A Herdeira

6 Capítulo Cinco: A Questão dos Trens


Notas iniciais
Aqui está o capítulo cinco e contaremos com a presença de Don Alessandro novamente. Talvez eu fique mais ocupada nas próximas semanas, pois tenho um trabalho em grupo para fazer nos próximos dias que provavelmente exigirá muito esforço, então não tenho certeza se poderei postar o próximo capítulo semana que vem como gostaria. Amantes da história, não enlouqueçam porque esse é um trabalho ficcional com a intenção de brincar um pouco com fatos históricos. Com carinho, Mandie Cruz.

Capítulo Cinco: A Questão dos Trens.

Em meados do ano de 1841, o rei Alfonso já tinha introduzido sua jovem prima e sucessora em certos assuntos de Estado – coisas mínimas e simples que lhe confeririam experiência –, ele até a convidou para participar de alguns dos encontros semanais que tinha com o Primeiro-ministro. Maria Beatrice também passou ler diária e religiosamente os jornais para se manter informada sobre as notícias que envolvem o seu país e o mundo. A princesa lia o jornal todas as manhãs durante o café da manhã até que sua mãe comentasse ao tomar sua xícara de chá.

— Toda vez que lhe vejo só consigo me lembrar de seu pai.

— Sério? – Maria Beatrice indagou ao erguer seus olhos esverdeados do jornal que estava lendo e focando sua atenção unicamente em sua mãe. A felicidade estava clara em seu sorriso praticamente ofuscante e seu semblante iluminado.

— Sim, você parece ter desenvolvido o mesmo mau hábito que ele tinha de ler o jornal enquanto estamos a mesa. – A Duquesa viúva de Belfiore se pronunciou em uma entonação desaprovadora. – É irritante e uma falta de educação.

— Não é um mau hábito e apenas uma maneira eficiente de se manter informada. – Maria Beatrice retorquiu. – E se papai fazia isso, tenho que certeza que não era com o objetivo de a ofender.

E entre todas as questões que Maria Beatrice foi notificada, o projeto de ampliação das linhas ferroviárias na Aurânia foi o assunto que mais empolgou a princesa, que assim como o rei, via os trens como impulsionadores o país para o futuro. Os trens ajudariam a melhorar as indústrias, o comércio e o transporte de cargas e pessoas por todos os cantos do país. Maria Beatrice verdadeiramente entendeu o quão importante era a necessidade de ampliar as ferrovias, no entanto, o que ela era incapaz de entender era o motivo do parlamento hesitar em aprovar e liberar os recursos essenciais para dar início as obras. A situação estava se tornando tão ridícula, que até os jornais estavam satirizando os membros do parlamento em suas páginas e os descrevendo como homens velhos, baixinhos, carecas e avarentos. A filha dos Duques Artistas sabia que não era por falta de dinheiro ou mão de obra que construções não começavam, já que a Aurânia tinha em abundância as duas coisas, pois o país tinha as melhores e mais prósperas jazidas de ouro e muitos homens trabalhadores dispostos, portanto, a princesa criou confiança para discutir suas preocupações com o Primeiro-ministro. Talvez ela conseguisse o influenciar a agilizar as decisões, mesmo que suas ações não fossem consideradas adequada para sua posição.

— Don Alessandro. – Maria Beatrice cumprimentou o Primeiro-ministro quando o encontrou andando pelos corredores. Ele provavelmente tinha saído de uma de suas reuniões com o rei.

— Vossa Alteza Real. – Don Alessandro a saudou com uma reverência.

— O senhor gostaria de se juntar a mim e minhas damas para o chá? – A herdeira perguntou já sabendo que o outro homem não poderia negar um pedido feito por alguém da família real, especialmente uma pessoa tão próxima do trono como ela, que fez questão de esconder suas verdadeiras intenções com um sorriso amigável, que também ocultava a amargura que ela sentia em relação a ele desde que conversaram pela primeira vez.

A princesa Maria Beatrice, o Primeiro-ministro, Donna Margarida e Donna Cristina tinha sentado na sala particular que a herdeira compartilhava com sua mãe em silêncio e aguardaram a chegada do criado que traria o chá. Aquela situação lembrou Maria Beatrice da primeira vez que se encontro oficialmente com Don Alessandro depois que ela se tornou a herdeira presuntiva da Aurânia, embora, dessa vez Maria Beatrice se sinta em vantagem. Naquele meio tempo, Maria Beatrice pensou cuidadosamente em como abordaria o assunto em questão. Ela não desejava soar rude demais – apesar de sentir que Don Alessandro certamente merecesse sua antipatia –, entretanto, ela também não desejava não queria soar excessivamente amistosa com alguém como Don Alessandro, que tão claramente desacreditava nela e em suas habilidades. O chá chegou e foi depositado na mesinha de centro na frente deles, e Maria Beatrice finalmente solucionou seu pequeno dilema. A princesa coçou a garganta para chamar a atenção do Primeiro-ministro, que focou seus olhos nela com interesse. Ele seguramente estava questionando a razões de Maria Beatrice.

— Don Alessandro, é verdade que seu partido ocupa a maior parte dos assentos no parlamento? – Maria Beatrice o inquiriu ao tentar soar o mais inocente possível ao esconder suas reais intenções por detrás de um sorriso doce e um piscar de olhos amável.

— Sim, madame. – O homem respondeu com facilidade. – E é por isso que me tornei primeiro-ministro.

— E também é verdade que seu partido compartilha do mesmo ponto de vista positivo do senhor em relação as ampliações das ferrovias. – Ela indagou com curiosidade e estreitou os olhos para poder analisar melhor o senhor posicionado ao seu lado.

— Sim, madame. – Don Alessandro afirmou em um tom firme. Talvez ele já estivesse desconfiado dela.

— Então me diga, meu senhor, o porquê do parlamento resistir em aprovar os recursos financeiros necessários para dar início as construções?

A pergunta de Maria Beatrice obviamente pegou o primeiro-ministro de desprevenido. Os olhos de Don Alessandro se arregalaram devido a declaração ousada da jovem princesa e sua boca quase que se abriu por completo por causa da surpresa.

— Permita-me ser franco com a senhora, madame, mas, meu partido e eu estamos lutando contra uma forte resistência liderada pelo novo líder dos liberais, que conseguiu trazer para o seu lado os partidos menores e insatisfeitos com meu governo. – Don Alessandro fez questão de esclarecer e Maria Beatrice ficou agradavelmente surpresa por sua sinceridade. Ela esperava que ele mentisse ou arrumasse desculpas esfarrapadas para tentar melhorar o cenário atual.

— Don Carlos Blando é o novo líder do Partido Liberal. – Donna Cristina sussurrou para Maria Beatrice, que mordeu o interior de sua bochecha. – Algumas pessoas o chamam de gênio e outros o acham bastante promissor.

— Pessoalmente, acho-o um belo de um bufão arrogante. – Donna Margarida acrescentou maldosamente e Don Alessandro gargalhou ao escutá-la.

— O que o senhor acha que ele pretende? – Maria Beatrice interveio com seu foco recaindo novamente sobre o primeiro-ministro.

— Ele é jovem, madame, e destemido demais para seu próprio bem. – Don Alessandro se pronunciou. – Don Carlos provavelmente deseja poder, respeito e prestígio assim como qualquer outro homem de sua idade e minhas fontes dizem que ele quer enfraquecer meu governo através de boicotes em minhas políticas e então forçar o rei a dissolver o parlamento e convocar novas eleições, talvez na esperança de subir ao poder juntamente ao seu partido.

Maria Beatrice ofegou e exclamou em seguida:

— Que raposa ambiciosa! – Ela evidentemente estava escandalizada. – O senhor acha que consegue superá-lo? Ou neutralizá-lo?

— Creio que sim, madame. Meus partidários e eu estamos trabalhando adquirir mais votos para nossa causa. – O primeiro-ministro retorquiu.

— É bom ouvir isso. – A princesa confirmou.

— Assim como é bom ver que a senhora esteja mostrando maior interesse nos assuntos de Estado. – Don Alessandro complementou.

— Surpreendente, não é mesmo? Tenho certeza que o senhor não esperava que eu me mostrasse tão determinada, apesar de meu gênero e habilidades insuficientes. – Maria Beatrice mencionou azedamente e o encarou direta e desafiadoramente nos olhos.

Don Alessandro sorriu.

— Na verdade, madame, sempre tive esperanças que a senhora agisse para provar que meus argumentos estavam errados e se mostrasse mais entusiasmada, já que em minhas experiências, pessoas tendem a agir com mais fervor quando outras lhe dizem que não podem ou não são capazes de fazer algo.

Maria Beatrice ficou sem palavras por cinco minutos que se parecerem uma eternidade em sua mente, permitindo-se refletir sobre as novas informações que tinha adquirido e atestou, para seu desgosto pessoal, que de alguma forma o velho primeiro-ministro tinha lhe manipulado para se empenhar, refinar e obter novos conhecimentos – em especial, conhecimento sobre o país. Ela não gostou de sua conclusão, porém tinha outra coisa lhe incomodando e sua língua pinicava para questionar Don Alessandro sobre essa questão.

— O senhor não foi me visitar pela primeira vez para comentar sobre minhas incapacidades, não é verdade? O senhor foi me avaliar, observar de perto como eu reagiria diante de suas palavras. – Maria Beatrice enunciou com audácia.

— Talvez sim, talvez não. – O primeiro-ministro retrucou quase misteriosamente, mas, seu sorriso satisfeito foi suficiente para Maria Beatrice descobrir que sua afirmação anterior era verdadeira. – No entanto, não esqueça que a senhora também me avaliou naquela época, madame.

— Bem, meus métodos de avaliação certamente eram mais gentis. – Maria Beatrice expressou ao bebericar um pouco de seu chá.

— É verdade que a senhora foi mais cortês, contudo, acho que já cheguei em um ponta da minha vida que as bajulações já não me servem de nada e que as estratégias sinceras por mais rudes que possam ser me rendem maior lucro. – Don Alessandro observou e pôs sua xícara na mesinha de centro. – Agora, se a senhora me der licença, preciso me retirar mais cedo, porque hoje é meu aniversário de casamente e eu prometi a minha esposa um belo jantar em um restaurante chique, pomposo e bastante de caro.

— Adeus, Don Alessandro. – Maria Beatrice se despediu ao admirar o homem mais velho fazer uma reverência enquanto se retirava.

Uma semana após seu último encontro com o primeiro-ministro, Maria Beatrice foi informada da alegre notícia da vitória de Don Alessandro e do Partido Conservador sobre Don Carlos e o Partido Liberal. A princesa herdeira da Aurânia ficou realmente alegre com a notícia e ainda mais quando escutou sobre a boa e grande verba que foi reservada para as obras assim como o dia marcado para ser o início das construções no dia cinco do próximo mês.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.