu antebraço até chegarem à palma da minha mão e se encaixarem aos meus. Estávamos seguindo para a festa surpresa de Jane de mãos dadas. Isso era totalmente inesperado.

“Posso segurar a sua mão em um encontro, não posso?”

“Encontro?”

Ele não me respondeu e acho que foi melhor assim. O que ele responderia?! Dizer que era um encontro já tinha sido o bastante e não estava pronta para ouvir mais. Quando saí do transe daquelas sensações percebi que Lola me analisava ao lado da porta esperando alguma explicação. Eu a deixara falando sozinha e nem tinha ideia se ela falara alguma coisa enquanto eu estava off-line.

Chegamos ao porão onde todos os convidados já aguardavam. Acenamos para cada um que surgia em nosso caminho e sentamos nos pufes ao lado da mesa com comidas.

Téo foi um amor com Lola, apesar de supostamente estarmos em um encontro. Mostrou-se interessado em nossos ensaios, quis saber sobre nossa amizade e comentou que tinha um amigo assim também (de muitos anos), chamado James e, após falarmos consideravelmente, ofereceu-se para buscar bebidas. Só que não sabíamos que não beberíamos naquele momento porque, logo em seguida, ouvimos a voz de Jane no andar superior.

“Elas estão lá embaixo?” A voz de Jane estava mais perto.

“Estão sim.” Henrique respondeu e ouvimos apenas um passo nos degraus. “Ei, Jane.” Mais alguns passos apressados. “Parabéns!” Um silêncio reinou ao nosso redor. Acho que todos nos tornamos espectadores do que acontecia entre Jane e Henrique e, esquecemos, por um momento, o que estávamos fazendo ali. “Obrigada.” Mais passos e...

“SURPRESA!”

Os minutos depois disso foram bem agitados. Todos cumprimentaram Jane que tinha os olhos marejados de felicidade. Em seguida, alguém ligou o som e cuidou de apagar as luzes, deixando-nos apenas com pequenos abajures e com o globo prateado. Enfim, conseguimos nos sentar novamente e o pufe de Téo fora ocupado por Jane. Por que ele ainda não tinha trazido nossas bebidas?

Olhei na direção do barril e o encontrei lá. Equilibrava quatro garrafas de cervejas nas mãos enquanto ouvia Juliana. Eles deviam se conhecer das aulas à noite ou tinham se conhecido nessas duas semanas. Havia grandes chances de estar tentando conquista-la também, afinal, ela e Jane eram as mais elogiadas.

— Quem é aquela garota? – Lola encostou seu corpo ao meu para perguntar. — Ela não viu vocês chegarem de mãos dadas?! – minha melhor amiga estava mais chateada do que eu.

— Vocês chegaram de mãos dadas?! Caramba! O que eu perdi? – Jane puxou seu pufe e colou em nós. — Vocês já se beijaram?

Nem precisava olhá-la para saber que seus olhos estavam animados e maliciosos. Apenas balancei a cabeça negativamente e acho que exagerei no movimento porque comecei a me sentir zonza. Estiquei meu braço e agarrei o de Lola. Não queria abrir meus olhos porque estava tudo embaçado e a baixa luminosidade misturada aos feixes de luz prateada só pioravam a minha situação. Respirei fundo tentando me acalmar e me dei conta de que não tinha exagerado nos movimentos porque aquilo que estava sentindo era uma visão. Sussurrei para Lola “visão” e ela, rapidamente, entendeu.

— Está tudo bem? – Jane perguntou assim que levantamos.

— Mais ou... – cutuquei Lola para impedi-la de continuar. Não queria que Jane se preocupasse comigo na sua festa de aniversário e muito menos que se ausentasse por causa disso.

— Só vou tomar um ar. – virei meu rosto na direção onde sabia que Téo estava, tentando insinuar ciúmes, apesar de não ser verdade. Talvez ela acreditasse, apesar do meu histórico de não-envolvimento e do fato de que meus olhos estavam quase fechados. O fato de estar conversando com outra garota era até bom, né? Podia significar uma disposição maior para R.A.

De qualquer maneira, não era o momento para pensar nisso. Não quando nem conseguia enxergar direito. Geralmente quando tenho uma visão é assim, o mal-estar demora um pouco até que possa descobrir o tal futuro. Em regra, são pessoas precisando de ajuda, ou sendo assaltadas ou machucadas e, eu e Lola nos encarregamos de chamar a polícia.

Deitei no sofá e tentei relaxar. Era mais fácil quando não tentava fugir desse meu “dom” recentemente descoberto porque acabava sendo mais rápido e menos doloroso. Lola sentou sobre a mesa de centro e segurou minha mão. Fechei os olhos.

Começou a girar e bem mais rápido do que o normal. Era como se estivesse em uma montanha-russa ou em um barco por causa da vontade de vomitar também. Enfim...

Estava diante da rua paralela à nossa. Uma senhora caminhava com duas sacolas de compras e abriu um pequeno portão branco. Atrás dela estavam dois rapazes. Eles mantinham os passos próximos aos da senhora como se a seguissem e, então, assim que ela girou a chave na fechadura de sua casa eles entraram junto.

As imagens desapareceram, mas o mal-estar voltou. Minha cabeça ainda parecia uma roleta e meu estômago estava competindo para se transformar em uma também. Lola me chamou e sabia o que isso significava. Devia estar ficando branca, bem branca, pálida, na verdade e meu corpo devia estar amolecendo como gelatina porque em alguns instantes estaria desmaiando. Em uma festa.