A Guerra do Alvorecer
20 Primeira missão.
Abri as imensas portas do chalé 3 e me deparei com uma grande quantidade de jovens com a camisa laranja do acampamento meio-sangue e muito bem armados. Em grupos eles se movimentavam rapidamente de um lado para o outro. Olhar centenas de rostos num lugar que para mim ainda era muito estranho, e conseguir reconhecer alguns deles, era muito bom. Nunca gostei muito de mudanças radicais, mas consigo me adaptar às coisas rapidamente e encontrar formas de me manter motivado. Se bem que, encontrar formas de se manter motivado não é nenhum desafio para um semideus. Vivemos em constante perigo. E entrei nessa nova fase da minha vida com uma guerra quase estourando. Uma guerra que pode trazer consequências irreversíveis para o mundo dos deuses e para o mundo dos humanos. E eu, estou nos dois mundos, mas é hora de aceitar minha nova jornada e me dedicar à minha missão. Suspirei fundo, fechei meus olhos e elevei meus pensamentos e minha alma a Poseidon: Pai, me proteja e me dê forças para o que vier à acontecer. E antes de descer o primeiro degrau do chalé, encarei a pedra pulsante que habitava a base de minha espada (storm)... No meu subconsciente eu sabia que aquela arma nunca me deixaria na mão e isso me confortava.
Fui andando em direção ao chalé de Hécate, que por sinal ficava bem distante do meu e dos outros 13 chalés dos deuses maiores. Me encontrei com Pichu, Denis, Duh, todos assim como eu, estavam com suas armas e andavam apressados de um lado para o outro. Alguns dos semideuses me paravam para me cumprimentar muito cordialmente e eu não sabia como reagir a isso. Percebi então, ao ver como Nicholas falava de nariz em pé com os outros semideuses e eles abaixavam a cabeça que essa cordialidade era reservada aos filhos dos 3 maiores; Zeus, Poseidon e Hades. Isso não me descia a garganta e me dava mais vontade ainda de socar a cara de meu novo irmão. “Irmão”? É realmente muito estranho pensar isso sobre esse cara que mal conheço e já quero espancar.
Tirei minha atenção de Nicholas no exato momento em que Jazy apareceu na minha frente com um sorriso de orelha à orelha e com o braço erguido, e por instinto ergui o meu também e fizemos um High Five.
— What’s up, dude? – Falou o sátiro norte americano.
— E ai, Jazy. Na paz, e você?— Respondi em português, pois ainda tenho vergonha do meu sotaque quando falo inglês.
— Na paz também. – Respondeu ele – Dude, Sr. Dionisio pediu que eu viesse à sua procura.
— Você sabe o que ele quer?— Achei estranho Dionísio estar querendo falar comigo.
— Não sei, cara. Mas parece que é sério. – Respondeu ele com um tom um pouco preocupado.
— O.k. Mas antes preciso falar com a Jujubs. Ver como ela está. — Falei já começando a andar.
— Beleza, eu vou com você, pois Dionisio pediu que eu estivesse presente na conversa. – Falou ele andando ao meu lado.
— O.k. Isso está mais estranho.— Falei e o sátiro assentiu com a cabeça.
Chegamos à porta do chalé de Hécate. Era uma construção bem menor que o chalé de Poseidon e totalmente envolta por um mármore negro. Pelas brechas da porta saiam uma fumaça quase imperceptível. Jazy foi com a mão para empurrar a porta, mas antes que ele encostasse nela segurei sua mão e falei:
— Algo me diz que seria mais seguro bater na porta e esperar que alguém nos atenda. Vai que o lugar esteja protegido por algum feitiço contra invasores e nos transforme em ratos assim que botarmos nossos pés ai dentro... — O sátiro viu sentido na minha explicação e cedeu o braço.
Dei três batidas na porta e 3 segundos depois ela se abriu:
— Não um rato, mas um gambá, Filho de Poseidon. – Falou uma menina da minha altura, cabelos longos e pretos, pele pálida, olhos cinzas e corpo com curvas bem definidas. Ela vestia calças apertadas pretas, all star e uma regata preta também só que mais folgada.
— Bo-bom dia.— Falei ainda impressionado com a beleza e intimidado pelo olhar que ela lançava sobre mim. – Sou Gabriel, filho de Poseidon e esse é Jazy.
Jazy levantou a mão para cumprimentá-la com a mesma cara de idiota acuado que eu tinha certeza que estava também.
— Sou Lea James. Entrem. – Ela não apertou a mão de Jazy, mas não sei porquê, eu não a achei rude, grossa ou metida, por mais que a reação dela tenha sido.
Entramos no chalé e para minha surpresa não era como um castelo de bruxa. Pelo contrário, era um quarto comum, não muito ‘clean’ ou muito afeminado, como imaginei que fosse já que até então eu só via meninas naquele chalé.
— Não se assustem com a Lea. Ela é assim toda marrenta, mas é legal. – Falou Jujubs que surgiu não sei da onde.
— E ai, como você ta? — Falei enquanto dava um abraço na menina que carregava o legado de Hécate.
— Estou bem, Biel. Digerindo tudo isso ainda, mas não vou enlouquecer. – Falou ela com um tom de divertimento.
— Que bom, então.— Falei mais aliviado – Cuidando bem da pedra?— Perguntei.
— Ela está segura aqui no chalé. – Logo percebi que a pedra não estava mais com ela – Relaxa, vamos permanecer aqui protegendo ela até que Hécate seja liberta.
Não me preocupava a segurança da pedra, mas sim da minha amiga. Se o acampamento for invadido, virão diretamente atrás da pedra e consequentemente atrás dela e da Gabi.
— Tudo bem então. Se cuida. Tenho que ir indo, mas qualquer coisa grite! — Falei dando ênfase na última frase e ela deu uma risadinha.
— Pode deixar, Biel. Vai ficar tudo bem. – Falou ela com seu jeito meigo, mas convicto, que era típico dela.
Dei um beijo em seu rosto e saímos do chalé. Jazy vinha ao meu lado calado, o que achei estranho.
— O que foi, sátiro?— Perguntei.
— Oh man, aquele chalé me deu calafrios. – Respondeu ele esfregando suas mãos nos braços peludos.
Eu apenas dei risada e seguimos em direção da casa onde ficam Dionísio e Quíron.
Subimos até sacada e percebi que a porta estava entre aberta e achei estranho. Desembainhei a storm e a pus à minha frente. Atrás de mim Jazy já estava com sua espada em punho. Olhei para trás e fiz um aceno indicando que iríamos entrar e Jazy assentiu em silêncio. Empurrei a porta devagar e entramos no hall de entrada da casa, pegamos o corredor à esquerda e fomos em direção do escritório dos diretores e paramos à porta que também estava aberta. Levantei três dedos e fui abaixando um de cada vez, no último pulamos para dentro do escritório em posição de ataque. A minha frente uma pequena ninfa tomou um grande susto, era Aninha. Dionísio estava sentando atrás de sua mesa.
— Olha... Grande entrada. – Falou o deus se levantando e batendo palmas.
— Se- senhor...
— Tudo bem, tudo bem, sátiro. – interrompeu-o Dionísio.
— Vocês sabia que estávamos entrando?!— Falei.
— Óbvio que sabia, Semideus. Afinal, eu sou um deus. – Falou ele de peito cheio.- Isso foi mais um teste, filho de Poseidon. E você passou nele. – Falou o deus.
— Teste? Teste para o quê?— Perguntei confuso.
— Para a missão que vou te mandar hoje. – Falou o deus naturalmente e minha cabeça girou.
— Pera... Missão? Já? Mas, qual? E porque eu?— Eu sentia que ia vomitar. Missão no meu primeiro dia no acampamento... Era demais.
— Relaxa, Semideus. Você vai se sair bem. Afinal, você é ou não é filho de um dos 3 maiores? E você por que eu acho que essa missão tem haver com o sequestro de Hécate. E é claro que nessa guerra você e a menina da pedra serão essenciais. – O tom dele só não foi de deboche quando ele falou sobre a guerra. Ele me lembrar de que sou filho de nada menos que Poseidon, foi uma injeção de confiança.
— Sim, senhor.— Respondi,
— Pois, então... – Falou ele enquanto dava uma leve chacoalhada na minha cabeça. – Ontem recebi uma mensagem de Íris de uma semideusa que está perdida e sendo perseguida na cidade de Nova Iorque. – Quando o deus falou o nome da cidade, pude sentir a agitação que tomou conta de Jazy, mas o sátiro permaneceu calado. – Ela se chama Bianca Almeida e é filha de Apolo. Ela tem dupla nacionalidade já que sua mãe era nascida brasileira e naturalizada norte americana.
— Era? O que você quer dizer com “era”? — Perguntei. Eu já começava ficar ansioso.
— Na mensagem ela só conseguiu me dizer que sua mãe morreu, e que depois que foi reclamada por seu pai, encontrou dois outros semideuses que foram assassinados enquanto os três eram perseguidos por monstros na cidade. – Dionísio deu uma breve pausa e olhou pela janela – Ela está sem dinheiro, sem casa e sem passaporte. Ela não aguentará muito tempo. – Finalizou o deus.
— Mas qual é exatamente minha missão? — Perguntei.
— Você deve achá-la e trazê-la sã e salva para cá. – Sentenciou o deus e minha cabeça girou novamente, mas respirei fundo e me concentrei.
— O.K, mas como devo chegar à Nova Iorque a tempo de salvá-la? — Perguntei.
— O labirinto de Dédalo. – Respondeu o deus. Eu tomei um choque, ainda estou me acostumando que tudo o que dizia nos livros tem 99,9% chances de existir.
— Mas ele não é cheio de perigos? E... Ele é um labirinto. E se eu me perder?— Essas eram as perguntas mais óbvias.
— Você deverá confiar nos extintos naturais de Jazy para não se perder. – Reparei que ele ignorou a pergunta dos perigos, mas não insisti.
Jazy abriu a boca para falar algo, mas o deus o interrompeu – Sim, Jazy. Você! Quem mais eu poderia mandar sendo que é sua cidade natal? – Falou Dionísio e o sátiro apenas assentiu. Pude sentir a felicidade dele de poder voltar à sua cidade natal.
— Vamos logo com isso. – O deus deu uma palma que todos deram um pulo. – Escolha mais três semideuses para te acompanhar. – Falou o deus, e ele estava com pressa.
— Dan, Lelo e Marti.— Falei de imediato.
— Boa escolha com o curandeiro de Apolo, mas escolha entre o outro de Poseidon e o de Hades. Precisaremos do poder deles caso o acampamento seja atacado – O deus tinha razão, então parei para pensar. O Lelo poderia viajar pelas sombras, mas eu e o Dan juntando forças somos praticamente invencíveis. Lamentei, pois em trio somos realmente invencíveis. Resolvi então levar o Dan e no lugar do Lelo levar a Agatha, alguém com a inteligência dela é indispensável.
— O.K. É difícil, mas no lugar do Lelo vou levar a Agatha, filha de Atena.— Estava decidido. Meu sangue fervilhava nas veias, e pude ver que a pedra de storm acompanhava com seu brilho azul marinho.
— Inteligente escolha, semideus. – Falou o deus com tom de orgulho. – Agora, Aninha. Faça-me o favor de buscar esses semideuses o mais rápido possível. – A pequena ninfa assentiu com a cabeça e saiu correndo pela porta para cumprir a ordem do deus.
— Ótimo que já estão armados. – Falou o deus e depois apontou para 5 mochilas pretas e grandes que estavam encostadas em sua mesa – Ali naquelas mochilas se encontra tudo que vocês possam precisar.
Dez minutos se passaram enquanto o deus nos passava os detalhes e nós ouvíamos atentos.
Pela porta entrou Aninha e logo atrás Dan, Agatha e Marti. Ambos os três com um grande ponto de interrogação no rosto. Agatha ia abrir a boca para falar algo quando Dionísio a interrompeu:
— Não temos mais tempos. Gabriel e Jazy os explicarão tudo no caminho. – Ele realmente tinha pressa.
Os três olharam para mim tentei passar um olhar de segurança e eles pareceram aceitar – Gente, cada um pega uma mochila dessas e vamos. — Eles também já vieram armados, o que nos poupava tempo.
— Vamos. Vou mostrar a entrada do labirinto pra vocês. – Falou o deus já saindo pela porta do escritório.
Marti que estava ao meu lado me deu uma cotovelada e perguntou baixo – Labirinto? Que labirinto?
Eu apenas falei – Dédalo— Ele ficou boquiaberto mas não falou mais nada.
No caminho passamos pela arena de duelos, onde estava a maioria dos semideuses treinando com suas armas. Todos nos seguiram acho que por causa da presença de Dionísio. Lelo, Anna, Jhon, Gabi, Duh, Aria e Nicholas se aproximaram da gente. O primeiro a se manifestar foi Lelo:
— O que ta acontecendo, Rezende? – Perguntou o filho de Hades enquanto andávamos seguindo Dionísio.
— Estamos indo pra uma missão que parece que tem haver com Hécate.— Tentei não falar muito, eu não sabia se podia.
— Como assim missão? Eu quero ir! – Os olhos dele brilhavam.
— Eu tentei te trazer junto, mas Dionísio me fez escolher entre você e o Dan. Desculpa, irmão, mas eu pensei nas técnicas de combate.— Eu sabia que ele entenderia o motivo de eu ter escolhido o Dan, mas estava com medo de ele ter se sentido excluído do nosso trio.
— Chegamos. – Falou Dionísio parado em frente de um pedregulho gigante com uma fenda no meio. – Se despeçam logo e vão! – Ordenou o deus.
Posicionei-me em frente a pedra e olhei para trás. Agora estavam todos ali. Me deu um aperto no coração. Eu não queria me despedir. Não queria que ninguém se despedisse, pois iríamos voltar logo. Thay e Saraiva já estavam chorando.
— Gente, relaxem. Daqui a pouco estamos aqui.— Forcei um sorriso. Não queria deixar um sentimento ruim. Eu queria abraçar cada um, mas não o iria fazer. Virei as costas ainda sorrindo e entrei na fenda e os outros vieram atrás de mim.
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