A Herdeira
4 Capítulo Três: Crise
Notas iniciais
Capítulo Três: Crise
O primeiro susto que Maria Beatrice sofreu desde a morte inesperada de Maria Ana veio na forma adoecida do rei no final do mês de outubro do ano de 1840. Maria Beatrice estava tão amedrontada e ansiosa que ela quase retornou ao seu velho e mau hábito de roer a unha para aliviar a tensão enquanto Amália e ela se moveram para Palazzo Reale (1), inúmeros pensamentos loucos percorreram sua mente assustada e a maioria deles estavam centrados na ideia de Alfonso morrer em um futuro iminente e nela se tornando rainha mais cedo do que deveria. Maria Beatrice ainda não estava preparada para desempenhar a função de uma monarca constitucional, ela só tinha dezesseis anos e suas aulas com o Sr. Dino e os outros professores não estavam adiantadas o suficiente.
— Eu não posso fazer isso. – Ela repetia para si mesma quando se encontrava sozinha.
Os membros do parlamento não se encontram em uma situação melhor. Eles estavam apreensivos pelo mesmo motivo, mas também temiam a ideia de uma regência em nome de uma rainha menor de idade. Os senhores que compõem o Gabinete do primeiro-ministro pediram para Don Alessandro agisse e garantisse um regente adequado e preparado, portanto, no segundo dia do mês de dezembro, Don Alessandro se direcionou ao Palazzo Reale para conversar com a rainha e a mãe da princesa Maria Beatrice sobre uma possível regência em nome da jovem princesa se o rei viesse a falecer em um futuro próximo. Os olhos da rainha Maria Luísa se arregalaram com a ousadia do primeiro-ministro e ela o baniu aos gritos do Palazzo Reale.
— Saia daqui! Saia daqui imediatamente, seu traidor! – A rainha brandiu escandalizada e cortesões comentaram sobre seu comportamento inadequado por dias.
Maria Beatrice por sua vez gastava seu tempo na capela particular presente no Palazzo Reale, ela rezou dia e noite diante da imagem de Jesus Cristo pela recuperação de seu primo e rei até seus joelhos doerem, sua fome se tornasse impossível de suportar e o sono a vencesse. Provavelmente não foram escolhas mais saudáveis a se seguir, porém, ela estava desesperada e quando as pessoas estavam em estados como aqueles, elas cometiam os piores erros, e Maria Beatrice era jovem e estava com medo do destino que se estendia a sua frente. Amália ficou preocupada com a condição de sua filha e população já aflita devido à doença do rei, viu tal conduta vindo da sucessora como sinal de fraqueza, desiquilíbrio e incapacidade de suportar circunstâncias difíceis que vieram com o cargo de soberano. Maria Beatrice somente voltou aos trilhos com a intervenção do Arcebispo de Sole, que era um amigo e um bom conselheiro para sua família.
— Nós normalmente somos um povo resiliente e determinado, madame. – O velho arcebispo falou, referindo-se a inquietação nas ruas. Ele tinha se sentado em um dos bancos da capela e bem ao lado de Maria Beatrice. – Mas há momentos difíceis que nos vemos na necessidade de um líder forte que seja capaz de nos mostrar o caminho certo a trilhar.
— Tenho apenas dezesseis anos, Vossa Excelência! – Maria Beatrice exclamou apavorada. – Não sou nem de longe o líder forte que eles precisam! Eles devem buscar seu líder em outro lugar, talvez a rainha e o primeiro-ministro sejam mais aptos!
— A rainha está muito preocupada com o rei e primeiro-ministro está muito ocupado organizando seu Gabinete. – O arcebispo retrucou. – E a senhora é mais forte do que pensa e eu tenho certeza disso, porque a conheceu desde que a senhora era um bebê nos braços de sua mãe. – O homem segurou as mãos de Maria Beatrice entre as suas. – Entenda, madame, que não estou pedido para a senhora vá as ruas e faça um discurso tranquilizador e pomposo em frente ao povo como alguns políticos fazem, a única coisa que peço é para que a senhora saia de seu exílio autoimposto nessa capela e participe das atividades cotianas da corte. Tenho certeza que suas ações serão suficientes para minimizar o nervosismo da população.
Maria Beatrice refletiu sobre sua confabulação com o arcebispo pelo resto do dia, então na hora do jantar ela escolheu seguir o conselho do homem religioso e se uniu aos demais cortesões para o jantar – algo que ela não tinha feito há dias. Ela conversou com algumas damas com idades próximas da sua e tocou piano para as pessoas após o jantar, que adoraram sua performance. Embora Maria Beatrice se mantivesse angustiada, ela conseguiu para si mesma alguns pequenos instantes lazer que tanto necessitava, pelo menos por uma noite. Na manhã seguinte, Maria Beatrice ainda orou pela recuperação do rei na capela, no entanto, ela não se manteve lá por muito tempo, decidindo passar seu tempo nos jardins, na biblioteca, em suas aulas com o Sr. Dino ou na sala de música praticando seu canto e tocando piano ou violino. Ela estava com medo e isso era uma verdade que não mudaria em breve, todavia, isto não queria dizer que ela devesse consentir que o medo continuasse a dominasse. Maria Beatrice seria rainha algum dia e rainhas devem ser fortes e confiantes e provar para seu povo que situações aparentemente difíceis podem ser superadas.
Felizmente, aquele cenário não se prolongou por muito tempo, pois o rei Alfonso começou demostrar sinais de recuperação – sua febre abaixou e ele parou de delirar sobre suas falecidas filhas – para o grande alívio de todos. Maria Beatrice quase se ajoelhou no chão para agradecer ao Senhor no exato momento que recebeu as boas notícias – as orações dela foram respondidas e o bom Senhor teve misericórdia de seu primo e dela. O primeiro-ministro teve sua inquietação diminuída e veio pessoalmente para ver a recuperação milagrosa de seu soberano. Don Alessandro Carlone não pode acreditar naquilo que seus olhos lhe mostraram – o rei fez até uma piada jovial sobre a aparência surpresa do homem mais velho! – e ainda assim ficou contente em não lidar com uma possível regência em nome de uma rainha jovem demais para seu cargo. Por enquanto, tudo acabou bem, o primeiro-ministro constataria em seu diário mais tarde naquele dia após saborear um gole de seu conhaque em frente a lareira.
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