A Herdeira Da Máfia

8 VIII. Excuses and roses.


Eu estava sentada no grande sofá da casa de Lola. Alguns dos funcionários se acomodavam no chão, segurando uma bebida alcoólica e bebendo moderadamente. Taylor ria com as histórias que seu pai contava sobre acontecimentos antigos e era acompanhada por todos os outros ali. Me sentia uma completa estranha, mas ao mesmo tempo conseguia me sentir parte daquela pequena família.

— E então Hannah... Já decidiu quais serão os seus planos para esse novo ano? – Pergunta Lola e todos se calam direcionando os olhares a mim.

— Não. Para ser sincera, todos os meus planos foram para o lixo desde que minha mãe morreu. – Respondo sorrindo fraco ao me lembrar de nossas festas de ano novo.

— Ainda há chances de poder realizá-los. Sabe disso, não é?

— Conte para gente sobre eles, querida. – Pede o pai de Taylor com um sorriso no rosto.

— É. Conte. – Incentiva os outros.

Então eu sinto minha mente viajar e procurar lá no fundo, todos aqueles planos que foram jogados fora. Me lembro das cartas que recebi, sendo aprovada em todas as academias de dança. Meu maior plano. Um futuro tão bonito apagado pelo destino. Uma rápida imagem de como tudo seria se tivesse dado certo passa pela minha cabeça e, com isso, a repentina vontade de chorar. Saio às pressas dali, correndo até a praia que, agora, havia se tornado meu lugar favorito ali. Agarro minhas pernas e sinto as lágrimas derramarem com facilidade pelo meu rosto.

— Hannah... Querida. – Pulo ao notar a presença de Lola ali, com um olhar tão abatido quanto o meu. Ela realmente tomava a dor das pessoas para si. Parecia não descansar sem antes ver a felicidade estampada no rosto de todos ao seu redor. Sorri fraco enquanto ela me abraçava. – Vou te contar algo que inicialmente será difícil acreditar, mas não é nada além da realidade. A vida é longa demais. Eu também perdi a minha mãe muito nova, mas ela nunca esteve completamente morta, porque eu sempre preservei as lembranças, deixando ela viva dentro de mim. Pode achar que tudo está perdido agora e que jamais terá a chance de realizar os seus sonhos, mas está enganada. Tenha paciência... O tempo cicatriza e também traz momentos dos quais vale a pena. Digo isso por experiência própria.

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Enquanto os fogos iluminavam o céu deixando a paisagem praiana ainda mais bonita, eu desejei encontrar meu pai...

E desejei que ele se importasse comigo.

Fazia nove dias desde que não vejo Logan. Segundo minha mais nova amiga, ele havia viajado a negócios e havia dobrado a segurança para que nada de ruim acontecesse comigo. Comemorei o ano novo com os funcionários da mansão. Todos são animados e me impressiona muito a alegria de todos eles. Me permiti divertir após a contagem regressiva e apesar de tudo, consegui com sucesso aproveitar a noite.

Faz dois dias desde a festa e acho que nunca dormi tanto quanto hoje. Acordo me espreguiçando vagarosamente sentindo minhas costas estralarem, me levantando. Tomo um banho demorado, coloco uma roupa mais larga e faço minha higiene matinal. Saio do banheiro a tempo de ver Taylor entrar no quarto e abrir as cortinas, deixando a luz natural iluminar todo o cômodo.

— Bom dia, dorminhoca. – Sussurra com um sorriso animado no rosto quicando até mim. – Posso saber o motivo de não ter me chamado para preparar o seu banho?

— Por favor Taylor... Meus dedos não irão cair se eu encher a banheira. – Ironizo e ela revira os olhos.

— Hannah. – Ela chama minha atenção enquanto eu lhe ajudava a arrumar a cama. – Logan chegou de viagem e é para descer e almoçar com ele. A primeira vez que veio morar aqui e a exigência foi feita, ele decidiu esquecer a sua ausência, afinal, estava cansada da viagem. Mas agora, sem desculpas mocinha.

Assenti saindo do quarto e sentindo um arrepio indesejado em minha espinha. Parte de mim sentiu uma pontada de raiva ao notar que ele exigia almoçar comigo quanto não poderia ter jantado ao meu lado na ceia de natal. Atravesso o longo corredor e desço as escadas vagarosamente, sem nenhuma pressa de revê-lo. Meus pés cravam no chão quando chego até o batente da porta da sala de jantar e eu observo Logan, sentado na ponta da mesa lendo um jornal qualquer e com a comida intacta em seu prato. Havia outro ao seu lado e imaginei ser a minha refeição.

— Sente-se. – Ele diz ao notar minha presença e eu rapidamente acato ao seu pedido.

— Posso comer agora ou devo esperar uma exigência sua? – Pergunto secamente e ele deixa o jornal de lado, observando atentamente meus olhos. Analisando meu rosto e a tentativa inútil de estar séria para tal situação.

— Tem total acesso as comidas dessa casa. – Sussurra desviando o olhar do meu e bebendo um longo gole do vinho mais próximo.

— Finalmente algo que eu tenha liberdade de escolher. – Retruco pegando um garfo e começando a comer.

— Por acaso espera que eu pergunte o motivo de estar mal educada? Porque eu tenho uma ideia do que seja. – Diz depositando a taça na mesa e voltando a me encarar.

— Na verdade eu espero que note o quanto é chato ter alguém que só te trata de modo ruim e intimidante quando poderia simplesmente ficar calado ou procurar um assunto legal para ambos.

— Acredito que também espere que eu me desculpe.

— Talvez. – O interrompo soltando o talher e dando devida atenção a ele.

— Então não espere isso de mim. – Vocifera comendo mais um pouco. Sinto um grande nó se formar em minha garganta e eu engulo em seco. Meus olhos ainda vidrados em seu rosto quando noto que ele usava o presente que eu havia lhe dado.

— Gostou da gravata que eu te dei! – Aquilo soou como uma afirmação, mas eu só havia ficado feliz em vê-lo usando-a.

— O quê? Eu...

— Negue! Diga que é porque não há mais gravatas em sua gaveta e que foi obrigada a usá-la. Não vou acreditar em nenhuma desculpa que ousar dizer – Ironizo com um sorriso tímido.

— É uma bela gravata. – Bufa Logan se sentindo derrotado e meu sorriso se aumenta ainda mais.

Voltamos a comer silenciosamente e não demora muito para que eu termine. As comidas que Lola faz são deliciosas e a fome contribuiu ainda mais com a rapidez. Me retiro da mesa desejando um feliz ano novo atrasado a Logan e ele continua sério dando devida atenção ao seu prato.

— Hannah... – Ele chama minha atenção antes que eu subisse as escadas. – Taylor tem me informado sobre sua resistência em relação a não mobiliar seu quarto devidamente. Quero que vá hoje mesmo com ela para a cidade e vasculhe as lojas encontrando móveis e objetos dos quais goste.

— Eu não...

— É uma ordem.

— Claro. – Ironizo e ele se aproxima de mim, mas me afasto, dando passos para trás até sentir minhas costas contra a parede fria. Suas mãos rapidamente me prendem ali, impedindo que eu me esquivasse.

— Não se esqueça que eu comprei você. O que significa que é minha propriedade e quando mando fazer algo, deve cumpri-lo. – Sua voz sai como um sussurro e sinto minha respiração pesada ao ter seu rosto tão perigosamente próximo do meu. Ouvimos passos vindos da cozinha e sem nenhuma pressa, Logan se afasta de mim subindo as escadas e desaparecendo da minha vista.

Taylor aparece com um sorriso brincalhão no rosto. Ela havia ouvido tudo. E aconteceu exatamente como ela planejada: eu estava sendo intimada a decorar o meu quarto querendo aquilo ou não. Caminho até ela e a mesma me guia para fora da mansão.

— E aí... O que gostaria de comprar primeiro? – Sua pergunta sai ente risadas. Uma grande ideia surge em minha mente e eu fico tão animada quanto ela.

— Tinta.

— Tinta?

— Muita tinta. – Afirmo sorrindo ainda mais.

Passamos quase toda à tarde em lojas, e quando chegamos e eu corri desesperada em direção ao meu quarto, abrindo as latas de tinta e as embalagens que continham os pincéis. Eu tinha todo o cômodo em branco e um longo trabalho pela frente. Minhas mãos trabalhavam com suavidade entre os vários pincéis que compramos. O esboço do desenho estava no caderno que ganhei de Allan e Taylor observava abismada com tudo que eu já havia feito desde os dias em que estava aqui.

Me sentia uma criança que acabara de ter a chance de visitar o parque de diversões pela primeira vez. Sentia meu corpo vibrar a cada pincelada na parede, que agora, já possuía bastante cor. O pai de Taylor insistiu em me ajudar com o papel de parede e com a montagem dos móveis e estava quase tudo pronto. Comprei a maioria em um brechó e dei uma renovada depois.

Tudo que eu menos queria era gastar muito e já estava me incomodando ter que comprar aquilo. Já estava satisfeita só por dormir em uma cama confortável. Finalizo desenhando algumas flores com um pincel menor e me afasto para observar minha mais nova obra prima.

— O que acha? – Pergunto encarando Taylor que se levanta da pequena cadeira. Uma grande árvore repleta de galhos e apenas algumas flores preenchia quase toda a parede.

— Eu acho que você tem que desenhar algo para a parede do meu quarto. – Diz ela soltando um gritinho animado e me abraçando.

— Ficou tão bom assim?

— Está brincando? Você tem o dom. – Interrompe o pai de Taylor após observar a parede também.

— É só uma árvore. Não tem nada de especial nela. – Sobressaltamos ao ouvir a voz de Meredith entrando no quarto e eu me viro para encará-la sorrindo timidamente.

— É mais do que consegue desenhar irmã, vai trabalhar, vai. – Diz Taylor e seu pai dá uma risada fazendo a filha mais velha bufar.

— O que é isso? – Pergunto ao notar as várias rosas que ela segurava.

— Por acaso é cega?

— Essa probabilidade é tão impossível quanto a sua incapacidade de interpretar perguntas de forma correta. – Retruco e ela fica séria, jogando as rosas sobre minha cama.

— São do Logan. – Diz secamente, se virando e saindo dali.

— Do Logan? – A pergunta quase desaparece dos meus lábios quando me aproximo das rosas, pegando uma delas com cuidado e aspirando o cheiro doce de suas pétalas.

— É a forma que ele encontrou de te pedir desculpas. – Murmura Taylor soltando um suspiro e um vinco se forma em minha testa. Depois do ocorrido no natal, eu havia contado a ela tudo.

— Ele pedindo desculpas? Essa é a última coisa que eu espero vir dele. – Balbucio ao me lembrar do que o próprio havia dito.

— Quando fui buscar algo para lancharmos algumas horas atrás, Logan me perguntou o que você mais gosta. E eu disse que gostava de coisas simples.

— Por que não me contou isso antes? – Pergunto perplexa.

— Você não me questionou nada... – Diz dando de ombros e sorrindo.

Um sorriso involuntário brota em meus lábios e eu fico mais tempo do que posso contar observando aquelas rosas. Taylor pode me conhecer há pouco tempo, mas já sabia a minha paixão por gestos simples. E eu jamais havia recebido rosas de alguém, o que deixava aquele ato ainda mais encantador. Caminho para fora do quarto deixando minha amiga e seu pai ali. Meus passos agora estavam apressados. Desço às escadas, pronta para ir até Lola perguntar sobre Logan, dando de cara com o mesmo no andar de baixo, parado observando a vidraça que dava a ampla visão do jardim que tinha no lado de fora.

— Devo concluir que não é mal educado o tempo todo com suas visitas ou eu estaria sendo precipitada? – Pergunto de forma irônica sorrindo educadamente.

— Se eu disser que você está sendo precipitada em pensar dessa forma, mudaria seu modo de pensar? – Devolve a pergunta e eu dou de ombros.

— Não.

— Então pense nessas rosas da maneira que desejar. – Diz calmamente ainda observando o jardim.

— Sendo assim... – Caminho calmamente até o toca disco que havia ali e o ligo. Uma música calma soa em meus ouvidos e aumento um pouco o volume. – Dance comigo.

— O quê? – Logan se vira me encarando confuso.

— Dance comigo. – Repito baixinho.

— Sem chance. Eu não sei dançar. – Confessa voltando a encarar a vista do lado de fora e eu me aproximo vagarosamente.

Meus pulmões pareciam ter se esquecido de como era respirar quando finalmente ficamos a um palmo de distância. Minhas mãos suam ao entrar em contato com as dele e elas se entrelaçam em um encaixe perfeito. Logan se vira e eu rapidamente conduzo sua outra mão para minhas costas e sinto-o me puxar para mais perto. Descanso meu rosto mais uma vez no largo espaço entre seu ombro e pescoço começamos a balançar de um lado para o outro vagarosamente.

— Viu só... Você está dançando. – Sussurro próxima de seu ouvido o guiando pelo cômodo. Minha mente gritava de felicidade. Eu estava dançando. Algo que não fiz mais desde que contei a minha mãe sobre o ocorrido no baile. Não podia me sentir mais viva só por estar me movimentado por alguns segundos. Volto à realidade ao notar que Logan se afastara de mim e agora encarava o piso amadeirado do chão.

— Eu não posso. Eu simplesmente não posso.

— Dançar? – Pergunto em um estado de completa confusão.

— Me importar.

Fico paralisada no exato lugar que ele havia me deixado sem entender nada do que ele queria dizer com aquilo. Decido não pensar demais e vou para o meu quarto agradecendo eternamente ao ver tudo arrumado e em seu devido lugar. Taylor provavelmente era a culpada por toda aquela organização e anoto mentalmente o agradecimento a ela. Corro para o banheiro tomando um banho gelado, coloco um pijama e meu corpo se envolve no conforto das grossas cobertas assim que me deito na cama. Observo o vaso com as rosas de Logan no criado mudo e praguejo baixinho ao notar que eu estava pensando no acontecimento de novo. Estava ficando cansativo interpretar as ações dele. Sinto o sono se aproximar, fechando os olhos devagar após desligar a luz do abajur.

Sonho com ele. E com seus lábios pressionando os meus com delicadeza e seu corpo totalmente próximo do meu. Eu estava atraída por Logan Porter mesmo com seu jeito rude e misterioso.

E desejei, com todas as forças, que esse sentimento não passasse disso.