A Harmonia
3 Harmonia para um só.
Notas iniciais
Eu podia assumir a forma de um lobo. Na verdade, nunca tentei assumir a forma de mais nenhum animal, e a de lobo era o que eu mais gostava. Quando eu sentia que alguém precisava de mim, eu corria o máximo que eu podia. Eu era bem mais rápida que um lobo comum, e eles sabiam que eu era diferente pois quando em viam não ousavam rosnar ou me encarar, apesar de que eu não os machucaria caso o fizessem.
Não só minha velocidade mas também a minha aparência era diferente. Meu pelo era da cor creme, uma cor um pouco mais rara entre lobos, e era menos rebelde.
Em uma tarde de inverno eu estava caminhando por uma floresta e senti um arrepio, minha nuca formigou e algo me dizia que alguma coisa não estava bem. Não era simplesmente um medo de criança, mas algo muito maior. Imediatamente virei um lobo e corri o mais rápido que eu pude seguindo meus instintos.
Corri até chegar em um pequeno vilarejo e parei quando vi que algumas pessoas estavam reunidas em volta de uma fogueira. Elas estavam recitando algumas palavras, acho que uma reza, um pouco tristes e já estava escuro, mas elas continuavam fora de suas casas, o que era estranho já que geralmente elas temiam Pitch. Embora tristes, eu senti que não era aquilo que eu estava procurando, então continuei andando.
Passei por mais algumas pessoas,mas não era nenhuma delas, caso contrário, uma delas podia teria me notado ou eu sentiria alguma coisa mais forte. Andei até chegar perto de uma casa e minhas patas começaram a formigar. Farejei o ar e entrei. Um pequeno ritual meu antes de entrar em qualquer lugar. Lá dentro havia um homem chorando frustadamente. Me aproximei mas mesmo assim ele não levantou a cabeça para me olhar ou, então, não me viu. Algumas pessoas não me veem mesmo quando precisam de mim.
Me aproximei, coloquei a pata em seu colo e tudo me veio como uma bomba: seu nome era Fargus Senclair, clã de magia(eram muito comum dos séculos XVI à XVII), setia ódio, amargura e arrependimento; a esposa era falecida e a razão par estar chorando era a perda da única filha por... Senti um choque e a conexão se desfez. Pelo menos dessa vez consegui saber o motivo, já que era um truque novo que eu tinha aprendido então ainda não conseguia controlar totalmente ou retirar todas as informações necessárias.
Dei a volta nele enquanto me transformava em humana novamente, encostei minha duas mãos em suas costas e ia aliviando os sentimentos ruins. Eu achei estranho o fato de ele não estar sentindo coisas relacionadas ao medo, como angústia, aflição ou pânico... pelo menos isso simplificou o trabalho. Coloquei o suficiente para livrar a dor temporária, aquela dor ruim dos primeiros dias da morte de alguém querido, e a aceitação dependia dele pois, infelizmente, essa parte estava fora de meu alcance.
Me levantei e achei ter visto um vulto preto passar pela janela. Talvez meus olhos estivessem me pregando peças.
Caminhei até a porta e a abri, estava dando o primeiro passo para sair e os soluços do homem pararam. Ele fungou e com a voz rouca ele se surpreendeu:
–Harmonia?!
Eu me virei e o olhei. Ele se levantou, os olhos vidrados em mim como se eu fosse um pedaço de ouro enorme. Ele deu um passo à frente e voltou a falar, baixinho, com o mesmo tom de surpresa:
–Você...existe...
Virei lobo e sai correndo. Não sei se ele tentou correr atrás de mim ou algo do tipo, mas algo na voz e nos olhos dele me assustaram. Eu já fui reconhecida e vista várias vezes e meu trabalho é levar e ser a harmonia, então, é difícil me assustar, mas aquilo definitivamente me fez correr de medo.
Alguns meses após aquilo, quando eu já estava me esquecendo, algumas coisas estranhas aconteceram. E você deve estar se perguntando "Que coisas estranhas?". Bom, das várias pessoas que eu visitava por dia pelo menos uma era daquela vila. Crianças, na verdade, sempre estavam assustadas e o que mais me incomodava é que eu não conseguia descobrir quem as assustava daquele jeito, minha conexão sempre falhava antes de descobrir o motivo.
Apesar de estranho, eu tinha que ir. Crianças geralmente não conseguem lidar com a dor de um medo.
Em uma noite eu entrei no quarto de uma garotinha. Ele segurava os joelhos e chorava enquanto seus pais tentavam acalma-la. Ela não queria dizer de maneira nenhuma o que tinha acontecido e eu fui acalma-la. Fiquei lá até ela dormir e depois sai da casa.
Ouvi um ruído vindo detrás de uma casa. Eu fiquei olhando para aquela direção e então um flash arroxeado apareceu e um vulto preto pulou na minha direção. Eu dei uma cambalhota para trás e me transformei em lobo antes de pisar no chão.
Olhei para a direção do que pulou em mim e era um lobo. Não qualquer lobo, mas um muito maior que eu e do que qualquer outro normal.
–Harmonia! -Uma voz rachada veio detrás do lobo negro. -Eu estava lhe esperando!
Harmonia! Hunf... Eu não gostava de ser chamada assim afinal, esse não é meu nome! Eu apenas fiquei observando, provavelmente um erro, enquanto o vulto saía detrás do lobo. Era aquele homem...Fargus.
Ele me encarou com um olhar desafiador, como se duvidasse do que eu podia fazer.
–Pega. -Ele falou com uma frieza horrível na voz. No mesmo instante o lobo negro partiu para cima de mim e eu corri o mais rápido que pude para a floresta.
Aquilo era muito rápido. Algumas vezes eu olhava para trás e parecia que suas patas não tocavam o chão. Eu corri muito, com todas as minhas forças e, então, uma dor terrível, atingiu minha per...pata traseira, percorreu meu corpo e eu caí no chão com uma força tremendamente grande.
Olhei rapidamente para trás e eu estava sangrando. Tentei me levantar mas não aguentei e eu caí de novo. O lobo negro estava parado próximo à mim, rosnando.
–O que você quer? E o que você é? -eu perguntei rispidamente.
Uma das perguntas deve te-lo ofendido pois ele pulou no meu pescoço e o mordeu com vontade. Eu lembrei da dor no dia em que eu morri e uma sensação ruim tomou meu corpo, os dentes dele afundaram na minha pele e eu senti meu sangue quente escorrendo pelo meu corpo.
–PARE! -Fargus gritou e o lobo o obedeceu imediatamente. -Ela é imortal mas se for gravemente ferida ela pode morrer! -Ele se virou para mim e deu um sorriso maldoso. -Gostou? É magia negra... bem eficiente né? Consegui criar um olho especial que me faz poder vê-la, só precisava te atrair para cá. Infelizmente você era muito rápida, mas isso... -ele deu tapinhas na cabeça do lobo. — com certeza não falharia.
Ele retirou um frasco com um conteúdo preto e colocou no pequeno compartimento do seu anel.
–Hoje, é o dia em que a harmonia será minha e de mais ninguém! E eu terei tudo que eu quiser!
Ele empurrou meu pescoço contra o chão apertando a parte machucada. Eu tentei reagir mas a dor da minha pata e do meu pescoço ardiam loucamente. Fargus fechou a mão e aproximou o seu anel do meu pescoço, o qual havia uma ponta fina como uma agulha. A ponta do anel encostou no meu pescoço e o injetou o líquido preto em mim.
Aquilo queimava como fogo, um formigamento percorreu meu corpo e eu senti harmonia escorrendo para fora de mim como se eu fosse uma bexiga. Minha visão ficou turva aos poucos e eu me lembro de poucos detalhes. Uma multidão, eu fui ataca dentro de uma cela que, ao invés de grades, foi fechada com pedras e cimento.
Não sei quanto tempo se passou quando eu recuperei a visão. Não havia luz em minha cela e eu não conseguia ouvir quase nada do lado de fora. Esmurrei e espanquei a parede tanto na forma de lobo quanto na humana. Eu me joguei sentada no chão e fiquei olhando o nada.
–Boa tarde. -uma voz fria veio do meu lado esquerdo e eu pulei para o lado. Havia pouca luz mas eu conseguia ver os olhos vermelhos e brilhantes da criatura. Era o lobo negro. -Harmonia vim lhe entregar uma notícia de meu mestre.
–Meu nome não é harmonia! E quem é você?
–Eu sou uma magia e só consigo falar pela vontade de meu mestre. Ele me pediu para lhe dizer que este é seu fim. Esta cela é fechada com magia negra. Meu mestre retirou a harmonia de seu corpo e pegou para uso próprio e, contou as pessoas da vila que há um demônio aqui dentro. Logo, tenha uma boa eternidade! -Avancei nele mas, o lobo desapareceu e eu fiquei sentada lá por um bom tempo.
Meus olhos possuíam todas as cores com diâmetro perfeito,caso contrário não haveria harmonia, e cada cor representava um sentimento. As cores que se pode perceber de longe são: Vermelho, o ódio; Laranja, a antipatia; Amarelo, a alegria; Verde, a tranquilidade; Azul, a simpatia; Violeta, a confusão; e Rosa, o amor; Olhando mais de perto podia-se perceber o preto, o medo; Branco, a paz; e Cinza, a tristeza.
As cores podiam ser divididas em subtópicos. Dentro do vermelho, por exemplo, havia o vinho, o egoísmo; o vermelho arroxeado, a arrogância; e vários outros.
E daquela hora em diante, após a saída do lobo negro, eu pude sentir a cor vermelha do meu olho esquerdo aumentando.
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