A Guerra do Alvorecer
12 Chegam novos semideuses
HISTÓRIA NARRADA POR JOSEPH (Sátiro)
O mundo girava e eu via apenas rostos embaçados dos quais eu não conhecia. Eu mais uma vez tinha embarcado numa dessas viagens pelas sombras com um filho de Hades. Era a coisa mais arrepiante e que mais me dava medo na face da terra. Eu definitivamente odiava isso.
O mundo continuava a girar, mas senti meus pés tocaram o chão senti um alívio. A viagem tinha acabado. Tonto, eu não conseguia ficar em pé, então cedi e desabei no chão. Fui obrigado a levantar o tronco para vomitar, o que aliviou um pouco a tontura, mas a visão continuava embaçadíssima. Levei a mão ao rosto tampando os olhos numa tentativa de enxergar melhor.
Agora eu sentia que estava melhorando, então, tirei as mãos do rosto e fui abrindo os olhos lentamente. Acima de mim eu pude ver a luz fraca do único poste de luz que estava funcionando naquela rua. Os únicos barulhos que eu podia ouvir eram dos grilos e dos vômitos ao meu redor. A viagem deixou todos super esgotados. Me levantei para ir ajudar. Todos estavam sentados no chão passando mal, com exceção de Denis e Jazy que estavam jogados no chão imóveis. Fui apressado em direção á Denis, claro. A vida de um semideus vem à frente de um sátiro, aprendemos isso no acampamento desde sempre, esse era nosso trabalho.
O menino estava jogado no chão desmaiado e completamente pálido. Sentei-me atrás de sua cabeça e a apoiei em minha perna. Pousei levemente dois dedos no seu pulso esquerdo e em seu pescoço. Sua pele estava tão fria que a vida parecia não habitar mais aquele corpo. Mas seu coração ainda batia, porém, muito fraco. Eu tinha que fazer algo, mas não sabia o que. Todos tinham parado de vomitar e estavam ao meu redor com péssimas expressões em seus rostos, mas aguardando que eu dissesse algo – Ele está vivo, mas precisamos entrar no esconderijo e torcer pra que Matias já esteja lá e que tenha algum filho de Apolo que já saiba usar basicamente algum poder de cura, pelo menos. – Aria, a menina oriental estava ajoelhada ao lado de Jazy. Ela enrolava um pedaço de uma camiseta rasgada no ombro do sátiro que sangrava muito.
Chamei Agatha e pedi pra que ela ficasse ao lado de Denis. Logo atrás de mim tinha um muro então pensei – Deve ser este. – Fui até ele e comecei a passar a mão até que achei uma pequena falha na parede, então apertei. De imediato uma luz branca acendeu formando um triângulo, me afastei alguns passos e falei em alto e bom som — Portas! Sequência de comando: Dédalo 97. Abrir! – Demorou menos de cinco segundos até o muro ruir abrindo uma entrada para uma escada longa iluminada até uma porta de ferro ao fim dela.
Fui em direção á Jazy que estava sob os cuidados de Aria e peguei-o em meus braços. Virei-me para os semideuses que me olhavam estupefatos e ordenei á Pietro, o menino mais alto de todos que pegasse Denis e levasse lá pra baixo. O menino tem cabelos loiros descoloridos, quase brancos e imagino que tenha uns 1,90, pele morena, pernas bastante cumpridas como as de um corredor de olímpiadas. O menino tomou o garoto desmaiado em seus braços com sem muito esforço e então ordenei – Sigam-me, rápido. O muro não vai esperar por muito mais tempo. – E desci as escadas o mais rápido possível.
Chegando até a porta de ferro ao fim das escadas, levou apenas alguns segundos para que ela se abrisse automaticamente. No topo das escadas a parede ruía e se fechava. Entrei apressado no lugar espaçoso e cheio de triliches, seguido por Pietro com Denis desfalecido em seus braços. Logo que entrei no lugar, alguns adolescentes vieram em nosso encontro e logo que viram os outros que estavam comigo correram para abraços apertados. Em uma das triliches tinha um garoto dormindo num sono muito pesado, já que nem se mexeu enquanto fazíamos barulho. Matias veio logo atrás e quando me viu com Jazy no colo uma expressão sombria pairou em seu rosto então falei afoito – Matias, pelo amor de Pã, diga que tem algum filho de Apolo aqui. – De imediato ele se virou e foi em direção ao banheiro masculino e em menos de um minuto ele trouxe puxando pelo braço, um menino branco e dos cabelos claros, como a maioria dos filhos de Apolo, só de toalha. O menino vinha resmungando:
– Você está louco sátiro? Deixe eu me trocar pelo menos!
O menino quando viu seus outros amigos abriu um sorriso, mas logo que me viu com o sátiro desmaiado e sangrando veio em minha direção perguntando:
– O que aconteceu com ele?
Eu queria implorar para que ele salvasse meu companheiro de muito tempo, mas havia Denis – Depois você cuida dele garoto. Tem outro que precisa mais. – Falei apontando para trás, ele hesitou, então falei mais alto e firme – ANDE! – Ele de imediato foi até a triliche que estava rodeada por semideuses. Coloquei Jazy na cama ao lado de onde estava aquele menino dormindo. Fiquei preocupado pelo menino não acordar e fui verificar se ele estava respirando. Ele estava apenas dormindo profundamente. Agachei-me ao lado de Jazy e verifiquei seu pulso, estava cada vez mais fraco. A minha frente o garoto de Apolo estava sentado ao lado de Denis com sua mão sobre seu peito e pescoço. Sua mão emitia um brilho dourado, como eu já havia visto inúmeras vezes em batalhas e treinamento no acampamento e fora dele também.
O tempo se passava e eu começava a ficar desesperado. O tanto de sangue que Jazy perdeu mais aquela viagem nas sombras o colocou á beira da morte. Senti meu rosto se esquentar e uma gota caiu de meus olhos. Eu estava chorando. Coisa que fiz pouquíssimas vezes na vida e nunca na frente de alguém. Eu já havia perdido pessoas queridas em batalha e de outros jeitos. Mas dessa vez era diferente. Jazy passou todo esse tempo comigo sem podermos voltar para o acampamento, dividimos da dor que é ficar longe de quem amamos e outras diversas coisas. Agora eu percebo que Jazy não é mais um simples companheiro de trabalho, ele é como se fosse meu filho. E a vida do meu único filho escorria pelos meus dedos sem eu poder fazer nada.
Já se passava mais de dois minutos e Denis continuava desacordado. A esperança parecia ter se esvaído dos rostos de todos. Até que de repente Denis estufou seu peito de tal maneira que sua coluna se dobrou e saiu da cama, como se ele tivesse tomado um choque de um desfibrilador. Ele puxava o ar desesperadamente com os olhos arregalados. O garoto de Apolo levantou e pediu pra que todos se afastassem do filho de Hades. Denis voltou. De imediato o garoto loiro veio em minha direção e sem falar nada colocou as duas mãos sobre o ferimento de Jazy e o brilho dourado tomou conta de suas mãos novamente. O garoto balançou a cabeça e disse ainda se concentrando no ferimento:
– A pulsação dele está muito fraca, ele perdeu muito sangue e também estou ficando sem energia.
Um arrepio subiu pela minha coluna. Eu não sabia o que fazer então o garoto falou:
– Me dê ambrosia.
Matias que estava ao meu lado falou assustado:
– De jeito nenhum Martinato. Você comeu ambrosia á poucas horas atrás. Se você comer mais você pode morrer.
– Eu não vou morrer Matias. Pegue logo aquela ambrosia! Eu não vou deixar o sátiro morrer antes que eu faça a última coisa que eu puder. – Respondeu o garoto que se chama Martinato.
Matias ia protestar, mas o garoto não deixou:
– RÁPIDO MATIAS.
O sátiro bufou e foi correndo até sua mochila que estava encostada no balcão que separava o quarto do outro cômodo, pegou um pote e voltou correndo. Ele o abriu e tirou uma pequena quantidade da comida dos deuses, colocou na boca do curandeiro e sussurrou:
– Que os deuses o proteja.
Logo depois de mastigar e engolir a ambrosia o brilho que saia das mãos de Martinato se intensificou e eu pude ver o ferimento se fechar. Aos poucos a cor foi voltando ao corpo do sátiro e alguns segundos depois, Jazy abriu os olhos rapidamente respirando afoito procurando por ar. Nos afastamos deixando que o ar circulasse ao redor do sátiro e sua respiração aos poucos foi se acalmando. Martinato virou-se e pediu pra que alguém procurasse um kit de primeiros socorros e de imediato um menino de óculos, pele morena, cabelo cortado baixo e regata preta, saiu correndo em direção á outro cômodo que eu ainda não tinha visto qual era. E depois de alguns segundos ele voltou com uma caixa branca e uma cruz vermelha na sua lateral, nada original para caixas de primeiros socorros.
– Valeu, Dan. – Falou o garoto de Apolo.
Rapidamente o garoto fez o curativo em Jazy. Um sentimento de alívio e felicidade tomou conta de mim e me fez derramar mais lágrimas. Jazy levantou-se lentamente ainda muito abatido, não segurei o impulso e o abracei acho que forte até demais:
– JOSEPH, DEVAGAR! MEU OMBRO.
Diminui a força no abraço e falei chorando – Me desculpe. Eu achei que você não fosse voltar. – Ele devolveu o abraço e falou:
– Obrigado por se preocupar e por ter ficado ao meu lado. Mesmo inconsciente eu conseguia sentir nosso elo e sabia que você estava comigo.
Um silêncio tomou conta do lugar e então o soltei enxugando as lágrimas que haviam encharcado meu rosto. Estavam todos ao meu redor, inclusive Denis. Matias estava dando um pouco de ambrosia a ele, agora que vi que os dois estavam bem, comecei a falar – Então pessoal, agora que as coisas estão bem vou me apresentar. – Agora Matias estava atrás de mim dando ambrosia para Jazy. – Me chamo Joseph, e junto com Jazy trouxe os semideuses do tal BK que vocês vão. Mas antes de tudo, acho que todos nós merecemos um banho para tirar esse fedor de monstro do corpo. – Então fomos todos recém-chegados para os banheiros que eram grandes o suficiente para todos. Todos entraram em minha frente e antes que eu entrasse chamei Matias que estava á caminho do que agora vi que era a cozinha. – E aí, como andam as coisas por aqui? – Matias respondeu:
– Cara, é hora de relaxar agora. Vá tomar um banho e trocar de roupas. O esconderijo por si só nos dá tudo que precisamos. Mas posso te adiantar que, agora há uma esperança de voltarmos para o acampamento.
Eu mal pude acreditar naquelas palavras. A felicidade encheu meus pulmões então soltei um grito – O QUÊ? – E de imediato me lembrei de que tinha um garoto praticamente morto em uma das triliches, já que ele não acordou nem com o meu grito. – Matias me explique direito essa história e o porquê daquele garoto não acordar nem ferrando. – Ele olhou para trás e se virou novamente para mim falando:
– IHH, não precisa se preocupar com ele. Não se lembra que semideuses tem sono de pedra?! – Realmente, ele tem razão. – Enfim… Não é nada concreto, mas eu sei que: esse garoto ganhou uma pedra de uma senhora muito estranha que não sabemos quem é, que vai nos ajudar a trocar de dimensão mesmo com Hécate sequestrada e chegar ao acampamento. E essa pedra pertence à própria deusa da magia. Tudo isso confirmado por Poseidon em duas conversas que teve com seu filho por sonho e meditação.
Eu estava com uma cara que devia estar escrito “boiando” na minha testa, como dizem esses jovens. Matias percebeu que eu não entendi nada então falou:
– Cara, relaxa. Tome seu banho e depois conversamos sobre isso!
Hesitei, mas então entrei no banheiro.
A PARTIR DAQUI A NARRAÇÃO VOLTA PARA MIM (Gabriel)
Eles haviam passado coisas muito difíceis. Mas eu estava incrédulo pelo Denis ter conseguido viajar nas sombras tão rápido. Se bem que ele quase morreu. Mas o que importa agora é que estão todos bem. Parei para pensar e me dei conta que por enquanto haviam quatro filhos de dois dos três grandes. Ou seja, nosso cheiro pode ser sentido a muitos quilômetros de distância pelos monstros. Ou seja, estamos correndo muito perigo e precisamos chegar logo ao acampamento. Antes que eu começasse a falar pude perceber que Joseph estava incrivelmente nervoso, eles roía as unhas e batia seus cascos na parte de baixo da mesa, até que ele se levantou e disse:
– Chega de ladainha. Conte-me você como vamos chegar ao acampamento, pelo amor dos Deuses.
O sátiro mais novo, Jazy, levantou-se olhando para Joseph e para mim:
– O QUÊ? Você sabe um jeito de irmos para o acampamento? É isso mesmo que eu ouvi?
Cada grito fazia minha cabeça latejar, então falei – Parem de berrar e me deixem falar a partir de agora, ok? – Se tem algo que me deixa muito mal-humorado é dor de cabeça. Expliquei tudo que aconteceu desde o primeiro sonho até esse último que tive naqueles poucos minutos que eu dormi. E por algum milagre não fui interrompido, mesmo com tudo o que aconteceu enquanto eu dormia. Acho que pelo menos até a parte de como chegarmos ao acampamento estava esclarecida. Todos, inclusive aqueles que vieram comigo para o esconderijo me olhavam estupefatos. Todos começaram a conversar entre si empolgados, os sátiros falando do que iria fazer quando visse aqueles que estavam com saudade, os outros falando dos lugares que iriam no acampamento quando chegasse lá. Entrei na conversa, também estava ansioso e eu sentia um frio na barriga. Olhei de relance no relógio e vi que já se passaram alguns minutos das cinco horas da madrugada e todos com exceção a mim não tinham dormido nada, então falei – GENTE! – Eles se calaram. – Acho que agora seria melhor todos descansarem algumas horas e então partir. Não temos noção do que nos espera lá fora e se será fácil ou não para chegar ao acampamento. – Todos se entre olharam e balançaram a cabeça em afirmativa e alguns já até bocejavam. Matias levantou-se falando:
– Ele tem razão gente, vamos descansar. Tudo indica que o dia será longo e perigoso.
Todos levantavam de suas cadeiras e foram em direção ás triliches vazias, alguns ficaram pra arrumar a mesa, eu e Jazy somos dois dos que ficaram. O sátiro puxou assunto:
– Então quer dizer que o carinha da pedra é filho do barbudo do mar.
Eu estava passando um pano molhado na mesa, então levantei a cabeça e falei – É isso ai cara. Prazer. – Eu estava com tanta dor de cabeça que nada passava pela minha cabeça, eu estava sendo frio e antissocial, coisa que não sou de jeito nenhum quando estou bem. Me esforcei pra pensar em algo pra falar e apenas me passou pela cabeça – Não temos armas. – Então perguntei – Cara, como vamos fazer pra lutar sem armas? Caso for preciso. Temos muitos aqui não sabem nem quem são seus pais olimpianos quanto mais usar seus poderes. – Sua expressão mudou para preocupada, e enquanto ele colocava a louça no lava-louças ele falou:
– Eu estava pensando nisso há pouco tempo. Mas como Hécate disse, temos apenas hoje pra chegar ao acampamento. Teremos que arriscar.
Uma esperança acendeu quando me lembrei daquela porta atrás de uma das triliches, não sem bem o porquê disso, pode ter de tudo dentro daquela sala.
A mesa estava agora estava limpa. Então me dirigi para cama que eu dormi outrora.
Todos já estavam roncando. Me deitei e novamente o sono não demorou para me derrubar.
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