A Herdeira
18 A supresa na Praça
O homem misterioso tirou o capuz e todos os presentes exclamaram: Oohhhh!
Anita olhava sem acreditar no que via. Doralice começou a chorar e rir ao mesmo tempo, tamanha a confusão emocional.
Príncipe Felipe tomou a palavra diante da multidão agora emudecida:
— Acusam minha filha de complô e assassinato do Rei Heitor, mas aqui está ele!
Heitor então falou:
— Rainha Anita é inocente de todas as acusações. Eu e ela fomos vítimas de um complô de revoltosos que não queriam a união de Seráfia, como é da vontade do povo, mas o fim da monarquia!
O líder da revolta, que estava prestes a determinar a decapitação de Anita e Doralice tentou ainda virar o jogo a seu favor:
— Ele não tem provas do que está falando! É tão traidor quanto a Rainha! Fugiu, escondeu-se e abandonou o povo! Merece também perder a cabeça! Não soube ser um Rei para o seu povo!
Heitor rebateu:
— Não fugi, muito menos abandonei meu povo, minha Rainha e minha herdeira! Sim, eu já soube do nascimento da princesa Vitória e reconheço a paternidade dela aqui, na frente do meu amado povo! Fiz muitos sacrifícios em nome do meu sangue nobre, abri mão de uma vida no Brasil! Por outro lado, descobri ou redescobri o amor da minha Rainha e nossa filha é fruto desse amor! Eu sou um homem e não um rato! Jamais abandonaria a família que eu construí e o povo que eu aprendi a amar.
O líder debochou:
— Não é o que parece, Alteza! Como explica o contrato pré-nupcial de casamento branco? E o seu sumiço durante meses?
— Não nego o contrato pré-nupcial, mas o fiz em respeito às vontades da minha Rainha. Eu jamais obrigaria uma mulher a ser minha contra a sua vontade. Mas, com a convivência as coisas mudaram e acabamos consumando o casamento. Os sentimentos e os fatos valem mais que um pedaço de papel e nossa filha é a prova viva disso!
— Se estava tão feliz e apaixonado por sua Rainha, por que sumiu? – rebateu o revoltoso.
— Eu não sumi! Sumiram comigo!
O povo soltou mais uma exclamação: Oohhh!
— Tudo começou quando eu tive uma pequena discussão com Rainha Anita, causada por insegurança minha quanto aos sentimentos dela, e resolvi cavalgar pelos Jardins do Palácio para esfriar a cabeça. Aproximei-me do lago, desci do cavalo e fui lavar meu rosto, nesse momento, senti apenas uma paulada na cabeça e apaguei. Acordei num cativeiro escuro e malcheiroso, com homens encapuzados a me vigiar. Eles falavam em revolta, fim da monarquia e discutiam com frequência se era melhor manter a minha vida ou me matar de uma vez. Por algum motivo, resolveram me manter vivo por mais tempo, eles me viam como um trunfo nos planos deles. Davam-me comida e água apenas uma vez ao dia para que eu não morresse de fome e me mantinham numa pequena cela. Podem ver como eu emagreci.
O revoltoso interrompeu:
— Linda história, majestade! Mas, se ela é verdadeira e eras um prisioneiro, como chegaste até aqui?
— Graças ao meu querido sogro, que armou um plano inteligente, localizou-me e me resgatou.
Foi a vez de Felipe narrar:
— Tenho conhecimento da existência de um grupo radical de revoltosos, contrários à monarquia, há muitos anos. Quando eu soube do desaparecimento de meu genro, logo imaginei que haveria o dedo deles, ao contrário de todos que tomaram o sumiço de Rei Heitor como um abandono de lar por uma discussão boba de casal. Então, deixei minha esposa Doralice embarcar primeiro para Seráfia, a fim de prestar assistência a nossa filha grávida. Embarquei poucos dias depois, deixando meu filho caçula aos cuidados do mais velho. Procurei contatos na Corte, de nobres que investigam esse grupo extremado há muitos anos. Não foi tão difícil encontrar esconderijos deles em todo o País, pois esses nobres já possuíam muitos relatórios e estavam esperando desmantelar todos os braços da facção para uma prisão coletiva. Mas, Rei Heitor não estava num lugar óbvio, o que já esperávamos.
Heitor expôs:
— Quando tomei conhecimento do local em que me encontrava, percebi que a audácia desse grupo radical não tem limites!
Felipe prosseguiu:
— Nada mais, nada menos que nos subterrâneos da Embaixada do Brasil em Seráfia!
Mais uma manifestação do povo: Oohhhh!
Heitor tranquilizou:
— Meus sequestrados foram presos por um exército particular contratado pelo consórcio dos nobres, pois, como muito bem pensou meu sogro, há alguém detentor de poder por trás de tudo isso e não seria seguro contar com mecanismos do próprio Estado.
Felipe complementou:
— Há um traidor entre nós!
O líder dos revoltosos percebeu a comoção do povo com a história e quis resolver tudo de uma vez:
— Não há prova nenhuma do que dizem! Nem o nosso exército foi convocado para essa suposta missão de interesse do Reino. Carrascos, cortem logo as cabeças dessas traidoras!
Heitor correu, abrindo passagem pela multidão, seguido por Felipe. O povo também começou a agir e subiram ao palco montado na praça, agarrando os braços dos carrascos que tentavam acertar cada um deles, de modo que o número de cidadãos só aumentava. O líder dos revoltosos aproveitou a confusão para sair correndo.
Felipe e Heitor desamarraram Dora e Anita e as tiraram rapidamente do meio da confusão.
Mais tarde, no Palácio, mãe e filha de banhos tomados e alimentadas, conversavam com seus maridos na sala, abraçadas a eles.
Dora ralhou com Felipe:
— Eu não vou te perdoar, príncipe, por ter feito tudo isso pelas minhas costas! Sabe que eu detesto ficar de fora de uma boa briga!
— Foi por uma boa causa, meu amor. Nesse momento, a sua presença ao lado da nossa filha era muito mais importante, ela estava precisando muito de você.
Heitor se manifestou:
— Meu sogro tem razão e sou muito grata à senhora por ter estado com Anita quando eu não pude estar.
— Ora, é minha filha! Não pense que por que ela se casou, deixou de ter mãe.
— Oxe, jamais pensaria isso, Dona Doralice.
— Eu estava brincando – disse Dora, rindo.
Apenas Anita estava quieta e com o pensamento distante. Heitor percebeu:
— O que foi meu amor? Ainda não se sente bem? Tá doendo alguma coisa? Eles te machucaram?
— Sim, Heitor, causaram uma dor incurável no meu coração. Graças a esses revoltosos, nossa filhinha foi tirada de meus braços e talvez eu nunca mais a veja – caindo num pranto sentido.

Dora falou:
— Minha filha, eu ainda não me esqueci da promessa que lhe fiz. Eu vou encontrar a minha neta para você, nem que eu tenha que colocar Seráfia de cabeça para baixo!
— Eu não sabia que minha filha estava perdida. Eu pensei que você a tivesse escondido para salvá-la, meu amor – contou Heitor sentindo a tristeza cortar-lhe o peito.
— Eu tentei! Eu corri muito com ela pelos bosques do Castelo de Campo, mas uma bruxa horrível a levou de meus braços e eu não sei o que foi feito dela – ainda chorando de soluçar.
Felipe resolveu:
— Diga com detalhes onde você encontrou essa bruxa que levou a minha neta. Eu e Heitor vamos trazê-la de volta.
Dora interveio:
— Você, Heitor e eu! Não fico fora dessa de jeito nenhum!
Anita tomou um copo de água com açúcar que uma criada trouxe e começou a narrar todo o ocorrido naquele dia com todos os detalhes que conseguia se lembrar.
Fale com o autor