A Herdeira Da Máfia
5 V. Home, Sweet Home.

Desde que o funcionário do homem que acabara de me comprar foi embora, Charlie tem me bajulado mais que o normal. Desde um pijama de seda caro para minha última noite neste lugar, até mesmo um banho de espuma na enorme banheira do casarão.
Não tive a oportunidade de aproveitar tais luxos porque minha cabeça estava ainda mais bagunçada, quando eu imaginava que seria impossível. Só queria que tudo isso acabasse...
Que eu acordasse no meu velho quarto ouvindo a voz confortante de minha mãe, então eu iria lhe contar sobre esse pesadelo e daríamos risadas por eu ter sonhado algo tão idiota. Agora, mais do que nunca, sentia falta do velho abraço acolhedor de Chloe Thierry.
Eu estava deitada em uma cama confortável no quarto de hóspedes da casa de Charlie, encolhida embaixo de várias cobertas grossas encarando o teto a mais tempo do que posso imaginar. Tenho revirado na cama esperando o sono me consumir e eu mais uma vez sonhar com um rumo diferente do que a vida agora, me obrigava a ir.
O quarto é repleto de cores claras como o bege, e os móveis planejados amadeirados. Uma grande cama no centro com uma cabeceira enorme que, por sinal, separa o lugar do closet. Logo em frente ao móvel, uma grande estante acompanhada de uma televisão e ao lado, uma porta que levava ao banheiro.
A escuridão predominava enquanto eu me perdia em milhares de pensamentos confusos, tentando inutilmente uni-los e deixá-los de forma coerente.
Todos eles me levavam a uma única pessoa:
Logan Porter.
Eu sentia minha pele arder. O medo tomar as rédeas de todas as situações mesmo quando parte de mim dizia que tudo ficaria bem. O que me deixa ainda mais assustada, afinal, quando tento ter o mínimo de positividade, as coisas só pioram. Está aí uma coisa que aprendi após tantos tombos.
Charlie e o funcionário de Logan combinaram de que o motorista me buscaria amanhã bem cedo. Aquilo me levara a crer que ele é rico demais para se importar comigo ou a que horas chegaria finalmente em sua casa. Stella ainda teve a coragem de me pedir desculpas mais uma vez. Eu só conseguia sentir nojo ao olhar seus olhos e não notar um pingo de remorso, mesmo com ela dizendo possuir tal sentimento. Já me sinto uma guerreira só por conseguir encará-la.
O estrondoso barulho de trovões, anunciando a forte chuva que iria cair, fez com que eu praticamente pulasse da cama, engatinhando para fora do quarto. Antes, eu procurava pelo conforto de minha mãe e agora, só me restava Allan. Mas por pouco tempo.
Sabia exatamente onde era seu quarto e não perco tempo correndo desesperada pelo longo corredor até a sua porta. A escuridão me fez dar belos tombos durante minha corrida e temo ter feito mais barulho do que eu devia. Bato na porta apressadamente e abro ao ouvir seu resmungo correndo até sua cama e pulando em seus braços sentindo todo o meu corpo tremer. Estava ofegante, o que faz Allan soltar uma de suas longas risadas.
— Desculpe. – Sussurro engolindo em seco enquanto ele me puxa para perto e me aconchego em seu ombro. – Você estava dormindo?
— Não consegui dormir depois do que aconteceu. – Responde me apertando mais contra si.
— Eu também não. Deveria ter imaginado algo do tipo... Charlie estava sendo tão legal comigo. Sabemos muito bem que ele não é assim com as pessoas que não são úteis para ele.
— Nunca vou perdoá-lo. – Murmura fazendo desenhos invisíveis em meu braço. – O que ele fez foi, literalmente...
— Allan. – Interrompo-o procurando por seus olhos no escuro, queria poder encará-lo agora. Mordo o lábio inferior temendo sua resposta. – Eu estou com medo. Como nunca senti antes. E é por isso que quero fugir assim que eu chegar em meu novo lar. Mas vou precisar de ajuda. Será que...?
— Ainda pergunta? Claro que eu te ajudo Hannah. Estava enlouquecendo ao pensar que você estaria nas mãos de um velho idiota viciado em sexo. – Diz ele, se animando um pouco mais.
— Assim que eu chegar mando uma mensagem para você com o endereço e quero que envie um táxi para lá meia noite. Não vou nem desarrumar as malas.
— E depois?
— Depois o quê?
— Você, Hannah. O que fará depois disso? – Balbucia como se eu fosse uma tapada.
Para ser sincera, eu não havia pensado naquilo. O que me deixa ainda mais brava por não encontrar uma solução para tudo. É tão difícil simplesmente pular toda essa etapa e ir direto para o final feliz? Estou de saco cheio de tudo o que está acontecendo. Estou de saco cheio de sentir medo e saudade.
— Não sei... Eu me viro. – Minto e fica claro que ele nota, mas não comenta sobre isso, afinal, é algo que não deveria ser prioridade agora.
Pela grande janela de seu quarto, podíamos notar que estava amanhecendo, os trovões haviam parado assim como a chuva que não foi tão forte, e só agora senti sono, praguejando baixinho por isso. Vejo de esguelha que Allan também estava observando aquela direção e ficamos ali... Completamente em silêncio apreciando a presença um do outro enquanto o Sol mostrava seus primeiros raios de luz. O plano poderia não dar certo e eu nunca mais iria ver meu melhor amigo. Então ele sorri e assim que eu o encaro, seu sorriso se torna uma gargalhada, daquelas que fazem a barriga doer e eu arqueio a sobrancelha.
— Estava pensando... – Diz antes que eu lhe fizesse qualquer pergunta. – Somos amigos mesmo.
— Por que está dizendo isso?
— Veja por este lado: assumo ser um idiota com garotas, porque mesmo eu dizendo a elas que é só por uma noite, consigo alimentar seus corações amargurados. – Reviro os olhos ao ouvir seu discurso dramático e acabo dando uma risada. – Estava à noite, você está assustada, confusa e... Nem se quer pensei em ficar com você.
— Pensando por este lado... – Concordo sorrindo e beijando sua bochecha. – Obrigada Allan. Por tudo.
— Vai dar tudo certo. – Me incentiva ao notar o que passava pela minha cabeça. – Se não der, daremos um jeito. Sempre demos um jeito.
Sorri assentindo e saindo do quarto antes que Charlie acordasse e ficasse louco ao me ver ali com Allan. Digamos que a mente dele é suja demais para pensar que simplesmente conversamos até amanhecer. Tomo um banho relaxante e tento espantar o sono. Me encaro no espelho após colocar um short claro, um pouco rasgado na barra; uma blusa branca; uma camisa xadrez de cor verde e uma sapatilha preta. Eu precisava ser forte agora. E, pela primeira vez, precisava ser forte por mim e não pela minha mãe.
Ouço o barulho da porta ser aberta e um Charlie sorridente passar por ela me puxando para fora dali e se oferecendo a segurar minhas malas. O motorista havia chegado. Desço as escadas com tanta calma que até estranho o homem ao meu lado não ter reclamado. Vejo um homem de porte alto entregando uma maleta enorme para Stella. Então seus olhos se encontram com os meus e ele fica sério, me analisando por um bom tempo. Meus pés travam no chão ao ver Carl correndo em minha direção aos prantos e me abraçando.
— Você está indo embora. – Grita irritado e eu me abaixo sentindo seus bracinhos em volta de meu pescoço. Encaro Stella de esguelha que o observava completamente perplexa por vê-lo ali e chateada por saber que ele está triste... E a culpa é toda dela. – Por que está indo embora?
— Filho, Hannah precisa ir agora...
— Não. Por que está indo embora? – Pergunta novamente ignorando os murmúrios da mãe que agora me encarava com intensidade temendo que eu o envenenasse contra ela. Suspiro pesadamente.
— As coisas são complicadas pequeno. Você um dia talvez entenda. – Respondo da forma mais vazia possível.
— Mas eu quero entender agora. – Ele faz muxoxo e quero chorar afinal, eu também era muito apegada a ele. Querendo ou não...
— Nem tudo acontece no tempo que queremos Carl. Deus sabe como eu queria que as coisas fossem assim. – Sussurro e enxugo algumas lágrimas de seus olhos.
— Vou ver você de novo? – Funga já se afastando e indo até Stella que me pareceu agradecida. Eu não estava fazendo aquilo por ela, que sabia muito bem disso, mas não queria que o filho soubesse que contribuiu para minha ida. Para ser sincera, eu também não queria.
— Eu espero. – Digo me afastando e pegando minhas malas quando o motorista me impede.
— Desculpe senhorita Thierry, mas Logan foi claro ao dizer que, desse lugar, levaria somente você. Já tem bastante roupa em seu novo lar. – Murmura o homem e eu estremeço ao ouvir aquela frase.
Algumas das prostitutas que restaram naquele casarão entram no cômodo e corro até elas lhes dando um longo abraço. Todas inconsoláveis com o ocorrido da noite passada, mas o que elas poderiam fazer? Nada do que eu já não havia tentado. Sentiria falta das bagunças e das conversas que tínhamos durante seus “intervalos”. Allan também aparece me dando um rápido abraço. Ele sabia que eu odiava despedida.
— Ei... Vou sentir sua falta. – Sussurra e eu o abraço mais uma vez. Sinto suas mãos deslizando até o bolso do short e depositando um objeto ali. – Consegui esse celular e gravei o meu número nele, assim que enviar a mensagem esmague-o.
Assenti e me afastei sorrindo timidamente.
Caminho até o carro onde o motorista já me esperava e entro me acomodando no banco de couro. Coloco o cinto de seguranças e observo pela janela eu me afastando do bordel. E eu choro, sem me importar com a presença do homem no banco da frente, que é gentil ao me oferecer um lenço e não pronunciar nenhuma palavra me deixando simplesmente viver aquele momento desagradável sozinha. Agradeço por aquilo mentalmente. Não tinha idéia do que seria de mim nos próximos dias, semanas, meses...
Me irritava não ter controle disso. Me irritava ver que eu iria morar com um desconhecido e ser obrigada a esquecer a academia de dança que eu tanto sonhei em fazer. Já tinha até mesmo conseguido uma bolsa e nem tive tempo de contar tal novidade a Chloe. Queria que fosse surpresa e contaria alguns dias depois de sua morte. Noto somente depois de meia hora que estávamos fora de minha cidade. Nunca havia viajado e me permiti aproveitar aquilo observando a paisagem do lado de fora.
Paramos em algumas cidades e comemos alguma coisa antes de partir para a estrada mais uma vez. A ansiedade aumentando cada vez mais. Estava a poucos minutos de conhecer o famoso Logan Porter. Aquele que me comprou por cem milhões de dólares quando eu jurava que seria comprada por uma mixaria.
Cochilo por algumas horas, mas acabo acordando ao ver o motorista falar com alguém no telefone dizendo que havíamos chegado. Encaro a janela observando a grande placa da entrada da cidade. Alguns metros a frente havia uma grande mansão com um belo jardim a frente.
Uma garota estava sentada na escadaria e observa o carro passar pela sua propriedade com cuidado. Seus cabelos eram castanhos, quase negros e um homem se aproxima dela lhe arrancando um sorriso no rosto. Meus olhos observavam cada canto daquela cidade nova e que ainda era estranha para mim. Demoramos mais uma hora atravessando toda a cidade. Eu via as pessoas em suas rotinas, as casas humildes e outras mais luxuosas.
Então o carro vira e para em frente a um grande portão preto de grades. Aquilo era definitivamente assustador e muito comum em filmes de terror. Não sei por que estou tão espantada, afinal, eu estava realmente vivendo em um filme de terror. A diferença é que eu não ganho nada por isso.
Um interfone estava localizado ao lado do mesmo e o motorista nem desce, pois eles se abrem como se estivessem nos esperando. Havia uma estrada. Longa e demorada, com a paisagem mais perfeita que eu já vi em toda minha vida. Aquilo sim era um jardim bem cuidado. Sinto minhas mãos esfriarem quando ele para o carro em frente ao meu novo lar.
A casa era grande. Extremamente grande e de um tom pastel. Desço do automóvel e meus pés cravam no chão. Ladrilhos faziam um pequeno caminho até a entrada e no meio havia um chafariz enorme. Entramos no casarão que mais parecia um verdadeiro castelo medieval e sinto meu coração parar em minha boca. Meus olhos percorrem por todo o cômodo, vendo somente funcionárias ali que sorriam de modo educado. Encaro então as escadarias e até onde as mesmas chegavam, e nada de Logan. Bufo e me sinto uma tola em imaginar que ele seria educado o suficiente para aparecer e se apresentar.
— Olá senhorita Hannah... Sou Meredith, a governanta da casa. – Ela sorri educadamente estendendo a mão para mim, mas eu estava tão inerte na beleza daquela casa e toda aquela organização que minhas mãos não se moveram um centímetro e a mulher se afasta pigarreado. – Esperamos que se sinta extremamente confortável aqui.
— Onde ele está? – Pergunto baixinho a interrompendo.
— No momento, ocupado. Mas você o verá no almoço... Pelo menos foi o que ele informou. – Responde parecendo ter todas as respostas para qualquer pergunta que eu faça.
— E se eu não estiver com fome?
— Simplesmente o acompanhe no almoço.
— E se eu não quiser?
— Hannah, querida... Esperamos que se sinta confortável, mas não tanto a ponto de ser tão petulante. Logan quer que você almoce com ele. Se não estiver com fome, é melhor que coma mesmo assim. Torrar a paciência dele agora não é um bom momento. – Diz já se estressando e perdendo sua compostura, respiro fundo não me sentindo nem um pouco confortável com todos aqueles olhares sobre mim. – Esses são os criados da casa. Taylor é minha irmã mais nova e é de sua total exclusividade. Ela irá lhe mostrar seu quarto e as regras da casa...
— Regras?
— Bem-Vinda ao lar Hannah Thierry. – Vocifera, ignorando o fato de eu tê-la interrompido mais uma vez, e saindo dali exigindo que os “empregados” voltem aos seus afazeres. Todos fazem o mesmo que ela enquanto apenas uma garota se aproxima de mim animada me puxando escada acima.
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