Capítulo 3

Não sabia muito que fazer para espairecer quando saí da sala, então, sentei-me na praça de alimentação, sem fazer absolutamente nada. Fiquei apenas olhando a movimentação das pessoas, a chegada de produtos para as lanchonetes e tudo estava tranquilo até que senti um arrepio percorrer meu corpo. Credo!

Olhei sobre o ombro e não vi nada de anormal, então virei de volta tentando ignorar a queimação que começava em minha nuca e ia até as costas. Era como se alguém estivesse me vigiando e estava realmente difícil controlar a curiosidade em saber o que era aquilo.

Levantei e olhei para trás. Ainda não tinha nada de diferente, apesar de não conseguir admitir isso. Como era possível?! Era como se pudesse apalpar a tensão, a conexão que me fazia queimar internamente.

Acho que ficar sozinha não estava me fazendo muito bem. Com certeza, os últimos acontecimentos (sonhos e pensamentos compartilhados com Téo) estavam me deixando estressada e ia acabar enlouquecendo.

Peguei meu celular e decidi ligar para Lola. Precisávamos buscar os pedidos que tínhamos feito para o baile de máscaras que seria dali oito dias e eu ainda tinha duas horas até que começasse a aula prática de medicina legal.

Em vinte minutos minha melhor amiga parou o carro ao lado da entrada principal e seguimos para as ruas mais econômicas do nosso bairro. Não podíamos gastar muito porque o baile era, na verdade, uma atividade filantrópica que eu e Lola realizávamos todos os anos para arrecadar fundos para o orfanato e o hospital. Começou antes mesmo de cursar Direito. Quando tínhamos dezesseis anos fizemos uma visita com o colégio e a partir daí tivemos a ideia. A faculdade (que era a instituição com o maior salão do bairro de Forecast) cedeu seu espaço desde lá. A única coisa que as entradas dos universitários pagavam, além das doações, era a decoração, a música e os “comes e bebes”.

Compramos tudo em grande quantidade porque saía mais barato e largamos no bagageiro do carro esportivo dela. Depois, fomos buscar as máscaras que seriam vendidas no dia da festa, para aqueles que “se esquecem das suas” (uma tentativa fracassada de burlar as regras).

Almoçamos e quando faltavam uns vinte minutos para a aula prática Lola me deixou de volta na faculdade. Escovei meus dentes e segui para a biblioteca. Precisava pegar o livro porque tinha que retribuir o favor de Téo em responder o questionário sozinho e, para isso, eu teria que saber a matéria, né? Sei que estudei ontem, mas as novas informações da aula de hoje não tinham sido absorvidas já que parecia haver alguém (Téo) tentando se comunicar comigo em pensamentos.

Ainda tinha dúvidas se ele podia realmente ler pensamentos porque eu nunca tinha conseguido enviar minhas ideias para outra pessoa e Téo tinha feito isso aparentemente sem nenhuma dificuldade. Além do que, não tinha nem tentado ler o que se passava na cabeça dele e mesmo assim fiquei sabendo. Como?! Então ainda não podia afirmar que éramos iguais.

Mônica retornou detrás das estantes com o livro. Enquanto eu assinava a ficha, ela cadastrava no computador e continuei perdida em meus devaneios até que recebi uma mensagem de Jane querendo saber meu paradeiro.

— Kat? Como foi com o garoto de ontem? — minha colega de dormitório debruçou-se sobre o balcão e sussurrou. Por que ela estava me perguntando isso?

— Foi normal. Deveria ter sido diferente? – empurrei a ficha na direção dela e olhei-a desconfiada.

— Certo. – ela sorriu demonstrando certo desconforto. — Foi a maior coincidência que eu já vi nessa biblioteca.

— Você só trabalha aqui há dois anos, Ni. – reforcei meu olhar de desconfiança.

— Ele estava naquele computador ali, perto da porta, e vi quando ficou te olhando. Olhava e abaixava a cabeça como se não quisesse ser descoberto. Parecia ter visto a mulher mais linda da vida dele. – ela parecia encantada ao contar.

— Acho que você está fazendo análises demais. – brinquei, mas ao mesmo tempo não conseguia parar de pensar naquelas palavras. Jane tinha dito a mesma coisa durante a aula.

— Foi ótimo quando pude reunir vocês dois.

— Não tinha um livro só, né? – eu fiz uma cara de “sei o que você vai responder”.

— Não. – ela suspirou. — Acho que me deve um favor. Ele é um gatinho. — ela opinou, tentando não me dar oportunidade para reclamação.

— É. Um pouquinho misterioso, mas tenho que confessar que Téo é bem bonito... – Mônica olhou para mim como se quisesse me dizer algo. Na verdade, ela queria me indicar algo. E tinha quase certeza de que era ele atrás de mim. Só podia ser isso. Senti uma mão repousando sobre meu ombro e respirei aliviada ao reconhecer as unhas pintadas de Jane. Mas porque Mônica tinha me olhado daquela maneira então?!

— Oi, Kate. — ele parou ao meu lado, debruçando-se sobre o balcão. Não estava acreditando que ele tinha vindo junto com a minha amiga, justo quando eu estava quase agradecendo por ter visto as suas unhas estilosas. Com certeza, ele ia pensar que estava interessada.

— Oi Téo. – respondi tentando parecer natural como se eu falasse aquilo sobre vários homens e não significasse nada.

— Achei que fugiria da aula, mas vejo que já pegou o livro. – ele sorriu, iluminando os olhos também. — Me surpreendeu.

— Sou bem inteligente, tá? – levantei a cabeça, tentando mostrar superioridade. — Não se esqueça disso. – ele piscou um dos olhos e ficou ereto com o livro nas mãos. Será que ele tinha medo que eu sumisse? E essa era uma forma de me manter ali?

“É muito esperta também. Prefiro segurar o livro até...”.

— Téo disse que não tem problema se eu fizer o trabalho com vocês. Gustavo mandou mensagem dizendo que não vem. – não pude desviar os olhos dele enquanto escutava Jane falar. Agora, mais do que nunca, não podia duvidar que Téo se comunicasse com meus pensamentos. E ele sabia disso... melhor... ele queria fazer isso.

“Não quero que faça mais isso, Téo. O que tiver para me dizer use a boca!”

Ele sorriu e abaixou a cabeça envergonhadamente. Será que tinha funcionado? Téo ia aceitar e parar de me bombardear com seus pensamentos? Esperava que sim.

Despedi-me de Mônica que não perdeu a oportunidade de fazer brincadeiras pelas costas de Téo, querendo insinuar que eu deveria agarrá-lo logo ou que deveria beijá-lo, coisas desse tipo. Mantive a seriedade, mas por dentro estava rindo das suas atitudes. Ela e Jane eram as mais doidinhas, cheias de determinação e confiança. Mas eu não queria beijá-lo.

Reunimo-nos na bancada, acrescentando uma cadeira para Jane que foi alvo da piada do professor “Você tinha que dar um jeitinho de fazer o trabalho com a Kate.” Ela nem se importava porque não era necessário mesmo. Todo mundo sabia como ela era (não gostava muito de estudar).

O inspetor organizou nossas bancadas com partes de corpos para que fizéssemos o trabalho, recebemos a folha de instruções com perguntas, vestimos nossos jalecos e nos casos das meninas, prendemos nossos cabelos.

— Ainda bem que você não é médica. – Téo estava me olhando dos pés a cabeça e isso me fez corar. De novo. Mesmo assim lancei um olhar confuso porque não havia realmente entendido o comentário. — Os homens fingiriam doenças só para estar em seu consultório. – ele sorriu encantadoramente e demonstrava não conseguir tirar os olhos de mim. Controlei-me para não mostrar meu sorriso de orelha a orelha. E me perguntei se ele falava isso para todas as garotas.

“Com certeza não, lindinha.”

— Hum. – Jane disse e tossiu, em seguida, envergonhada por causa do olhar que lhe enviei. — Então, Téo. – Jane iniciou uma conversa que pelo o que conhecia dela não teria fim. — Está em que período?

— Sétimo. E vocês? – Jane respondeu “também”.

Ele abaixou um pouco o corpo para examinar um dos tecidos do membro sobre a bancada. Colocou uma luva e começou a passear seus dedos, lentamente, procurando algum lugar específico. Era um pouco desconfortante vê-lo dessa maneira, era como se o sentisse me tocando. Por que eu estava sentindo isso? Talvez ele o fizesse de uma maneira tão atraente que quase hipnotizasse as mulheres ao redor. Abaixei a cabeça e olhei, discretamente, para Jane querendo saber se ela padecia da mesma sensação. Não. Ela estava lendo as instruções e colocando uma luva em suas mãos também. O problema era ele se comunicar comigo sem falar nada. Isso estava me deixando estressada e me levava a sentir outras coisas. Só podia ser isso. E, fique quieto! Mandei um recado mental rezando para que nem tudo que eu pensasse se tornasse de conhecimento dele. E coloquei minha luva, em seguida.

— Só quero que vocês reconheçam a anatomia do corpo humano, afinal, nós não somos estudantes de Medicina. Depois, o trabalho que eu quero será feito em um cadáver completo e vocês me entregarão o questionário na aula da semana que vem. Como só temos um cadáver e dividi vocês em duplas, quero que reservem seus horários para estudo com o inspetor. Podem vir até de madrugada, mas precisarão vir duas vezes. Entendido? Ou precisarei desenhar? – o professor fizera seus alunos sorrirem e após perceber que não havia nenhuma dúvida, voltou sua atenção para um livro.

— Não devia ter aceitado trabalhar com Gustavo. Já estou me imaginando chegar aqui, diante de um cadáver e ter que fazer tudo sozinha. – Jane desabafou, apesar de parecer que estava falando consigo mesma. — Com tantos garotos querendo fazer o trabalho comigo...

Falando desse jeito, Jane parecia com aquelas adolescentes super populares que afastam a multidão de alunos para passar esbanjando sua estonteante beleza, mas ela não era assim... Não “pisava” em ninguém por se achar dessa maneira.

— Assim o Téo vai pensar que você é uma daquelas megeras metidas de filmes de adolescentes. – brinquei.

— Ah! – ela sorriu. — Não tem problema. Acho que não sou eu quem ele está avaliando nessa bancada. – senti meu rosto queimar novamente e abaixei a cabeça na direção do cadáver com a intenção de não me retirar mais dali. Sei que ela era minha amiga, mas às vezes Jane me enervava com seus comentários impensados. Téo estava rindo como se estivesse surpreso com alguma coisa. Talvez com o fato de minha amiga ter me colocado em uma “saia-justa”.

— Por que você estuda à noite, Téo? – ela continuou suas perguntas e sabia qual era o seu objetivo: avaliar se ele era um bom candidato para mim. Era isso que nós fazíamos umas com as outras. Mantive meu rosto vidrado no membro, tentando me concentrar, mas era impossível não perceber as olhadas que ele me lançava.

— Trabalho.

— Mora com seus pais? – sabia que essas perguntas não teriam fim e sorri quando o vi olhar para ela com uma sobrancelha levantada.

— Não. Tenho meu apartamento.

“Por que ela está fazendo essas perguntas?”

“Ela acha que você está a fim de mim. E você a deixou pensar assim.”

Decidi usar os pensamentos ao meu favor, quem sabe assim ele parasse de me invadir a todo tempo.

“Então acho que eu devo parecer um bom rapaz.”

“Isso significa que você não é?”

“O que você acha?”.

Levantei uma sobrancelha e o olhei seriamente. Téo sorriu com seus lábios entreabertos, se divertindo com a minha chateação. Mantive meu olhar penetrante até que ele parecia ter se conformado. Depois daquele momento, ele também se manteve sério. Não houve mais nenhuma comunicação mental, mais nenhum olhar para mim. Era como se eu nem estivesse ali. Continuou respondendo as perguntas de Jane (“nasceu aqui?”; “o que seus pais fazem?”; “já teve um relacionamento sério?” e, se satisfez depois de saber que não) demonstrando ser realmente um bom rapaz, mas eu não sabia se era mesmo ou se estava parecendo ser. A aula terminou e confesso que agradeci por isso. Aqueles noventa minutos tinham sido longos demais sentindo o cheiro do formol e já estava sentindo o efeito disso.

Jane arrumou suas coisas rapidamente por causa do emprego e se despediu de nós. Téo ainda manteve-se em silêncio e não podia reclamar disso porque o tinha forçado a agir dessa maneira. Mas também, como qualquer pessoa se comportaria no meu lugar?! Você conhece um cara e ao invés dele se comunicar com a boca, usa a mente. Legal! Sei que não podia exigir demais porque também não sou exatamente normal, mas só precisava entender o que estava acontecendo para me sentir à vontade. Tirei o jaleco e soltei meu cabelo. Percebi que ele dera umas pequenas espiadas em meus movimentos e debrucei-me sobre o balcão na direção dele.

— Você lê todos os meus pensamentos? – ele balançou a cabeça negativamente e jogou seu caderno dentro da mochila. Levantou-se e tirou o jaleco. Onde tinha conseguido um que coubesse nele? — Então? Quando você os lê?

— Só quando você está confusa ou chateada, mas em regra qualquer emoção que acelere seu coração. E toda vez que eu me comunico, fica mais fácil. Isso te deixa nervosa. — ele colocou a mochila sobre um ombro só. — Para quando devo marcar nosso trabalho? – ele parou na minha frente e puxei minha bolsa para guardar minhas coisas.

— Está livre às noites?

— Depois das oito todos os dias, exceto às terças.

— Tem problema se eu agendar e te mandar uma mensagem? – ele balançou a cabeça indicando que não se importava, puxou minha mão calmamente e escreveu um número.

— Só não esqueça que temos que vir aqui duas vezes até sexta. Não quero uma nota baixa.

Ele acenou com a cabeça como se fosse um sinal de despedida, virou de costas e caminhou na direção do corredor. Fiquei ali, olhando para a minha mão e pensando em tudo.

Notas finais
Espero que estejam gostando! Próximo capítulo dia 27/09/2014 às 10:10. Beijos e até a próxima!