Eu não acreditava nem um pouco na história que me contaram.

Efeito colateral, era comum, disseram. Mas eu deixei para lá, eu acreditava que não iria acontecer novamente e isso me confortou.

Além do mais, eu tinha toneladas de dever de casa para fazer. Três rolos de pergaminhos para quarta-feira, um estudo sobre a constelação de Órion, para a aula de Astronomia. E isso é só o começo da minha semana.

Dois dias depois do episódio dos meus olhos vermelhos, eu estava na aula de Poções, copiando as instruções que o professor Slughorn nos dera.

–Esta é uma poção bastante simples. Ela funciona como uma tinta, porém é permanente, para sempre. Estamos falando de qual poção?

Rose levantou o braço.

–Sim, senhorita Weasley?

–Poção Colorea, professor.

–Muito bom! Mais vinte pontos para Grifinória. — Rose sorriu. — Agora atenção, por favor. Todos vocês tem suas duplas formandas desde o início do ano. Porém, agora, deverão trocar de duplas. Farei um sorteio para definir quem ficará com quem.

–Só não quero ficar com Scorpius. — Rose sussurrou.

–Ai Rose, que besteira. Ele é um dos melhores alunos de poções. — Eu disse.

–Mas há outros tão bons quanto eles.

–Muito bem, vamos lá. — O professor Slughorn segurava um saquinho marrom. Ele tirou de dentro dois papéis e leu os nomes. — Rose Weasley e Malcom Ortiz. Alvo Potter e Juliette Mason. Dominique Weasley e Maryse Happening. Claire Laurent e Scorpius Malfoy. Roxanne Weasley e Peter Holf...

O professor continuava a sortear as duplas, mas eu parei de ouvir depois que ele chamou meu nome. Fui para a bancada de Scorpius e sorri para ele.

–Fiquei com o melhor aluno de poções, sorte a minha não acha?

–Se você tivesse ficado com Rose, aí sim eu diria que foi sorte sua. — Ele disse. Eu revirei os olhos.

–Atenção a todos vocês. Vocês tem quarenta minutos para me entregar a poção Colorea. Comecem!

Eu e Scorpius começamos.

–Três cubos de sálvia preta. — Eu disse, lendo minhas anotações. — Adicionar a uma xícara e meia de água quente e esperar derreter.

–Pronto. Próximo?

–Duas folhas de uma flor morta, de preferência uma rosa vermelha ainda com espinho. A gente tem isso? — Franzi a testa.

–Não. Não temos a rosa, quero dizer. Mas temos uma margarida. Deve servir.

Dei de ombros e coloquei as duas folhas da flor.

–Agora é esperar fever durante alguns minutos.

–Tem certeza de que é só isso? — Scorpius perguntou.

–Só está escrito isso. Aqui diz que depois de fever, devemos acrescentar quatro ramos de erva-cidreira forte e raspas de escamas de dragão norueguês.

–Só? Parece fácil demais... — Scorpius sussurrou. Eu fitei o quadro, depois minhas anotações. Ele estava certo, estava tudo muito fácil.

–Mas nós fizemos tudo o que estava escrito... — Retruquei.

–Eu sei, Claire. Mas... — De repente Scorpius sorriu para mim. E nos entendemos mesmo sem palavras. Retribui seu sorriso.

–Precisa de folhas de amoreira. — Ele disse sorrindo.

Há duas semanas, o professor Slughorn havia dito que a folha de amoreira faz parte de qualquer poção de transfiguração, não importava qual fosse ela.

–Aqui. — Eu disse, pegando algumas folhas de amoreira na mesa. — Quantas devem ser?

–Não sei. Vamos arriscar em duas. — Dei de ombros e coloquei duas folhas. A poção imediatamente ficou rósea.

–É para ficar dessa cor? — Eu perguntei.

–Acho que sim. — Scorpius olhou para a poção. Ela mudou de tom, de rosa para azul cobalto. — Definitivamente eu acho que a poção deve ficar assim.

–Acha que deu certo?

–Não sei.

–Vou testar. — Coloquei uma das luvas de couro de dragão e peguei um pingo da poção, enquanto ela ainda estava azul. Esfreguei a gota em uma mecha do meu cabelo. — Que tal?

Scorpius riu.

–Azul fica bem em você. Por que não pinta todo o cabelo?

–Por que eu prefiro meu cabelo natural, obrigada.

Revirei os olhos. Scorpious se inclinou e colocou a mecha azul atrás da minha orelha. Fiquei vermelha na hora.

–Acabou o tempo. Por favor, coloquem a poção de vocês aqui na mesa. — Disse o professor Slughorn.

Coloquei nossa poção em um frasquinho e levei para a mesa do professor. No caminho, comparei com a de Juliette e de Rose. A minha mudou para amarelo, enquanto a dos outros era uma espécie de arco-íris engarrafado. Me perguntei se a nossa poção estaria certa, mas dei de ombros. Ela dera certo no meu cabelo, então deveria estar certa... Pelo menos assim eu esperava.

–Parabéns a todos pela poção! Na próxima aula, direi quem conseguiu fazer certo a poção e as testaremos. Estão dispensados.

O sinal tocou. Rose agarrou meu braço e lançou um olhar frio para Scorpius. Revirei os olhos.

–Venha Claire, estamos apostando uma corrida!

Ela riu.

Eu, Rose, Juliette, Maryse e Dominique estávamos em posição de corrida, na porta da sala. Roxanne daria a largada.

–Preparadas? Um, dois, três e já!

Corremos. Eu estava rindo, colocando força na corrida, tentando ultrapassar Rose. Ela era a mais rápida de todas nós e não havia ninguém que conseguia bate-la. Eu quase consegui.

–Ganhei! — Ela disse, pulando de um lado para o outro. Eu me encostei na parede, ofegando.

–Como... Como você consegue correr tão rápido?

–Não sei. Mas espero ser tão rápida na vassoura também. Quero ser artilheira ano que vem no time de Quadribol.

–Tenho certeza de que você vai conseguir. — Juliette disse quando finalmente conseguiu falar.

–Espero que você esteja certa.

–Qual aula temos agora? — Maryse perguntou.

–Defesa Contra as Artes da Trevas. É melhor irmos logo, a professora Locke é rigorosa com o horário. — Roxanne respondeu.

–Temos alguma lição para amanhã? — Perguntei.

–Não, nada. — Rose me assegurou. — Mas amanhã tem os testes de Quadribol, vocês vão ver?

–Claro. — Maryse e Dominique responderam ao mesmo tempo.

–Não sei, Rose. Acho que não. — Eu disse. — Tenho que mandar cartas aos meus pais e estudar. Mas quem sabe eu passo lá.

–Certo.

Estávamos andando na direção da sala de aula, no terceiro andar, juntamente com vários alunos.

–Você e Scorpius parecem se darem bem... — Maryse disse.

–Ele é meu amigo. — Eu disse.

–Só amigo, Claire? — Roxanne sorriu maliciosa. Eu revirei os olhos pela milésima vez naquele dia.

–Sim, só amigo.

–Não confio nele. — Rose declarou seu desgosto por Scorpius, para variar. — Ele é de Sonserina, filho dos Malfoy. Tem alguma nele que não gosto.

–Alvo também é de Sonserina, Rose. E ele é a pessoa mais gentil que conheço. — Rebati.

–Meninas. — A professora Locke noa chamou atenção. Estávamos na porta da sala e eu mal percebi que tínhamos chegado. — Podem continuar a discussão depois, certo? Hora da aula agora.

–Desculpe professora.

Nós entramos na sala e ocupamos nossos lugares de costume.

–Hoje eu vou ensinar um feitiço muito simples, mas muito útil. Alguém poderia me dizer o nome, do feitiço que desarma o oponente?

Pela primeira vez, em quase dois meses, eu sabia a resposta de alguma coisa. Levantei a mão.

–Senhorita Laurent?

–Expelliarmus?

–Muito bem. Dez pontos para Grifinória. Formem uma fila, por favor, vocês tentarão me desarmar.

Formamos uma fila na frente da professora. Eu estava logo atrás de Alvo e Dominique estava atrás de mim.

–Girem a varinha, digam o feitiço e tentem me desarmar. A cada acerto, a casa ganha dez pontos. Comecem.

Rose foi a primeira. Ela conseguiu, como sempre conseguia tudo o que fazia. Em seguida duas meninas da Lufa-Lufa, que não conseguiram. Eve Brandt, uma menina ruiva de olhos azuis, da Sonserina mal conseguiu dizer o feitiço. Em seguida foi a vez de Alvo e ele conseguiu, sorri para ele.

–Laurent... Sua vez.

–Expelliarmus!

A varinha da professora Locke caiu no chão, como tinha feito das outras vezezs.

–Muito bom. Próximo!

Dominique não conseguiu. Ela ficou irritada, assim como Scorpius que também não conseguiu.

–Você vai conseguir. — Eu disse a Scorpius. — A gente treina junto toda tarde.

–Sério, Claire?

–Sério.

Trocamos um sorriso. Quando o sinal tocou, para a próxima aula, Tiago e um colega seu passaram por mim e Rose e o amigo dele disse:

–Ei, é a menina daquela foto!

–Jason, não é ela. — Tiago disse, revirando os olhos.

–Que foto? — Eu perguntei, curiosa.

–Nada, Claire. É uma foto antiga, que vimos no corredor dos troféus.

–Onde fica isso Rose?

–Nesse andar, próximo corredor.

Corremos até lá. Alvo e Scorpius estavam na nossa cola, correndo atrás da gente. Rose ia mais a frente, mostrando o caminho. Ela dobrou a direita e parou enfrente a uma estante com inúmeros troféus e quadros com fotos.

–Aqui. — Ela apontou para uma fotografia com a data de 1999, do time de quadribol da Grifinória, vencedor da competição de quadribol. — Olha para a menina loira, Claire.

Arregelei os olhos ao ver a garota. Era muito parecida comigo, exceto o cabelo, que era loira. Ela sorria para a foto e inclinava a cabeça, um menino ao seu lado com a mão na sua cintura.

Eu poderia dizer que ela se parecia mais comigo, do que a minha mãe.

–Megan Whitaker. — Rose me disse, sem nem mesmo consultar a legenda.

–Morta a onze anos, junto com seu marido, Will e a filha do casal, Marie. — Alvo disse atrás de mim.

–Em Londres, no dia 5 de agosto. Um incêndio no apartamento deles, nunca souberam o por que. Ou quem foi. — Scorpius sussurrou.

–Dia 5 de agosto eu fiz onze anos. — Eu disse para ninguém em particular.

Nós ficamos ali por um bom tempo, olhando a foto da garota morta que se parecia comigo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.