Estar lá novamente trazia um ótima sensação, apesar da situação que nos encontrávamos. Apressado do jeito que estávamos, mal paramos quando nós três chegamos à base da colina. Olhei para o céu enquanto caminhava e percebi que havia mais nuvens que o normal e o clima estava mais frio. Não dei muita importância porque isso chegava acontecer quando Jujubs, a portadora de acálicis (pedra de Hécate¹), estava muito estressada, cansada ou nervosa. Descartei totalmente a hipótese de coisas mais graves, pois desde que chegamos ao acampamento com a pedra 4 anos atrás, as defesas e clima estavam completamente estáveis.

Ao cruzar a entrada do acampamento, a visão que tive fez meu coração falhar uma batida. Não tive como contar, pois já estávamos correndo com espadas e escudos em punho, mas só no alcance do meu olhar posso dizer que ali tinha mais de 30 monstros de todos os tipos. Ali em batalha pude reconhecer todos que estavam batalhando, mesmo os que estavam de costas. Com exceção de um: o garoto tinha mais ou menos minha altura, cabelos pretos e quase careca dos lados e atrás e pele bronzeada. Ele não era do acampamento, disso eu tinha certeza.

Cheguei a tempo de matar uma criatura com corpo de leão, uma cabeça de touro, uma de dragão, rabo de escorpião e asas de morcego; uma quimera. Ela estava em cima de Gabrielli pronta para acertá-la com seu ferrão.

― Eu tinha tudo sobre controle. ― Falou a garota enquanto tirou o pó que restou da quimera e pode me ver.

― Ah sim, claro. ― Respondi estendendo a mão para ela se levantar.

― Os deuses atenderam nossos pedidos. ― Falou a garota filha de Hécate ainda muito abalada com o que estava acontecendo ao nosso redor ― Fomos surpreendidos e mas não sei dizer se já houve baixas

― Cadê Dionísio? ― Perguntei procurando pelo deus no campo de batalha.

― Ninguém o achou. ― Respondeu ela.

Será que aqui era do mesmo jeito que era nos livros? Os deuses não lutavam as batalhas dos semideuses, eles mal lutavam suas próprias batalhas. Enfim, eu não podia ficar ali pensando, eu tinha que agir.

― Irmão! ― Era Dan gritando do outro lado do campo de batalha.

Ao olhar para ele eu já sabia o que se passava na mente dele. Nesses 4 anos, passamos muito tempo desenvolvendo nossa ligação e criando ataques conjuntos. Nós dois ao mesmo tempo levantamos nossos braços em direção ao nosso chalé, por algum motivo a água que vinha da fonte que tem lá dentro era mais forte pois tínhamos mais controle sobre ela. Em alguns segundos uma grande bolha de água passou pelas portas do chalé 3 e foi em direção ao campo de batalha. Quando a gigantesca sombra se formou sobre a cabeça de monstros e semideuses, eles se distraíram e saíram de baixo dela. Eu e Dan acenamos com a cabeça um para o outro e abaixamos nossos braços muito rápido e a bolha gigante fez o mesmo e adentrou o solo. Nós dois nos agachamos e colocamos a duas mãos do chão. Eu podia sentir a água lá embaixo, porém não conseguiríamos finalizar o ataque pois nunca havíamos aplicado esse ataque num perímetro tão grande como aquele. De repente uma ideia veio à minha cabeça.

― Gabrielli, você conseguiria projetar o campo de batalha inteiro na minha cabeça? ― Ela vinha desenvolvendo esse poder de projetar as coisas na cabeça das pessoas.

― Posso tentar. ― Ela também parecia insegura, creio que por conta do tamanho do espaço. Mas não demorou 5 segundos até que eu pude ver cada pessoa e cada monstro.

Olhei para Dan e acenei com a cabeça. Por mais que ele não conseguisse ver o campo inteiro como eu, eu precisava dele para completar o ataque. Respiramos fundo e ao mesmo tempo e puxamos a água de baixo do solo com toda nossa força. E velozmente dezenas de estacas de água perfuraram todos os monstros que ali estavam.

Os guerreiros que estavam batalhando ficaram confusos quando do nada seus oponentes foram destruídos. Comecei a andar em direção de Dan e nos abraçamos no meio do campo de batalha.

― O que vocês está fazendo aqui? ­― Perguntou ele.

―Longa história. Depois explico. ― Falei ainda agitado com toda a adrenalina que corria pelo meu corpo ― Vamos. ― Eu podia ouvir gritos e rugidos atrás do chalé.

― Atenção todos. ― Gritei e imediatamente todos voltaram suas atenções para mim.

― Acabo de chegar e não sei exatamente o que ainda me espera, mas eu não quero ver nenhum de vocês morto. Entendido? ― Todos levantaram suas espadas e gritaram ― Se possível tentem sempre trabalhar em dupla. ― Pensar em ter que velar mais algum semideus fazia meu coração apertar.

Com cuidado e guarda levantada avançamos em direção à parte de trás dos chalés onde ficava todo o resto do acampamento, mais perto estava o salão de jantar. Quando ultrapassamos as grandes construções eu só esperava não ver nenhum semideus morto, e esse desejo felizmente virou realidade. Todos ali lutavam bravamente, mas a quantidade de monstro ainda era grande. Todos estavam muito distraídos, o que nos deu vantagem e no ataque surpresa conseguimos derrotar mais da metade das criaturas ali. Porém, dentre as que restaram havia algumas muitos difíceis de matar, tais como centauros selvagens, ciclops e minotauros.

O maior centauro me escolheu para batalhar. O sangue fervia dentro de mim, meus sentidos estavam tão aguçados que era como se eu tivesse controle sobre tudo ao meu redor. O ser meio cavalo e meio humano avançou atirando suas flechas. Elas vinham na velocidade de mísseis na minha direção, e eu conseguia ver o caminho de cada uma delas. Desviei de uma a uma enquanto ele se aproximava de mim e quanto mais perto ele chegava mais storm pulsava na minha mão direita.

Resolvi correr e encurtar esse caminho. Correndo não era fácil desviar das flechas, mas meu escudo e minha espada faziam esse trabalho por mim. Quando cheguei perto suficiente ele pensou que eu iria encará-lo de frente. Mas me joguei no chão e passei por baixo dele. Ainda de costas girei storm e corte o rabo dele. O centauro soltou um grito de misturado com relinchado e me atacou totalmente desordenado com sua espada que defendi com meu escudo. A dor que ele sentia parecia ser maior do que eu imaginava, pois ele não conseguia se concentrar. Então me preparei, corri e pulei para alcançar sua altura. Tardiamente ele tentou dar um golpe de espada e antes que ela pudesse estar entre mim e ele, manejei storm rapidamente e cortei seu braço esquerdo. Ele gritou novamente e empinou, então aproveitei essa brecha para acabar com aquela luta. Defendi seus coices com as patas da frente com meu escudo e afundei storm no meio do peito do centauro, ele congelou e explodiu em pó dourado.

Voltei minha atenção para a batalha e havia só um ciclop de mais de 3 metros restando. Ele estava cercado por cinco semideuses, mas não estava nada fácil de matar. Então me concentrei e puxei uma corrente d'água que passava em baixo de mim e enrolei-a em forma de um chicote no pescoço do ciclop, ele tentava se soltar, mas não conseguia. Do meio de um grupo de semideuses, Aria pulo com sua espada em punho e a afundou no coração do ciclop e o fez explodir em pó dourado.

Juntei todos ali presentes e fomos em direção a casa grande.

― Onde está a Jujubs? ― Perguntei a Aria, filha de Zeus.

― Ela está na casa grande com a Bianca. Quíron está com elas. ― Respondeu a garota. Jujubs era aquela que podia usar os poderes de acálicis, automaticamente aquela a ser protegida. E não sabíamos até hoje o motivo da fixação dos monstros com Bianca.

Chegando na frente da casa grande, Quíron lá estava com sua flecha em riste, pronto para derrubar quem quer que oferecesse perigo, acompanhado por mais cinco semideuses. Mas por ali não tinha nenhum monstro. Enquanto eu passava um relatório para o centauro diretor do acampamento, grupos de semideuses chegava de suas batalhas e se juntavam a nós em frente a casa grande.

Agatha, Christopher e eu ainda estávamos à passar cada detalhe do que acontecia em Brasília para Quíron, os outros semideuses permaneciam reunidos em frente a casa grande, alguns ainda estavam agitados, outros deitados no chão e outros cuidando de seus ferimentos. De repente uma explosão de luz verde saiu da janela do sotão da casa grande.

― Por Zeus... ― Falou Quíron olhando para cima.

― O que é isso? ― Perguntei já me preparando para entrar na casa.

― O espírito de delfos... ― Ele ainda estava boquiaberto olhando para a luz que saia da janela ― Ele não se manifesta há mais de 300 anos. ― Falou o centauro.

Logo ele adentrou a casa apressado e subiu as escadas, sem nem ao menos pedir permissão eu fui atrás. Quando cheguei no primeiro andar vi Bianca descendo as escadas que dava acesso ao sotão. A garota estava com uma cara espantada e confusa.

― O que ele disse? ― Perguntou Quíron com cuidado.

A faculdade do modernismo está tomada

E como tudo, tudo terá que ser destruído para que seja construído

A magia necessária está disponível

A escuridão está prestes a tomar conta

E do primeiro verso se deve dar inicio

Apenas a herdeira da luz poderá consumir a escuridão ― A garota recitou essa pequena estrofe como se tivesse sido ensaiada.

― A magia necessária com certeza é Hécate. ― Falou Quíron enquanto raciocinava ― De restante... ― Ele interrompeu sua fala e olhou para Bianca, era como se ele tivesse encontrado uma resposta.

― Qu-que foi? ― Perguntou a garota incomodada.

― Bianca... Você é a única dos filhos de Apolo que consegue brilhar, certo?! ― Foi um pergunta retórica ― Você já brilhou ao seu máximo? ― Perguntou ele.

― Hm... Não sei, nunca parei para pensar nisso. Mas talvez não. ― Respondeu ela incertamente.

― É você... Só pode ser você. ― Falou o centauro.

― Eu o... ― A interrompi.

― Claro! Quando voltamos de New York, se lembra aquele mini coma que entrei no avião? ― Ela confirmou com a cabeça ― Eu nunca cheguei a falar do sonho com vocês, mas eu estava nas profundezas do tártaro, era tudo escuro e o que me tirou daquele sonho foi uma luz muito intensa. E quando acordei você estava no meu colo tentando me acordar! Claro! ― Tudo fazia sentido pra mim agora.

― Eu ainda não entendi... ― Falou Jujubs que estava na casa com a Bianca.

― Bianca, você é a herdeira da luz. Esse é o motivo de você ser a única a conseguir brilhar e o motivo de você ser um alvo gigantesco para os monstros. ― Explicou Quíron.

― Ok...!? ― Depois de alguns segundos processando a informação, isso foi o que a garota conseguiu responder.

― Essas informações não saem daqui até segundas ordens? Entendido? ― Perguntou Quíron.

― Entendido, ― Respondemos.

― Precisamos desvendar o resto desse verso, mas antes, Gabriel, organize uma revista em cada canto desse acampamento, agora. ― Ordenou o centauro, então eu deixei a casa.

Chegando do lado de fora, todos ainda estavam ali aguardando ordens ou dispensa.

― Pessoal, Quíron pediu para fazermos uma revista meticulosa no acampamento inteiro. Vamos nos dividir em grupos de cinco e nos espalhar. ― Repassei a ordem.

Dan, subiu para a varanda e se uniu à mim, Agatha e Christopher. Quando todos os grupos de dispersaram só sobrou um garoto, o mesmo que eu não tinha reconhecido quando cheguei mais cedo. Só quando ele parou no começo das escadas da varanda e falou com nós que eu olhei direito em seu rosto.

― Ei, posso me juntar à vocês? ― O sotaque era americano e o rosto lindamente familiar.

―Mi-Mike? ― Eu não acreditava no que meus olhos estavam vendo. Meu coração estava disparado e eu senti algo no meu estômago.

― Hey, Gabriel. ― Falou o garoto da loja de conveniência do Bronx em New York.

Desci os degraus devagar e parei na frente dele. Ele sorria e parecia estar um pouco vermelho. Aposto que eu estava com cara de retardado. Eu não sabia o que fazer, se apertava a mão dele, dava um beijo no rosto ou um abraço. Alguns segundos desconfortáveis se passaram quando de repente ele me abraçou. Nesse exato momento minhas pernas enfraqueceram e meu estômago deu um pulo. O abraço foi demorado, eu não queria largá-lo e ele também parecia não querer me largar. Mas lembrei do quanto podia estar desconfortável para os outros atrás de mim, então o soltei.

― What are you doing here? (O que você está fazendo aqui?) ― Perguntei. Aquela era a situação mais confusa da minha vida.

― Poxa cara, eu não passei 4 anos da minha vida estudando português para você falar inglês comigo. ― Falou ele brincando, porém sério.

― Cara... Eu não estou entendendo nada. ― Falei.

― Nem nós aqui, Rezende. ― Falou Dan chamando nossa atenção.

― Dan, se lembra daquele cara que nos atendeu naquela loja de conveniência no Bronx? ― Falei tentando lembrá-lo. Ele levou um tempo pensando mas praticamente juntos ele e Agatha se lembraram.

­― What the fuck? ― Falou Dan muito surpreso.

― Vim em uma missão a pedido de Hermes. ― Falou Mike.

― Então você é um semideus. ― Falei ― Claro... Eu me lembro do bilhete dizendo que você sabia que não podíamos ter celular. Você conseguia ver nossas armas. ― Tudo fazia sentido pra mim agora.

― Não, cara. Eu não sou um semideus. Eu sou só um abençoado por Hermes. ― Esclareceu ele.

― Caralho, eu estou muito sem palavras. ― Falei ainda olhando pra ele sem acreditar.

― O que vocês acham de conversarmos enquanto revistamos o acampamento? ― Sugeriu ele.

― Vamos... ― Chamei os outros.

Andamos em direção ao arsenal do acampamento. Estava olhando para aquele rosto com a barba por fazer. Eu devia estar com uma cara muito de babaca, mas eu não conseguia parar de olhar para ele e ele percebia isso, mas ele não conseguia manter contato visual comigo por muito tempo e ficava vermelho, dando sorrisinhos e olhando para o chão.

Durante a revista inteira não trocamos uma palavra sequer. Mas quando todos voltaram para frente da casa grande e Quíron nos dispensou. Eu e ele fomos para a beira do rio do acampamento. Sentamos um pouco afastado um do outro, eu conseguia sentir a tensão no ar.

― Então... Que missão é essa? ― Quebrei o silêncio.

― Não posso te falar, pelo menos não agora. ― Respondeu ele.

Eu não estava tranquilo ali para conversar o quanto quisesse. Afinal não era nem para eu estar no acampamento. Mas conseguimos trocar algumas palavras. Logo voltamos para a casa grande para falar com Quíron. Ele foi primeiro, mas Quíron me chamou enquanto ele ainda estava lá. A informação que ele tinha para Quíron decifrou o primeiro verso da estrofe que ouvimos do oráculo hoje. A faculdade do modernismo era Brasília. A cidade que marcou a criação do modernismo brasileiro, estilo único da vertente moderna da arquitetura. "A faculdade do modernismo está tomada" queria dizer que Brasília está tomada por monstros. O penúltimo verso falava "E do primeiro verso se deve dar ínicio", o que chegamos a conclusão de que nossa missão deveria começar por Brasília.

¹ Capítulo 1

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.