A Herdeira
2 Capítulo Um: A Herdeira
Notas iniciais
Capítulo Um: A Herdeira.
O príncipe Ferdinando era um homem vivaz, charmoso e bastante apaixonado. Ele era reconhecido por seu amor pela vida, por sua nação, pelas várias formas de arte existente e por sua família, principalmente por sua esposa e sua única filha, que era sua maior fonte de orgulho e alegria. Ferdinando também era conhecido assim como sua esposa receber em sua casa e promover a carreira de grandes intelectuais e artistas, além disso, tanto ele quanto sua esposa, Amália da Saxônia, eram artisticamente talentosos e devido a essa característica a população passou a chamá-los de os Duques Artistas. O Duque de Belfiore tinha se alistado no exército da mesma forma que seus irmãos mais velhos – uma tradição seguida por todos os membros masculinos da família real –, ele serviu nas Guerras Napoleônicas (1) e por causa disso ele era muito popular entre o povo. Ninguém sinceramente esperava que morressem tão cedo – ele tinha apenas cinquenta e dois anos – e deixasse sua filha de oito anos órfã de pai, esse foi um golpe duro tanto para a população quanto para família real, que já tinha sofrido com diversas perdas nos últimos anos.
Não foi necessário dizer que sua família, especialmente sua única filha, foi afetada drasticamente por sua morte. Para a família real, a morte do duque significou a extinção iminente da Casa Aurâniana de Bourbon (3) – um ramo cadete da famosa Casa de Bourbon francesa (2) –, pois, ele era um dos únicos dois membros masculinos da Casa Real da Aurânia ainda vivos além do próprio rei, que também não tinha filhos varões para darem continuidade a linhagem dos Bourbon da Aurânia. Para Maria Beatrice, a morte do príncipe Ferdinando significou a perda daquele que a protegia, a aplaudia quando ela fazia uma performasse no piano e a consolava quando se machucava. Ao ser informada do falecimento de seu pai, Maria Beatrice chorou até a exaustão no braços de sua governanta, a condessa Margarida, que a consolou até ela dormir e quando acordou no dia seguinte, Maria Beatrice se encontrou incapaz de se comunicar. Médicos foram chamados para verificá-la, mas, nenhum deles foi capaz de achar razões físicas para sua perda de voz e todos concordaram que as emoções fortes foram as causadoras de sua incapacidade de falar.
No dia do funeral do falecido Duque de Belfiore, as pessoas se reuniram para prestar suas condolências a viúva e a filha do príncipe Ferdinando. Maria Beatrice não conseguiu agradecê-las por sua presença, gentileza e apoio graças ao seu estado de mudez. Francamente, ela não queria realmente agradecer a ninguém e muito menos estar presente em um evento tétrico como aquele, Maria Beatrice de todo coração preferia estar em casa tocando o piano da mesma forma que preferia que seu pai estivesse vivo para assisti-la a tocar uma das músicas de Mozart.
O rei Alfonso e a rainha Maria Luísa (4) também vieram ao funeral na companhia do atual primeiro-ministro liberal, Don Alberto Abruzzo (5), e de seu braço direito, Don Carlos Blando (6). Don Alessandro Carlone (7), o líder do partido conservador, chegou logo depois juntamente a sua esposa e alguns membros de seu partido. Alfonso cumprimentou a viúva de seu tio e então sua prima, ele tentou a consolar com suas palavras e prometeu que tudo ficaria melhor com o tempo. Maria Beatrice quis acreditar nele, ela realmente quis que suas palavras fossem concretizadas como verdadeiras e ela desejou fortemente que a dor em seu peito diminuísse quando o escutou.
No final de 1832 e algumas semanas depois do funeral de seu marido, Amália levou sua filha em uma viagem a Dresden (8), a capital do Reino da Saxônia, para visitar seus parentes. O tio de Amália, Antônio (9), era o rei naquela altura, porém, o irmão dela, Frederico Augusto, era co-regente do reino e ambos pareciam contentes em recebê-las como suas convidadas. A maioria das pessoas na corte de Dresden estranharam a quieta Maria Beatrice e algumas pessoas até entenderam sua quietude como falta de educação, contudo, Maria Beatrice não se importou muito com as opiniões alheias, porque ela encontrou alguma alegria na presença de seus primos alemãs, mesmo que os filhos de seu tio João fossem mais jovens do que ela. Maria Beatrice passou um bom tempo ao lado da princesa Maria da Saxônia (10), brincando nos jardins sob a supervisão rigorosa de suas governantas e conversavam diariamente – a prima de Maria Beatrice tagarelaria até se cansar enquanto a própria Maria Beatrice acenaria positivamente ou negativamente em resposta as demandas da princesa da Saxônia. O novo ambiente fez Maria Beatrice se sentir mais confortável e relaxada e um dia ela voltou a falar novamente.
— Ela falou, ela falou! – Maria exclamou ao ouvir Maria Beatrice se pronunciar pela primeira vez, a filha mais velha do príncipe João bateu palmas com entusiasmo. A mãe de Maria Beatrice soltou um suspiro de alívio quando notou que sua filha não ficaria muda para sempre e em comemoração a levou para assistir a ópera. Daquele dia em diante, Maria Beatrice se apaixonou pela ópera e sua paixão se estendera no futuro para peças teatrais e apresentações de balé.
Em meados de 1833, Maria Beatrice e sua mãe retornaram para Aurânia a pedido do rei. Maria Beatrice estava inconsciente das verdadeiras intenções do rei e ficou bastante desanimada em voltar sua terra natal, no entanto, Amália sabia melhor e imediatamente fez as preparações necessárias para a viagem de volta para a península itálica. Maria Beatrice não estava mais longe do trono na linha de sucessão, naquele instante ela ocupava a segunda posição e Amália sabia que seria do interesse de todos que voltasse para Aurânia. De volta a Aurânia, elas se acomodaram em novos apartamentos no Palazzo della Fiori e pelos próximos cinco anos passaram em relativa calma, elas foram convidas a visitar a corte e participar de algumas cerimônias e festas tradicionais. Maria Beatrice frequentemente brincava e gastava seu tempo com Maria Ana (11) – a única criança sobrevivente e herdeira atual do rei – e com os filhos de sua madrinha, a princesa Maria Ana Elisabeta, que era a irmã mais nova do rei – ela e seus filhos não tinham direito de reclamar o trono, pois Maria Ana Elisabeta tinha desistido de seus direitos e direitos de seus filhos ainda não nascidos para poder se casar com o homem que ela amava.
Os anos entre 1833 e 1838 não foram os melhores anos da vida de Maria Beatrice, embora tenham sido os mais pacíficos, todavia, o mundo de Maria Beatrice se modificou indefinidamente com a chegada do mês de março de 1838. A princesa Maria Ana, a herdeira e filha do rei, adoeceu e veio a falecer em decorrência de uma gripe. O país e a família real entraram em outro período de luto, entretanto, Maria Beatrice não se deixou abalar por completo – sim, ela ainda chorou em seu quarto longe dos olhares curiosos e sim, ela ainda se entristeceu pela perda da menina mais carinhosa e gentil que conheceu –, ela era mais forte e mais consciente de como suas ações poderiam e afetariam não só a si mesma, mas também aqueles que permaneciam ao seu lado.
Apesar de Maria Ana ter morrido em 1838, a confirmação de Maria Beatrice como herdeira só ocorreu um ano depois. Tal comportamento de adiar a nomeação oficial de um herdeiro e sucessor proveniente do rei levou a uma discussão entre a população e os membros do parlamento. Rumores circularam dizendo que o rei pretendia nomear seu primo, Vítor Ferdinando de Saboia (12), seu sucessor e houve alguns membros do parlamento que achavam Vítor Ferdinando um melhor candidato do que Maria Beatrice, que era jovem e inexperiente – e uma mulher, e nas opiniões deles, incapaz de liderar uma nação, porém, a grande maioria ficou ao lado de Maria Beatrice, visto que a mesma tinha nascido e crescido em Aurânia e era de fato a verdadeira herdeira. Os rumores foram finalmente dissipados em agosto de 1839 quando Alfonso se pronunciou e anunciou que sua prima de quinze anos como herdeira e Maria Beatrice foi instantaneamente convocada para prestar o juramento de fidelidade e lealdade (13) a Constituição diante ao rei e ao parlamento.
— Venho diante de vocês, honrados senhores do parlamento, e tendo Deus como minha testemunha para prestar juramento. Então nesse dia, juro solenemente minha fidelidade e lealdade incondicional a Constituição, ao Rei e ao bom povo da Aurânia. Prometo desempenhar minha função como herdeira da Coroa com dignidade e diligência, fazer cumprir as leis assim como respeitar os direitos do povo. – Maria Beatrice declarou no dia sete de setembro. Ela usou a entonação forte e segura que tinha se treinado a utilizar desde que o rei a confirmou como sua herdeira legal.
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