A Guerra das Cápsulas
104 A narrativa de Trunks
Notas iniciais
Com elegância e delicadeza, Chichi arrumou pela décima vez a longa saia do vestido elegante que usava, estava desconfortável e ansiosa. A narrativa de Trunks a tomava por completo, ela queria poder interromper partes do relato para dizer que não foi bem assim, mas o tempo seguiu seu curso, e ela não estava presente para mudar a história do seu filho. Restava ouvir calada e se resignar a fazer um futuro diferente, pois o passado, ou os acontecimentos da outra linha de tempo, não poderiam mais ser mudados. Ao redor, todos os presentes também ouviam atentos a história de Trunks.
Rememorando os pontos mais importantes, mas sem deixar passar detalhes que considerava cruciais, Trunks contou o que aconteceu após colocar Goku, Chichi e Vegeta na máquina do tempo para voltá-los apenas em memória para o passado atual, e depois seguiu em busca de Gohan. Ele narrou o seguinte:
"Eu ajustei a rota da nave para o ponto indicado no localizador de Vegeta, e como previsto, Gohan havia pousado em um lugar muito longe, eu não teria combustível para chegar até lá, mas tinha que ir de alguma maneira, pois havia prometido encontrá-lo. Depois de algumas semanas com a nave indo na velocidade máxima e poupando ao máximo os meus recursos, encontrei um pequeno planeta que parecia ser habitado, as leituras da minha nave diziam que havia água potável e alimentos naquele planeta, então eu resolvi pousar lá. Como não sabia se eles eram hostis, disfarcei-me com trajes longos que escondiam minha identidade e não davam indícios que eu era um guerreiro.
Quando pousei, encontrei pessoas semelhantes aos humanos, vivendo harmoniosamente e com excelente tecnologia. Eu logo senti que se tratavam de pessoas boas, pois não havia traços de violência em seus kis, então pedi ajuda a um grupo. Eles me disseram ser da raça tsufurujins, que haviam sido "extintos" pelos saiyajins em uma guerra há muitos anos antes, porém um pequeno grupo sobreviveu, então refugiaram-se em um local longínquo do espaço e lá recomeçaram sua civilização. Eu não revelei minha origem mestiça de saiyajin e terráqueo para não gerar qualquer tipo de conflito. Contei a eles o que estava acontecendo, sobre as mortes que Black estava causando e da minha missão de encontrar Gohan, foi então que eles disseram que já sabiam de tudo sobre Black, mas afastaram as ofensivas do mesmo ocultando seu planeta do sistema intergaláctico onde vivem, eu quis entender mais sobre como faziam isso, mas eles disseram não poder revelar, ainda, como se defendiam, pois temiam que se uma raça inimiga descobrisse, logo teriam destruída ou roubada aquela tecnologia tão importante.
Esse planeta onde viviam agora era bem pequeno e de fato, não apareceu no radar, não antes de eu estar bem próximo e poder vê-lo com os próprios olhos. A vida lá era tão equilibrada, próspera e feliz, que acabei ficando por alguns dias a mais do que o esperado. Nesse meio tempo, o general dos tsufurujins soube da minha empreitada, e da importância de encontrar Gohan, e cedeu uma das suas naves militares para mim. A tecnologia deles era infinitamente superior à qualquer coisa que eu já havia visto. Conhecendo a nave, comecei a desvendar o segredo deles, pois cada nave é equipada com um mecanismo de abertura de portais no tempo-espaço, de modo que ultrapassar grandes distâncias torna-se irrisório e simples. Eu ainda estou tentando entender exatamente como acontece, mas a própria nave dobra o espaço para entrar por buracos de minhoca, buracos negros e outras anomalias espaciais que tornam as viagens mais rápidas. Eles também me ofertaram alimentos e água para terminar a viagem e ofereceram estadia permanente lá, caso as coisas não saíssem como eu esperava.
Com um certo aperto no coração, deixei aquele povo tão gentil e generoso, que me ajudaram muito sem pedir nada em troca, e segui em busca de Gohan. Como previsto, agora com essa nave mais sofisticada, eu terminei a viagem em poucas semanas. O rastreador mostrava que Gohan havia pousado com uma nave individual de saiyajin ali naquele lugar, mas eu não sabia o que encontraria. O planeta parecia deserto, mas era belíssimo, coberto de vegetação rasteira em diversos tons de azul, assim como as árvores altas e finas, todas recobertas com folhagens da mesma cor, altos picos montanhosos de terra clara e um exótico céu verde com nuvens amareladas. Pude sentir o ki inofensivo de pequenas criaturas e constatei que eram os animais nativos do local, a grande maioria, répteis e peixes. Ocultei a nave entre duas montanhas, preparei uma mochila com mantimentos, peguei o rastreador e saí voando pelo lugar à procura de Gohan.
Não demorou muito, e encontrei algumas habitações, ali a concentração de kis era mais intensa, percebi que se tratava de seres inteligentes e não os animais locais. Abaixei o meu próprio ki e desci perto das casas, mas não muito perto a ponto de me verem. As habitações seguiam todas o mesmo estilo arquitetônico que eu nunca havia visto, como meio círculos que saíam diretamente da terra, eram feitas de um material sólido e branco, mas não havia indícios de emendas como em casas comuns de concreto. Então vi os seres que ali habitavam, tinham a pele verde escura, eram completamente calvos e algo parecido com antenas saíam de suas cabeças, eles usavam túnicas rosadas e brancas, e outros usavam calças azuis ou brancas com coletes. Nenhum deles me percebeu, até que o rastreador começou a apitar muito alto e isso chamou a atenção de alguns deles, tentei me esconder, mas já não havia tempo, um grupo de crianças daquela raça esquisita me encontrou, eles apontavam pra mim de um jeito estranho e perturbador. Temi estar diante de seres hostis, então vi um menino com aparência humana usando roupas semelhantes a eles, o rastreador apitou mais alto ainda. Então perguntei:
— Você é Son-Gohan-san?
— Eu sou, quem é você? — ele me perguntou.
— Eu sou Trunks, um amigo dos seus pais, estou aqui para buscá-lo.
As crianças verdes se aproximaram mais ainda, puxando minhas roupas e vasculhando-me curiosas. Alguns começaram a gritar em uma língua estranha e logo adultos apareceram. Fiquei desesperado, não queria ter que lutar e estragar a aproximação com o grupo.
— Diga a eles que não sou hostil — eu pedi ao Gohan, mas ele me olhava seriamente — vamos, por favor, avise que eu vim apenas para buscá-lo!
— Não — o Gohan respondeu — seja lá quem for você, eu não volto mais.
Nisso os adultos daquela raça já estavam em cima de mim, senti um golpe na cabeça e caí desmaiado.
Acordei muitas horas depois, estava diante de um ser gigantesco, com as mesmas características dos outros e cercado de outros adultos de tamanho comum. Todos eram muito altos e pareciam ser fortes, não só pelo físico bem trabalhado, mas também pelos kis. O gigante daquela raça disse que eram todos namekuseijins, e que eu havia pousado no Planeta Namekusei, e que já me aguardavam, então disseram que os tsufurujins haviam avisado da minha chegada, senti raiva, pois pensei que havia sido enganado, mas eles disseram que ambas as raças colaboravam uma com a outra há muito tempo, e não poupavam informações relevantes. Eles já sabiam da ameaça Black, e embora não possuíssem tecnologia semelhante a dos tsufurujins para se defenderem, eles ainda não haviam sido incomodados por Black, por serem pacíficos e livres de ódio, dificilmente seriam um alvo imediato do vilão. Pensei comigo que a porrada que tomei na cabeça me dizia outra coisa, mas optei por ficar em silêncio e ouvir.
O Grande Patriarca, como era chamado com absoluta reverência por todos, contou que Gohan apareceu por ali tempos atrás, e embora na ocasião ninguém soubesse quem ele era, o Grande Patriarca logo percebeu que se tratava de alguém especial. Gohan também estava presente e ouvia em silêncio, um pouco contrariado, como pude perceber.
— O menino tem um grande poder oculto — o Grande Patriarca me disse — mas reluta em receber treinamento para se tornar guerreiro. Pelo contrário, quer estudar para se tornar um sábio e vive metido com a cara nos nossos livros, eu deixo porque sei que conhecimento nunca é desperdiçado, mas posso te dizer, amigo Trunks, que esse rapaz nasceu para ser um grande guerreiro. A vida dele está marcada para acontecer há muito tempo, para vingar a morte de milhares de inocentes. Por ironia do destino, ele é descendente da mesma raça que iniciou essa saga de ódio, os saiyajins, e o vilão que precisa enfrentar tem a mesma cara que o seu pai.
O Gohan soltou um forte suspiro de raiva nessa hora e chutou algumas pedrinhas que estavam no chão.
— Ele está conosco há vários meses — o Grande Patriarca continuou — e recusa-se que eu desperte o seu poder interno, recusa-se a treinar ou mesmo a ouvir sobre o perigo de deixar Black impune. Trunks, eu sei que você está desconfiado e com raiva e por ter sido agredido logo que chegou, mas peço desculpas pois não sabíamos ainda que era você que esperávamos, entenda, raças hostis aparecem o tempo todo e com essa situação de Black estamos mais precavidos que o normal. De qualquer forma, estamos felizes que você finalmente veio, assim poderá convencer Gohan a receber o treinamento que precisa.
Olhei ao redor e pude enfim perceber que aquele povo não era hostil, mas não eram bestas, sabiam que havia maldade no universo e se preparavam para isso, dividindo-se entre guerreiros e sábios. Fui liberado da presença do Grande Patriarca e me reuni com Gohan, contei sobre tudo, sobre os planos de voltar vocês no tempo, sobre as mortes que Black cometeu, sobre tudo o que estava em jogo e Gohan recusou-se a voltar comigo ou a treinar com os namekuseijins. Passou dias, semanas, e ele permaneceu estudando com a cara nos livros e brincando com as crianças. Nesse tempo, pude conhecer mais da cultura dos namekuseijins, e me encantei com o estilo de vida e a filosofia que eles seguiam. Acabei de tornando próximo de um guerreiro em especial, o nome dele era Piccolo. Ele parecia ser acima da média que os outros namekuseijins, então passei a ocupar meu tempo treinando e lutando com ele.
As semanas viraram meses, e logo estava completando um ano que eu havia chegado naquele lugar, e o Gohan recusando-se a me ouvir. Até que um dia, Gohan estava brincando com uma das crianças e no meio da brincadeira, acabou por empurrar e derrubar o menino contra a sua vontade. A criança namekuseijin sequer se machucou, mas a reação de Gohan foi desmedida, ele chorou e implorou perdão de modo que deixou o namekuseijin constrangido. Eu, que no momento lutava com Piccolo, parei para ver o que estava acontecendo. Gohan começou a chorar descontroladamente e dizer que era sua culpa, que todos estavam mortos por culpa dele, ninguém entendeu, porque as crianças que brincavam com ele estavam vivas. Me aproximei e conversei com Gohan.
— Gohan-san, o que está acontecendo? Ninguém morreu, está tudo bem, você sequer o machucou.
— Ele morreu, eles estão mortos, é culpa minha!
Entendi que era melhor tirar ele dali, o levei para a casa que os namekuseijins me emprestaram para morar enquanto estivesse ali e lá consegui o acalmar. Piccolo me acompanhou e juntos, ouvimos Gohan em silêncio. Ele relatou sobre a guerra em que esteve, que foi escondido dos pais, lá fez amizades com os príncipes filhos do irmão de Vegeta, os trigêmeos, que estavam tão empolgados quanto ele para lutar na guerra. Só que os acontecimentos saíram fora do controle e um dos trigêmeos acabou morrendo. Gohan então confessou que carregava a culpa da morte do menino, pois assim que os conheceu quis se exibir e mostrar que sabia lutar e que era melhor do que eles. No final, durante aquele tempo todo, Gohan achava que havia incentivado os trigêmeos a lutar na guerra, e que portanto era culpado da morte de um dos garotos.
Enquanto Gohan contava, comecei a sentir dó dele, mas não por ele ser menos do que eu, ou algo do tipo. Mas sim, porque foi nesse momento que percebi a loucura de toda essa situação, Gohan na altura não tinha nem completado sete anos de idade, e já havia lutado em uma guerra, perdido um amigo querido e carregava uma culpa que muitos adultos nunca vão carregar. Fora isso, estava separado dos pais há tempos e não havia perspectiva de os encontrar, sem falar que a pessoa mais odiada e vilanesca no momento, tinha a cara idêntica do seu próprio pai, a pessoa que ele mais admirava no mundo. Pensei que a cabeça dele deveria estar uma bagunça e com toda a razão. Estava pensando em desistir de o forçar a lutar, pois afinal de contas, ele tinha todo o direito de viver sua infância da melhor maneira que podia, e pegar leve com ele, afinal de contas, ele não passava de uma criança, quando neste momento, Piccolo começou a gargalhar. Olhei assustado para o guerreiro que ria com gosto, zombando da narrativa triste de Gohan, enquanto mostrava os dentes caninos pontiagudos como um animal demoníaco.
— Não seja um pirralho mimado, Gohan — Piccolo disse deixando Gohan petrificado e a mim espantado — está chorando porque está longe da mamãe, porque seu papai tem uma cara malvada, porque um menininho morreu? Deixa de ser besta! Muitos já morreram enquanto você está aqui perdendo tempo. Por que não vai embora de uma vez e pare de ser um estorvo para nós? Se não fosse pelo Grande Patriarca eu mesmo tinha te mandado de volta para o espaço, moleque! Ninguém quer você aqui, entendeu? Pensa que vamos te acolher para sempre? Se não resolver tomar vergonha na cara e começar a treinar para derrotar Black é melhor dar o fora daqui, logo você vai se tornar um marmanjo inútil e não toleramos inúteis aqui. Ou você luta ou você estuda, e você pode pensar que é inteligente, mas não passa de um macaco ignorante, nunca compreenderia a sutileza da nossa filosofia, portanto está perdendo tempo se pensa que estudar te ajuda em algo. Você é um macaco bruto, nasceu pra lutar e matar, é só pra isso que você presta e se não tomar vergonha na cara, eu mesmo chamo Black aqui para dar um jeito em você!
Eu estava horrorizado. Piccolo sempre foi um cara sisudo e respeitável, nunca o imaginei dizendo grosserias tão imensas ao Gohan, ainda mais depois dele abrir seu coração.
— Se quiser fazer algo para mudar essa dor que você sente — Piccolo continou — treine o mais que puder e derrote o vilão Black. Despeje seu ódio e culpa todo nele e o destrua, assim vai vingar a morte do menino e de todos os inocentes que morreram, se continuar a choramingar e se afastar do seu caminho, Black apenas ganhará, logo ele vai aparecer e matar a todos aqui e à você também, depois sua mãe, seu pai e todo mundo, é isso o que você quer?
— Não... — O Gohan respondeu secando as lágrimas.
— Pois então levante, moleque! Levante e vá treinar de uma vez! Honre a sua origem saiyajin e se torne o melhor dos melhores, supere a todos e até mesmo Black temerá quando te ver!
Eu pensei que o Gohan fosse desandar a chorar depois de um sermão desse, mas ele levantou o rosto, havia um brilho em seu olhar, havia ódio, dor, raiva e determinação.
— Me treine, por favor, Piccolo-san! — Gohan pediu.
— Tem certeza que quer que eu te treine?
— Sim, eu tenho! Você é o melhor dentre os guerreiros namekuseijins, por favor, me dê a honra de me treinar — Gohan pediu fazendo uma profunda reverência que descia até o chão.
— Tá bom, Gohan, eu vou te treinar. Mas saiba que eu não sou um mero guerreiro namekusei. Antes de me tornar guerreiro, assim como você eu vivia com a cara nos livros, eu estudei para me tornar um kami-sama. Só que as coisas não saíram como o planejado, e eu sei que os livros que você leu não registram isso, mas sabe o que acontece quando alguém treina para ser kami-sama e não consegue?
— O quê? — o Gohan perguntou, mas eu estava mais curioso do que ele.
Piccolo então respondeu com um sorriso assustador que me fez tremer de medo.
— Vira diabo."
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