A Guerra do Alvorecer
6 As descobertas começam
As árvores, a parte de trás do auditório, ao meu lado esquerdo a avenida 23 de Maio e ao meu lado direito a marquise. Tudo se movia, fazia barulho e mostrava sua função no mundo. Eu via tudo isso em 3ª pessoa, eu não me sentia parte de tudo isso. Eu estava dentro de mim e ouvia meu subconsciente gritando e implorando – Não, eu não quero isso! Pare! Eu preciso voltar. Eu preciso voltar – Eu estava mergulhando novamente em uma das minhas crises. Música, gritos, gargalhadas, choros, lembranças boas e ruins. Tudo girava na minha cabeça e eu estava entregue ao choro e ás risadas se intercalando. Isso se arrastou por longas horas.
Lembrei-me então daquela voz suave e acolhedora, essa voz me fazia sentir como se novamente eu estivesse em casa; encolhido, com a cabeça deitada em uma das pernas dela, o cheiro comum que eu conhecia melhor que meu próprio cheiro. Era minha mãe, Maria. Minha mãe de criação, uma senhora de 65 anos, rosto enrugado que formava o sorriso e o olhar mais lindo e confortante que já vi na vida, seus cabelos pretos pintados com fios brancos, estavam presos em um cóque. Ela cantava pra mim uma música que eu amava quando criança e continuo amando, se chamava “café seleto”. Agora eu não chorava mais, apenas sorria. Eu não queria me levantar nunca mais, queria estar ali deitado com a melhor pessoa desse mundo pra mim. Foi então quando ela saiu da música, mas seu tom continuava melódico. Ela disse – Filho, volte para seus amigos, você pode aguentar, daqui a pouco as coisas começaram a se esclarecer e você entenderá tudo. Eu te amo – A voz dela foi se calando num eco até se extinguir.
Eu estava sentado, agarrado em minhas pernas com a cabeça escondida entre elas. Enxuguei as lágrimas me levantei e fui em direção ao bebedouro que estava há uns 50 metros atrás do lugar onde eu estava. Eu estava sedento, eu sentia falta de líquido no meu corpo e me sentia fraco, talvez porque eu chorei muito. Apertei o botão na lateral do bebedouro e a água saltou para fora da bica em seu transparente lindo, ela dançava e brilhava e isso enchia meus olhos com toda aquela beleza. Enchi minha mão e joguei a água em meu rosto. E senti novamente aquela sensação de prazer inexplicável que eu senti no início do dia depois de desmaiar na entrada do parque. Depois bebi muita água, acho que passei um minuto de cabeça baixa repondo os líquidos do meu corpo.
Satisfeito e revigorado fui em direção ao bosque. Quando eu estava terminando de atravessar a marquise avistei a Gabi, Dan e Saraiva vindo em minha direção com o passo muito apressado. Saraiva foi a primeira a me avistar e cutucou o Dan e a Gabi que olhavam em volta e apontou pra mim. Imediatamente o Dan correu em minha direção. Chegando ele agarrou em meus braços e gritou:
– Onde você estava? Estamos te procurando há horas! A Gabrielli sentiu algo muito ruim e entrou em desespero, ninguém consegue fazê-la parar de chorar. E ainda por cima você some por horas e não atende seu celular.
Eu fiquei totalmente paralisado por uma fração de segundo. Eu apenas pude pensar – As descobertas começaram! – O Dan me soltou e fui em direção à Gabrielli. Ela estava sentada no chão e a Saraiva estava abraçada com ela. Cheguei devagar e coloquei a mão no ombro da Saraiva, ela olhou pra mim e pôde perceber que eu estava bem e sua expressão logo se aliviou. Ela se levantou e eu sentei no lugar dela ao lado da Gabrielli e a abracei. Apenas sussurrei o ritmo de uma canção que eu não sabia da onde havia tirado. Ela foi se acalmando aos poucos e parando se soluçar. Ela levantou a cabeça lentamente em minha direção e eu parei a canção. Ela olhou nos meus olhos, e pude ver o medo e a confusão em sua mente por trás dos óculos. Então ela começou falar pausadamente e bem baixo:
– Dal, Hécate… Eu estava meditando na beira do lago debaixo de um arbusto. Ela veio à minha cabeça e falou… falou… que sou filha dela. Eu pude vê-la, ela estava presa. Sombras a rodeavam a fazendo gritar de dor. E ela repetia; vocês precisam me salvar… filha, filha chegou a hora.
Era chagada a hora, eu precisava contar tudo pra ela enquanto a Saraiva e o Dan não ouviam – Gabi aconteceu o mesmo comigo hoje enquanto eu descia pro bosque. Poseidon falou comigo por sonho enquanto eu estava desmaiado, ele é meu pai. E ele me provou me dando o poder de me revigorar com a água. – Falei calmamente, mas com certeza na voz. Ela balançou a cabeça olhou pra mim novamente, seus olhos mudaram, agora estavam suplicando ajuda:
– Mas, mas… O que está acontecendo? Tudo foi confuso e ela não me explicou nada.
Agora ela estava melhor, então me ajeitei sentando de pernas cruzadas e ela fez o mesmo, então continuei – Ele também não me explicou nada. Mas me deu apenas uma certeza; o mundo está em perigo. E agora nós somos os responsáveis por salvar á todos. Pois somos realmente semideuses – Ela ficou mais confusa, como eu esperava:
– Como assim? Dal. É apenas uma saga de livros. Você sabe que acredito que os deuses realmente existem, mas sermos filhos deles e termos poderes como o Percy, Annabetth, Jason, Nico, etc. É demais pra minha cabeça! Eu nunca consegui fazer nada que me desse indício que sou uma semideusa, filha da deusa da magia.
Agora falei mais firme – Preste Atenção! Eu também nunca tive indícios, mas pense… Nunca conheci meu pai, minha mãe sempre me falava que ela estava viajando à trabalho, mas, a partir dos 12 anos eu sabia que tudo era mentira e por isso eu brigava tanto com minha mãe, mas ela nunca me disse a verdade. Você sabe de tudo isso! Você passou por tudo isso e também sempre arrumou brigas com seu pai – É difícil de acreditar que achei uma família que me “adotou” e que mais tarde eu teria uma sobrinha de criação que passasse tudo o que eu já passara, mas eu já tinha me acostumado. Essa é minha vida. Algo muito estranho passou pela cabeça, mas pensei – Já que tudo está estranho, nada mais pode me surpreender – E Falei – Pegue meu boné, se concentre nele e faça ele ficar preto e vermelho! Isso deve funcionar, já que és filha da deusa da magia. Ela confusa, hesitou, e eu fiz um aceno com a cabeça para encorajá-la. Então ela tomou meu boné cinza e preto em suas mãos, fechou os olhos respirou fundo. Passava-se alguns segundos, ela franzia o cenho fazendo força, mas nada acontecia e ela ameaçava em desistir mas eu continuava a insistir. Até que pude ver uma fumaça roxa em volta das mãos dela que ia engolindo meu boné. Até o boné cinza ficar – ROSA? VOCÊ ESTÁ LOUCA? EU DISSE PRETO E VERMLHO!
Ela se assustou e abriu os olhos olhando para o boné, e o vendo rosa, ela o largou no chão de grama incrédula. Eu amava aquele boné e eu estava realmente “emputecido”. Mas não tinha tempo pra essas besteiras. Olhei pra trás e vi o Dan e a Saraiva conversando virados de costas pra nós. Então rapidamente joguei o boné num grande arbusto ao meu lado, e no meio das folhas o boné rosa sumiu. Então peguei nas mãos dela e falei – Viu? Você é uma bruxa, mulher. Eu sempre disse isso quando você acordava com os cabelos gigantes e a cara inchada. Mas não pensava que realmente fosse verdade – Caí na gargalhada enquanto ela me batia. Quando ela parou de me bater ela mesma caiu na gargalhada. Quando ela parou de ri nos levantamos e eu fui dizendo baixinho – Agora me escuta. Estamos numa guerra, e vários de nossos amigos vão entrar nessa guerra também em poucas horas quando descobrirem seus pais olimpianos. Como aconteceu comigo e com você. Temos que ficar com eles mas não podemos contar nada à eles. Agora enxugue essas lágrimas e mude essa expressão de espanto, as coisas vão se esclarecer com o tempo – Eu já estava tão acostumando com essa ideia de que as coisas iriam se esclarecer com o tempo que estava ficando cansado. Mas tudo isso havia começado à menos de um dia. Mas é tanta coisa que tenho na cabeça que já estou ficando exausto.
Fomos até a Saraiva e o Dan que me encheram de perguntas. Começando com a Saraiva, como é mulher é mais rápida e desesperada pra falar:
– Onde você estava senhor Gabriel Rezende? Ficamos morrendo de preocupação. Andamos esse parque todo procurando você. Você não pode sumir assim e não atender o celular! Você é louco?
Eu a abracei e falei no tom de voz que só eu sei falar pra acalmar a senhorita Juliana (ela odeia que eu a chame de Juliana) – Juliana, se acalme. Estou aqui inteiro e bem. Não sou louco e eu estava andando por aí, só que perdi a noção das horas – Ela me empurrou e voltou a gritar:
– Primeiro. Não me chame de Juliana. Segundo. Por ai onde se nós andamos esse parque inteiro atrás de você e não te achamos?
Agora não a abracei e apenas falei – Ju, por favor. Se acalme! Eu estava fora do parque, eu precisava pensar – Menti– Não é nada demais. Me desculpe. Ok? – Agora ela realmente se acalmou e falou:
– Ok. Te desculpo. Mas nunca mais faça isso de novo sem avisar alguém. Ok?
Respondi – Ok!
Ela se virou em direção à Gabi e foi abraça-la. O Dan me deu um soco no braço me abraçou e falou:
– Nunca mais faça isso, ok?
Respondi novamente – Ok, irmão.
Então fomos andando para o bosque eu na frente com o Dan, Gabi e Saraiva atrás, todos em silêncio. Até que o Dan perguntou:
– O que a Gabi tinha?
Respirei fundo e falei – Apenas um mal pressentimento, ela acha que alguma coisa vai acontecer e eu também senti isso. E geralmente nosso sexto sentido não falha, você sabe disso! – Menti — Ele olhou para o céu e eu olhei junto. O sol já estava se pondo e as poucas nuvens estavam pintadas de laranja. Eu não tinha percebido que já tinha se passado tanto tempo, já deve passar das cinco horas.
Repentinamente o Dan colocou a mão na cabeça e disse:
– Pultz. Esqueci! A Anna e a Giu também sumiu. Eu disse pro lelo que elas deviam estar conversando. Mas já fazia muito tempo que elas tinham sumido e ele estava sentindo algo estranho também em relação a elas, então ele saiu com o Du e o Pi para procurá-las. Logo depois viemos atrás de você.
Um calafrio subiu pela minha espinha. Eu sabia o que podia estar acontecendo. A guerra está prestes a começar. O Dan olhou pra mim com um ar de dúvida e falou:
– Aliás, Rezende. Você está sentindo esse cheiro de água salgada?
Tomei um choque de adrenalina. Será isso mesmo? – Sim irmão, estou sentindo!
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