Capítulo 2

Aquele semestre estava muito louco. Vou explicar. A ala dos dormitórios estava em obras e só voltaríamos a dormir lá depois do feriado, por isso, tinha que me esquematizar para não acabar os estudos tão tarde, já que na maior parte das vezes, mamãe não me emprestava o carro e eu tinha que voltar de ônibus. Forecast era um bairro tranquilo, sem muitos crimes, mas era um pouco difícil conseguir o meio de transporte em determinados horários. Então, nessas semanas, eu estava fazendo minha aula prática de Direito mais cedo e não no meu costumeiro último tempo que acabaria às nove horas da noite.

O problema é que, por causa disso, fui obrigada a ficar no mesmo turno que Gustavo, meu ex-relacionamento aberto. Bem... terminamos porque ele queria transformar o relacionamento aberto em fechado, ou seja, queria namorar comigo. E eu nunca namorei. Não que esse fosse o motivo (medo do primeiro relacionamento sério). Não mesmo! Tinha medo de me apaixonar verdadeiramente e sofrer como a mamãe quando o papai morreu.

Ela tentava esconder de nós, mas eu não tinha mais sete anos e com a idade a gente percebe que a pessoa não está saindo de casa, não tem muita vontade de comer, nem de conversar e, chora em alguns momentos do dia. A sorte foi que a mãe de Lola lhe arranjou o atual emprego e ela foi melhorando aos poucos.

Voltando ao meu problema... Era obrigada a evitá-lo porque Gustavo não conseguia entender como alguém nesse mundo não queria namorá-lo, afinal, ele era o rapaz mais desejado da turma com seus cabelos loiros curtos e seus olhos verdes. O mais forte, o macho alfa do seu grupinho e o filho do delegado. Sério! Ele não faz o meu perfil, mas tínhamos crescido juntos desde os sete anos, mais ou menos o mesmo tempo que a minha amizade com Lola e, acabamos nos beijando uma, duas e, enfim, já dá para entender.

Assim que ultrapassamos a barreira, destruímos a nossa amizade e a minha amizade com Sofia, sua irmã. Sempre que surgisse uma oportunidade, ela estava lá implicando comigo.

Dá para entender porque quase agradeci quando o relógio marcou seis horas, mas não o fiz porque o professor estava entre os meus preferidos. Assinei a ficha de presença e segui com Raquel e Juliana para o banheiro. Nós éramos apenas colegas de turma e fazíamos trabalho juntas até porque Jane não pôde pegar o mesmo horário por causa do emprego.

Juliana e Jane não se gostavam muito apesar de manterem as aparências. Elas eram como misses que sempre passavam uma boa imagem e que eram desejadas por qualquer homem. Nada de escândalos, gritos ou exibições de carinho em público. Ainda bem que, fisicamente, elas não se pareciam em nada porque acho que seria mais difícil manter a política da boa vizinhança.

Não era por ser minha amiga que eu achava Jane mais bonita. Ela realmente era. Seus cabelos eram loiros naturais e lisos. Os olhos cor de mel, embora ela reclamasse que preferia ter herdado os verdes do pai. E magra. Não tanto como uma verdadeira modelo. Mas o mais importante era que ela não era esnobe como Juliana.

Paramos em frente ao espelho. Elas iam retocar a maquiagem e eu ia apenas ajeitar meus cabelos. Não gostava muito de ficar passando sombra ou brilhos para o dia-a-dia. Bastava uma base e um lápis para realçar os castanhos dos meus olhos. E que era mais uma das semelhanças com a vovó. Eu tinha saído quase a cópia dela. Quase porque era misturada com alguns traços da mamãe e do papai. O cabelo também era bem parecido. Castanhos escuros, compridos e com singelos cachos nas pontas. E o tamanho. Nós éramos consideravelmente pequenas. Mas todas as mulheres da família eram.

Despedi-me delas que ainda tinham aula e fui para a biblioteca. Dava para estudar uma horinha antes de ir embora e estava precisando saber alguma coisa sobre medicina legal ou não conseguiria fazer o trabalho que o professor prometera para o dia seguinte.

Joguei minha bolsa em uma das cadeiras vermelhas, anotei os dados do livro e fui para o balcão. Só tinha duas pessoas na minha frente e três funcionários se dividindo entre a fila de pedidos e de devolução. Não demorou muito para chegar a minha vez.

Mônica, a funcionária que já me conhecia desde o início da faculdade, que cursava psicologia, e com quem eu dividia o quarto no dormitório, pegou minha ficha e sumiu entre as estantes.

— Aqui, Kat. – ela empurrou o livro para mim. – Só para consulta e, ainda bem que você chegou antes porque o rapaz ali queria também. – ela mexeu os olhos na direção do homem que esperava do outro lado do balcão.

Nunca o tinha visto nas aulas de direito e menos ainda na de medicina legal e, isso era anormal porque só havia uma turma para essa matéria. Para chegar a essa conclusão eu tive que olhá-lo dos pés à cabeça. Discretamente! Mas acabei demorando um pouquinho mais do que devia.

Seus cabelos eram castanhos claros ou médios, não dava para saber muito bem porque eram curtos, rentes à cabeça. Estilo soldado. Sua pele era branca como a minha. Usava uma camisa social azul bem clarinho e com as mangas suspensas até o cotovelo. Dava para ver que ele malhava, mas não era algo exagerado como em meu ex-relacionamento aberto (R.A). Era como se dissesse “tenho músculos para quando precisar deles e não para atrair as garotas”.

— Por que não sentam juntos? Vão estudar a mesma coisa. – ela falou alto para que o tal rapaz pudesse ouvir e me tirou da avaliação física bruscamente.

Fiquei envergonhada ao perceber que Mônica conseguira chamar a atenção dele que nos olhava. Além de que, por causa disso, ele podia ter percebido que eu o estava olhando. O rapaz se aproximou e minha colega de quarto sugeriu mais uma vez, só que sem falar alto.

— Por mim não tem problema. – ele respondeu e confirmei com a cabeça.

Ele ainda estava de mochila e deduzi que não tinha escolhido uma mesa, o que me fez seguir diretamente para minha. Sentamos um em frente ao outro e... não controlei minha língua. Obviamente eu tinha que saber quem ele era e não havia nada demais em perguntar. Não estávamos dividindo um livro?!

— Não vi você nas aulas de medicina legal. – iniciei antes mesmo de perguntar seu nome. Quem sabe ele fosse graduando em outro curso ou até um fascinado pela matéria?!

— Tranquei a faculdade por seis meses e voltei agora. Amanhã será a minha primeira aula.

— Não perdeu muita coisa, mas ele vai dar um trabalho.

— Dizem que o professor é muito exigente. – ele comentou.

— É, mas ele é um bom professor. – Carlos, o professor de medicina legal e de algumas outras matérias na graduação, tinha um bom humor apesar de cobrar bastante de nós.

Ele levantou o rosto após pegar o caderno na mochila e seus olhos encontraram os meus. Eram cor de mel, apesar de não se parecerem em nada com os de Jane. Os olhos dele tinham a cor das folhas de outono. Sorriu mostrando seus dentes branquíssimos e estendeu a mão para mim.

— Téo Dáman. Prazer. – apertei sua mão.

— Kate West. Igualmente. Posso te emprestar a matéria, se quiser.

— Vou precisar. – ele levantou os olhos na minha direção mais uma vez e, ficou bem sério, acho que esse era o objetivo por causa da pergunta que ia fazer. — Posso sentar ao seu lado para ler o livro? — apenas mexi a cabeça afirmativamente.

Não costumava ficar muito à vontade ao lado de rapazes que eu mal conhecia, então, demorei um pouquinho até conseguir me concentrar no conteúdo do livro. Mesmo assim, parecia que líamos as palavras ao mesmo tempo porque acabávamos as páginas praticamente juntos, talvez com uma diferença de segundos. Ou eu não estava lendo nada (não era o caso) ou ele. Sorri com meus pensamentos e rezei para que ele não tivesse visto. Ia me achar uma maluca!

Terminamos o primeiro capítulo, parando para fazer algumas anotações e para discutirmos algumas dúvidas. Era bom estudar com alguém que parecesse realmente interessado, diferente de Jane. Virei a página para começarmos o segundo capítulo quando meu celular começou a vibrar dentro da bolsa. Era o despertador informando que já era hora de ir embora.

Além de ter que voltar cedo por causa do ônibus, eu também tinha que chegar no horário para o ensaio na casa da Lola.

No ano anterior, em nossa viagem para o litoral de Forecast, tínhamos ficado sabendo de um concurso de dança em um teatro. Para participar eram necessários, no mínimo, quatro integrantes. E isso poderia ser um problema, mas Lola e Sofia ainda eram amigas como nos tempos do colégio e a inimizade comigo não a impediu de participar. Como prêmio, a responsável pelo grupo passaria a ser dançarina de uma cantora de hip hop muito famosa e as outras integrantes ganhariam uma quantia em dinheiro. Era a melhor oportunidade que ela tinha para realizar seu sonho.

— Estou indo embora. – desliguei o alarme e comecei a arrumar minhas coisas. — Se quiser ficar com o livro posso passar para o seu nome. – sugeri.

— Não. Vou embora também. Acho que já estudei o suficiente para um novato. – ele brincou e sorri com seu comentário.

Esperei-o terminar de guardar suas coisas e caminhei para a fila de devolução. Ele me acompanhou mesmo sem ter que assinar nada e me surpreendi um pouco com a sua atitude. Conversamos sobre algumas matérias e saímos da biblioteca juntos. Não sabia se ele estava de carro ou se iria para casa de outra maneira e, consequentemente, não sabia para qual lado ele seguiria, então, resolvi me despedir.

— Amanhã te empresto o caderno.

— Ok. Vai embora sozinha? – ele parou na minha frente.

— Sim. Por quê?

— Estou perguntando por que a ala dos dormitórios ainda está em obra e fiquei pensando se quer companhia.

Realmente! A obra na ala dos dormitórios causava muitos transtornos e o principal deles era o horário de saída da faculdade, mas estava tudo bem planejado, por isso, eu estava indo embora mais cedo. E ele era muito gentil me oferecendo uma carona logo no primeiro dia em que tínhamos nos conhecido. Só que eu, Kate, nunca conseguia ver as coisas dessa maneira. Sempre existia um interesse obscuro por trás e me perguntei se ele fazia isso com todas as garotas ou se era um psicopata esperando para sumir comigo. Até porque Jane, por exemplo, tinha sido muito mais prejudicada do que eu.

Ela morava em outro bairro, distante mais de trinta minutos de Forecast e, por isso, passava a semana dormindo na minha casa ou na de Lola.

— Não sou nenhum psicopata, nem estou tentando cantar você. Fique tranquila. – acho que eu tinha demorado demais pensando e devo ter dado a entender essa desconfiança porque eu juro que não falei nada. Apenas pensei.

— Não pensei essas coisas de você. Só não vou aceitar. – respondi enquanto uma suposição surgia em minha mente. Será que ele era como eu?!

Desde criança eu podia ler pensamentos. No início, isso me causou muitos problemas porque não sabia que devia ser um segredo, então, eu comentava com a pessoa sobre o que ela tinha apenas pensado. Com o passar dos anos, entendi como funcionava e, sinceramente, eu até evitava fazer a leitura. Não gostaria que fizessem isso comigo e, então, decidi que não deveria fazer com os outros, salvo em caso de necessidade. Ok. Não era sempre tão ética assim. Só na maior parte das vezes.

Téo tinha acabado de repetir as minhas dúvidas mentais e, quem sabe, ele também pudesse ler pensamentos?! Nunca tinha encontrado alguém assim a não ser a mamãe. Bom... de qualquer maneira, ia tomar cuidado com minhas ideias ao lado dele.

— Ok. Acredito em você.

Ele tentara fingir que acreditava, mas não podia esconder um sorriso no canto dos lábios. Seguimos lado a lado até o ponto e pude vê-lo seguir na direção de um carro prateado. Não entendo muito de carro, mas deu para ler na sua traseira que era um Hyundai i30. Ele me olhou mais uma vez antes de entrar como se esperasse que eu mudasse de ideia. Acenei em despedida.

No dia seguinte, saltei do ônibus, seguida por Jane. Depois de dois anos de amizade ela ainda não tinha me ensinado como fazer essas coisas de salto agulha. E por isso, ela era a minha perua preferida. Passamos pelo chafariz rodeado por alunos conversando, fumando e flertando e seguimos pelo corredor até o segundo andar. Enquanto isso, a ouvia suspirar sobre Henrique, o irmão de Lola e que eu considerava como irmão também.

Jane estava sempre sendo cantada por diferentes rapazes e até ficava com alguns, mas secretamente era apaixonadíssima pelo irmão Winloe. No dia anterior, ele tinha assistido ao nosso ensaio e, por isso, ela não conseguia parar de falar em quanto ele era bonito e, tentando deduzir se ele a tinha notado dançando ou não.

— Não consigo parar de pensar nos olhos. Pequenos e sedutores. Tenho pena da Lola por ser irmã dele. – ela quase sempre me fazia rir com seus comentários inesperados e essa foi mais uma dessas vezes.

O laboratório de medicina legal já estava destrancado. Ótimo! Com aquele calor, a única coisa que eu queria era ficar sentada em uma sala com ar-condicionado. Sentei atrás da terceira bancada, logo na frente da sala e larguei minha bolsa sobre a mesa. Jane sentou sobre a bancada, com as pernas cruzadas. Todos os garotos que chegavam a cumprimentavam com um sorriso de orelha a orelha e eu me enfiei atrás de um livro para não ser notada. Nunca gostei de tanta atenção assim. É difícil se livrar dela depois.

E então, pela primeira vez, em todos esses anos de estudo, houve uma exceção. Surgiu um garoto que não a cumprimentou, na verdade, ele parecia nem tê-la notado ali. Téo passou por ela e me viu por trás do livro, espiando.

“Oi Kate”. Retribui o cumprimento. Ele tinha um sorriso que não era de orelha a orelha, mas parecia muito sincero e um tanto envergonhado. Tinha apenas um dia que o tinha conhecido, mas Téo parecia um rapaz inconscientemente sedutor. Acho que nem ele sabia o poder que o seu sorriso tinha.

Seguiu para a sua bancada, na diagonal da minha. Seu companheiro de trabalho era Paulo, um dos amigos do grupo de Gustavo. Não tive tempo de prestar atenção em mais nada porque Jane se jogou ao meu lado e, obviamente, começou a fazer perguntas sobre Téo.

“Como você o conhece?”

Contei sobre a biblioteca. E é claro que ela ainda não estava satisfeita. Queria saber mais. “Ele é muito gato. Qual o nome dele?” Contei tudo que sabia, ou seja, quase nada, mas foi o bastante para calá-la.

“Bom dia”, o professor entrou na sala e alguns minutos depois começou a aula. Ficamos todos em silêncio, mas não por muito tempo.

“Ele não para de olhar para cá”, ela sussurrou em meu ouvido. E tive que me controlar para não olhar e descobrir se era verdade. “Entre as anotações, ele dá umas olhadas. Aqueles olhos são lindos.”

É. Isso ela tinha muita razão em dizer. O sol que entrava na sala e batia um pouco em seu rosto, deixava-os mais bonitos, quase dourados. Ai! Eu estava olhando para ele. E, ele para mim. Senti meu rosto corar e virei de volta para meu caderno.

“Não consigo enxergar nada com esse sol.”

A voz dele chegou aos meus ouvidos e respirei fundo antes de levantar meu rosto. Não queria estar corada, né? Ué! Mas ele não estava falando comigo. Téo continuava sentado apesar de não estar anotando nada. Talvez ele tivesse falado aquilo para a sala inteira ouvir e qualquer pessoa poderia opinar. Voltei às minhas anotações. Alguns minutos depois, tornei a ouvir a voz dele.

“Preciso fechar essas persianas.”

— Você ouviu isso? – perguntei a Jane.

— A intoxicação alcoólica... – ela estava repetindo o que o professor, possivelmente, acabara de dizer e não era a isso que estava me referindo.

— Não isso, Jane! – eu me aproximei do ouvido dela. — Alguém falou que precisava fechar as persianas. – ela me olhou e juntou as sobrancelhas parecendo pensar a respeito.

— Não ouvi nada disso. – ela concluiu. — Você está se sentindo...

— Se importa se eu fechar as persianas?

Téo parou em frente à nossa bancada e olhou diretamente para mim que era a mais próxima da janela. Não pude evitar que minha boca se abrisse com o espanto e nem Jane pôde se controlar. Ela olhou para mim e para ele como se estivéssemos fazendo alguma coisa de errado.

Balancei a cabeça negativamente querendo dizer que não me importava. Não tinha condições de fazer qualquer outra coisa porque ainda estava pensando sobre o que tinha acontecido. Então, ele inclinou-se sobre a bancada e levantou o braço para alcançar o puxador. Naquele dia, ele não usava camisa social e, sim, uma blusa comum de mangas curtas e com a gola em V, deixando um pouco do seu peito liso visível. Quando seu corpo se esticou não pude deixar de olhar para a sua barriga que ficara ligeiramente à mostra e cheguei à conclusão de que tinha me enganado no dia anterior. Ele era bastante musculoso, a questão é que ele sabia esconder isso muito bem. Tive pouco tempo para observar, mas não consegui encontrar um pedaço de gordura, nem milimétrica ali. Com certeza Jane também estaria observando e ela entendia de músculos muito melhor do que eu.

As pessoas que estavam nas bancadas detrás também fecharam as persianas, ajudando-o.

— Qual o seu nome, rapaz? – o professor perguntou colocando uma mão nas costas dele.

— Téo Dáman.

— Certo, Téo. Já que você está de pé, pode buscar umas folhas que eu deixei na Xerox?

Téo consentiu e se retirou. Em seguida, o professor avisou que as folhas que pediu eram para um questionário e que deveria ser feito em sala. E, além desse trabalho, havia outro que ele explicaria na aula prática à tarde e que deveria ser apresentado na outra semana.

— Ambos os trabalhos serão feitos em dupla e, por favor, façam os dois com as mesmas pessoas, senão vocês me confundem.

Téo entrou na sala com os papéis e os entregou ao professor Carlos, mas antes que ele pudesse se sentar novamente, foi chamado.

— Téo? Você conhece alguém dessa turma? – senti Jane me cutucar por debaixo da bancada. Por que o professor estava fazendo essa pergunta? — Não o vi semana passada. Você é transferido?

— Não. – ele sorriu. — Tranquei por um período e voltei agora. Desta sala, eu tive a sorte de conhecer a Kate. Ela já até me atualizou com a matéria anterior.

— É uma sorte conhece-la mesmo. É uma ótima aluna. – o professor comentou. — Então, temos a primeira dupla. Kate e Téo. Acho que será bom para você tê-la por perto. E para ela também. Quem sabe a Jane faça os trabalhos dessa vez...

Como assim?! Já era a segunda vez que alguém nos recomendava ficar juntos. Primeiro, minha colega de quarto e agora o professor de medicina legal? O que estava acontecendo?

— Eu sempre faço os trabalhos, Carlos. – Jane reclamou, brincando com o professor. Já o conhecíamos há alguns períodos porque ele também dava aulas de direito penal.

— Podem se organizar. – ele levantou e se retirou da sala para fazer alguma coisa, talvez fumar.

— Não acredito que ele nos separou. – Jane reclamou. — Mas você vai ficar com o gatinho do Téo. – ela piscou um olho e deixou o espaço ao meu lado vago. Em segundos, Gustavo aproximou-se, me olhou e chamou-a para fazer dupla com ele.

— Oi. – Téo sentou-se ao meu lado e colocou a mochila no chão, embaixo da bancada. — Você ficou chateada com a sugestão do professor, não é? – ele inclinou-se sobre a bancada e virou o rosto para ficar me olhando e não me deixar fugir das respostas.

— Não. – por que ele achou que eu ficaria? — É só um trabalho. – Téo sorriu como se tivesse provado algo muito gostoso e em seguida colocou o questionário no centro da mesa para que lêssemos juntos. — Pode me emprestar seu caderno? Acabei perdendo algumas informações. – ele me olhou, pensou um pouco e respondeu.

— Posso te emprestar no intervalo. Agora vamos fazer o questionário. Pode ser?

— Acho que você pode fazer sozinho.

Eu não tinha me importado em ler um livro com ele na biblioteca, mas isso tinha sido ontem, antes de todas essas coisas esquisitas acontecerem. Ele ainda não tinha me oferecido carona, ele não tinha adivinhado meus pensamentos, ainda não tinha ficado me olhando e eu não tinha sido obrigada a ler os pensamentos dele.

— Quem te garante que eu não vá colocar as respostas erradas?

— Acho que você quer uma nota boa e, além disso, você também estudou ontem.

— Você não gostou de fazer dupla comigo. – ele balançou a cabeça para os lados e abaixou o corpo para puxar a mochila do chão.

O que ele estava fazendo? Ia embora só porque achava que eu não tinha gostado de fazer dupla com ele? Ok. Eu tinha sido exagerada. O afastei desde que ele se sentou ao meu lado e não havia nada de errado nisso. Era só um trabalho e eu mesma tinha dito isso. Estiquei meu braço e segurei sua mão, impedindo-o de puxar a mochila.

— Posso arranjar outra dupla. – ele respondeu secamente.

— Não fiquei chateada. E, além disso, seria muita presunção minha achar que você está feliz com isso. Mas se quiser trocar de dupla, não vou te impedir. Quero apenas que me desculpe. – respondi sentindo-me envergonhada pelo modo como havia me portado.

— E você acha que eu vou perder a oportunidade de irritar o valentão ali do lado? – ele fez um gesto discreto com a cabeça indicando Gustavo que se sentara na bancada ao lado da nossa.

— Ex-relacionamento aberto. – respondi num sussurro e me aproximei dele para ler o questionário. Téo franziu a testa olhando-me curiosamente. — Nós saíamos juntos, mas podíamos sair com outras pessoas, só... – ele me interrompeu.

— Kate, eu sei o que é um relacionamento aberto. – ele riu. — E já imagino o porquê da insatisfação. Ele quis mais do que isso, não é? – confirmei.

— Rompeu a principal regra.

— E escolheu a Jane só para ter contato com você. – ele balançou a cabeça em sinal de reprovação. — Esse anel? – olhei para a joia em meu dedo anelar direito. — Não é, com certeza, de nenhum relacionamento aberto né? – não. Estava longe de ser qualquer coisa. Ganhei no dia anterior à morte do meu pai. Em ouro, com um aglomerado de diamantes brancos em forma de buquê e uma única pedra central em vermelho. E, por isso, era muito importante!

— Meu pai me deu como presente de dezoito anos.

Havia mais por trás disso. Ele me dera para usar naquele dedo, aquele em que os homens apaixonados depositam joias caras e me disse que somente deveria tirá-lo dali quando houvesse um anel para substitui-lo. E não deveria ser qualquer anel. Somente aquele que fosse tão importante e tão real que me desse forças para tirar a última joia que ele me dera. Senti meus olhos marejarem com as lembranças.

— Seu pai tem muito bom gosto para joias. – ele elogiou. — Combina com você. – corei instantaneamente e percebi que os olhos dele estavam focados em mim. Ele tinha acabado de dar a entender que a joia era bonita e, depois, que ela combinava comigo? Isso significava que ele tinha acabado de dizer que eu também era bonita?!

“Muito mais que bonita. A sua beleza é deslumbrante, mas você não...”.

— Ei Kate. Conseguiu resolver a segunda questão? – Gustavo inclinou o corpo na direção da nossa bancada. Téo passou a mão pela cabeça, bagunçando um pouco seus pequenos fiapos de cabelo. Em seguida, nitidamente contrariado, virou o rosto para meu ex.

— Você não acha que deveria estar fazendo sozinho? – nós estávamos tão próximos que senti os músculos do seu braço enrijecerem.

— Nós já tentamos, mas não conseguimos. E ela é muito inteligente. – Gustavo retornou a posição e se levantou, ficando de frente para Téo que, por sua vez, parecia estar se preparando para levantar. Senti que os ânimos estavam se exaltando e precisava fazer algo.

— Ainda não fizemos nada Gustavo. — falei e fechei meus dedos ao redor do braço de Téo, o segurando. Na verdade, minha mão era bem menor e o máximo que eu consegui fazer foi tocá-lo. Senti seus músculos relaxarem pouco a pouco abaixo da minha pele.

— Vocês ainda não fizeram nada? O que estão fazendo então?

Sério?! Téo enrijeceu novamente e eu não tirei minha mão de lá tentando acalmá-lo novamente, mas dessa vez parecia impossível. Gustavo não tinha nada a ver com isso e precisava entender de uma vez por todas. Fiquei em pé, ainda atrás da bancada e senti a mão de Téo segurando a minha e tentando me puxar de volta.

“Não faça nada.”

— Gustavo. – respirei fundo e percebi que o professor não estava lá e que todos os outros alunos estavam atentos em nossa discussão. — É melhor você se sentar e terminar seu trabalho. Estamos trabalhando em duplas, lembra? E a minha já está formada.

Joguei-me de volta na cadeira assim que o irmão de Sofia se afastou na direção da bancada ao lado, mas ele não sentou. Agachou, pegou sua mochila e foi embora. Legal. Eu tinha magoado meu ex quando nunca quis fazer isso. Ele sempre tinha sido uma ótima pessoa para mim e me sentia péssima pelo que tinha acabado de acontecer. Tentei apenas afastá-lo para que não acontecesse nada ruim ali dentro. Devia ter ouvido as palavras de Téo e ter ficado quieta.

— Você não tem culpa disso. Desculpe. – ele pediu. — Deveria ter me controlado.

— Téo. – eu o olhei. — Você está apenas fazendo um trabalho comigo e não pode ser incomodado pelo Gustavo. Ele tinha que entender que acabou. Só não me sinto bem por ter feito isso. – confessei.

— Você não falou nada demais. O problema é que ele ainda gosta de você. E qualquer coisa que ouça será assim. Se quiser espairecer, termino o trabalho para você.

— E quem me garante que você não irá colocar as respostas erradas? – repeti a pergunta que ele tinha me feito anteriormente e sorri divertidamente, contaminando-o.

— Acho que eu quero uma nota boa e, além disso, eu estudei ontem. – não pude evitar um sorriso de orelha a orelha. No fim das contas tinha sido divertido fazer trabalho com ele. Arrumei minhas coisas e ele se levantou para que eu passasse, mas antes que eu pudesse me afastar, segurou minha mão. — Não vou fazer o trabalho prático sozinho, então...

— Estarei aqui. – ele sorriu.