A Herdeira
7 Os novos reis
— Anita, você se lembra de quando éramos crianças e brincávamos de pular nas camas dos meus pais e dos seus pais? – perguntou Heitor.
— Claro que me lembro, eu adorava!
Na tela mental da moça, abriu-se a imagem dela pequena, bem como Heitor. Os dois correndo por uma grande casa, entrando num quarto de casal e pulando juntos sobre a cama, rindo muito e batendo um no outro com os travesseiros. A voz de um adulto se aproximava da porta. Os dois desciam da cama bagunçada e saíam correndo, rindo ainda mais.
Ela sorriu diante da lembrança.
— Vamos brincar disso de novo, porque assim as molas da cama farão barulho, se é que me entende.
— Entendo, prossiga – pediu ela.
— Só que em vez de risadas, vamos dar gemidos abafados.
— Boa...
— Tá preparada?
Anita pegou um travesseiro, bateu em Heitor, depois ficou em pé na cama e começou a pular. Ele se levantou e fez o mesmo. Os dois no mesmo ritmo. Começaram a soltar gemidos abafados, até incentivados pelo cansaço da atividade física.
Ao final, caíram juntos na cama, olharam um para o outro e tiveram que abafar a risada.
Heitor descansou um pouco e então pegou o travesseiro, o cobertor e um lençol. Anita perguntou:
— O que vai fazer com isso?
— O cobertor pode dar um bom colchão. O travesseiro para a cabeça e o lençol para me cobrir. Vou levar tudo para o seu armário e me ajeito por lá.
— Não é um armário, mas um quarto de vestir.
— Que seja.
— Espera. Como faremos com o sangue no lençol que eles esperam ao amanhecer?
— Bem lembrado – ele largou tudo sobre a cama novamente e se dirigiu ao banheiro, voltando de lá com uma lâmina de barbear.
— Você não vai me cortar com isso! – assustou-se Anita.
— Não, vou me cortar – passando no próprio pulso e assustando ainda mais a moça, que soltou um gritinho – Não vão fazer um exame de DNA no sangue do lençol – sujando o lençol branco com o próprio sangue.
— Você vai se matar, seu maluco!
— Não, foi superficial e no lugar certo. Pronto, está aí o sangue. Boa noite! – catando novamente as cobertas e o travesseiro e se dirigindo ao quarto de vestir.
Aos primeiros raios de sol, Anita acordou com as batidas na porta e correu para acordar Heitor:
— Acorda, já estão batendo! – sacudindo o rapaz.
Ele acordou sobressaltado. Desfez o colchão improvisado, pegando também o lençol e o travesseiro. Jogou tudo sobre a cama, arrumando de modo a parecer que havia dormido ali e pediu que Anita se deitasse, indo abrir a porta com um bocejo a fim de simular o sono.
O padre, seguido pelos ministros de Estado, olharam curiosos para dentro do quarto após dar bom dia a Heitor. Anita se levantou, foi até a porta, abraçou Heitor e deu bom dia à comitiva, com um sorriso no rosto.
Todos entraram no quarto e logo foram checar o lençol. O padre encontrou a mancha de sangue e anunciou:
— O casamento foi consumado e a noiva atestou a sua pureza!
Todos os ministros aplaudiram e deram vivas.
O padre tirou o lençol da cama e saiu desfilando pelo Palácio até a varanda principal, onde o pendurou para a apreciação pública.
Anita comentou com Heitor, em voz baixa:
— Esse é disparado o maior absurdo machista que eu já presenciei na vida.
— Eu também acho. Mas, mal sabem o papel de bobos que estão fazendo.
Os dois trocaram uma risadinha.
Doralice e Felipe, bem como Açucena e Jesuíno assistiam a tudo estupefatos, sem entender o que realmente acontecia.
Dora comentou com o marido:
— Preciso conversar com Anita.
— Faça isso e depois me conte.
— Por que não vem comigo?
— É constrangedor um pai conversar sobre isso com a filha, é melhor que a mãe o faça.
— Está bem.
Dora puxou Anita para a suíte na qual estava hospedada com Felipe e a filha se adiantou:
— O casamento não foi consumado.
— Como não? Todos viram o sangue no lençol!
— Sangue do Heitor. O maluco cortou o pulso, pensei que iria se matar.
— Me explique melhor.
Anita narrou à mãe todo o acontecido na noite de “núpcias” detalhadamente.
A mesma conversa Jesuíno teve com o filho, que também lhe contou a verdade.
Depois do desjejum, Anita e Heitor, acompanhados da família, voltaram à Catedral de Seráfia para a cerimônia de coroação.
Rei Augusto tirou a própria coroa da cabeça e a colocou na cabeça de Heitor, simbolizando a transferência do seu poder de rei ao neto. Rainha Helena repetiu o gesto com Anita.
O padre consagrou o casal, com a imposição da espada, reis regentes da Seráfia unificada.
Seguiu-se o desfile em carruagem.

O povo acenava para os reis, balançavam bandeiras e gritavam vivas.
O almoço foi festivo aos novos reis no Palácio do norte que seria oficialmente a moradia real.
Anita e Heitor optaram por morar com Rei Augusto e Maria Cesárea a fim de se valerem da experiência administrativa dos mais velhos.
Depois do almoço, Anita e Heitor pediram para conversar a sós com os respectivos pais, a portas fechadas no gabinete real.
Anita começou:
— Vocês precisam voltar para o Brasil, só assim todo o nosso esforço não terá sido em vão. Precisam estar em segurança.
— Com vocês aqui nossos meios de ação ficam limitados, porque estaremos sempre temendo pela segurança de vocês – completou Heitor.
Açucena se insurgiu:
— Oxe, que eu não vou a lugar nenhum deixando meu filho aqui no meio de uma guerra!
— A guerra não existe mais, mãe. E não pretendemos ficar aqui para sempre, mas vocês têm que voltar primeiro para nos ajudar.
Felipe falou:
— Eu concordo com Açucena. A paz em Seráfia é frágil. Já passamos por outros momentos históricos de aparente paz que culminou em revoltas sem prévio aviso. Vocês são jovens e inexperientes, não podem querer dar um jeito em tudo sozinhos.
— Por isso contamos com Rei Augusto – rebateu Anita.
Jesuíno apresentou outro ponto de vista:
— Rei Augusto vai orientá-los muito bem. Com a gente aqui, fica realmente tudo mais difícil para eles. Não é da minha vontade deixar meu filho aqui sem poder ajudá-lo diretamente. Mas, tem um ditado que diz: Muito ajuda quem não atrapalha.
Dora concordou:
— Nesse momento temos que colocar a razão à frente do coração. Temo por minha filha, mas temos que estar no Brasil, arquitetando meios de tirá-los daqui em segurança. Por aqui, muito pouco poderíamos fazer e ainda cairíamos nas mãos dos revoltosos como moeda de troca.
Felipe discordou da esposa:
— Anita é uma menina ainda, não posso simplesmente ir embora e deixar ela aqui sozinha nessa situação.
Heitor respondeu:
— Anita pode não ser minha esposa de verdade, mas é minha amiga. Uma coisa eu posso garantir ao senhor: Ela jamais estará sozinha e em perigo. Eu daria a minha vida para protegê-la.
— Eu não preciso que um herói me proteja! Apesar da minha pouca idade, sei me virar. Tratando-me como uma garotinha incapaz, o senhor até me ofende, meu pai! – manifestou-se Anita.
— Não quero lhe ofender, apenas lhe proteger – explicou Felipe.
— Então vá para o Brasil, estarei mais protegida podendo armar uma fuga com vocês longe. O momento de embarcarem é esse! Estão todos distraídos com os festejos do casamento e da coroação.
— Anita tem razão, Felipe. Não seja teimoso! – ralhou Doralice – Vamos embarcar no primeiro navio que zarpar para o Brasil, minha filha.
— Muito obrigada, minha mãe.
— Eu e Açucena também vamos – concluiu Jesuíno, fitando a esposa, que nada respondeu.
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