A Herdeira Do Lado Negro

8 Capítulo 8 - Primeira Noite no Castelo


A enorme porta de madeira envelhecida se abriu com um rangido. A águia da aldrava abaixou a cabeça de bronze e fechou os olhos, ficando em sua posição de repouso novamente. Uma fragrância de verniz e ar puro soprou de dentro da sala.

- Sejam Bem-Vindos, ao Salão Comunal da Corvinal. – Robert anunciou orgulhoso, indicando para que todos entrassem.

Os veteranos entraram com seu habitual andar elegante e se espalharam pela sala, enquanto os alunos novos entravam lentamente, boquiabertos, enquanto se deslumbravam com a beleza fina e estonteante do ambiente. Robert foi o último a entrar, depois de Niara, ouvindo a porta fechar atrás dele. Ela deu passos incertos e levantou o olhar, ficando paralisada. A sala era magnífica.

O chão era de madeira polida, envernizada, da melhor qualidade, e brilhava levemente. Amplas e gigantes janelas de bronze enfeitavam as paredes claras e iam do teto até o chão. Na paisagem, montanhas verdejantes com picos de gelo faziam a vista perfeita sob o luar. Cortinas compridas de veludo azul marinho adornavam as janelas. Em um canto da sala, um belo piano de madeira, no outro uma exuberante estátua de pedra de uma das mulheres mais bonitas que Niara já vira na vida. Ela se aproximou do monumento e tocou o vestido da estátua. A obra era o dobro do tamanho de uma pessoa normal.

- Nossa... – ela sussurrou encantada.

- Rowena Ravenclaw. É linda não é? — sussurrou Robert se aproximando. – Digo, a estátua.

Niara riu sem humor, e se voltou para ele com uma sobrancelha arqueada.

- Ela foi uma das fundadoras de Hogwarts. E a casa de Corvinal pertence à ela. – Robert falou com respeito. – Ela adorava paisagens bonitas, e uma de suas preferidas era o céu durante a noite...

Ele colocou uma mão no ombro de Niara, e apontou discretamente para cima, ambos levantando o olhar para fitar o teto.

Era negro azulado como a noite, e milhares de pontos cintilantes brilhavam nele. Era como observar o céu e poder tocar as estrelas, algo extraordinariamente criativo e belo. As estrelas pareciam e mover, e de tempos em tempos uma estrela cadente surgia brilhando.

- Como... – Niara mal conseguia pronunciar as palavras.

- Magia. Com ela tudo é possível. – Robert respondeu, acariciando as penas de Strix que estava nos braços de Niara, dormindo. Ele se virou para o restante dos alunos. – Bem, novatos. Os dormitórios são subindo as escadas por ali, se quiserem se acomodar, fiquem à vontade. Meninas à direita e meninos à esquerda, por favor.

Barulhos de pés batendo na madeira ao caminharem e vozes extasiadas por todos os lados ficaram audíveis. Strix balançou a cabeça levemente, despertando. Sua dona o abraçou mais forte, confortando-o, e se virou para observar mais o local.

Enormes estantes, como as de uma biblioteca, estavam enfileiradas com diversos tipos de livros nelas, desde contos antigos até grandes enciclopédias com inúmeras páginas. Mesas e cadeiras estavas organizadas de forma simétrica, feitas com madeira de carvalho e veludo azul escuro também. Os dois grandes sofás eram produzidos do mesmo material e estavam posicionados em frente a uma adornada e gloriosa lareira, onde o fogo crepitava na madeira, esquentando o ambiente. Em frente à lareira havia um enorme tapete felpudo azul, com diversos livros espalhados sobre ele. Candelabros de prata nas paredes iluminavam a sala.

- Robert, Robert! Venha cá... – uma menina de cachos castanhos claros deu gritinhos. – Olhe o que minha mãe mandou pra você!

O monitor se moveu até a garota que pulava enquanto suas bochechas iam ficando cada vez mais vermelhas. Ela estendeu o pacotinho vermelho a ele, rindo. Ele desembrulhou o presente e deu um sorriso caloroso.

- Muito obrigado Ginger! Eu adorei as luvas. – ele levantou o par de luvas de lã bordadas. – Mande meus agradecimentos à sua mãe, ela é muito gentil.

- Não é nada... Não precisa agradecer. – ela riu sem graça, corando ainda mais. – Quando quiser é só chamar, monitor. Boa noite.– ela piscou os olhos verdes e deu um rápido beijo na bochecha dele.

Ele sorriu educadamente ao ver Ginger subir as escadas e ir para seu dormitório. Guardou o par de luvas no bolso e virou-se para Niara. Mas ela não estava mais lá.

- Ela sumiu... – ele falou sozinho e depois se moveu para seu quarto com sono.

Niara havia subido o pequeno lance de escadas e se moveu até o quarto designado à ela. Um grupo estava passando pelo corredor e uma menina esbarrou nela, caindo no chão. Niara não se moveu um centímetro.

- Cuidado. – disse alertando a menina no chão que tirava os cabelos dos olhos enquanto suas amigas a ajudavam a levantar.

- Me desculpe. – ela se levantou e limpou o uniforme sorrindo amigavelmente. – Sou Cho Chang, muito prazer. Fico no quarto ao lado do seu, eu acho.

- Tudo bem. – Niara murmurou cansada, enquanto aconchegava Strix nos braços e caminhava para a porta de seu dormitório. Ela entrou e fechou a porta deixando o grupinho de meninas do lado de fora. Ela soltou um longo suspiro e se agachou encostada à porta, aliviada por ter finalmente arranjado um lugar para descansar. Strix escalou até seu ombro e parecia sentir o mesmo. Dois pares de olhos encaravam Niara com surpresa. Duas meninas, uma morena e a outra ruiva. A ruiva estava com o cabelo preso em um rabo alto.

- Ah, não... Mais dessas não... – Niara disse em desespero enquanto se levantava.

- Você que vai dividir o quarto com a gente? – a morena perguntou com desdém.

- Infelizmente.

- Uau, que legal! Nunca colocam alguém nova no nosso quarto! – a ruiva pulou da cama, de pijama azul. – Eu sou a Sarah, e aquela ali é a Diana.

- Pronto, começou... – Niara bufou, assoprando uma mecha do cabelo negro.

- E você como se chama, mal-educada? Aquela cama ali no canto é a sua... – Diana falou enquanto amarrava o cabelo comprido em um rabo igual a ruiva e levantava uma sobrancelha fina.

- Niara é o nome dela, Diana, está escrito nos presentes. – a ruiva respondeu à amiga e voltou a se virar para a recém-chegada – Não que eu tenha bisbilhotado... Eu só fui checar.

Niara franziu a testa e observou a cama designada à ela, próxima à janela. A colcha azul marinho parecia macia e confortável, os lençóis brancos também. Ela percebeu então, que várias sacolas e pacotes bonitos estavam em cima de sua cama. Ela se aproximou e conferiu a etiqueta de um deles:

Para a senhorita Niara Horn.

Niara observou todoas aqueles pacotes embrulhados sem saber o que fazer direito.

- Você tem um namorado? – sussurrou Sarah com um enorme sorriso nos lábios. – Que legal! Qual é o nome dele?

- Não diga besteiras. – Niara respondeu com repudio enquanto abria os presentes, rasgando os laços e as fitas.

Dentro de uma sacola azul, haviam mantos e um chapéu, o uniforme de Hogwarts. Em um pacote cinza haviam gravatas e cachecóis de Corvinal. Em outro haviam livros de diversos tipos, todos didáticos.Dentro de uma caixa preta, de ar elegante, algo se mexia. Niara balançou a caixa e o objeto continuava se mexendo.

- São meus materiais escolares... Mais o que será isso? – Niara resmungou consigo mesma enquanto abria a caixa.

Algo brilhante voou em direção ao teto fazendo as outras duas meninas gritarem, então o objeto retornou e pairou no ar em frente à Niara. Era uma pena dourada, com diversos brilhantes incrustados desde sua base até a ponta, e ela era mágica. Niara esticou a mão e a pena pousou sobre ela, descansando.

- Oh, Meu Deus! É uma pena de Ouro! – exclamou Sarah – Simplesmente a mais nova do mercado!

- Devo me surpreender? – Niara respondeu sem entusiasmo.

- É claro que deve. – Diana a olhou séria enquanto se aproximava – Isto aqui é muito caro, e raro também. Não faça desdém com as coisas que ganha. Quem dera eu ter ganhado uma dessa.

Niara ficou calada. Terminou de abrir o resto dos presentes e colocou a pena em cima da mesinha de cabeceira de sua cama. Tudo o que ela precisaria usar na escola estava ali. Seus livros, uniforme, artefatos mágicos... etc. Strix descansava em seu travesseiro com os olhinhos abertos vendo-a e mexer pra lá e pra cá guardando os seus presentes. Sarah e Diana falavam sobre suas vidas, sobre seus pais bruxos, e do monitor gatinho. Mas Niara parecia não ouvir.

- Está tudo bem com você? – Sarah perguntou se interrompendo.

- Estou bem. – Niara sussurrou enquanto observava a janela. – Continue.

- Ah, você não acha Robert gato? Ele é lindo. – a ruiva tentou animá-la.

- Deixe-a Sarah, ela não quer nos escutar. – Diana se pronunciou com os olhos semicerrados. – Ela não é uma pessoa confiável.

- Tem razão... – Niara suspirou.

- Não ligue pra ela, Niara. Ela sempre está de mau-humor. – Sarah disse revirando os olhos. – Eu só não entendo o que há com você.

A novata encarou a morena deitada na cama, e esta sustentou seu olhar. Ambas ficaram se olhando como duas feras enjauladas.

- Não é nada. – Niara virou-se para a janela novamente, de modo infantil.

Diana bufou e se virou para o outro lado e com sua varinha apagou as velas do quarto. Sarah ficou sentada em sua cama olhando para as duas. Niara se levantou e vestiu seu pijama novo no escuro. Ela passou a mão pelo tecido macio e negro suspirando. Encostou a cabeça no armário e fechou os olhos. Um piado baixo se fez audível em sua cama. Ela se virou e foi até a cama para abraçar Strix, se enfiou debaixo das cobertas e deixou a coruja nas barras de bronze da janela levemente aberta. Ela estava ciente do par de olhos castanhos que a observava, preocupados.

- Sabe, estes foram os primeiros presentes que eu ganhei na vida. – Niara disse em baixo tom, observando o teto, com os braços cruzados atrás da cabeça.

- Eu acredito em você. – Sarah se aproximou em silêncio e se abaixou ao lado da cama da menina. – Ninguém nunca te deu um presente? Seu pai ou sua mãe não gostam de você? Os pais da Diana não gostam dela, acho que é por isso que ela é assim...

- Eu não tenho pais. – Niara respondeu suspirando mas logo se arrependeu pois lembrou da conversa que teve com Dumbledore. Ela tinha que mentir para que ninguém desconfiasse de nada.

- Oh! – Sarah colocou uma mão na boca. – Mil perdões... Deve ser muito complicado...

- Eu moro com meu avô. – Niara disse rapidamente. – Ele é bom.

- Mas nunca te deu presentes...

- Não temos muito dinheiro.

- Oh, entendo. – Sarah sorriu nervosa. – Bem, acho que vou dormir de qualquer maneira... Boa Noite Niara.

Niara apenas sorriu como resposta, ao ver a outra caminhar até sua cama e deitar sob as cobertas.

Passou-se uma hora inteira. Strix mantinha seus olhos bem abertos, empoleirado na janela com pose de macho alfa. Niara ouvia a respiração suave das duas companheiras de quarto enquanto dormiam, ela estava confortável e segura na escuridão. Sua visão já era habituada a pouca luz. Sua mão direita tocou a mesinha de cabeceira até achar a gaveta e abri-la. A pena dourada e enfeitada voou até seu colo. Niara se esticou mais um pouco e pegou um pedaço de papel amarelado e colocou no colo também.

Depois de observar detalhadamente a pena em sua mão, ela encostou sua ponta no tinteiro e se preparou para escrever. A pena criou vida própria novamente e flutuou pelo ar dando piruetas e espalhando tinta pela coberta azul marinho.

- Volte aqui! – sussurrou a menina, nervosa.

A pena então se aproximou do papel e começou a escrever rapidamente, com uma tinta mágica que vinha dela mesma:

Cara senhorita Horn, meus sinceros cumprimentos. Seja Bem-Vinda, à Hogwarts. Pelo visto devo pensar que já abriu todos os pacotes que Hagrid lhe enviou com seus materiais escolares. Bem, por hora isto é tudo o que irá precisar nas aulas desse semestre. Esta pena é um presente meu, com o maior apreço, e me deslumbrei assim que a vi. Use-a com sabedoria pois esse objeto mágico pode escrever coisas incríveis e desvendar muitos mistérios. Aproveite o ano letivo.

Diretor da escola de magia e bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore.

Assim que a pena terminou de escrever ela pousou na mesinha novamente. Niara observava o papel boquiaberta enquanto a letra caprichada desaparecia de deixava o papel limpo novamente. Guardou-o na gaveta e deitou-se.

- Sinto que muitas coisas me esperam por aqui. Mas meu objetivo nunca será esquecido... – ela sussurrou, segurando firme o vidrinho que possuía em seu colar. – Boa Noite Strix, fique de guarda... Amo você, apenas você.

E ela sentiu os olhos ficarem pesados, e a consciência se esvaindo com o tempo que passava. Quando estava quase adormecendo ela ouviu uma estranha, porém grave e acalmante voz sussurrar:

- Amo você também, Boa noite.

Devia estar sonhando, mas mal teve tempo de pensar direito sobre isso. Acabou pegando no sono, com a lua a iluminando pela janela.