A Guerra das Sombras
3 Sombra e Anjo
Notas iniciais
Já era noite quando levantei. Rebecca estava encostada na parede, em sua cama, lendo um livro com o abajur ligado. Trocara de roupa por algo bem mais confortável: uma calça de moletom preta e uma regata cor de carmim.
– Onde estão nossos pais? – murmuro, sentando-me na beirada da cama e esfregando os olhos. Rebecca larga o livro e ergue os olhos para mim.
– Boa noite, também. – ela amarra a cabeleira cacheada em um coque desajeitado, assim como eu estava fazendo – E eles acabaram de sair.
– De novo.
– De novo. – Rebecca fez o olhar que eu conhecia. Aquele olhar de quem ia roubar docinhos de crianças e colocar a culpa nos nossos primos. – Se bem que eles acabaram de sair. – Ela vai até a janela e espia. Me levanto e vejo o que ela quer fazer.
– Não.
– Vamos! – ela pega o meu casaco e joga em mim e coloca o dela. Calça o tênis de corrida e segura minha mão. – Vai ser legal. Tipo, pensa na Chapeuzinho Vermelho andando pela floresta, só que sem o lobo mal e á noite.
– Eu realmente me empolguei agora, obrigada. – eu não podia deixá-la ir sozinha. Fecho a cara. – Está bem! – sento-me e coloco meu all star. – Que coisa, Rebecca. Se eu morrer do coração, volto para puxar seu pé e o resto do corpo, garota.
– Aceito. – ela sorri e descemos as escadas com rapidez.
Paramos no meio da escada e me escondo, fazendo Rebecca ficar atrás de mim. Panelas caíram e ouço passos estranhos saindo da cozinha e indo até a sala.
– O que...
– Shhh – digo. – Fique aqui, eu vou lá ver.
Eu e ela sabemos que aquele barulho não eram nossos pais. Eu sei o som que seus pés fazem no chão e o ritmo que andam. Aquilo parecia de alguém que estava invadindo nossa casa. O problema é saber quem, e como conseguira passar pela segurança dos portões. A não ser que a ameaça já estivesse dentro do condomínio.
Tiro os sapatos e fico apenas de meias.
– Ok – sussurro – Vai ser como no treinamento.
Nossos pais sempre nos ensinaram como nos defender. Primeiro, não fazer barulho. Depois, ache uma fonte de luz e algo afiado. Espere o momento certo, e ataque. Caso dê errado, procure uma saída. Bom, sempre me perguntei como um feite de luz iria me ajudar, mas ok.
Desci devagar e sem emitir um mínimo ruído. Vou para debaixo da mesa de madeira pesada. Está tudo escuro e a única luz é o luar que passar através da grande janela á minha frente. Como não vejo nada e sei que a mesa ficou intocada após o jantar, coloco a mão para fora e pego uma faca encima da mesa.
– Ok. – murmuro. – Ok.
Luz. Na frente da mesa, há um balcão onde guardamos, nas gavetas, os talheres e bugigangas. Vou engatinhando até a última gaveta e pego uma lanterna pequena e prata. Me encosto devagar no balcão e dou uma olhada na sala. E como eu me arrependo. Engulo o grito, tampando com a mão a minha boca e olho para Rebecca. Ela está tão apavorada quanto eu. Olho novamente.
Eu queria simplesmente esquecer o que estava acontecendo e viver normalmente. Aquilo não podia ser real. Era uma pessoa, ou a sombra de uma. Fumaça a compunha e parecia deixar um rastro negro por onde passasse. Na boca, dentes afiados e olhos vermelhos. Isso não podia ser real.
Ouço passos vindos do lado de fora. Eram meus pais. Meu coração voltou a bater, mas eles não acreditariam em mim. Levanto do balcão, e eu volto a me sentir como uma gelatina. Agora aquilo estava me olhando e eu quase podia ver seus dentes brilhando ainda mais. Reuni toda a minha coragem; que agora era bem pequena.
– Ei, o coisa! – liguei a lanterna e meus pais entraram na hora que o feixe de luz atingiu aquela criatura – Gosta de luz?
A coisa gritou. Eu quase senti pena e minha mão falhou. A lanterna caiu e alguém me segurou pela cintura, me colocou nos ombros e subiu pela escada.
– Espera! – gritei – Meus pais!
Só na metade do caminho vi que eles não precisavam de ajuda. Eles eram a ajuda. Parei de ver quando entrei no quarto e cai no chão. Bati as costas na parede e vi quem me trouxera até aqui encima. Não podia ser Rebecca, porque ela não tinha tal força, e muito menos os meus pais, que ficaram para trás. Mas sim um garoto. Um garoto que me olhava de um jeito que ninguém jamais me olhou. Será que estou ficando doente?
Rebecca surgiu bem atrás, olhando suas costas. Ela abriu a boca para falar algo, mas suas palavras morreram na metade do caminho.
– Muita coragem sua enfrentar uma Sombra. – eu encolhi as pernas até meus joelhos tocarem meu queixo e eu poder abraçar minhas pernas. Aquela coisa tem nome. O garoto fica na minha frente e se agacha, apoiando os braços nos joelhos. Ele está próximo de mim. Próximo demais para alguém que eu nem sei o nome. – Ângelo. Caçador e aprendiz dos seus pais há bastante tempo.
Olhei pelos ombros de Ângelo e pude ver Rebecca com os braços cruzados e os olhos semicerrados, sorrindo de modo á me fazer corar. Ela estava pensando em mil coisas.
Levanto-me, arrastando as costas na parede verde-mar. Ângelo se levanta também e eu repreendo Rebecca com o olhar, fazendo-a sorrir mais.
Ouço outro grito agudo que vai se dissipando aos poucos.
– Já desapareceu. – Ângelo vai à nossa frente, seguido por mim e depois Rebecca.
Ao descer as escadas, entendo o olhar de Rebecca para as costas do garoto. Tinham asas de anjo tatuadas. São... Lindas. E o modo que a regata lhe cai, ficam apenas visíveis poucas partes das delicadas asas.
Meus pensamentos morrem e eu paro no final do caminho, fazendo minha irmã bater bruscamente em mim.
– Vocês estão segurando uma... — eu não consigo terminar.
– Arma? – interroga Rebecca – Que irado!
Ela passa na minha frente e na de Ângelo, ficando ao lado de nosso pai.
Ângelo segue seu caminho e se senta no sofá, onde pouco tempo atrás estava a Sombra. Ele passa a mão no ar e uma camada de ar negro se espalha. O garoto franze o cenho mas não parece ligar.
– Nós não contamos antes para proteger vocês – começou nosso pai, Chris.
– Meninas, quanto mais vocês soubessem, pior seria sem devida proteção – Cora, nossa mãe, chegou perto de mim e pude ver aflição em seus olhos verde- mel. Apesar de alta, nosso pai era bem maior. Mamãe é delicada como uma flor, branca como leite e com cabelos negros e lisos. É extremamente linda, por dentro e por fora. Suas roupas tipicamente pretas estavam com alguns pontos marrons na barra de sua legging e nas mangas de sua camisa de manga comprida e justa.
Eu pude apenas abraçá-la. Retribuindo tal gesto, me senti protegida novamente. Me separei e fui até meu pai, que falava com Rebecca com singelo entusiasmo. Chris, como todos os amigos o chamavam, é um homem extremamente atencioso e gentil, contrariando seu ar de liderança e feições de alguém que parece esta sempre com raiva. Tem os cabelos castanhos cortados quase que militarmente, porém realçando seu rosto quadrado. Os olhos pequenos quase não mostravam sua íris azul- claro. Se nossa mãe é mais alta que nós, papai é ainda maior, sendo uns cinco centímetros mais alto que nossa mãe. Bem musculoso, não me impressiona a disposição para sair e correr todos os dias ás cinco da manhã. Mas ainda sim, segurava uma arma. E tinha outra no bolso. Minha mãe tinha uma faca na bota e uma arma no bolso.
Rebecca estava impressionada com aquilo. Eu estava apavorada. Não consigo imaginar como é atirar em alguém. É um ato brutal; é tirar uma vida. Como não ouvi nenhum disparo, duvido que tenham usado a arma prata em seus bolsos. A faca, por outro lado, estava suja de algo mais escuro que sangue.
– Como todos estão tão... Satisfeitos? – eu consegui cortar o ar. Fiz Rebecca me olhar, tirando-a de sua fascinação pelo mundo em que estávamos prestes á entrar. Meu pai guardou a arma no outro bolso de sua calça e mamãe esfregou o braço direito como sempre fazia quando parecia estar nervosa. – Se vocês não viram o que eu vi, sinto muito, mas eu queria ter visto, sei lá, um unicórnio pisando em coelhinhos!
Minha voz soava como um protesto. Não é possível que isso seja real. Aquilo não podia ser real.
– Filha, entenda – diz meu pai – A partir de agora, sua vida irá mudar. Talvez possam surgir respostas para perguntas como aonde vocês vão á essa hora da noite?
– E aonde vocês vão, então? – Rebecca me olha, abraçada em nosso pai. Mamãe olha para o mesmo. Parecem estar conversando em silêncio. Agora que eu noto, as luzes ainda estão desligadas e a Lua é nossa única fonte de luz.
– Agora elas vão saber lidar. E logo não poderemos mais protegê-las, Chris. Você sabe disso.
– Cora... – ele parecia nervoso. Rebecca o largou e o mesmo andava de um lado ao outro. – Tudo bem – Olhou para Ângelo – Ei, você faria o favor de levá-las?
Ângelo logo se levantou e fez que sim com a cabeça.
– E vocês? – diz Rebecca.
– Vamos verificar a área – responde mamãe. – Encontramos vocês até o início da manhã.
Olhei no relógio. Marcava 4:00 da manhã. Eu não irei para a aula nem obrigada.
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