A Herdeira Da Máfia

10 X. A Good Night Kiss.


— Você não pode fazer isso... Está me ouvindo? É a vida de alguém. Tem ideia da importância disso? Fora que isso dá cadeia! Você pode ser preso e o que eu menos preciso agora é de ser vendida para outro homem. Quer dizer, não que seja legal viver com você ou algo relacionado, mas é bem melhor do que ser estuprada por um velho louco por sexo. De qualquer forma, ver você matar uma pessoa não parece nada legal, eu não estou acostumada com esse tipo de coisa sabe... Eu acho que deveríamos...

— Poderia calar a porra dessa boca por um minuto? – Logan se segura para não gritar e sinto meu corpo inteiro se arrepiar com a agressividade estampada em sua voz.

— Não até convencer você de que está prestes a fazer burrada. Aliás, como pode ter tanta certeza de que Wren está aqui? Como pode saber que ele já estudou comigo e estava no bordel durante todo o ocorrido? – Um milhão de perguntas se formavam em minha cabeça e era impossível colocar todas para fora de uma vez só.

— Sou um mafioso Hannah. Nunca subestime um mafioso. – Responde todas as perguntas de uma vez só e bufo por ainda não compreender nada mesmo depois de obter uma resposta.

Me sentia uma garotinha no pré, com a grande dificuldade de decorar o alfabeto. A minha dificuldade era um pouco maior. Decifrar um mafioso é mais difícil do que eu pensava, principalmente quando ele era fechado demais às minhas perguntas. Estávamos na porta de uma grande fábrica abandonada, escondida no meio de uma floresta sombria e com mais obstáculos do que pude contar. O local tinha um cheiro nojento, e a maioria dos muros e grandes portas eram mofadas e desgastadas, trazendo uma velha lembrança de meu antigo lar. Estamos andando há tanto tempo que já sentia minhas pernas implorarem por uma pausa e como se lesse meus pensamentos, Logan para e segura meu braço para que eu também não desse mais um passo. Agradeço-o mentalmente.

— O que foi? – Pergunto baixinho ao notar seu olhar pesado sobre a fábrica.

— Há mais pessoas aqui. – Estremeço e meu corpo se projeta para trás de seu corpo, como se ele fosse me proteger de qualquer coisa que fosse aparecer. – Seis na entrada e provavelmente, milhares na fábrica. Sabiam sobre nosso próximo passo.

— Logan... – Seu nome sai automaticamente de meus lábios ao ver alguns dos homens se aproximando do local onde estávamos. Ele retira o celular de seu bolso e me entrega com cuidado.

— Quero que volte para o carro, procure na lista o nome de Anthony Gavin Brian e ligue para ele. Diga quem é, avise onde estamos...

— Logan...

— Só faça isso, Hannah. – Sussurra.

Assenti rapidamente sentindo meus olhos arderem, meu corpo todo travado naquela floresta, não suportando o fato de abandoná-lo ali. Sigo o olhar de Logan até a grande janela que havia no possível andar de cima da fábrica e minhas mãos tampam minha boca, sabendo que eu poderia gritar a qualquer momento. Respiro fundo e aos poucos, relaxo me afastando sem tirar os olhos dele. Ouço barulho de tiros vindos do lado de dentro daquele lugar e corro sem olhar para trás. A distância até o carro era mínima quando chego até a estrada.

Me viro por alguns segundos e nem sinal de Logan.

Os barulho dos tiros ainda atormentando meu ouvidos e não me lembro mais quando comecei a chorar. Sabia muito bem que, se eu voltasse, e ele realmente tivesse sido capturado ou até mesmo morto, não conseguiria salvá-lo de maneira alguma. Entro no carro e me abaixo, ficando longe da visão daqueles que pudessem descobrir minha presença. Minhas mãos tremiam e eu mal sabia o que pensar ou como agir. Tudo que eu sabia era chorar. Meu consciente gritava para eu fizesse alguma coisa, antes que Logan morresse assim como minha mãe. Seguro o celular com força, suspirando pesadamente e engolindo o choro. Procuro aquele nome desconhecido na lista e o encontro, ligo para o número, que rapidamente atende.

— Logan, aconteceu alguma coisa com...

— Anthony. Sou uma... – Prisioneira? Amiga? Simplesmente não sabia como me classificar em relação a esse assunto. – conhecida do Logan. Estamos em uma fábrica abandonada e...

— Hannah! – Sua voz, que antes possuía uma leve irritação, estava calma. E, sem querer, acabou me acalmando também. Um vinco se forma em minha testa ao ver que ele sabia meu nome. Talvez Logan tivesse falado de mim. Algo que é impossível, mas é a única coisa que passa pela minha cabeça, afinal, não poderia haver outra hipótese. O barulho de um tiro próximo faz com que eu sobressalte e solte um grito agudo. – O que está...?

— Eu não sei quem é você ou porque diabos Logan pediu que eu te ligasse... Mas ele precisa de ajuda. Por favor. – Sussurro.

— Então o plano falhou. Eu avisei para ele deixar você em um lugar seguro, droga. – Grita ele do outro lado da linha.

— De onde você me conhece?

— Onde você está exatamente? – Pergunta respirando fundo.

Dou as melhores coordenadas possíveis, me esforçando sempre nos detalhes que capturei durante nossa vinda até aqui. Não conhecia nada da cidade ou o nome das ruas em que passamos. Agarro minhas pernas e continuo ali, minha cabeça só conseguia pensar na imagem de Logan morto. Conto números primos e penso seriamente na probabilidade de ligar para Allan. Tudo que eu precisava, era de uma voz que me confortasse, mas ele me conhece como ninguém e saberia rapidamente o que está acontecendo.

Ouço passos se aproximando e pego a primeira coisa que vejo: uma caneta. Seguro firmemente como se aquele objeto fosse me proteger de algum modo. A porta do carro é aberta e me encolho ainda mais. Seus olhos eram castanhos e me encaravam curiosamente. Ela não parecia perigosa de modo algum. Os cabelos eram negros e seus lábios perfeitamente bem desenhados. O rosto oval e o corpo miúdo, mas em forma. Volto à realidade observando sua mão estendida educadamente para mim.

— Está tudo bem, eu sou uma amiga do Logan. – Sua voz era estranhamente serena e calma, mesmo com todo o caos do lado de fora. Ainda observando seus movimentos cuidadosamente, seguro sua mãos. – Meu nome é Sophie e você deve ser a Hannah, certo?

— Eu... – Meus olhos se fixam em direção aos vários carros estacionados ali e na quantidade de homens que saiam segurando armas pesadas em direção ao local.

— Preciso tirar você daqui. – Diz ela me puxando em direção ao automóvel de trás. Entro aos trôpegos e observo ela dar a volta entrando no banco do motorista.

— Onde ele está? – Pergunto baixinho desacreditando no fato de que ela ouviria, mas por sorte, ela ouviu e sorrio tentando demonstrar confiança.

— Ele está bem. Eu espero. – Responde ligando o carro e pisando fundo no acelerador. O celular dela toca, e em questão de segundos ela atende, sem desviar os olhos do tráfego. – Anthony... Estou com a garota. Levarei ela para minha casa. Sei que estará mais segura lá.

“Encaro a janela observando a grande placa da entrada da cidade. Alguns metros a frente havia uma grande mansão com um belo jardim a frente. Uma garota estava sentada na escadaria e observa o carro passar pela sua propriedade com cuidado. Seus cabelos eram castanhos, quase negros e um homem se aproxima dela lhe arrancando um sorriso no rosto.”

Eu conhecia ela de algum lugar e rapidamente me lembro da primeira imagem que vi ao chegar na cidade. O fato de já tê-la visto por aqui, faz com que eu me sinta um pouquinho mais segura com ela, por motivo desconhecido. Sophie era rápida no volante e não demora muito para que chegássemos até a sua casa, que era do outro lado da cidade. Não me sentia confortável com o fato de estar em sua casa.

O lugar era tão grande quanto à casa de Logan e não mudava muita coisa a não ser os móveis mais simples, sem toda aquela sofisticação. Sophie retira seu casaco e pendura ele no canto do cômodo se sentando no enorme sofá claro que havia no centro de sua sala de estar, rapidamente ela me convida para sentar e chama uma mulher pedindo que ela nos fizesse um chá.

Respiro fundo sorrindo timidamente, temendo a todo custo dizer algo idiota. Não demora muito para que seu pedido esteja pronto e a mesma mulher apareça deixando duas xícaras de chá sobre a mesa de centro. Pego uma delas e noto o porta retrato que havia sobre o móvel. Era um casarão enorme, provavelmente, três vezes maior que a sua casa e a de Logan juntos. Seu sorriso parecia mais uma longa risada, daquelas que fazem sua barriga se contorcer de dor por dentro.

Uma dor que vale muito a pena sentir. Um garoto estava ao seu lado. Seus olhos eram do cinza mais claro que já vi. Seus cabelos eram do mais negro e seu sorriso era tão lindo quanto o dela. Não era aqueles sorrisos forçados que deve fazer para uma foto. Era espontâneo, como se a foto tivesse sido tirada sem que nenhum deles soubesse, em um momento de divertimento. Os olhos de ambos brilhavam e não precisava observar a foto por muito tempo para saber que estavam felizes, como se nada no mundo pudesse tirar o sorriso de seus rostos. Não conseguia deixa de encarar aquele retrato. O garoto simplesmente me causava arrepios e sentia minha cabeça ferver. Como se parte de mim reconhecesse ele de algum lugar. Tudo tem estado tão confuso. Sophie pigarreia e eu me viro para ela, ainda envergonhada.

— Desculpe... O que dizia? – Pergunto baixinho voltando a prestar atenção em suas palavras. Ela ri vagamente e noto que ela ainda não tinha dito nada, eu quem havia ficado aérea demais.

— É uma bela foto não é? – Diz observando o retrato sorrindo bobamente.

— Seu namorado? – Ela assentiu. Comprimi meus lábios em uma fina linha reta. – Formam um belo casal... Onde ele está agora?

— Ajudando Logan e Anthony a resolver um problema. Esses três vivem fazendo isso, pode ter certeza que estão bem. Pelo menos é o que digo a mim mesma quando saem. Odeio toda essa espera, mas você acaba se acostumando. – Responde ao notar a principal das minhas perguntas que pairava pela minha mente.

Quando ela comentou sobre a espera, não tinha ideia que fosse tanta. Já era quase uma hora da manhã e até mesmo a própria Sophie começara a se preocupar com o que quer que estivesse ocorrendo. Meus braços agarravam minhas pernas em uma inútil tentativa de acalmar todo o nervosismo que me consumia. Eu me importava com Logan. Talvez mais do que eu realmente quisesse admitir e eu precisava dele. Tudo que eu desejava era que não estivesse machucado, ou o que é pior... Morto. Meu corpo todo estremece ao ficar diante dessa palavra mais uma vez.

— Hannah... – Ouço a voz de Sophie e me viro com um sorriso na esperança de que Logan tivesse chegado pelos fundos sem que eu notasse quando dou de cara com Wren.

— O que está fazendo aqui? Logan está atrás de você depois do que aconteceu e...

— Quero que saia e vá até o carro do outro lado da rua. Agora. – Diz ele me interrompendo. A arma mirando a cabeça de Sophie e respiro fundo.

— Wren... Eu pensei que...

— Isso é política Hannah. Você me salvou e eu fico muito agradecido. Já paguei minha dívida não revelando que Logan se tornou aliado de Anthony à Cosa Nostra. Agora vá para o carro, ou eu atiro nela. – Grita me ameaçando e eu respiro fundo me virando para sair da casa quando ouço o barulho do tiro. Meus olhos se arregalam e um frio na barriga. Respiro, um pouco aliviada, mas ainda assustada, ao notar que era Wren quem estava sobre a grande poça de sangue, estirado no chão e Sophie segurava a arma com firmeza indo em direção a janela.

— Quem é Cosa Nostra? Do que ele estava falando? – Perguntei aos gritos sem conseguir tirar aos olhos dele sobre o chão.

— Não é quem, e sim, o que. Sinceramente, queria poder te responder. – Diz ela também parecendo não ter ideia do que ele estava falando. Vejo de relance, suas mãos grudadas no celular, mas elas relaxam ao ver o carro de Logan estacionando na entrada e barulho de mais alguns tiros do lado de fora. Ele havia chegado, meu corpo todo havia se relaxado assim que a porta abre.

— Ethan.

O namorado de Sophie aparece e ela rapidamente corre para seus braços, lhe dando um abraço apertado e sufocado, como se não o visse há tempos. O rosto dele estava sereno e calmo. Um homem aparece atrás dele, e não demora muito para que me observe ali, completamente parada observando a entrada, procurando por Logan silenciosamente. Ele era a cópia fiel do garoto, sendo apenas mais velho que ele. Seus olhos me analisavam minuciosamente, sem demonstrar qualquer sentimento. Sentia todo o seu corpo tenso e seus lábios entreabertos como se não soubesse o que dizer. Meu coração disparava entre milhares de batidas desesperadas como se o conhecesse há tempos.

— Hannah... – Reconheço sua voz. Anthony. Ele finalmente reage se aproximando de mim, parando apenas a uns centímetros de mim.

— Onde está o Logan? – Sussurro ao não notar a presença dele e rapidamente vejo um homem ajudando ele caminhar, aos trôpegos até o andar de cima. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-lo todo machucado e quando ouso me aproximar, Anthony me impede.

— Katheryn irá cuidar de seus ferimentos. Poderá ir até ele em breve.

— Eu quero ver ele agora. Por favor. – Peço em uma suplica desesperada.

— Quem é ela? – O namorado de Sophie se aproxima ao lado dela que rapidamente fecha a cara diante de sua pergunta, observando Anthony.

— Namorada de Logan. – Diz ela e eu a encaro espantada.

— Não, eu não...

— Pensei que ele jamais ficaria com outra garota depois de...

— Ethan. – Sophie o interrompe, censurando suas palavras com o olhar e minha testa forma um vinco, se perguntando de que diabos eles estavam falando. Decidi ficar calada, afinal, nenhuma pergunta minha era respondida mesmo. – Estou cansada e com sono. Vamos dormir, por favor. Guarde suas perguntas para depois. Fiquei preocupada demais com você.

Ethan sorri de lado, beijando o topo da cabeça de sua amada e ambos nos desejam boa noite subindo as escadas e desaparecendo de minha vista. Anthony me guia para o lado de fora da mansão. Um vasto jardim enfeitava o local e um sorriso sai de meu rosto.

— Eu preciso desenhar essa paisagem depois. – Sussurro sorrindo feito uma criança.

— Então você desenha? – Pergunta erguendo as sobrancelhas sorrindo de lado. O olhar brilhando como se orgulhasse do que ouvira.

— Desde pequena. Minha mãe dizia que é incompreensível eu saber desenhar sendo que ela não sabia fazer um único traço descente. – Digo imitando sua voz antigamente e Anthony dá uma risada.

— Talvez tenha puxado esse dom de seu pai. – Sussurra. Meu rosto se fecha e não ouso encará-lo.

— Está aí algo que eu gostaria de saber. – Digo baixinho. – Mas isso não importa. Somente Logan. Ele é minha família agora.

— Oh... Bem, eu...

— Anthony. – Uma mulher, provavelmente a tal de Katheryn, aparece com o rosto cansado. – Acabei de colocar os curativos em Logan.

— Posso vê-lo agora? – Quase grito em animação e espanto.

— Claro. – Um sorriso sincero aparece em seu rosto. – Primeira porta a esquerda no andar de cima.

Corro em disparada, abrindo a porta de seu quarto sem o mínimo cuidado, respirando ofegante e relaxando aos poucos ao não ver nenhuma expressão de dor. Ele estava deitado, sem camisa e quase todos os seus machucados eram cortes a não ser pelo curativo feito no seu quadril. Seu rosto observa o meu ao notar minha presença. Mais machucados. Sinto meu coração doer e me caminho até a cama, me sentando próximo dele.

— Entende agora? – Pergunta em um tom baixo, pouco audível e eu mordo o lábio inferior. – Entende por que não posso me importar?

— Não teria pedido que alguém me tirasse de lá se não se importasse. – Ele abaixa o rosto, mas minhas mãos tocam em seu queixo, forçando suas orbes verdes me encararem com intensidade.

— Só não quero que se machuque por minha causa.

— Já me machuquei antes. – Digo tentando consolá-lo.

— Não desse jeito. Hannah... As coisas são diferentes. Eu imploro que não se importe também. – Pede e um sorriso fraco escapa de meus lábios.

— Tarde demais, Logan. Eu já me importo. E não vou reprimir meus sentimentos e vontades só por um pedido seu. No fundo, eu sei que não é isso que quer.

Deslizei minhas mãos até a sua nuca, minha atenção focada em seus lábios enquanto meus pensamentos gritavam para que eu parasse. Levo minha outra mão para sua barba rala, feita por fazer e seus olhos pareciam escurecer, desejando o mesmo que eu, talvez até com a mesma intensidade. Colo meus lábios no seu, me afastando rapidamente fechando os olhos, censurando meus atos deixando o arrependimento me consumir.

Mas o arrependimento praticamente desaparece ao sentir suas mãos em meu quadril, me puxando para mais perto enquanto a outra guiava meu rosto para perto do seu, selando nossos lábios mais uma vez. Não era o meu primeiro beijo. Na verdade, meu primeiro beijo foi com Allan.

Eu tinha doze anos e na época, e fizemos isso porque era algo que toda garota naquela idade sonhava para não ser zoada pelos outros por nunca ter feito isso na vida. Mas era diferente. Eu desejava aquilo. Com todas as minhas forças e me sentia no céu. Aprofundamos o beijo e nossas línguas se tocam me causando um frio na barriga. Nos afastamos vagarosamente, ainda sobre efeito do ocorrido e meus olhos se abrem vendo Logan me observar com um pequeno sorriso no canto, acariciando minhas bochechas.

— Deixe-me adivinhar... Não devíamos ter feito isso. – Murmuro e seu rosto se fecha. Eu havia tirado as palavras de sua boca.

— Hannah.

— Está tudo bem... Eu vou... Deixar você aqui. Hm... Me desculpe.

Sorri, um pouco decepcionada e me levanto saindo do quarto, deixando Logan sozinho ali com seus próprios pensamentos.