Notas iniciais
Desculpem a demora. Comentem para fazer uma autora feliz :) Espero que não tenham abandonado minha história. Beijos!

Logo o céu ficou totalmente escuro. Por sorte, em minha mochila havia gravetos e fósforos coisas de semideusa , então pude fabricar uma tocha. Nymeria não apareceu, muito menos Dylan.

Dei a volta no monte e logo achei uma caverna. A entrada era muito pequena, fui obrigada a agachar-me para poder passar, mas o lado de dentro era muito amplo. As paredes eram cravejadas de pequenas joias brutas de todas as cores. O chão era liso e cinzento. Havia rochas espalhadas em alguns pontos da caverna. Mais a frente erguia-se um altar, esculpido na parede. Ao lado também era visível uma espécie de oração escrita em outra língua. Por ser semideusa logo reconheci o grego antigo. Uma oração para Hécate, deusa das escolhas, encruzilhadas e da magia.

Passei a mão pela parede, meus dedos roçando a rocha gelada e afundando onde as palavras foram esculpidas. Ao simples toque as palavras começaram a mudar. Embaralhavam-se rápido demais para que eu pudesse acompanhá-las. Uma poesia surgia em seu lugar.

Céu e mar juntos estão,

Lutando contra a escuridão.

O inimigo da fraqueza se aproveita

E a guerra finalmente está acesa.

Teu medo enfrentará,

Para ao mundo retornar.

A chama reacenderá

Se algo precioso sacrificar.

Era uma profecia.

***

Dei um passo para trás e parei, encarando a parede sem acreditar no que havia acabado de acontecer. Respirei fundo. Decidi que acamparia aqui esta noite, pelo menos até o sol aparecer. Virei-me de costas para a parede e fui até um canto onde larguei minha mochila. Preparava-me para deitar quando ouvi um estrondo. Dei um pulo, assustada, e fui lentamente em direção à boca da caverna. Saí e olhei ao redor, procurando algo que explicasse o barulho. O céu estava negro e raios cortavam o céu, brilhando por todo lugar. As árvores chacoalhavam com o vento selvagem. Nenhum animal era visível, provavelmente estavam escondidos em algum lugar, assim como eu.

No horizonte um vulto se erguia, marchando diretamente em minha direção.

Ao longe achei que se tratasse de um ser humano, uma pessoa, talvez um dos mortais convocados para a guerra. Por um momento tive esperança até de que fosse Dylan, que ele tivesse sobrevivido, escapado e viesse me procurar aqui. Mas então outro raio caiu e com o lampejo de luz pude ver sua face. Suas principais características eram humanas, mas estavam distorcidas, com várias cicatrizes, inúmeras queimaduras, arranhões e um pedaço do lábio superior havia desaparecido, possivelmente arrancado.

Ele continuou caminhando e a cada novo lampejo de luz eu conseguia ver partes de seu corpo: mãos com garras afiadas; um tórax de escamas negras e entrecortado por grandes e pequenos arranhões que derramavam icor dourado, o sangue dos imortais; pernas também escamosas cobridas por uma calça de pano marrom em frangalhos; ou seus braços aterrorizantemente humanos.

Ao perceber que ele já estava próximo à base do monte descongelei. Peguei minha mochila no canto da caverna, coloquei-a nas costas e voltei à entrada da caverna, mas era tarde demais. O monstro já estava subindo a trilha que levava ao meu esconderijo, a minha caverna.

Tirei a mochila das costas e peguei algumas armas. Felizmente a mochila era mágica, qualquer coisa cabia ali dentro, nada era grande demais que não pudesse ser colocado nela. Observei sua sombra, aproximando-se cada vez mais, até cobrir-me por inteira. Levantei um arco, com as mãos trêmulas e atirei uma flecha em sua perna esquerda. Ela cravou-se ali, mas o monstro ignorou-a. Lancei outra, dessa vez contra seu braço e ele se livrou dela com um simples puxão, liberando uma leve corrente de icor dourado.

O monstro fez um rápido movimento com a espada, do qual me livrei facilmente, dando um passo para o lado e abaixando-me. Aproveitei aquele momento para largar o arco em algum lugar seguro, onde não poderia ser pisoteado, e empunhei a espada que estava presa às minhas costas. Golpeei sua perna e em troca recebi um forte tapa, que me jogou contra a parede.

Senti uma dor lancinante no ombro esquerdo, que havia se chocado durante o impacto. Também tinha quase certeza de que algumas costelas estavam quebradas. A criatura avançou e desferiu um golpe em meu braço direito, o qual segurava a espada, abrindo um talho profundo no mesmo. Sangue jorrava e minha visão começava a embaçar. Levantei-me, ofegando. Troquei a espada de braço, agora segurando-a com o esquerdo, e cravei-a em sua barriga. Ele arquejou e arrancou a minha espada de seu corpo. Atirou contra mim e, naquele momento de paralisia, fui atingida. Segurei a respiração enquanto a espada perfurava meu corpo. Meus pulmões falharam e perdi totalmente o ar. Caí no chão, contorcendo-me em busca de oxigênio. Senti a vida esvaindo-se do meu corpo, como uma chama, apagando-se. Fiquei imóvel e a última coisa que vi foram aqueles dentes tortos, amarelos e afiados, emoldurando um sorriso vitorioso no rosto de meu assassino.

***

Após alguns instantes, deixei meu corpo. Eu era só uma alma, sendo atraída para o desconhecido. Minha alma vagava, atravessando tudo o que havia pela frente. Viajava com incrível velocidade e logo já estava cruzando o Flegetonte novamente. Eu tinha consciência própria, mas não controlava meus atos. Meu corpo que agora era feito de névoa pulou para dentro do rio e foi levado pela correnteza. Como meu novo organismo não era sólido não recebi nenhuma queimadura, apesar de sentir um calor intenso. Depois de alguns segundos fui sugada pelo leito do rio e caí na escuridão.

***

Assim que meus olhos acostumam-se com a penumbra do local consigo identificar algumas características: o chão de mármore negro; as paredes de um tom cinzento; elos negros nos quatro cantos da sala, com escritas de uma língua antiga demais para ser compreendida entalhadas em sua madeira; e uma enorme estátua também negra no centro da sala, iluminada por um fantasmagórico brilho dourado. Reconheci a deusa ali representada: Deusa da escuridão, da Noite, Nyx.

Ao tocar o chão meu corpo ficou sólido novamente, o que liberou uma sensação estranha, como se eu fosse feita de gelatina.

As paredes começaram a emitir mais escuridão e logo a sala já estava novamente imersa em sombras. Meu coração acelerou eu sempre tive medo do escuro , minha respiração estava descompassada. Comecei a correr cegamente, mas bati contra uma parede. Caminhei para o lado, tateando qualquer coisa sólida que pudesse encontrar. Parei ao sentir minha mão deslizar por um buraco. Era um dos elos. Parei-me em frente a ele e atravessei-o. Uma rajada de vento tocou meu rosto e soprou meu cabelo. Infelizmente, era um corredor e também não possuía iluminação. Nesse ponto meus pés já tropeçavam em si mesmos, um dos sinais que antecedem o meu pânico. Continuo caminhando cegamente, aos tropeços, enquanto meu medo crescia. O corredor continuava e continuava...Parecia não ter fim. Minha mente começava a imaginar coisas horríveis, espreitando pelos cantos. Eu estava desarmada, não poderia nem me defender. Tudo o que eu queria era sair daquele lugar. Ouvi um barulho, mas achei que fosse imaginação. Caminhei mais um pouco e, de repente, a luz invadiu o local.

Dei mais um passo e meu pé escorregou. Olhei para baixo e vi um fosso. A água corria para baixo, produzindo um ruído. Ao meu lado havia uma escada que continuava muito acima de onde eu conseguia ver. Ela já estava um pouco deteriorada, mas era minha única chance. Comecei a subir e, por muito tempo, fiquei assim, subindo e subindo, até ver uma luz. Bem acima, havia um buraco. E assim, uma parte da profecia se cumpria.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Beijos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.