A Herdeira Da Máfia
24 XXIV. Long May They Reign.

SOPHIE
Nunca estive tão nervosa em toda minha vida. Minhas mãos soavam frio enquanto Anthony e eu caminhávamos lentamente até todos notarem a nossa presença e ele me parar instantaneamente. Eles se levantam e toda a conversa cessa. Vários pares de olhos estão voltados para mim e engulo em seco. Havia meses que eu me preparava para toda aquela atenção, mas tudo era muito diferente na prática. Sinto meu estômago revirar, fora a vontade de sair correndo.
Fecho os olhos por alguns segundos para respirar fundo e quando os abro, toda minha visão se foca na imagem de Ethan a poucos metros a minha frente. Meus pés automaticamente se movem em sua direção sentindo uma paz interior cada vez que eu me aproximava. Um sorriso escapa dos meus lábios. Ele realmente estava lindo de terno. Os olhos cinzas brilhando e me observando como uma águia avistando sua presa.
Sua postura inconfundível e o rosto sem demonstrar nenhuma expressão, mas depois de tanto tempo vivendo ao seu lado, sabia que estava tão feliz quanto eu. Quando dou por mim, nossas mãos já estavam entrelaçadas e eu já estava no altar. Confesso que não prestei a mínima atenção no padre a nossa frente, meus olhos estavam simplesmente ligados aos de Ethan. Era um momento nosso, então foi fácil esquecer as pessoas atrás de nós.
— Sophie Hamswere, você aceita Ethan Gavin Brian como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo até os último dias de sua vida? – A pergunta do padre me desperta, e Ethan espera pacientemente minha resposta.
— Sim. – Minha voz sai em um sussurro e meus olhos vão em direção a Blair que se segurava para não chorar, não pelo casamento, mas por lembranças de um passado bom. Sabia disso. Anthony continuava com sua postura de impenetrável, queria confortá-la, mas era ele o motivo de todo o desconforto, então, como ajudar? Estava travando uma batalha interna em silêncio encarando algum ponto a longe.
— Ethan Gavin Brian, você aceita Sophie Hamswere como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la até os últimos dias de sua vida? – O homem pergunta se virando a Ethan que me encara dando seu velho sorriso de lado.
— Sim.
— Pelo poder em mim investido, eu os declaro marido e mulher. – Meu sorriso se abre ao ouvir aquele som, aperto sua mão com força contra a minha demonstrando confiança. – Pode beijar a noiva.
Ethan envolve seu braço em minha cintura com delicadeza, colando nossos corpos. Uma de suas mãos acariciam minhas bochechas, me forçando a encará-lo. Então nossos lábios se colam com delicadeza em um beijo cálido. A salva de palmas que recebemos me fez afastar rapidamente sentindo minhas bochechas esquentarem.
— Você está linda. – Sussurra próximo ao meu ouvido tentando inutilmente me fazer esquecer da multidão. Sorri.
— Você é lindo, mas ficou ainda mais com esse terno. – Digo fazendo ele soltar uma risada. Anthony desaparece voltando alguns minutos depois com um segurança que acompanha o padre para longe da festa e um vinco se forma em minha testa.
O ritual de iniciação era mais difícil do que eu pensava. Sinceramente, acho que precisava ter me preparado mais para ele. Todos os mafiosos aliados a Anthony continuava no lado de fora da casa enquanto tudo era preparado. Lá estava eu no quarto, me arrumando mais uma vez. Hannah agora estava ao meu lado e por esse motivo, Blair passou longe do cômodo. Me sentia mal por ficar entre as duas. Ela me ajuda dando os últimos ajustes no vestido. Ele era preto. Ia até os joelhos, tinha mangas que terminava nos pulsos com leves detalhes e o vestido era rendado por inteiro.
— Obrigada por me ajudar. – Sussurro e ela sorri fraco.
— Obrigada por não me olhar torto e por me permitir ajudar. – Sussurra de volta ajeitando a barra do vestido. Ela se levanta, soltando o penteado que estava em meu cabelo, deixando cachos nas pontas.
— Blair está brava, e em momentos como esse, fazemos e dizemos coisas sem pensar. É normal. – Digo tentando confortá-la. – Aposto que serão grandes amigas. Todas nós seremos grandes amigas.
— Se ela continuar com Anthony. – Conseguia ver em seus olhos verdes, o quanto estava mal.
— Temos que ter fé. – Suspiro pesadamente. Assim como ela, não queria que isso acontecesse.
— Eu nem entendo mais minha própria fé. – Hannah caminha até a mesa, pegando um batom escuro e retocando em meus lábios. Espero ela terminar pacientemente.
— Viu Logan hoje? – Pergunto desviando o assunto, acreditando que aquilo a animaria, mas aconteceu o completo oposto. Me xingo mentalmente por ter esquecido do ocorrido há três anos.
— Vi sim, de longe... Apesar de querer muito tê-lo visto de perto. – Sussurra com um sorriso no rosto. – Acho que fiquei tanto tempo afastada que já não sei mais como me portar diante dele. Muito menos o que falar na presença dele.
— Isso são detalhes. Descobrirá algo para dizer assim que vê-lo. – Digo tentando passar alguma confiança. – Ele é um mafioso. E um cabeça dura. Se tem duas coisas que entendo, são essas.
— Tem brigado com Ethan por minha causa, não é? Aposto que só me aturou no casamento depois de longas horas de briga.
— Na verdade, não. – Murmuro. – Depois de certa insistência, consigo convencê-lo.
Ela respira fundo indo em direção a janela e ouço duas batidas na porta. Grito para que entre enquanto coloco brincos mais delicados e Ethan aparece com um sorriso que logo desaparece.
— Está na hora. – Murmura sério sem tirar os olhos de Hannah. Era notável o desconforto dela então me levanto o abraçando e dando um suave beijo em sua bochecha.
— Um sorriso nos seus lábios agora me faria tão bem. — Me afasto por alguns segundos e encaro seu olhar com intensidade. Arqueio as sobrancelhas e antes mesmo que eu protestasse, ele sorri.
— Vamos logo. – Diz me puxando, mas rapidamente para. – Você também precisa estar lá.
Hannah engole em seco assentindo e se levantando, indo logo atrás de nós. As mãos de Ethan seguravam as minhas com força enquanto descíamos as escadas. Blair e Anthony estavam no andar de baixo e a discussão entre eles cessa quando nos vê ali. Sorri tentando quebrar o clima de tensão que havia ali e ousei encarar Hannah, que parecia ainda mais desconfortável com toda a situação. Blair usava um vestido preto também, só que mais colado ao corpo e bem mais longo. Seguimos juntos em direção ao lado de fora e paramos quando já estávamos no centro do evento. Todos ali elegantemente vestidos. Era incrível o quanto Blair e Anthony eram bons atores. Os largos sorrisos me faziam pensar que realmente estavam felizes. Havia uma mesa, com um punhal e dois revólveres simples, o que me fez engolir em seco. Os homens ali nos encaravam sérios.
— Hoje, é provavelmente um dos dias mais especiais que um pai espera durante todo o processo de criação do filho. Logicamente, esperava que isso demorasse mais um pouco, mas a vida pede que sejamos rápidos. Blair e eu nos curvamos como chefes da máfia e nos erguemos como conselheiros de nosso filho e nora. Sophie e Ethan se curvam como soldados e se erguem como os novos chefes da máfia Gavin Brian. – Grita Anthony fazendo os outros aplaudirem.
Então Benjamim aparece, sorrindo para nós dois. Fazia tempo que eu não o via e sinceramente, sentia falta da presença dele e de conversar com ele apesar de só termos conversado uma vez.
“– Ethan... – As palavras pareciam não querer sair e Ethan segura meu rosto delicadamente com as mãos, me obrigando a encarar aqueles olhos cinza que eu tanto admirava.
— Eu sei... Sophie, eu...
— Não prometa. Apenas volte. – Murmuro interrompendo-o. Seus dedos passeiam pelas minhas bochechas enxugando as lágrimas que escorriam no local e ele sorri.
— Ethan, precisamos ir agora. – Grita Benjamim ao ver algumas viaturas de aproximando.
Mas ele não respondia Benjamim, apenas me encarava como se decorasse cada canto do meu rosto. Como se fosse à última vez que tivesse a chance de fazer isso, mas parte de mim acreditava que aquela jamais seria a última vez. Seus lábios se aproximam dos meus suavemente, pedindo passagem e aproveitei para me lembrar do gosto de seus lábios sobre os meus.”
— O ritual deveria ser na presença dos três grandes, mas infelizmente, meu pai, Christian, veio a falecer e só restam dois de nós. Benjamim e eu. Esperamos que ele esteja orgulhoso se existe um céu ou um inferno, afinal. Seguranças, tragam dois dos traidores. – Grita Anthony por fim e dois homens aparecem sendo carregados pelos capangas dele. Todos muito machucados e sinto um arrepio na espinha. – Esses dois são infiltrados da Cosa Nostra e tentaram descobrir o meu paradeiro. Mas não foram informados que... Quem descobre meu endereço, morre imediatamente. Só espero que se sintam honrados por morrer durante um ritual importante como esse.
Um vinco se forma em minha testa ao ouvir as palavras dele, mas era claro que aquilo tinha a ver com o que iríamos descobrir em breve. Ethan solta minhas mãos e eu o encaro confiante, assentindo para ele dizendo silenciosamente que eu estava pronta. Pelo menos, eu precisava estar. Caminhamos em direção a mesa que havia no canto, pegando um revólver. Os capangas de Anthony jogam os homens com brutalidade no chão e se afastam.
Ethan e eu ficamos um pouco distante dos traidores e destravamos as armas quase que automaticamente. Miramos em direção aos homens que nos encaravam com ódio e nojo nos olhos. Atiramos praticamente juntos, acertando em cheio a cabeça deles. Dois dos capangas se aproximam, arrastando os corpos até ficarem bem em nossa frente. A visão deles ali não era nem um pouco bonita, e me seguro para não fechar os olhos. Precisava ser firme. Anthony pega o punhal se aproximando de Ethan que estende a mão para o pai.
— Esta casa tem como função proteger o fraco do poderoso. – Sussurra ele furando o dedo de seu filho. Rapidamente se aproxima de mim, ditando as mesmas palavras e fazendo um pequeno furo em meu dedo, com mais delicadeza. Sinto uma leve ardência que rapidamente desaparece. Já tive machucados maiores que aquele.
Blair se aproxima segurando a imagem de dois santos, entregando uma para mim e outra para Ethan. Deixamos alguns pingos de sangue cair sobre a foto. Sempre fui muito religiosa e minha religião não achava uma imagem tão sagrada quanto os católicos, mas... Ter que queimar aquela foto era doloroso e fazia meu estômago embrulhar. Entretanto, tinha que entender uma hora ou outra que na máfia não existe céu ou inferno. Deus ou o diabo. Existia uma sociedade, uma política criminosa e o que a religião pregava e acreditava eram apenas palavras para pessoas como nós. Caminhamos calmamente em direção aos homens mortos, cada um de nós segurando um isqueiro. Ascendo-o, ateando fogo na imagem e a segurando com firmeza.
— Juram solenemente manter os princípios da máfia? – Pergunta Benjamim com firmeza.
— Sim. – Ethan e eu dissemos juntos, jogando as imagens sobre os corpos e esperando alguns segundos para que o fogo se alastrasse. – Que nossa carne queime como esses santos e esses corpos se falharmos em manter o juramento.
— Aos aliados, soldados e conselheiros... Vocês têm novos chefes agora. – Diz Anthony com um sorriso no rosto e todos ali presente batem palmas.
— Vida longa ao rei e a rainha. – Sussurra Benjamim próximo a nós nos arrancando uma risada.
— Cala a boca. – Ethan murmura de volta.
— É um prazer em rever você também. – Diz ele piscando para meu marido. Um sorriso se forma em meu rosto ao pensar em Ethan daquela maneira. Afinal, é o que ele é agora. Me acostumaria facilmente com aquilo.
HANNAH
Entro para a casa de Anthony assim que vejo Sophie e Ethan prestes a matar alguém. E também porque eu não aguentava mais os olhares. Com certeza todos ali sabiam da novidade, mas não ousaram falar algo sobre o caso. Descer as escadas e ver meu pai e Blair brigando por minha causa doeu, o que fez eu me segurar para não dizer algo a respeito. Ouço o barulho das salvas de palmas. Agora eles teriam aquelas festas luxuosas do lado de fora. Tudo foi organizado em volta da piscina e eu fiquei cansada de fingir que tudo estava bem. Que eu estava bem.
Porque aquilo não chegava nem perto da realidade. Respiro fundo, certificando que tudo estava bem fechado e subindo as escadas em direção ao meu quarto temporário. Já no andar de cima, ouço o barulho de uma porta sendo fechada e fico em alerta olhando para trás em direção as escadas. Estava tudo escuro no andar de baixo então era difícil ver se tinha alguém realmente vindo. Me viro pronta para ir para o meu quarto dando de cara com um homem. Já ia gritar quando uma de suas mãos vem em direção a minha boca e a outra segura meu pescoço com força.
— Vida longa a família Baldocchi no comando da Cosa Nostra. – Sussurra ele próximo ao meu ouvido.
Estava entrando em desespero, esmurrando ele com rapidez, mas o mesmo parecia não sentir nenhuma dor. Acho que deveria ter aprendido a lutar também afinal, não é toda hora que se tem uma arma. O homem me encara com os olhos queimando de ódio e não havia nem uma brecha para que eu pudesse morder sua mão e sair gritando depois de chutá-lo. Meus pés não alcançavam o chão e eu senti o ar se esvaziar dos meus pulmões aos poucos. Meus olhos já reviravam quase se fechando quando escuto o barulho do tiro e o homem cai mole sobre mim no chão. Empurro-o longe dando de cara com Logan.
— Você está bem? – Pergunta ele friamente me encarando com intensidade. Se eu estava bem? Era difícil responder naquele ponto.
Quase morro enforcada e foi preciso uma situação como essa para poder encontrá-lo, ficar frente a frente. Meus olhos o encaram com cuidado e uma vontade de abraçá-lo parece incontrolável, mas lembro aos meus instintos que ele quis que eu fosse embora. Ele aceitou isso normalmente. Assenti ainda assustada com a visão do corpo ensanguentado no chão. Logan já ia saindo de lá, descendo as escadas e eu o sigo.
— Onde está indo? – Apesar dos acontecimentos nos últimos três anos, o que eu menos queria era ficar sozinha agora.
— Seja lá o que Anthony está escondendo de todos nós, precisa contar agora. O tempo que demos a ele acabou. – Murmura secamente e eu paro deixando ele ir.
Onde será que meu pai se meteu? Engulo em seco enquanto um milhão de possibilidades surge em minha cabeça.
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