A Herdeira
22 Em chamas
Guto ainda apontava a arma para família de Regentes, mas Maria Cesárea se mantinha imóvel na frente, protegendo-os com o próprio corpo.
Nesse momento, a porta atrás da referida família se abriu, entrando no recinto os homens encapuzados. Eles já faziam reféns: Doralice, Felipe, Jesuíno e Açucena.
Anita começou a rezar para Santa Eudóxia, como sua avó Helena havia lhe ensinado. A pequena Vitória olhava para tudo com os olhos arregalados, sem chorar. Heitor suava frio.
Anita olhou pela janela e viu a bruxa. Deu-se conta de que não fora ilusão sua vê-la na Praça.
Vitória começou a contemplar um lustre logo acima da cabeça de Guto. O lustre tinha velas acesas no seu corpo, de modo a iluminar o local. A garotinha levantou a mão direita como se pudesse alcançar o tal lustre. Nesse momento, a bruxa também voltou os olhos para lá e logo Anita olhou, guiada pelo olhar e o gesto da filha no seu colo.
De repente, o lustre se desprendeu do teto e caiu em cima de Guto. O rapaz caiu imediatamente no chão e arma foi atirada para longe, aos pés de Heitor, que a pegou rapidamente.
As velas que compunham o lustre iniciaram um incêndio nas cortinas próximas. Os homens encapuzados que prendiam Dora, Felipe, Jesuíno e Açucena largaram os dois pares de casais e correram, a fim de salvarem as próprias vidas.
Heitor pegou a esposa no colo, a pequena Vitória mantinha-se firme no colo da mãe. O Rei levou as duas em segurança para fora do local, às pressas.
Anita chegou à rua e começou a gritar desesperada pelos seus pais. Heitor apertava os olhos, preocupado, tentando enxergar. Em meio à fumaça negra, surgiram Dora, Felipe, Jesuíno e Açucena, para alívio do casal real. Todos se abraçaram aliviados. Lágrimas brotaram dos olhos deles.
Maria Cesárea e Augusto tentavam tirar o filho gravemente ferido do fogo. A Guarda Real já havia entrado no local. Augusto determinou que levassem Maria Cesárea, mesmo contra a vontade dela. Um soldado pegou-a no colo e outro auxiliou na escolta. Ela gritava e se debatia, dizia ao marido:
— Eu não quero viver sem vocês, sem meu marido e meu filho! Não faça isso comigo, Augusto!
— Faço, porque te amo, nunca se esqueça disso. Se inconscientemente rejeitei meu filho, tá na hora de consertar as coisas, vou tirá-lo daqui. Vá!
Os Guardas acataram a ordem de Augusto e levaram Maria Cesárea chorando e gritando para fora.
O tempo foi passando e todos aguardavam, angustiados, a saída de Augusto e de seu filho do local em chamas.
Finalmente, Guardas Reais saíram arrastando Augusto e seu filho. Bombeiros já tentavam apagar o fogo, sem muito sucesso.
Maria Cesárea e Açucena correram para ver Augusto e o filho. Guto já estava sem vida. Quando constatou o fato, Maria Cesárea chorou de soluçar em cima do corpo inerte do rapaz.
Açucena viu que o pai respirava com dificuldade, havia aspirado muita fumaça. Ele falou com dificuldade:
— Espero que eu tenha conseguido ser um pai melhor para você do que fui para seu irmão. Mesmo que eu só tenha te reencontrado adulta em terras tão distantes de Seráfia.
— Oxe, Pai! Não diga asneiras! Tu foste um pai maravilhoso para mim e para meu irmão. Guto tava atrapalhado das ideias, não bote fé no que ele disse. Que Deus perdoe os pecados dele e o tenha ao seu lado agora – fazendo o sinal da cruz – Eu te amo muito, meu pai, e agradeço a Deus e a Santa Eudóxia por terem te levado ao Brasil para me encontrar.
Augusto sorriu, acariciou o rosto de Açucena, balbuciou:
— Minha linda Princesinha Aurora, como eu te amo.
A mão pareceu perder a força e caiu sobre o peito de Augusto. Os olhos dele se fecharam. Açucena começou a gritar, desesperada, chamando a atenção de Maria Cesárea. Ela largou o corpo do filho, já molhado de suas lágrimas e correu para o marido. Colocou um dedo sob o nariz dele, depois deitou a cabeça sobre seu peito, para ouvir o coração. Disse para Açucena:
— Calma, seu pai está vivo, a respiração está fraca e o coração bem devagar, mas ainda tem sinais vitais.
Augusto reagiu à voz de Maria Cesárea, abriu os olhos com esforço, esforçou-se mais um pouco e tomou a mão dela, dizendo:
— Nunca se esqueça de que te amo. Viva por mim e pelo nosso Guto. Te prometo que vou cuidar muito bem dele na vida após a morte.
— Não, Augusto, não me deixa! — disse Maria Cesárea entre lágrimas — Eu não vou aguentar perder vocês dois assim de uma vez.
Augusto olhou para Heitor, que chorava. Ele entendeu o gesto do avô e se aproximou. Augusto falou:
— Nunca desampare a minha amada. Você promete?
— Prometo, vovô. Eu vou sentir muito a sua falta. Já está doendo muito – entre lágrimas.
— Força, Majestade! É uma honra partir sabendo que meu trono estará com meu neto. Honre meu nome, honre a sua linhagem real. Seja muito feliz com Rainha Anita e produzam muitos herdeiros ao trono, continue o meu legado.
Augusto sentiu o ar faltar nos pulmões. Havia se esforçado muito na fala. Olhou fixamente para um ponto. Todos olharam sem nada ver. Augusto sorriu, ainda conseguiu falar:
— Cristina! 
Ele deu um forte suspiro, parecia tentar puxar o ar em vão. Seus olhos se fecharam para sempre. O semblante era feliz!
Açucena falou emocionada:
— Ele chamou o nome de minha mainha. Ela veio buscar meu Pai!
Doralice abraçou Açucena:
— Todos nós ouvimos. Eles estão juntos agora, fica em paz, minha amiga!
Depois da tragédia, Seráfia por inteiro entrou em luto. As cerimônias fúnebres foram acompanhadas por multidões em copiosas lágrimas. A família Real inteira usou vestes negras por 1 ano inteiro, exemplo seguido por muitos súditos. Finalmente a paz reinou em Seráfia e não existia a divisão entre sul e norte, a dor era igual para todos.
Jesuíno, Açucena, Doralice e Felipe retornaram para o Brasil logo após a missa de sétimo dia dos mortos.
Maria Cesárea ficou morando com Anita e Heitor no Palácio sede do Governo de Seráfia. Passou meses ensimesmada, até a pequena Vitória puxá-la de volta para o mundo exterior. Apegou-se à menina e isso foi um bálsamo para sua dor. Cuidava sempre da pequena enquanto seus pais estavam envolvidos nos compromissos do reino. Lembrava-se muito bem de que fora a primeira a segurá-la nos braços assim que nasceu, pois fez o parto de Anita.
Certo dia, escutou a conversa dos Reis, passando desatenta na sala no Palácio. Anita dizia:
— Acredito que já esteja na hora de contratarmos uma babá para Vitória.
— Mas, Maria Cesárea está cuidando muito bem da nossa filha – observou Heitor.
— Eu concordo, mas não podemos abusar da boa vontade de Maria Cesárea, ela é Rainha viúva e não babá! Vitória está crescendo e a tendência é dar cada vez mais trabalho. Está agitada e levada a nossa pequena Princesa.
Maria Cesárea entrou na sala, fez reverência ao casal. Anita disse:
— Já falei várias vezes que você não precisa dessas formalidades conosco, afinal, é vódrastra de Heitor!
— É verdade – concordou Heitor – uma vózinha muito querida para nós, embora seja pouca coisa mais velha que minha mãe. O que vale é o carinho — abraçando Maria Césarea.
— Acredito que não tenho mesmo idade para ser avó de Vossas Majestades. Cumpro as formalidades por todo respeito e amor que lhes dedico. De qualquer forma, posso ser avó da Princesa Vitória, ou melhor, a babá.
— Imagine, Maria Cesárea! Foste Rainha de Seráfia, não te caberia o baixo posto de babá — disse Anita.
— Ser babá da Princesa Herdeira do trono é considerado o posto da mais alta hierarquia no Palácio — contrapôs Maria Cesárea.
— Tenho que concordar com Anita que tal Posto nem se compara com o de Rainha que ocupaste – interveio Heitor.
— O Posto de Rainha Consorte me serviu para o refinamento e conhecimento intelectual. Aquela Maria Cesárea sertaneja e ignorante deixou de existir aqui em Seráfia. Hoje sou fluente em várias línguas, tenho etiqueta, sei me portar e domino várias áreas de conhecimento, como botânica, biologia, matemática, etc. Posso ensinar tudo que aprendi para a Princesa Vitória e torná-la a melhor das Rainhas no futuro.
— Mas, essa não é sua função, vovó — disse Heitor.
— E qual é a minha função? Vou ficar aqui parada esperando a morte? Nem meu marido me espera no outro Plano, Cristina o levou para ela.
— Deve ter sido apenas uma alucinação de Rei Augusto na hora da morte, eu já andei lendo sobre isso... — explicou Anita, até ser interrompida por Maria Cesárea.
— Não importa se foi ou não foi! Importa que eu estou viva, porque Vitória me devolveu a vontade de viver! Vocês não podem tirar isso de mim colocando uma estranha em meu lugar!
— Nós não vamos! — falou decidida Anita – Entrego meu bem mais precioso em suas mãos, sei que fará o melhor por ela. Afinal, ela nasceu por suas mãos.
— Eu vou me dedicar a ela muito mais do que pude ao meu pobre filho. Vou fazer dela uma mulher de bem. Isso eu te prometo, Rainha Anita!
— Não se culpe de nada, Maria Cesárea. Eu conheço seu bom coração e suas virtudes. Cresci ouvindo meus pais lhe renderem os maiores elogios! Confio plenamente em você e te agradeço de coração — disse Anita abraçando Maria Cesárea. Heitor juntou-se ao abraço.
O choro de Vitória ecoou pelo Palácio. Anita levantou as saias fazendo menção de sair correndo escada acima. Mas, Maria Cesárea a segurou:
—Deixe comigo, Rainha.
Heitor pegou o seu relógio no bolso e falou para esposa:
— Melhor deixar Vitória com Maria Cesárea mesmo, minha Rainha, temos a inauguração de uma obra pública para irmos agora, inclusive, já estamos atrasados.
—Está bem, meu Rei– concordou Anita – o dever nos chama.
Anita também consultou o seu relógio e virou-se para Maria Cesárea:
— Devemos sair logo mesmo, mas cuide bem do meu anjinho.
— Com toda certeza, Majestade. Vão com Deus e Santa Eudóxia — desejou Maria Cesárea.
Anita e Maria Cesárea trocaram um olhar e um sorriso. A Rainha tomou o braço do marido e caminhou em direção à porta, onde uma criada já os esperava com casacos e chapéus. Maria Cesárea subiu as escadas apressada para atender Vitória.
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