A Herdeira Da Máfia

12 XII. Waking The Beast.


Não tinha nenhum relógio disponível agora, mas tinha quase certeza de que horas haviam se passado e eu continuava ali, meus pés cravados no chão analisando Anthony com cuidado esperando alguma expressão diferente que não fosse o espanto. Suas sobrancelhas erguidas e o olhar atento a foto. Respiro fundo, pigarreando de maneira audível, mas ainda não fora o suficiente para que ele voltasse a realidade. Meus braços estavam cruzados e de vez em quando eu olhava para trás temendo que Logan aparecesse bravo demais para medir suas palavras. A verdade, é que agora, eu nem me importava, mas uma hora iria. E eu me sentiria magoada o suficiente para voltarmos a estaca zero.

— Anthony... Você está bem? – Perguntei ficando realmente preocupada. É possível alguém morrer e continuar em pé, dura feito uma pedra? Seus olhos finalmente se voltam para os meus e sua velha posição retorna ao normal. Ele devolve a foto para mim e eu sorrio educadamente esperando alguma resposta dele.

— Sim, claro, eu só estava... Buscando algo em minha mente que pudesse ajudá-lo. – Sussurra e minhas sobrancelhas se erguem. – Sinto muito, Hannah. Mas não tenho ideia de quem seja.

— Poxa... Seria pedir muito que se esforçasse mais? É que se parece tanto com você e o sobrenome...

— Eu já disse que não, desculpe. – Ele me corta entrando em sua casa, mas deixando a porta aberta. Levo isso como um convite, entrando e seguindo-o até a escadaria.

— Por favor. – Peço baixinho fazendo bico feito uma criança mimada desejando um pirulito colorido. Ele para na escadaria e me observa ali, completamente desesperada segurando um choro profundo. Ainda me irritava o fato de passar por todo esse drama idiota. Anthony suspira pesadamente se aproximando de mim, suas mãos seguram meus ombros com carinho em uma tentativa certeira de me confortar. Relaxo quase que instantaneamente.

— Vou ver o que posso fazer, está bem? – Meu sorriso se alarga e meus braços o envolvem em um rápido abraço de agradecimento.

— Obrigada. De verdade, eu não sei o que faria se...

— Sophie. – Anthony vocifera parecendo quase aliviado por sair daquela conversa ao notar Sophie no topo da escada, que para imediatamente nos encarando confusos. Ela usava um suéter verde estampado com corações pretos, uma saia azul escuro e botas de cor marrom. Era incrível como tudo parecia cair perfeitamente bem nela. Noto que segurava um arco e flecha enorme e sinto meu corpo estremecer. – Iria comentar agora mesmo com Hannah que você estava aqui e adoraria uma companhia para treinar já que Ethan não está.

— Claro... É uma ótima ideia. Me acompanha Hannah? – Ela desce às escadas sem esperar por uma resposta minha, já me puxando até o jardim. Noto a presença de uma mulher elegante se aproximar do topo da escada e chamar Anthony disfarçadamente.

A casa dele realmente era maior do que qualquer outra que já vi, superando até mesmo a casa de Logan. O lugar era muito bem seguro, com câmeras em cada canto e vários seguranças onde quer que eu olhasse. Atravessamos o vasto quintal e ao contrário do que eu pensava, estávamos indo em direção a uma floresta que havia ali, próximo a um lago. As árvores davam um tom sombrio ao cenário, mas Sophie parecia apreciar a paisagem. Ela solta uma espécie de bolsa repleta de flechas no chão, pegando uma delas e em um movimento rápido, posicionando ela no arco e atirando no tronco de uma árvore. Arqueio a sobrancelha... Como era possível ela ainda precisar de treinamento? Sophie me encara e sorri ao notar minha expressão espantada, erguendo o arco em minha direção.

— Quer tentar? – Pergunta me olhando desafiadoramente e eu nego com a cabeça.

— Eu não sou tão boa nisso. Acredite. – Respondo e ela pega mais uma flecha atirando perfeitamente bem no longo tronco da árvore que estava tão longe de nós.

— Eu também não era boa. Acredite. – Diz, me oferecendo mais uma vez o arco que segurava. Pego ele de forma desajeitada.

— Tudo bem... O que eu tenho que fazer? – Eu realmente estava interessada em aprender aquilo.

Ela sorri animada, os olhos brilhando enquanto me ensinava calmamente o que fazer. Começamos com uma árvore próxima. Coloquei um protetor de braço e uma dedeira. Não era tão fácil quanto parecia quando ela fazia, mas todo o divertimento entre as falhas tentativas valia muito a pena. Sophie parecia, aos poucos, se tornar minha mais nova amiga. E era a primeira vez que eu tinha amigos o suficiente para contar nos dedos. Antigamente, sempre era somente Allan e eu. Não que eu achava isso ruim, o que sempre importou para mim foi a qualidade, não a quantidade. E Allan definitivamente era o melhor amigo que alguém poderia ter... Sempre esteve ao meu lado em todos os meus momentos e eu jogaria minha mão no fogo por ele. Sophie parecia ser uma amiga tão boa quanto ele. Nos sentamos por ali mesmo após horas de treinamento. Consegui atirar perfeitamente bem após mais de vinte tentativas.

— Tente o quanto quiser, mas jamais irei acreditar que já foi péssima como eu. – Respiro fundo após longas risadas.

— Eu mal sabia o que era atirar. Se não fosse por Anthony, eu seria como você. Talvez pior. – Balbucia e eu finjo uma expressão de indignação.

— Vou tentar levar isso como um elogio. – Ironizo e damos altas gargalhadas mais uma vez.

— Hannah. – O grito alto de Logan faz com que eu praticamente pule, já ficando de pé e me virando em direção à voz. A gargalhada presa em minha garganta formando um nó firme. Sophie também se levanta parando de rir imediatamente e o observando como se fosse algum inimigo prestes a atacá-la. – Vamos para casa.

Mal pude contestar, suas mãos estavam segurando meus braços de forma rude, me arrastando para longe dali brutamente. Aceno para Sophie ao longe me desculpando com o olhar. Atravessamos o jardim sem trocar uma palavra e Logan ainda me segurava como se eu fosse fugir. Todo o meu consciente gritava chamando minha atenção para esse grave erro que eu havia cometido: esqueci de avisá-lo. E provavelmente ele está ameaçando até minha décima geração. Seus olhos estavam frios de novo e quando atravessamos a casa de Anthony, pude ver o olhar mortal que trocava com o cara ao meu lado, mas isso não o impediu de me arrastar rudemente até o carro e me levar de volta para casa.

— Qual é o seu problema? Eu só saí por algumas horas, não é muito saudável ficar presa aqui por dias, sabia? – Digo assim que ele me larga no quarto, se virando, pronto para sair dali.

— Você poderia ao menos fazer o favor de avisar. As regras da casa são simples Hannah, mas faz questão de quebrar todas. Eu tento ser legal com você e...

— É assim que tenta ser legal? Talvez precise de umas aulas para entender um pouco mais o significado dessa palavra. – Balbucio e ele se vira me encarando mortalmente.

— Eu. Estou. Tentando. Isso é mais do que qualquer um conseguiu. – Diz medindo as palavras da forma mais calma que eu já vi. – Tem que parar de continuar vendo a vida como via antes. Aqui não é nenhum conto de fadas. Você podia estar em perigo. E eu não teria ideia nem de onde começar a procurar.

— Tudo bem. Me desculpe, tá legal? – Peço baixinho e ele suspira pesadamente coçando a nuca.

— Vai passar o resto da tarde aqui pensando sobre o que fez.

— Está falando sério? Me tratar como criança não é a melhor maneira de ser legal. – Digo pronunciando as últimas palavras fazendo aspas no ar.

— Eu mando em você então tecnicamente eu posso te tratar assim.

— Disse que eu não era como uma mercadoria para você. – Sussurro.

— Não está me deixando escolha, Hannah. – Responde friamente retirando as chaves da maçaneta, saindo do quarto e me trancando ali como se eu tivesse feito algo incrivelmente errado.

Ouço o barulho da porta ser destrancada após horas presa ali e Taylor aparece me entregando um telefone, saindo dali tão rápido quanto entrou. Eu queria poder dizer a ela o quanto eu sentia muito e o quanto eu queria poder mudar tudo o que aconteceu. Queria poder abraçá-la e confortá-la, mas esse era um dos vários atos dela que comprovavam que ela não queria minha presença agora. Pego o telefone e o aproximo de meu ouvido. Um grande vinco se formando em minha testa.

— Alô?

Antes que desligue na minha cara e diga que não quer me ver nem pintado de ouro, eu exijo um motivo. Me encontre no primeiro hotel, na rua principal da entrada da cidade.

— Allan? – Sinto todo o meu corpo estremecer ao ouvir sua voz e saber o quão próximo ele estava de mim. – Como descobriu...?

Longa história. Mas não direi nada enquanto não ver você aqui.

O dia podia piorar mais? Observo a porta que dava para a sacada aberta e engulo em seco. Logan teria mais um motivo para me trancar naquele cômodo e eu precisaria de uma boa desculpa para que Allan fosse embora o mais rápido possível.