A Herdeira
26 Dor de amor
Já se passara um mês desde a chegada de Anita ao Brasil. Ela visitara várias vezes a avó Ternurinha, já idosa, que morava com o filho Fausto e a nora Carlota. O avô Patácio havia falecido há alguns anos. Também reencontrou amigas de infância e tomou muitos cafés da tarde. Andou muito a cavalo e passeou várias vezes pela cidade, revendo conhecidos. Aos poucos, estava retomando o prazer pela vida. Questionava-se acerca de quem se tornou em Seráfia. Em Brogodó era apenas a Anita de antigamente e se sentia plena e feliz, não soterrada por responsabilidades reais. Sabia que teria que retornar, afinal, o seu maior tesouro continuava em Seráfia: a pequena Vitória.
Anita continuou em contato constante com a filha, porém, Heitor não quis falar com ela uma única vez. Sabia que Maria Cesárea inventava desculpas, sempre dizendo que ele estava muito ocupado com algum assunto inadiável do reino, mas Anita sabia que não era verdade, pois ligava em diferentes horários e ele nunca podia atender.
Enquanto isso, em Seráfia, Heitor começou a fazer da bebida sua companheira de todas as noites. Maria Cesárea fazia com que Vitória se deitasse cedo a fim de não ver o pai embriagado. Ela chamava a atenção de Heitor várias vezes, mas sem sucesso, inclusive ressaltando a sua responsabilidade de pai.
Certo dia, os sogros Açucena e Jesuíno foram visitar Anita, sendo bem recebidos por esta e também por Doralice e Felipe. Tomavam um chá da tarde na varanda da Fazenda, quando Açucena começou:
- Eu acho que você não deveria se demorar por aqui, Anita. Não é certo deixar o marido tanto tempo sozinho. Eu mesma nunca deixei Jesuíno um dia sequer. Meu filho deve de tá sofrendo, isso sim.
Jesuíno interveio:
- Nosso filho já é adulto, minha flor. Certamente, Anita e Heitor conversaram e decidiram essa viagem dela de comum acordo, não foi Anita?
Anita ficou sem graça e concordou com a cabeça, sorrindo. Açucena prosseguiu:
- Ainda deixou sua filha. Quando meus filhos eram piquititinhos, eu não largava eles nem por um minuto.
Dora interveio:
- A minha filha não largou a Vitória, foi da vontade do seu filho que ela ficasse em Seráfia e não acompanhasse a mãe. Vitória está muito bem cuidada por Maria Cesárea, que é de extrema confiança.
- Mas, ninguém cuida melhor do que a mãe e meu filho teve bons motivos para proibir a viagem da única herdeira de Seráfia – rebateu Açucena.
Felipe preferiu mudar de assunto:
- Eu soube que vocês terão mais um neto, Margarida está grávida novamente?
Jesuíno respondeu sorrindo:
- Pois é, mais um! Minha filha é uma boa parideira, fora os outros. Nós ficamos muito felizes. Vocês já têm quantos?
Dora respondeu:
- Apenas três. Um da Anita e dois do Jorginho, mas já é o suficiente. Vitor ainda é muito novo e está fazendo faculdade na Capital, não desejamos que ele tenha filhos tão cedo.
Açucena falou:
- Anita e Heitor já são casados há 8 anos, já dava tempo de fazer mais muitos meninos.
Anita não aguentou mais as provocações da sogra e disse:
- Desejo a vocês uma excelente tarde, não se incomodem comigo, mas vou ter que me retirar, porque não me sinto muito bem – indo para o seu quarto.
Doralice ficou brava:
- Eu não entendo por que trata a minha filha desse jeito! Que crime ela cometeu? Ter se casado com o seu querido primogênito? Não foi ela que desejou isso e você sabe muito bem!
Felipe passou a mão com carinho no braço da esposa e disse:
- Calma, Dora, tenho certeza de que a Açucena apenas não se expressou muito bem.
Jesuíno falou para a esposa:
- Foi isso mesmo, né Açucena?
- Foi nada, eu falei o que eu queria mesmo! Onde já se viu uma mulher abandonar o marido e a filha do outro lado do mundo para vir ficar na casa dos pais? Meu filho é adulto, como Jesuíno falou, mas sua filha também é! Tem que assumir o papel de esposa e mãe e não vir aqui querer ser a filhinha mimadinha! Deveria estar lá, perto do marido, ver se pega barriga finalmente!
- O que você está insinuando, Açucena? Que a minha filha é estéril? Pois ela já deu uma filha ao seu filho! Se não tiveram mais filhos, é provável que o problema seja do seu filho!
- Você não acusa meu filho de nada não, Doralice! Não é porque estamos velhas que eu não vou te arrancar os cabelos como já fiz na juventude, quando você ficava correndo atrás de Jesuíno que já era meu noivo!
- Ora, você era a prometida de Felipe! Quem não honrou um compromisso foi você!
Açucena já ia partir para cima de Doralice, mas Jesuíno a segurou e Felipe fez o mesmo com Doralice.
Jesuíno resolveu levar Açucena embora e Felipe pegou água com açúcar para Dora, repreendendo-a em seguida:
- Dora, você e Açucena já são mulheres maduras, avós, não são mais aquelas mocinhas de 20 e poucos anos que brigavam por namorados. Você agiu muito mal perdendo o controle com ela hoje.
- A Açucena me tira do sério, Felipe, sempre me tirou! Eu tenho sido educada com ela esses anos todos, afinal, somos parentes pelo casamento de nossos filhos, mas ela vir falar mal da minha filha na minha casa eu não vou admitir!
- Seu sangue quente continua aí, não é meu amor? – indagou Felipe rindo.
- O sangue vai ser sempre o mesmo, do meu nascimento a minha morte.
- E eu vou te amar assim esquentada para sempre, até a minha morte.
Os dois se beijaram.
Enquanto isso, no quarto, Anita chorava e se culpava. Acreditava que sua sogra tinha razão, foi uma covarde. Fugiu para a casa dos pais em vez de tentar resolver as coisas com o seu marido. Decidiu que o certo a se fazer era voltar para o seu lugar de Rainha, mãe e esposa. Não poderia mais continuar fugindo da realidade. Enxugou as lágrimas e desceu as escadas para a sala, onde pegou o telefone e discou para Seráfia a fim de comunicar a sua iminente volta. Para sua surpresa, não foi o mordomo ou Maria Cesárea que atendeu, mas Heitor. Anita sentiu o coração dar pulos ao ouvir a voz dele dando alô, não era comum o próprio Rei atender ao telefone do Palácio. Ela respirou fundo e falou:
- Oi, Heitor! Sou eu, Anita, fico muito contente em ouvir a sua voz, eu estava com saudade.
- Anita? Não conheço nenhuma Anita.
- Para com essa brincadeira, meu amor. Sei que tem motivos para estar bravo comigo, mas sou eu, sua esposa.
- Eu não tenho esposa nenhuma, a que eu tinha foi embora, me abandonou! Agora eu não pertenço mais a mulher nenhuma, pertenço a todas – rindo de forma descontrolada.
- Você está bêbado, Heitor? Estou notando na sua voz.
- Eu nunca estive tão sóbrio, bêbado eu deveria estar quando me casei com aquela maldita que me abandonou! Agora eu tenho a mulher que eu quero a cada noite, uso e depois descarto. Não vou mais me amarrar em ninguém, mulher nenhuma merece o meu amor!
Anita começou a chorar novamente e disse:
- Você está falando para mim que está me traindo?
- Não estou traindo ninguém, não tenho mais mulher – e desligou.
Anita não pregou os olhos naquela noite, entre soluços sentidos e lágrimas grossas. Na manhã seguinte, resolveu acordar antes de todos e ligar novamente para Seráfia, precisava falar com Maria Cesárea. O mordomo atendeu e passou para a governanta:
- Oi, Anita! Como você está? – perguntou animadamente Maria Cesárea do outro lado da linha.
- Nada bem, minha querida amiga.
- Você está com voz de choro. Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, ontem eu liguei para aí e Heitor atendeu.
- Ele te tratou mal?
- Pior, disse que não tem mais esposa e que agora não é mais de uma mulher só, mas de muitas.
- Ele deveria estar bêbado, por isso falou bobagem.
- O Heitor nunca foi de beber, só um pouco, socialmente.
- Eu não quis te contar antes para não te deixar preocupada, mas ele deu para beber sim. É difícil passar uma noite sóbrio. Mas, eu protejo a Vitória, não deixo ela ver o pai assim, coloco ela para dormir cedo.
- Maria Cesárea, eu te peço, por tudo o que há de mais sagrado, me conta a verdade. Eu preciso saber... Heitor realmente está dormindo com outras mulheres na minha ausência?
- Anita... Ele bebe muito, acaba indo para muita festa, nem sabe bem o que faz... Coisa de homem fraco, com dor de cotovelo... Quem ele ama e sempre amou é você, com elas é só necessidade de homem mesmo.
Anita nem se despediu, bateu o telefone e chorou ainda mais. Júnior entrou na sala e se aproximou dela, entregando um lenço:
- Como me dói o coração ver uma mulher tão linda chorando logo cedo.
Anita pegou o lenço, secou as lágrimas e assou o nariz:
- Eu vou lavar e te entrego depois.
- Imagine se eu teria nojo de uma dama como você.
- Você sempre acorda assim tão cedo?
- Sim, tenho uma Fazenda para administrar. Mas, você não! O que a fez cair da cama tão cedo e ainda chorado? Não se sente bem? Posso ajudar com alguma coisa?
- É só tristeza mesmo, o que me dói é a alma, não o corpo.
- Uma mulher fascinante como você jamais deveria viver tão triste, merece toda a felicidade do mundo.
- Você sempre tão galanteador – disse ela, esboçando um sorrido.
- Valeu a pena os meus galanteios, até te arranquei um sorriso. Ah, se eu tivesse chegado antes de Heitor, hoje você seria a minha esposa e não estaria chorando desse jeito – tomando a mão dela e depositando-lhe um beijo.
Anita puxou a mão e disse:
- Que bobagem, Júnior. Nós somos primos, você é filho de meu tio Fausto.
- Você sabe que não sou.
- Mas, ele te criou como filho desde que nasceu, você até tem o nome dele: Fausto Júnior.
- Mas, não tenho o sangue, poderíamos gerar filhos saudáveis.
- Que ideia! Eu sou casada, já tenho uma filha.
- Casada com um otário que te faz chorar ao telefone.
- Você anda me espionando?
- Não, mas ontem eu fui à cozinha beber uma água e passei pela sala quando você estava ao telefone, acabei ouvindo sem querer.
- Sem querer? Pensa que eu nasci ontem? Você não tinha o direito de invadir a minha privacidade!
- Eu sei que está triste, com raiva e nervosa e não é comigo, é com o seu péssimo marido, mas se quiser descontar em mim, eu deixo. Fico feliz se isso fizer você se sentir melhor.
Anita nada respondeu, saiu correndo e bateu a porta do quarto.
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