A Herdeira
15 Desaparecido
Heitor olhou para o lado e viu um desentupidor, resolvendo o problema. Só não sabia ainda o que fazer com o resto do lençol. Anita propôs:
— Arrume agulha e linha e transformamos isso numa saia.
— Você sabe costurar? Desde quando?
— Eu não sei! Mas, você tem outra ideia?
— Tenho! Eu mesmo costuro, eu sei!
Anita ficou surpresa.
Mais tarde, Heitor transformou o lençol numa saia e presenteou Anita:
— Para a minha rainha, a lembrança eterna da nossa primeira noite de amor!
Ela sorriu, pegou a saia e beijou os lábios dele. Depois, guardou a saia com carinho entre os seus vestidos no armário.
Desceram mais tarde que o costume, mas Rei Augusto estava no castelo de campo e os criados nada perguntaram. Tomaram rapidamente o desjejum e foram ao gabinete despachar as pendências juntos.
O mordomo entrou no recinto para avisar que Doralice estava ao telefone. Anita apressou-se para atender e Heitor continuou a ler documentos.
— Alô, mãe!
— Oi, filha! Estou preocupada, não me liga há dias. Está tudo bem?
— Está sim, mãe. Andei muito ocupada. A situação do reino está realmente caótica. Estive no sul visitando a vovó Helena e, por lá, a situação é ainda pior.
— Já sabíamos disso, minha filha. Quero saber quando pretende voltar para casa...
— Mãe, já estou em casa.
— Como assim? Era para ser temporário...
— Mas, agora será definitivo, não posso abandonar o meu povo.
— Anita, você é brasileira.
— Mas, meu sangue não é só brasileiro. Metade dele é de Seráfia. Devo isso a meus ancestrais e aos meus descendentes.
— Seus ancestrais estão mortos e seus descendentes ainda demoram a vir...
— Não! Talvez venham logo. Resolvi me tornar esposa de Heitor, de verdade. Vou honrar meu sangue e meu lugar de rainha. Farei tudo que o povo de Seráfia espera de mim. Vou gerar herdeiros e manter Seráfia unificada. Meu filho terá o sangue das duas casas reais e não haverá mais guerra por aqui por divisão.
— Mas, você ama Heitor?
— Sou uma rainha, mãe. Casamentos reais não se baseiam em amor, baseiam-se em obrigações com o nosso povo. Fazemos o que tem que ser feito.
— Onde foi parar aquela menina que sonhava em ser advogada e cheia de sonhos e amor no coração?
— Aquela menina saiu da sua bolha e se deparou com uma realidade cruel. Assim, deu-se conta de que nem tudo no mundo é sobre ela. Deixou de ser egoísta, parou de pensar tanto no seu querer para pensar no bem coletivo.
— Anita, falando assim você me assusta. Pense bem no que está me dizendo e no que está fazendo com a sua vida.
— Eu já pensei bastante, mãe. E nunca agi tão guiada pela razão quanto agora. Preciso retornar aos meus compromissos reais. Até mais! Beijos para o papai e os meninos.
Quando ela se virou, deu de cara com Heitor:

— Não precisava ter feito tamanho sacrifício, entregando-se a mim pelo bem do reino – tinha lágrimas nos olhos e uma expressão dura.
— Você entendeu mal o que eu quis dizer.
— Não, eu entendi muito bem. Vou te poupar de ter que me engolir como seu marido pelo bem do reino, majestade.
Ele fez uma reverência e saiu andando apressado. Anita chamou:
— Espera, Heitor! Me escuta!
Mas, ele só fez andar mais rápido. Ela se deixou cair na poltrona próxima ao telefone e caiu em pranto.
Mais tarde, dirigiu-se à suíte real e não encontrou Heitor. Imaginou que ele tivesse saído para cavalgar, como gostava de fazer, especialmente quando se sentia nervoso. Pensou que seria bom ele esfriar a cabeça e ela também, para conversarem melhor mais tarde. Ela acabou adormecendo. Acordou e reparou que já estava escuro. Desceu a procura do marido, mas não o encontrou. Viu o mordomo pelo caminho:
— Baltazar! Por acaso viu o Heitor por aí?
— Não, vossa majestade! Não vejo o rei desde a manhã de hoje.
— Eu também. Começo a ficar preocupada. Será que ele foi cavalgar e se perdeu?
— Acho pouco provável, majestade. O rei sempre carrega consigo uma bússola e está acostumado a andar pelos campos, sabe se localizar muito bem.
— Sim, ele sempre se aventurou nos campos a cavalo, desde criança. Sabia onde estava só pelas árvores que encontrava no caminho. Mas, anoiteceu e ele não voltou!
— Vossa alteza quer que eu mande os guardas formarem uma equipe de busca?
— Faça isso, Baltazar, por favor.
— Imediatamente, majestade – fez um reverência e se retirou.
As horas passavam sem notícias de Heitor e o coração de Anita foi ficando cada vez mais apertado.
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