A Guerra das Cápsulas
51 A nova namorada do príncipe - parte II
Notas iniciais
Bulma o afastou irritada assim que percebeu que ela mesmo o abraçava.
— Bom dia — ele disse com um sorriso de canto.
— O que tem de bom? — ela perguntou mal humorada.
Levantou-se e foi para o banheiro. Vegeta ficou ouvindo os sons matinais característicos, somados ao mal humor dela, que ele desconhecia naquele horário do dia. Era a primeira vez que passava a noite com uma mulher sem fazer nada e acordava com ela viva. Ele achou engraçado. Ficou pensando se isso fazia parte das coisas de namoro também.
— Eu vou sair pra tomar café — Bulma disse após sair do banheiro.
— Por quê? Daqui a pouco alguém vem trazer meu desjejum.
— Ah, você tem essas mamatas, então?
— Tem que haver alguma vantagem em ser príncipe, não acha?
Ela revirou os olhos. Vegeta foi para o banheiro. Urinou. Bulma desviou o olhar. Ele entrou no box e tomou uma ducha. Saiu, enrolou a toalha na cintura. Depois passou creme de barbear no rosto e começou a fazer a barba. Bulma que o observava da porta, perguntou espantada:
— Você faz a barba?
— Todo santo dia.
— Nossa, nunca imaginei...
— Por que não? — ele levantou o queixo para escanhoar.
— Por causa do seu cabelo.
— O que tem a ver uma coisa com a outra?
— Não sei... nunca te vi cortar o cabelo, como é que nasce barba?
— Não faço ideia também, mas é assim que eu sou — ele bateu a lâmina na beirada da pia, lavou o rosto com água fria, retirou a toalha da cintura e a usou para secar o rosto. Bulma saiu de perto, não queria olhar para aquele espetáculo matinal.
Ele saiu já vestido do banheiro. Cronometradamente, um criado bateu na porta e entrou com o café da manhã dele. Era uma bandeja gigantesca com muitas comidas e bebidas para o café da manhã do príncipe.
Eles sentaram e Vegeta a serviu com uma xícara de café preto. Foi completar com leite.
— Eu gosto puro — ela disse.
— Quanto de açúcar?
— Nada.
— Prefere amargo?
— Sim, pra combinar com a minha vida — ela pegou a xícara e foi tomar perto da sacada. Viu aqueles cães horrendos dormindo tranquilamente.
— Livre-se deles, por favor — ela pediu.
— Deles quem? — ele perguntou após morder uma torrada.
— Esses cães.
Vegeta levantou, andou até a sacada e lançando um raio, incinerou todos os cães de uma vez.
— Não assim, né! Não precisava matá-los! — Bulma reclamou.
— Mas você mesma falou pra eu me livrar deles.
— Mas você poderia dá-los para alguém ou soltá-los em algum lugar longe daqui!
— Por que não me explicou? Pra mim se livrar de algo significa matar.
Bulma se afastou dele, pousou a xícara na mesa do café.
— Vai ser muito difícil esse negócio.
— Então você vai me aceitar? Vai ser minha namorada? — Vegeta perguntou.
— Não! Na verdade eu não sei... ainda não sei.
— A gente pode fazer um teste, o que acha? Eu vou me esforçar pra aprender tudo.
— Não é assim que funciona! Não tem o que aprender, isso não é uma ciência exata. A gente vai descobrindo tudo aos poucos.
— Mas você já namorou com aquele tal de Yamcha antes, não namorou?
— Sim, mas era diferente.
— O que tinha de diferente no namoro de vocês?
— Não tinha nada de diferente, era um namoro como outro qualquer.
— Então e só você usar tudo o que aprendeu, e depois você me explica.
Bulma riu. No começou achou que ele estava brincando, mas agora entendia que nesse quesito, Vegeta era completamente ingênuo.
— Não é assim... cada relacionamento é uma coisa nova, completamente diferente de qualquer outro relacionamento que a pessoa já teve.
— É mesmo? — ele perguntou espantado.
— Parece óbvio, não parece?
— Não para mim... eu falei que nunca namorei antes. Eu pensava que era tudo igual. Só mudava a pessoa.
— Mas não é... cada vez que uma pessoa se relaciona com outra, é algo completamente novo e diferente, na verdade é único no universo inteiro. Não existe um relacionamento igual ao outro, porque as pessoas são diferentes, e as combinações entre elas é que geram a dinâmica do casal. Não tem como repetir isso em outro namoro que a pessoa tiver.
Ele parecia interessado.
— Nunca imaginei que fosse assim.
— É assim com tudo. Não só namoros. Amigos também, pais e filhos, professor e aluno, cada relacionamento tem uma dinâmica única.
— Interessante — ele ponderou passando a mão no queixo.
Ela o olhou intrigada.
— Como você se relaciona com as pessoas?
— Como assim?
— Como são os seus outros relacionamentos, não digo os amorosos, já que você nunca os teve. Eu digo entre os soldados, com Tarble ou mesmo os criados do castelo.
— Eu não tenho relacionamentos com ninguém, eles me servem e pronto.
— Uau... deve ser muito triste.
— Pelo contrário... me sinto ótimo assim.
— Você diz isso porque de fato não sabe o que está perdendo. Se tivesse tido um amigo mais chegado alguma vez, ou mesmo uma namorada na adolescência saberia como é maravilhoso se relacionar com as pessoas, ter amigos, ter uma família para onde voltar.
— Tem os soldados, os súditos, os criados, todos para me servir. Isso me basta.
— Mas eles nunca vão se mostrar verdadeiramente como são para você. Eu sei que você odeia que te lembrem disso, mas Goku era verdadeiramente um cara legal, ele era engraçado, ingênuo e fofo. Você esteve ao lado dele por anos e aposto que nunca viu isso.
— Porque ele era um traidor — Vegeta estreitou os olhos ao dizer.
— Não, você que nunca parou para olhar para ele como uma pessoa, só o enxergava como uma extensão do próprio braço, por isso ficou cego e não viu que ele tinha aquela personalidade agradável que cativou Chichi completamente.
Vegeta não gostou de ouvir aquilo. Odiava lembrar sobre a traição de Kakarotto. De fato, o soldado foi o mais próximo que Vegeta teve como amigo, mas sempre que ele tentava estreitar os laços, Vegeta o colocava no seu devido lugar com toda a grosseria que lhe era peculiar.
— Você perdeu muitas oportunidades — Bulma sentenciou.
Vegeta ficou pensando naquilo. Deveria ser verdade, afinal ela parecia mesmo entender sobre essas coisas, mas ele não tinha arrependimentos quanto à isso. Ninguém nunca havia falado que ele poderia ser de outro jeito, foi doutrinado a matar e governar pelo medo, não tinha espaço para desenvolver relacionamentos vivendo desse jeito.
— Bem... então me ajude a recuperar o tempo perdido — ele falou — vai aceitar ser minha namorada?
Ela queria dizer que não e novamente pedir uma nave para voltar para a Terra. Mas a entristecia ver como ele era solitário e nem sequer conhecia a extensão da própria solidão. Se ele morresse amanhã ou depois as pessoas comemorariam, mas ela enxergava que tinha mais coisas ali além daquele coração duro de pedra. Ela ainda o amava e por mais que a razão gritasse para fugir daquilo tudo, o coração já estava amolecido.
— Tem algumas condições — ela disse.
— Diga.
— São coisas simples, mas importantes para mim.
— Não tem problema, se estiver ao meu alcance, eu faço.
— Olha só, eu quero ter liberdade para andar por aí quando eu quiser, quero poder conhecer esse planeta e as pessoas que vivem aqui.
Ele já não gostou da primeira condição, mas ficou em silêncio.
— E quero que você pare de usar palavras vulgares comigo — ela continuou — e o mais importante de tudo: quero que você pare de matar pessoas.
— Mulher, eu sou um guerreiro. Eventualmente eu vou ter que matar.
— Se for em combate com um guerreiro do mesmo nível que você eu até entendo, não concordo, mas entendo que tragédias desse tipo acontecem. Agora matar pelo prazer de matar como eu vi você fazer com a babá, ou aquela criada do chá quando estávamos na Terra, isso eu não vou permitir mais.
— Essa é a minha natureza, não tem como eu mudar isso — ele argumentou.
— Tudo bem então, eu não aceitaria ser sua namorada mesmo que você concordasse. Me dê uma nave que eu vou voltar pra Terra — ela o chantageou.
— Tá bom! Mas que saco!
— Não é pra reclamar, Vegeta! Isso é muito importante, é o mais importante de tudo o que eu te pedi.
— Não sei porque se incomoda tanto com isso, as pessoas morrem.
— Mas na hora certa, não por motivos banais, não por um capricho seu!
— Ok, vou me esforçar já que isso é tão importante pra você. Mas como príncipe, eu tenho que fazer meus súditos me obedecerem.
— Concordo com você, mas tem outras maneiras de conseguir ser respeitado. Matando, você só ganha o ódio das pessoas, no final das contas ninguém te respeita. Se te respeitassem confiariam em você e ninguém teria tentado golpe nenhum.
Ele ponderou essas palavras. O discurso dela era muito parecido com o que Tarble sempre fazia.
— Tudo bem, eu aceito suas condições.
— E nós vamos recomeçar com calma, eu não quero ter que explicar mais esse motivo — ela desviou o olhar.
Vegeta sabia do que se tratava. O relacionamento sexual entre eles seria um caso à parte.
— Eu entendo... você tem todo o tempo que precisar.
Bulma sorriu tristemente. Voltou à varanda e deixou o olhar se perder naquela imensidão de construções feias e acinzentadas, ao longe o deserto árido e acima o céu alaranjado. Tinha perdido, talvez para sempre, a chance de voltar para a sua casa, seus relacionamentos mais verdadeiros, a família e os amigos, em troca de tentar algo completamente incerto e arriscado com um casca grossa daqueles.
Nas últimas semanas, vendo como Vegeta verdadeiramente era, ela o comparava à um verdadeiro psicopata, matando as pessoas de maneiras cruéis e depois rindo. Só que estava apaixonada, queria ficar com ele, e se ele estivesse sendo sincero ao dizer que realmente queria aprender e tentar, talvez eles se tornassem ótimos juntos. Estava investindo naquela relação como quando investia em um invento complicado, demorava e dava trabalho, mas no final compensaria, sempre compensava, ela pensou esperançosa.
— Eu tenho uma condição também — ele falou se aproximando.
— Você não tem direito de pedir nada, sou eu quem dou as cartas aqui — ela riu.
Ele a virou para si, passou os dedos de leve pelo seu rosto.
— Eu tenho sim, mulher. Minha condição é simples e vai ser prontamente atendida.
— Duvido... mas vamos ver, eu te desafio — ela o provocou.
— Eu quero que você sorria... sempre que olhar pra mim.
Involuntariamente, Bulma obedeceu ao príncipe.
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