Ágata acorda e novamente está na cama, mas desta vez não se assusta pois sabe aonde está, levanta-se calmamente e ao olhar para a mesa, pode ver um prato com um pão de ló típico da época e um copo de suco aparentemente de laranja. Ela se senta na cama e ao apoiar os pés no chão para se levantar sente a dor do corte da perna, olha-o e vê que está enfaixado, mas ainda muito dolorido. Apoia-se em apenas uma perna e se levanta, com pequenos pulos alcança a cadeira da mesa.

Está com muita fome, sente seu corpo tremer, desnutrido, fraco. Começa a comer sem reverencia, poderia comer um javali inteiro se ali o encontra-se, toma o suco com gosto ate mesmo derramando um pouco ao canto da boca.

Enquanto come percebe passos vindos do andar de cima, então rapidamente coloca mais um pedaço do pão na boca e termina de tomar o suco, quando os passos descem as escadas ela limpa a boca e ajeita a mesa, é quando ela percebe que os livros já não estão mais desarrumados jogados em cima da mesa e sim empilhados ordenadamente por tamanho embaixo dela. Os passos chegam à porta que se abre revelando Merlin.

- Vejo que já tomou seu café. – Com um sorriso no rosto.

- Sim, estava ótimo.

- Ainda com fome? Posso pegar mais se quiser.

- Da ultima vez que saiu a meu pedido quase morreu. – Diz abaixando a cabeça mostrando arrependimento.

- Ei... – Se agacha próximo a ela. – Eu fiz por mim também, te mantive viva por muito tempo para deixar que um corte estrague tudo. Fiz uma vez e faria de novo sem pestanejar.

- Mas afinal, o que aconteceu? – Olhando para ele.

- Bom depois que você me salvou, eu acordei novo em folha e cheio de energia, quando percebi que o Shadow já estava dentro da casa acertei-o com uma bola fogo jogando-o pra fora e lá eu acabei com ele, quando retornei você estava desmaiada sem forças, então eu e Frank cuidamos de você.

- Obrigada. – Dando um sorriso tímido.

- Se não fosse por você eu não estaria aqui e a propósito, obrigado, não só por ter me salvado, mas por não ter desistido de mim mesmo com o perigo a frente.

- Você teria feito o mesmo. – Agora com um sorriso mais expressivo.

- Eu sabia que você era uma maga poderosa, mas executar uma magia de nível quatro quando no nível 1 de poder mágico realmente é de impressionar.

- Não fui tão bem assim, desmaiei logo em seguida e se não tivesse dado certo nós dois teríamos morrido.

- É, mas deu certo então que fiquemos felizes.

Frank entra pela porta com algumas roupas e bem alegre.

- Ora, ora, a donzela acordou. – Com um grande sorriso e aliviado. – Como está se sentindo?

- Estou bem.

- E o corte?

- Ainda dói, mas nada que não dê para suportar.

- Que bom. Trouxe, ou melhor, trouxemos novas roupas pra você, Merlin comentou que não gostou muito das que ele tinha lhe dado então fomos ao vilarejo na minha casa pegar algumas da minha esposa.

- Muita gentileza.

- Agora vamos Ágata, precisamos te treinar para recuperar suas forças e assim podermos colocar ordem na casa. – Diz Merlin levantando com um tom confiante de que iriam conseguir dar conta de escuridão.

Ágata consente com a cabeça e com a ajuda de Merlin eles saem do quarto em direção à escada e logo após à saída da casa. Frank fica para arrumar o local, ele ate entendia que Merlin tinha muitos afazeres e que cuidar de Ágata por todo esse tempo foi trabalhoso, mas não achava que isso era desculpa para não dar um jeitinho no quarto.

Ao sair da casa novamente Ágata se sente confortável com a aparência da floresta nesta parte, com alguns pássaros cantando e luz do sol agradável por entre as folhas das arvores, o solo fértil, o cheiro de terra, ar puro, mas logo é interrompida por Merlin.

- Bom já sabemos que você é de nível 1 porem tem potencial muito alto, então...

- Como que você vai me ensinar se nem mestre você teve? Alem do mais eu sou muito mais experiente, e tenho uma capacidade de poder mágico maior, tudo que você possa me mostrar eu já aprendi, já fiz e pratiquei ha muito tempo, não entendo qual seu papel no meu treinamento.

Merlin escuta atentamente as reclamações dela, mas não a interrompe.

- Pois muito bem, então eu vou sentar naquele tronco bem ali e vou somente observar você praticar. – Caminhando para o tranco olha para a posição do sol, próximo a uma da tarde.

Assim que chega, se senta apoiando uma perna no tronco e o braço na perna.

Ágata então começa a executar uma magia simples, uma bola de água, e isso ela consegue sem problemas, ela brinca com a bola um pouco mostrando para Merlin que sabe fazer, passa a bola sobre a cabeça, desliza entre os braços e a passa de uma mão para a outra pela frente e ate mesmo por traz, tudo isso com um sorriso no rosto, ela adora a magia, gosta de ter poder sobre ela, de poder moldar a matéria como queira, isso a satisfaz.

- Legal, já vi que sabe fazer magias bobas de nível 1 e isso não me interessa, Será que sabe fazer algo mais? – Merlin estala os dedos fazendo sair uma pequena faísca e em seguida abre a mão fazendo criar uma bola de fogo, depois ele atira em direção a Ágata que quase sem reação somente tenta se esconder atrás dos próprios braços. A bola de fogo acerta somente a de água da Ágata e a consome antes que apague sobrando o suficiente para chamuscar a ponta da sua franja. Ela fica furiosa mordendo os dentes.

- Ahh... qual é Ágata, você pode fazer melhor, todos sabem que fogo é apagado pela água, é da física isso, mas claro que temos questões de quantidade, certo? – Fala enquanto novamente estala os dedos criando mais uma bola e desta vez a coloca na ponta do dedo indicador apresentando um símbolo de arma com a mão enquanto olha para a chama e com sorriso sarcástico. – Então vamos, apague minhas chamas. – Cria mais uma na outra mão e se levanta.

- Não, Merlin, espere. – Dando passos para trás.

Merlin lança a primeira bola.

Ágata vendo que não tem jeito de conversar, junta os dedos das mãos tocando apenas as pontas, no meio gera uma bola de água e lança de encontro com a chama que vem na sua direção, ao se chocar mais um vez a chama consome a água e se espalha um pouco, se ela estivesse próxima talvez tivesse se queimado.

- Vamos, você pode fazer melhor que isso. – Lança a outra, e já prepara mais uma.

- Não, eu não quero. – Dessa vez com apenas uma mão ela fecha e quando abre uma bola se forma, então ela lança de encontro com a que vem em sua direção.

- Ainda está fraco, melhore isso. – Lança mais uma e cria duas nas mãos.

- Merlin pare com isso. – Coloca os braços pra trás e puxa pra frente novamente, em cada um das mãos se forma um bola e ela as lança consecutivamente. Durante o caminho a segunda alcança a primeira e se juntam formando assim uma maior que quando entram em contato com a de fogo imediatamente a apagam e continuam seu trajeto, mas não é suficiente para alcançar Merlin.

- Ahhh então você quer trapacear não é? Vamos ver como se sai. – Ele lança as duas quase que simultaneamente.

Ágata fecha os dois punhos e quando os abre se criam duas bolas maiores do que de costume por estar mais concentrada e as lança. Quando se chocam todas se anulam. Merlin deixa escapar um breve sorriso de canto e sussurra:

- Então vamos ver do que você é feita. – Com estalar de dedos ele vai criando a lançando varias bolas de fogo criando uma espécie de rede.

Ágata ao ver tamanha quantidade de fogo vindo para si, quase entra em pânico por não acreditar que realmente ele tenha feito isso, magia de isso tipo pode causar sérios danos mesmo que sendo magias de nível 1. Ela leva um segundo para raciocinar e se lembrar do seu mestre, sua palavras que ela na época não deu importância agora se faziam uteis.

“Ágata, não se apresse, um dia você terá muito poder, um dia você poderá dominar todos os elementos e criar muitas magias de poderes altíssimos, mas você irá acostuma com o poder, ele te acomoda não se deixe levar por ele, nenhuma grande magia seria tão grande se um dia ela não fosse uma simples bola de nível 1, sendo assim se você não puder com seu inimigo, se ele for mais forte, canse-o, faça-o gastar energias com magias poderosas pois você consegue desvias com pequenas magias e quando ele se cansar e só conseguir usar magias básicas você terá a vantagem por saber domina-las melhor que ele.”

Na época não deu atenção, pois estava com ânsia de chegar ao topo logo e que jamais voltaria ao níveis mais baixos, infelizmente ela se vê nessa posição, mas agradece por ter tido um mestre que a tivesse falado isso. Então aplicando esse conceito ela cria duas bolas de água e as lança ao mesmo tempo, mas separadas de forma paralela em uma distancia um pouco maior que um metro, quando os ataques estão próximo de se encontrar ela fecha os pulsos afasta-os um pouco e bate um contra o outro, as bolas de água rapidamente se chocam espalhando uma quantidade maior do que se somasse as partes individuais e ao mesmo tempo se espalhando no ar criando uma parede que impede uma parte do fogo que está vindo então ela se posiciona num local aonde não vai passar fogo e espera que o mesmo desapareça olhando fixamente para Merlin que dá um sorrisinho e fala:

- Então desvia disto. – Ele se inclina todo para trás se apoiando em apenas uma perna em posição de lance como se arremessa em jogos de baseball quando inclina o corpo por completo uma bola de fogo começa a se formar e cresce rapidamente ficando com um tamanho do seu dorso, ele faz força para arremessar como se fosse muito pesado por fim inclina o corpo totalmente para frente lançando a esfera de fogo.

Ágata então bate a palma das mãos e as afasta devagar criando uma pequena bola de água que vai aumentando conforme ela as afasta e chega a um tamanho em torno de meio metro de diâmetro, quando chega a esse tamanho ela aguarda a chegada da esfera de fogo, momentos antes da bola a encontrar ela gira a mão em envolta da grande bola de água deixando uma palma sobre e uma sob a bola, em seguida ela arremessa a bola girando o corpo dobrando um pouco os joelhos deixando numa altura media quando de costas e ao terminar o giro ficando de frente novamente já com os joelhos retos lançando assim a bola por abrir um pouco os braços, quando as duas estão próximas, Ágata ainda na mesma posição que havia arremessado a magia afasta ainda mais os braços e fica nas pontas dos pés, com isso a bola de água se abre e fica num formato de concha engolindo por completo o fogo sem nenhum esforço e segue por mais alguns metros em direção a Merlin, mas não o alcança se desfazendo no percurso.

Ágata, assim que a magia se desfaz ajoelha no chão quase sem forças e com os braços moles. Merlin vem correndo pra próximo dela.

- Está bem? – se agachando a frente dela.

- Sim, só estou meio zonza. – Diz colocando a mão na testa e vendo o mundo girar.

- Venha vamos entrar, temos muito para treinar e pouco tempo, mas está se saindo bem. – Coloca o braço dela no seu ombro e a levanta ajudando-a a ir para dentro de casa, se não fosse pela fraqueza acertaria o rosto dele por tentar matá-la.

Eles entram e vão a cozinha, Frank limpou a mesa, a pia e ate o encanamento trazendo água potável para a casa, quando eles entram o veem limpando o chão.

- Mas o que está fazendo? – Pergunta Merlin irritado.

- Ué, estou limpando essa sujeira, não sei como ficou aqui tanto tempo nessas condições.

- Não faça isso, as feras não nós encontram por achar que não há nada aqui, se verem que está limpo começará a chamar atenção.

- Não seja burro Merlin, essas criaturas não têm celebro, são animais sobre tudo, não saberiam a diferença, alem do mais é só a cozinha para podermos comer, o resto posso deixar do jeito que está, mas a cozinha para preparar algo e ate mesmo para bebermos água vai ficar limpa. – Fala enquanto expressa irritação e guarda a vasoura que havia trazido de casa em um canto.

- Eu concordo com ele Merlin, ainda não pude tomar um bom copo de água fresca, e ao menos o lugar para comer deve estar limpo. – Diz enquanto se senta na cadeira velha da mesa de mesma idade.

- Pegue minha filha, tome essa água, garanto que é limpa. – Pegando um copo e enchendo de água para ela.

- Está bem, que seja do seu jeito, mas se algo acontecer a culpa é de vocês.

- Pode deixar rapaz, o velho aqui já observou muito essas criaturas. Vejam vou preparar um javali assado para o jantar.

- Hunnnnnnn.... Já posso sentir o gosto, há muito não como um desses, realmente muito tempo. – rindo da própria piada.

- Como conseguiu caçar Frank?

- Ora rapaz, eu sou velho, mas não inútil, a idade chega e assim também a experiência, sei manusear um arco melhor que você eu aposto.

- Essa eu gostaria de ver.

- Amanha meu jovem, amanha. Hoje tenho que preparar um javali. – Se virando para a pia.

- Tá, ta bom... veremos amanha. – Com ar de deboche.

Algumas horas depois, Ágata está lendo um livro de magia do paradigma da agua, a cada página que lê se lembra que já o havia feito e que as magias ela já tinha executado centenas de vezes o que a deixa frustrada por ter todo aquele poder e agora não conseguir mais executar poucas magias antes de se esgotar, se lembra de muitas de suas aventuras em que passou por grandes perigos enfrentou a morte muitas vezes e na maioria tinha certeza que não conseguiria escapar, mesmo assim sempre dava um jeito de conseguir o que havia ido buscar, seja uma informação, um objeto, alguém, conhecimento etc... Mas isso foi outrora agora ela terá de passar por tudo de novo e isso a assusta, sabe que seu poder aumenta a cada dia e sabe que em pouco tempo já estará no nível 2 mas com certeza não será suficiente para derrotar as trevas que dominam a terra, ela precisa encontrar o outros anciões dos paradigmas, somente com todos juntos terão uma chance. Enquanto ela reflete, nas suas narinas vem o cheiro agradável do javali sendo assado, ahh que cheiro bom, seu estomago já começa a roncar e a boca encher de agua somente com o cheiro, com isso ela não consegue se concentrar mais na leitura e sobe ao andar de cima para ver se o jantar estava pronto, quando sai do alçapão olha pelas frechas da janela e vê o sol quase se pondo deve ser quase sete da noite, Merlin já arruma os pratos na mesa.

- Aonde está Merlin?

- Pedi para que ele encontrasse algumas frutas para fazer um suco, já que não temos vinho. – Diz Frank enquanto pega o javali e coloca no centro da mesa já pronto.

- Já está escurecendo, ele tem que voltar logo. – Fala enquanto olha pela janela da cozinha.

- Eu? – Diz Merlin entrando pela porta da sala.

- Ah Merlin, que bom que voltou. – Abrindo um sorriso.

- Ei Frank, eu não encontrei frutas... Ahh eu até achei... mas javali com suco de frutas não dá né? Então fui até o vilarejo e consegui essa garrafa de vinho alguns lampiões e velas que estamos sem.

- Ótimo, o jantar está próximo, sentem-se, não cozinho tanto quanto minha esposa mas aprendi muito durante esses anos sozinho.

Eles se sentam e começam a comer, não só estava com o cheiro ótimo mas com um gosto delicioso, eles conversam sobre a comida e sobre o tempo que Frank não tinha companhia à mesa assim como o Merlin. O tempo passa e escurece, percebendo que o sol não sol não se faz mais presente no céu deste lado do mundo Merlin se levanta e leva seu prato a pia.

- Frank, o jantar estava ótimo, a muito tempo não comia tão bem assim.

- Eu faço o que posso jovem, precisava fazer algo para os dois salvadores da minha vida. Quando Ágata quis enfrentar aqueles Shadows achei que estivesse tentando se matar, mas depois que vi ela executando aquelas magias mal pude crer nos meus olhos, uma maga ainda viva, só podia ser imaginação. Agora estou aqui jantando com dois magos legítimos.

- Nós agradecemos a você também Frank, pelo jantar. –Diz Ágata com um sorriso.

- Bom, agora que comemos, temos que apagar esse lampião e descer para o porão pois já escureceu e logo as criaturas estarão rondando por ai novamente.

- Sim, mas... Vamos dormir aonde? La embaixo só tem uma cama. – Pergunta Frank.

- Eu vou dormir na cama, vocês podem dar um jeitinho pra dormir no chão.

Merlin olha pra Frank que olha de volta, simultaneamente respondem que tudo bem. Eles descem e levam um lampião, apagando os outros, Merlin sendo o último a descer as escadas fecha o alçapão passando um trinco simples. Chegando ao “quarto” Ágata se surpreende com o aspecto do local.

- Meu Deus, Frank, cadê toda a poeira e a bagunça?

- Ah doce menina, minha esposa tinha o costume de manter as coisas sempre bem arrumadas, e eu acabei me acostumando também, dei uma ajeitada aqui para ficar mais confortável, afinal, não sei quanto tempo ficaremos por aqui.

- Como assim ficaremos? – Pergunta Merlin.

- Ora, não posso mais voltar a minha casa, se eu voltar estarei morto no próximo anoitecer, você não deixaria um velho homem quase indefeso morrer assim, ou ia?

- Não claro que não Frank, mas... Bem, então melhor que o quarto fique arrumado mesmo.

Merlin se ajeita debaixo da mesa afastando os livros que ali estavam um pouco para o lado oposto da porta, Ágata se deita na cama e se cobre com o único cobertor que encontrou e Frank se deitou aos pés da cama entre ela e a parede do fundo do cômodo. Merlin ficou acordado vigiando o silencio a maior parte da noite como sempre o fez lendo um dos livros de magia, desta vez o livro do vento, até que o sono foi mais forte e ele adormeceu.