A Guerra do Alvorecer

18 Laços novos são criados


Enquanto eu andava com Dan e Leo ao meu lado, tive um pequeno momento para pensar sobre o que minha vida tinha se tornado, e o primeiro pensamento foi: Mas que caralhos que eu estou fazendo?! Andando atrás de um deus e de um ser metade homem e metade cavalo... Tive vontade de gritar para as duas figuras a minha frente: VOLTEM PARA O LIVRO! Mas se eu realmente fizesse isso eu poderia ser transformado em uma vinha, poderia ter uma flecha atravessada no meu crânio ou poderia apanhar dos dois que estavam ao meu lado, então, reprimi minha súbita vontade de ser retardado.

– Senhor Dionísio. Senhor Quíron. – Leo se adiantou a passos largos e alcançou os responsáveis pelo acampamento. Ele falou num tom de voz um tanto relutante, o que me deu a impressão de ele estar com medo de assustar as duas figuras e ser reduzido a pó, como quando alguém que é assustado e reage com um soco. Porém, no caso dele eram um centauro e um dos doze deuses do olimpo com alto poder de mágico que ele poderia assustar.

Eles se viraram e encararam o garoto pequeno e extremamente magricela perto deles. – Eu... Nós podemos trocar uma palavrinha com vocês? – Dionísio se curvou em direção do garoto o olhando com uma curiosidade como se ele estivesse observando algum tipo de animal por um microscópio e em seguida olhou para mim e Dan que estávamos a uns passos de distância.

– Porque eu deveria dar-lhes algum minuto do meu preciosíssimo tempo? – Perguntou o deus encarando o garoto com uma seriedade que chegava a dar medo.

– Hãn... porque... O senhor é imortal?! E... O tempo pra você é mais longo do que pra qualquer outra criatura na face da terra, e... Alguns minutos não fariam diferença para o senhor... – Respondeu Leo com uma certa presunção no tom de voz.

O deus tomou uma pose ereta, estufou seu peito, apoiou seus punhos fechados na cintura e declamou – Eu Dionísio, filho do rei dos deuses, ordeno que você... – O deus saiu de sua pose e se inclinou novamente para Leo que se encolheu e levou os braços à cabeça, e o deus perguntou quase sussurrando – Qual é o seu nome mesmo, garoto?

– Érr... Leonardo – Leo abaixou os braços lentamente — Leonardo Veronezi.

Dionísio voltou para sua pose imponente, pigarreou e continuou – Eu ordeno você Leonardo Veronezi a limpar os estábulos dos cavalos e pégasus pelo resto da eternidade – Falou o Deus. Ao seu lado Quíron bufou declarando sua impaciência.

– Mas senhor, o garoto é apenas um semideus... Logo logo ele morrerá. – Falou o homem de quatro patas. O rosto do semideus mudou de expressão de terror para confusão.

Epa epa epa... – Avancei levantando os dois braços em sinal de rendimento. – Oras, senhor. Relaxa, só queremos falar sobre um sonho que eu tive hoje. – Falei tentando apaziguar a situação – Sem stress. Só paz e amor e sem punições eternas, vai...

– Pela descrição de Quíron, imagino que você deva ser o menino da profecia da tal pedra de Hécate – Falou o deus se dirigindo a mim – Qual é seu nome mesmo?

É Gabriel Rezende senhor. E sim, sou esse tal garoto dessa tal profecia dessa tal pedra de Hécate. – Falei.

– Hummmm, entendo. – O deus me olhava de cima a baixo como quem dizia: o que aquelas velhas Parcas tinham na cabeça quando colocou a valiosa pedra nas mãos desse garoto? Ele se virou para Leo e falou dando um tapinha no ombro do garoto – Estou apenas treinando o meus dons de atuação, filho de Hades. Você não precisa limpar os estábulos pela eternidade, a menos que queira claro. – O corpo do menino foi lançado para frente com o tapa divino. – Vamos para a casa grande! Lá podemos conversar melhor.

O caminho para a casa grande foi um tanto longo. Passamos pela parede de escalada, anfiteatro, quadra de vôlei, até chegarmos ao destino. A construção era realmente grande, toda feita em madeira ao estilo tradicional de casas norte americanas. Subimos a pequena escada que dava na varanda. A qual havia uma cadeira de balanço à direta e vasos de flores à esquerda.

Dionísio que estava à frente abriu a porta dupla da casa. Atrás de mim estava Leo, Dan e por último Quíron. Seguimos o deus até uma sala que ficava em baixo da escada principal da casa. – Será mesmo esse o escritório de Dionísio? Normalmente todo cômodo que fica em baixo de uma escada é minusculamente pequeno – pensei antes de entrar na sala. Porém, logo que pus o primeiro pé para dentro da sala me deparei com um cômodo gigante com prateleiras de livros que tomava conta da parede oposta, uma mesa com uma cadeira atrás dela e na frente outras duas.

Acima da cadeira que Dionísio se sentou havia a cabeça de um leopardo entalhada que se mexia e arreganhava a bocarra cheia de dentes grandes e pontiagudos. As outras paredes eram tomadas por quadros de pinturas de pessoas totalmente nuas e todas elas meio rechonchudas. – Ahh esses quadros. Odeio todos eles assim como odeio Michelangelo, seu criador. – O deus se levantou e veio na nossa direção – Todos nós, deuses, fomos obrigados a aceitar esses quadros como as obras oficiais dos deuses. Meu pai, Zeus, nos obrigou. O motivo não sei, mas imagino que seja algo como: Zeus fez mais um filho com outra mortal. E esse filho cresceu e se tornou um péssimo pintor, mas sua mãe achava suas obras lindas e para mimar o filho obrigou o rei dos deuses a comprar essas pinturas em homenagem ao olimpo se não ela contaria à Hera que a rainha foi traída mais uma vez pelo seu rei, o que daria mais dor de cabeça para o velho. – Dionísio contava a história numa naturalidade absurda, foi quando um raio ribombou estridente do céu e iluminou todo o acampamento – Nossa! Como ele é exagerado. – O deus do vinho fez uma cara de tédio e foi indo em direção à sua mesa.

– Mas isso é apenas algo que eu acho, óbvio. Apenas uma hipótese para ele ter aceito tanta cafonice. – Completou o deus. – Mas em fim... Não viemos aqui para falar sobre as cafonices olimpianas, certo? Digam-me o que vocês querem. – O deus se sentou em sua cadeira, entrelaçou os dedos e apoiou o queixo no punho.

Eu, Dan e Leo continuamos em pé e eu comecei a contar o sonho. Os dois responsáveis pelo acampamento me ouviam atentamente e faziam algumas expressões esquisitas ás vezes.

E... é isso! – Falei encerrando o sonho. Dionísio olhou para Quíron com uma expressão sombria no rosto e foi se levantando devagar.

– É algo bem misterioso. – O deus alisava a barba e andava pela sala. – Mas vou analisar bem tudo o que você me contou garoto. – Dionísio olhou para o céu nublado e tempestuoso pela janela do escritório. Eu não sei se o tempo é controlado magicamente como nos livros. E mesmo se fosse creio que no momento a magia deva estar em desequilíbrio, afinal, quem iria querer um céu nublado? Para mim não existe nada mais hipnotizante e perfeito do que um céu limpo e estrelado. – Quíron, volte para o refeitório com eles e diga para todos que hoje haverá festa em comemoração à chegada da pedra e da volta de nossos sátiros. – Quando ouvi a palavra festa Eu, Dan e Lelo nos olhamos já com os olhos brilhando. – Mas diga também que as tarefas diárias não estão suspensas amanhã. – Eu não sabia exatamente o que eu teria que fazer no dia seguinte, mas isso não importava agora. Definitivamente eu e meus amigos precisamos relaxar depois de tudo o que aconteceu. – Vão. Eu já estou indo atrás. – E imediatamente saímos da sala.

E um pouco antes de chegarmos ao refeitório uma menininha veio correndo saltitante em nossa direção. Ela se aproximou e então pude reparar na sua pele verde, seu cabelo ruivo e seus lindos olhos cinza. Ela estava vestida num vestido branco bem simples e pés descalços. Não tinha como se enganar, era uma pequena ninfa que eu chutaria ter uns sete anos se eu tivesse certeza se o tempo dos espíritos da natureza é igual ao nosso.

Quíron se ajoelhou em suas enormes patas para alcançar a menina ninfa. Ela olhou para nós três, nos lançou um largo sorriso em cumprimento e se voltou para Quíron.

– Senhor, vim em nome dos espíritos da natureza dá-lhe a notícia de que Julius acabou de pedir Marina em casamento. – Quíron abriu um largo sorriso e apoiou a mão no ombro da menina:

– Já não era sem tempo né, Aninha? – Os dois deram algumas gargalhadas. Foi quando Quíron se voltou para nós. – Querida, estes são Gabriel e Dan filhos de Poseidon e esse é Leonardo, filho de Hades.

Em seu jeito a menina fez um gesto com a mão que soprou um vento em nossos rostos que trouxe o cheiro de grama molhada.

– Sejam bem-vindos meninos, eu sou Aninha – Se apresentou ela. Me agachei e olhei para a menina que me encantava com seu sorriso.

– Olá, Biel. Você tem cheiro de mar sabia? – Ela me deu um beijo no rosto.

Olá Aninha, e sabia que você é muito linda? – Falei.

– Obrigado. – Ela sorriu e se voltou para Quíron novamente. – Senhor, posso me retirar? – Perguntou a pequena ninfa.

– Espere, querida. Eu vou com você. – Quíron foi se levantando e então foi galopando, enquanto a menina corria saltitante para o meio da floresta.

Chegando no refeitório a baderna se instaurava. Gritaria, risada e muita música no chalé de Apolo animavam o ambiente, e isso me fez lembrar das Houses Parties com o pessoal, o que me deu um aperto no coração, pois muitos de meus amigos de eventos não veio com nós. Leo voltou para sua mesa onde agora estavam Duh, Pietro, Denis e a outra menina de Hades qual eu ainda não sei o nome. Dan sentou-se na mesa do chalé de Hermes onde a zoeira não tinha limites e eu um menino se destacava por contar a melhores e engraçadas histórias. O menino usava camiseta do acampamento, short jeans e chinelo. Era corpulento e tinha um rosto que gritava em expressão: “TOME CUIDADO! POSSO TE ROUBAR SEM NEM VOCÊ PERCEBER!” Foi quando o garoto simplesmente desapareceu de cima da mesa. Virei a cabeça rapidamente o procurando quando o encontrei rodeando rapidamente o chalé de Afrodite e colocando algo no colo dos filhos da deusa do amor e reapareceu em sua mesa. O menino branco e gordinho tinha uma velocidade absurda.

Rapidamente os filhos de Afrodite pularam gritando desesperadamente dos bancos:

– BARATA! BARATA!

E as gargalhadas tomaram conta do refeitório e até o chalé de Hades se rendeu as risadas. Foi quando uma menina de mais ou menos um metro e setenta, cabelos enrolados e negros, presos num coque e com algumas mechas caídos à frente. Sua pele levemente bronzeada e olhos castanhos brilhavam. Ela estava vestida na camisa do acampamento cortada nas mangas e com um decote generoso que salientava seus seios. Um macacão jeans completava sua aparência extremamente chamativa. Eu não conseguia tirar os olhos dela.

– Erick! – Falou a menina num tom de voz firme e hipnotizante que me fez ter uma vontade de respondê-la, mesmo eu não sendo o Erick. Seu sorriso era malicioso e o mundo parecia girar em torno dela. – Você fará o que eu mandar! – Ela foi se aproximando lentamente do garoto o encarando dentro de seus olhos enquanto ele nem se mexia. – Levante-se dessa mesa. Eu quero que você se jogue de cara no estrume dos pégasus. – O menino se levantou e foi saindo do refeitório. Agora todos davam risadas enquanto o menino andava para longe do refeitório.

Fui na direção do chalé de Apolo. Era o lugar onde eu mais me sentia bem depois do meu chalé. Cumprimentei todos com um aceno de cabeça e entrei no coral que agora cantava ‘Everything is Sound’ do Jason Marz. O menino que estava tocando violão parecia uma banda inteira, não sei como explicar, mas do violão dele saia toda a melodia da música de vários instrumentos. Suas mãos se movimentavam de maneira não humana e eu não conseguia tirar os olhos, por mais que eu já estivesse ficando tonto. O garoto tinha o cabelo claro como a maioria de seus meio irmãos, e uma franja na testa. Postura meio torta, imagino que isso seja por tocar violão por muito tempo. Olhos verdes e usava aparelho. Deve ter uns 18 anos. Estava com a mesma camisa do acampamento. Ele parou de tocar o violão quando e música acabou e se voltou para mim – E ai bro, beleza? – Ele me estendeu a mão e eu fiz o mesmo.

Beleza, cara. Sou... – Ele me interrompeu.

– Eu sei quem você é, cara. Aliás... Valeu por ter trago a pedra para o acampamento. – Falou ele sorrindo.

Relaxa, cara. Eu também não tinha muita escolha né? – Rimos. — E você? – Perguntei.

– Marcelo Lopes, filho de... – Agora eu o interrompi.

Apolo, claro. Depois disso que você fez no violão, não me restam dúvidas. – Ele riu.

– Ah... Esse é meu dom que eu particularmente mais gosto. – Ele tocou alguns acordes. – E também serve para batalhas! – Falou o garoto.

Batalhas? Como? – Perguntei curioso.

– Quem sabe um dia eu te mostre. Mas aqui e agora eu não posso. – Ele deu um sorriso de canto de boca. – Bora voltar a cantar? – E antes que o garoto começasse outra música, Dionísio se materializou na ponta oposta da cozinha no refeitório.

– Semideuses. – Falou o deus num tom alto e grave. Todos ficaram em silêncio. – Prestem atenção. – Eu já sabia o que ele ia informar. – Em comemoração à chegada da pedra ‘acálicis’ e dos nossos queridos sátiros. – Ele olhou para um dos cantos do refeitório onde havia uns doze sátiros parados. E dentre eles estavam Matias, Jazy e Joseph. – Declaro festa para todos! – O refeitório irrompeu em vivas e aplausos.

– SILÊNCIO. – Gritou Quíron que tinha acabado de voltar do bosque.

– Porém... – Dionísio continuou. – Como a maioria de vocês sabem... Eu dei um toque especial nas bebidas alcoólicas para que os menores de 16 anos tomem suco ou refrigerante em vez da própria bebida alcoólica. Com exceção de meus filhos, óbvio. – Ouviu-se lamentações pelo refeitório. – E outra... – Continuou o deus. – Amanhã as atividades estão suspensas até o meio dia, apenas. Depois disso quero todos na rotina normal. – E as lamentações e reclamações tomou conta do refeitório.

– SILÊNCIO! – Gritou Quíron novamente.

– Se continuarem a reclamar eu suspendo a festa e ponto final. – Falou Dionísio na maior calma possível e todos se calaram. – Só estarão livres a área dos chalés, anfiteatro e refeitório. E a pista de dança está no chalé doze, como a maioria de vocês sabem. – Informou o deus. – Enfim... Que a festa comece!

De imediato todos se dirigiram aos chalés, e óbvio, eu fui atrás com o pensamento fixo na cabeça – Vou me divertir ao máximo!