A Herdeira Da Máfia

17 XVII. Forgive.


Meus pés se moviam como se minha vida dependesse disso e o choro alto de Taylor me motivava a ir ainda mais rápido. Saber que eu teria uma parcela de culpa na morte de mais um ente querido de minha amiga, doía mais do que eu poderia imaginar. Minhas bochechas estavam queimando e o suor escorria pela minha nuca, mal conseguia controlar minha respiração. Entramos pela pequena floresta e pude ver a sombra de algumas pessoas alguns metros à frente.

Paro de imediato ao ver Meredith agachada sobre o chão lamacento. O corpo repleto de machucados e o nariz ensanguentado. Sinto meu coração se apertar. Anthony estava parado de braços cruzados atrás dela e parecia tão bravo quanto Logan, que segurava uma arma apontando para a cabeça da Meredith. A adrenalina percorreu meu corpo e quando dei por mim, eu estava em frente a arma que estava prestes a ser disparada. A expressão de total confusão do Logan – em uma mistura de ódio, me fez engolir em seco, temendo minha própria vida.

— O que você está fazendo aqui Hannah? Saia da frente... – Grita atordoado enquanto Anthony continuava estático me encarando como se eu fosse outra pessoa.

— Não. – Digo alto e claro, fazendo a arma em suas mãos estremecer.

— Não é hora para...

— Para quê? Poupar a vida de Meredith? Todos têm motivos para fazer algo, provavelmente ela também teve. Não que eu tenha dado algum motivo para ela, mas quem sou eu para tentar entender as pessoas? – Balbucio e Logan encara Anthony como se pedisse em silêncio para que ele fizesse alguma coisa.

— Hannah, eu acho que...

— Anthony, por favor. Olhe para ela. – Aponto para Meredith que se contorcia sobre o chão gemendo de dor tão baixo que mal podíamos ouvi-la. – Iria gostar de ver alguém fazendo isso com um filho seu? Por que não pergunta a Lola, a cozinheira da casa, o que ela está achando disso?

— Ela nos traiu.

— Meredith traiu a mim, e eu a perdoo. – Sussurro e ouço a risada alta da garota que agora a pouco, quase chorava de dor.

— Como se eu precisasse do seu perdão. – Murmura e eu a encaro a contra gosto.

— Cale a boca. Acha que eu me importo com você? Estou fazendo isso pela sua família... Por mim, você já poderia estar morta. Carl estava lá, tem ideia do que fez? E a que preço? O que eu fiz para você? – Pergunto aos gritos desesperada. Sem saber se terminava o trabalho de Logan ou se parava tudo aquilo. A pena que eu estava sentindo dela e da pequena Taylor encolhida em uma árvore qualquer aos prantos, falou mais alto.

— Você nasceu. – Respondeu Meredith na mesma intensidade. Anthony lhe dá um murro em um movimento rápido.

— Anthony, por favor... – Me enfio na frente dele e seu rosto pareceu se suavizar quase que imediatamente.

— Você não entende Hannah. Ela não traiu você. Traiu a máfia. Ela revelou coisas demais sobre nós.

— Que coisas? Do que estão falando?

— Confie em mim, não vai querer saber... – Sussurra Logan e encolho os ombros ao vê-lo se aproximar de mim.

— Por favor, não faça isso. Você cresceu com ela...

— Não sou eu quem decido Hannah. – Seus olhos mostravam pena também, mas ele parecia não fazer nada.

Olhei para Taylor, meus olhos ardendo segurando um choro tão alto quanto ela. Sussurro baixinho o quanto eu sentia muito e ela entendeu que eu não podia fazer mais nada. Encaro Meredith que agora estava assustada temendo a própria vida. Meus braços envolvem a cintura de Logan e o mesmo me puxa para mais perto com um braço enquanto o outro segurava a arma com força mirando, mas uma vez em Meredith. Afundo meu rosto em seu peitoral me preparando para o barulho alto que estava por vir.

— Seja rápido. – Minhas palavras fizeram Logan assentir. Minhas mãos agarravam sua camiseta com força desnecessária.

Eu me sentia derrotada. Não conseguia olhar mais para Taylor, mas ainda podia ouvir seu choro alto e sua suplica por piedade. Aquilo era desgastante. Minha mente tratava de imaginar Lola em sua casa, chorando de forma tão desesperada quanto suas filhas, rezando um milhão de vezes para que tudo ocorresse bem. E por uma fração de segundo... Lembrei da minha mãe. Ela com certeza não estaria nem um pouco orgulhosa de mim.

— Para. – Grita Anthony quando Logan destravava a arma, pronto para atirar. – Meredith está perdoada.

Saio dos braços de Logan, e assim como Taylor, corro até Meredith, ajudando a mesma a se levantar. Ela já ia abrir a boca para reclamar, mas pareceu entender que não poderia protestar depois de tê-la ajudado... Ou pelo menos tentado. Agora eu estava sentada no sofá da casa de Lola e mesma estava no andar de cima ajudando a filha. Seu olhar brilhando em agradecimento fez com que todo o meu corpo relaxasse, feliz por finalmente ter feito algo útil. Respiro fundo, quando vejo Lola e Taylor descerem as escadas.

— Ela quer falar com você. – Avisa Taylor se sentando com a mãe no sofá. Elas realmente mereçam um descanso depois de tanto chorar.

Sorri para elas nervosamente, quase peguei uma faca na cozinha temendo ir até lá sem defesa nenhuma, apesar de Meredith parecer, agora, completamente indefesa. Abro a porta do seu quarto e entro, fechando a porta com cuidado. Continuo ali encostada a porta, sem me aproximar dela ou algo do tipo. Ela estava sentada na cama, encarando a bela vista que tinha da praia na janela do quarto.

— Eu não vou pedir desculpa, se é o que quer saber. Muito menos vou agradecer. – Diz calmamente sem se virar para me encarar.

— Não esperava isso... Não é típico de você. Quer dizer... Não parece ser típico de você. – Minha voz saia entrecortada.

— Entretanto... Eu não odeio você. Só queria que soubesse disso. – Murmura de forma rígida. – Mas a sua presença me irrita muito. Você chegou do nada e encantou a todos os funcionários e... De quebra... Conseguiu, sabe lá como, fazer Logan gostar de você e voltar a ser o mesmo de antes. E mesmo tendo a escolha de ir embora, continua aqui, se envolvendo mais e mais na máfia.

— Eu me importo com Logan. E me importo com todos os funcionários daqui. São pessoas boas. – Sussurro e ela se levanta com dificuldade.

— Como consegue? Tem toda uma história por trás do seu sorriso e ainda assim não consegue tirar ele dos lábios. Invejo isso em você. – Ela curva os lábios, mas não diria que aquilo era um sorriso.

— Eu passei por muita coisa sim... Mas não posso deixar que isso tire a minha felicidade. Pelo menos... Não por muito tempo. – Balbucio.

— Sei... Uma pena eu não gostar muito desse seu raciocínio lógico. De qualquer forma, fez bem em ter me salvado. Afinal, não teve a chance de fazer isso pelo meu pai.

— Eu sinto...

— Sabe qual foi a última coisa que eu disse para meu pai? – Pergunta engolindo um possível choro.

— Não.

— Eu odeio você. – Diz simplesmente como se aquilo fosse normal. – Se não fosse por você, querida Hannah, eu teria tido a chance de dizer que aquilo era uma grande mentira. E que eu o amava.

— Meredith... Eu sinto muito mesmo. – Sussurro cabisbaixa, fungando. – Eu acho melhor eu ir.

— Hannah...

— Sim?

— Eu não lido muito bem com coisas como agradecimentos, mas, acho que devo isso a você depois do que fez por minha mãe e por minha irmã. – Vocifera.

— Não tem de que. – Murmuro como se ela realmente tivesse me agradecido.

Saio do quarto de Meredith mais pensativa e confusa do que eu já estava. Lola estava no pé da escada para me dar um abraço longo e apertado, e eu entendia que aquela era a melhor maneira dela de agradecer. Dou um beijo no topo da cabeça de Taylor que cochilava sobre o sofá e saio de sua casa indo em direção a mansão. Não tinha parado para pensar no que Logan poderia estar pensando agora... Me odiando ou não... Eu pelo menos dormiria com a consciência tranquila. Corro para meu quarto dando de cara com o próprio. Havia várias malas espalhadas sobre a cama e ele parecia desesperado jogando as roupas de qualquer jeito em cada uma delas, sem nenhuma organização.

— O que está fazendo? – Pergunto baixinho.

— Estamos indo embora daqui. Meredith também disse onde estávamos. Custamos matar aqueles que descobriram nosso endereço e agora ela fez questão de contar para o chefe de tudo isso.

— E para onde vamos?

— Há uma estrada de terra nos fundos da casa de Anthony que dá para uma casa de campo a poucos quilômetros de lá. Estaremos seguros. – Vocifera ainda apressado e eu trato de ajudá-lo.

— Só iremos nós?

— Sim, e precisamos ir ainda essa noite.

Estremeço, lançando um sorriso nervoso para tentar passar alguma confiança. Mas era lógico que eu nunca fui boa nisso.