A Guerra do Céu
1 Capítulo 1 - A gota d'água... ou gelo.
Notas iniciais
Sou novo aqui (literalmente, criei minha conta hoje), mas não espero gentilezas de vocês. Espero que sejam sinceros em dizer o que acharam - com a devida delicadeza e respeito, que sei que vocês tem.
- Não esperem que eu escreva lindamente como o Tio Rick pelo amor de Afrodite -
Estava especialmente quente e abafado naquele dia. Eu estava usando calças jeans e moletom preto. "Você deve ir de roupas compridas, little baby" disse a mamãe. "O tempo vai virar e você com certeza vai sentir frio".
Ok. Prever o tempo nunca fora o forte dela. Sempre acabava encharcado nos “dias de sol” ou derretido nos “dias frios” como aquele. Me perguntava se podia estar melhor vestido para aquele dia se seu pai estivesse conosco. Mamãe disse ele era um ótimo meteorologista e que tinha-os deixado por uma oportunidade única de trabalho no Ártico, quando eu ainda era um bebê. "Ele e os golfinhos! Pareciam inseparáveis! E haveriam muitos deles por lá" comentara ela. Ela nunca havia mencionado-o de modo rude, na verdade sempre falava bem dele. Talvez por isso o perdoasse por me deixar com alguém que achava que ia cair neve em pleno verão.
Ela dizia que a maior parte da minha genética vinha dela: os cabelos negros e cacheados, os olhos quentes cor de amêndoa e cílios grandes (extra grandes), a pele bronzeada e o sorriso branco de lábios cheios e rosados. As partes ruins vinham do papai: teimosia, cabelos desgrenhados e uma mania terrível de fingir ter se afogado, ficando quase dois minutos embaixo d’água (adorava fazer isso). Claro que eu não concordava totalmente com tudo aquilo. Minha mãe era muito gata pra mim, um garoto que tinha preguiça até de pentear os cachinhos de manhã, parecer-se tanto assim com ela. E meus cabelos não eram totalmente negros iguais aos dela: costumavam ser mais azulados ou até meio esverdeados, quando o molhava com a água salgada do mar.
Estava distraído olhando pela janela. Era intervalo do quinto ano. Aquelas crianças pareciam tão livres, sem ter que se preocupar com caras como o... De repente meu pensamento se materializou. Ele entrou na aula de química – havia se atrasado ao menos uns vinte minutos. Esperava que houvesse ido embora por alguma dor de cabeça ou qualquer outra coisa que envolvesse dor. Ele me olhava com seu desdém de sempre. Seus olhos azuis faiscaram por baixo de seus óculos com armação vermelha ao me ver. Sua pele, um pouco escurecida pelo sol, brilhava devido ao calor. Seus fios lisos de cabelo eram cortados de modo que ficassem longos no centro e mais ralos nas laterais: um corte arriscado que infelizmente ficava perfeito com aquele rosto limpo e angelical como de um bebê. Era mais alto que eu e adorava usar isso contra mim.
- Nathan Luis! É a quinta... – começou a professora.
- Lewis. Nathan Lewis, Srta. Mayra – corrigiu-a o Sr. Perfeito. Sua voz era aguda e harmônica, perturbadoramente natural.
- Que seja! – Respondeu a Srta. Mayra, irritada – É a quinta vez que chega atrasado na minha aula!
- É? Achei que fosse lá pra sétima... — Nathan suspirou, como se estivesse desapontado consigo mesmo — Certo! Prometo que vou me esforçar mais ano que vem!
A sala inteira caiu na gargalhada. Minha boca tentou arquear um sorriso, mas o mesmo morreu antes de se concretizar assim que olhei para ele, que, para o meu desprazer, sentava na carteira ao lado. Olhei nos seus olhos e os dele olharam pra mim.
- O que foi Little baby? Está com medo de rir? — disse ele com uma expressão de zombaria no rosto.
Assim que o apelido "Little baby" fora proferido por Nathan minha cabeça girou e minha mente foi lançada no passado no passado.
Quando eramos mais jovens costumávamos ser amigos. Ele sempre ficava comigo nos recreios e era parceiro fiel nas festas de aniversário dos outros colegas da pré escola. Nossas mães haviam se tornado melhores amigas — mais próximas até que nós dois na época — e ele sempre estava na minha casa. Por consequência, Noah — o apelido com o qual sua mão o batizara — passara a me chamar da mesma forma carinhosa que minha mãe: Little Baby.
Éramos super amigos, até o dia em que o homem de barba branca me visitou num sonho e me disse sussurrando: Destrua-o. O sussurro ficou um pouco mais encorpado: Destrua-o. A palavra começara a se tornar uma ordem clara: Destrua-o. Então, de repente, tornou-se um grito volumoso: Destrua-o!
Lembro de ter acordado meio atordoado e com uma raiva estranha. Cheguei no primário com dor de cabeça e tontura, mas por algum motivo eu não dissera nada a minha mãe. Sentei em minha carteira, cumprimentando apenas a professora, e esperei. Esperei algo que nem eu mesmo sabia o que era. Então ele chegou. Nathan. Para mim, aquele garoto nunca mais seria Noah. Sentia vontade de atira-lo de uma cachoeira e sem querer deixar um fio desencapado atingir a água. Aquilo era, com toda a certeza, uma vontade muito estranha para um garoto de onze anos.
Para minha surpresa, ele também parecia querer jogar-me de um precipício: Seus olhos azuis cintilavam e faiscavam freneticamente e seu punho se encontrava rígido ao logo de seu corpo tenso. Ele sentou-se ao meu lado (seu lugar de sempre) e não abriu a boca nem uma vez se quer.
No humor que estávamos, não hesitamos em começar uma briga assim que ele "acidentalmente" derrubou uma garrafa de água gelada inteira sobre mim. Eu lembro de ter socado muito a cara dele — na época ainda éramos da mesma altura — e ter levado muitos chutes dolorosos. Desde então não nos falávamos mais. Aquele sonho injetara uma dose extra grande de ódio em minhas veias e eu, por algum motivo, não fazia a menor questão de tentar me limpar.
Voltei a realidade com um som agudo e estridente vindo da direção do quadro negro.
-Silêncio! — gritava Mayra, enquanto terminava de deixar a lousa marcada com um arranhão de suas unhas — Olha aqui seus pestinhas, eu não sou obrigada!
- Ei! Essa frase é do Noah! — gritou um dos garotos do fundo.
Todos riram, exceto eu e a professora, que tinha a cara redonda vermelha de raiva. Nathan ria alto e agudo. Desejei fortemente que essa risada passasse de perfeita para irritante e ridícula. Tudo nele era ridiculamente perfeito e bom demais. Todas as garotas caíam aos seus pés com um olhar. Para mim isso era totalmente absurdo — pena que eu nem tinha um motivo especial para isso.
Aguentei mais meia hora de "Química: Os mitos e verdades sobre essa fascinante ciência" quando o sinal de intervalo finalmente soou. Srta. Mayra abriu a boca para falar algo, mas todos gritavam, agitados e aliviados.
Cheguei no pátio principal em pouco tempo. Estava absurdamente quente lá, então resolvi ir para fora. Decidi ficar encostado na parede vermelha atrás da escola e apenas esperar o tempo se arrastar até os sinal bater. Não estava totalmente isolado: Nas outras duas paredes externas estavam vários pequenos grupinhos de alunos. Um pouco a minha frente algumas garotas e dois garotos brincavam de pular corda. Uma palavra soou vagarosamente e preguiçosamente em minha cabeça. Destrua-o.
De repente senti algo gelado dentro do meu tênis de corrida. Água. Olhei para os meus pés. Água corrente e cristalina escorria pelo gramado. De novo não! Isso acontecera algumas vezes no passado. Mas a última vez foi na casa de seu tio Jack, quando eu estava com sede e ficara com vergonha de pedir água ao ele — minha mãe havia saído para resolver algumas coisas e me deixara la sobre a supervisão dele — e, quando não estava mais aguentando de sede, o líquido fluiu descontroladamente de dentro de um de seus vasos de flores, mas isso já faziam cinco anos! Pensava que isso havia acabado.
- Olha só — uma voz aguda e familiar disse alto perto do meu ouvido enquanto um braço passava rápido por meu rosto e acertava a parede ao lado — Alguém alem de não saber se vestir ainda tem que furar algum cano da escola.
Muitas garotas riram ou gargalharam, colocando uma das mãos na frente da boca. Que eu odiava aquele cara, era certo. Mas eu nunca faria isso! Nunca colocaria alguém numa situação tão humilhante como a na qual ele me colocara! Eu não conseguia pensar. Minha cabeça estava um turbilhão. Olhei para seus olhos — que piscavam para as garotas, ignorando-me completamente — e disse algo que eu sabia que o machucaria mais que tudo:
- Você não tem culpa Nathan. Eu sei que não.
Seus olhos, que pareciam segurar uma tempestade, voltaram-se rapidamente para mim.
- Culpa, Little baby? Culpa de que?
A ousadia dele de me chamar daquilo esquentou meu sangue até o ponto de ebulição. Reuni meu desprezo num ponto só e despejei:
- De ser ridículo. Patético. Um coitado.
A tempestade que estava em seus olhos desaparecera. Aquele tipo de insulto o machucava mais que tudo. Eu sabia que havia passado dos limites. Nada mais do que uma pequena vingança do que ele havia feito comigo. O sol não estava mais lá, só me dei conta quando o primeiro espinho de gelo caiu do céu. A mini estaca aterrissou logo abaixo da minha mão esquerda, a qual estava estendida ao longo do meu corpo, fazendo-me retesa-la rapidamente. O ar gelou. Agradeci minha mãe silenciosamente por ter-me feito usar um moletom. Existe uma primeira vez pra tudo! Até pra mamãe acertar uma previsão.
Nathan ainda olhava fixamente meus olhos, com a cara vermelha e carregada de ódio. Eu estava irado com ele. Aquelas piadas de mau gosto, as brincadeiras maldosas. Eu não suportava mais. Explodi, jogando-o no gramado de costas com uma joelhada no estômago. Alunos correram para a área coberta para desviar daquelas lanças de gelo que agora caiam do céu deliberadamente e começavam a gritar coisas do tipo "Briga! Briga!" ou "Esmaga ele!" e até " Ele xingou sua mãe! Não deixava...". Aquela agitação foi interrompida... Não! Foi duplamente interrompida. Ao mesmo tempo que Nathan me jogou contra a parede e caímos no chão, a terra começou a estremecer violentamente ao redor, rachando as paredes e fazendo alguns pedaços de grama afundarem. Os únicos que não sentiam o tremor eramos eu e o Sr. Perfeito que socava minha cara o quanto podia até que a terra deu um solavanco e o derrubou de lado. Minha vez!
Pensei em parar, mas já estava no sexto ou sétimo soco quando me dei conta. Nathan fazia cara de ódio pra mim. O tremor havia cessado, mas a chuva de granizo continuava a castigar minhas costas, que deviam estar roxas.
De repente algo fez com que alunos em pânico entrassem na escola correndo. Um barulho estranho ribombou nos nossos corpos. Era um som profundo. Parecia um... Mugido de vaca? Era exatamente isso, pois, quando virei para olhar, uma vaca muito irritada feita de metal olhava-nos com olhos de rubi. Mugiu mais uma vez, raspou um casco posterior no chão, posicionou seus super chifres dourados para nossa direção e disparou.
- Corre! — gritei pra ninguém enquanto rolava para o lado o mais rápido que podia levando um Nathan dolorido junto. Mas era tarde demais.
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