A Guerra Dos Tronos: Ascenção
4 Caerys
O sol brilhava fortemente naquele continente de um modo que nunca sequer sonhava em brilhar por Westeros. Caerys percebera isso no dia em que chegara em Essos. Desde que os Manderly foram brutalmente derrotados, havia sumido de Westeros misteriosamente, roubando um navio dos Black para partir para Volantis. O calor lhe fazia bem, mas não aquele calor de mormaço que sentia ali. Era o calor da batalha, aquele característico calor que enfervece o sangue quando se penetra o coração de um homem com a lâmina. O calor de vê-lo caindo e de fazer com que as lendas que rezam rezem a verdade.
Reparara também nas construções do lugar. Eram tudo como se fossem ruínas. Havia uma pedra amarela que não sabia se era realmente pedra, terra seca ou areia dura. Estavam estendidas por todo lado, cilíndricas, redondas, grossas e finas. Sustentavam enormes palácios e pequenos barracos. As montanhas apenas davam vidas a pequenos vestígios de plantas amareladas e pequeninas.
Aquilo não era lugar para um homem como ele. Não se pode dizer sobre as ascendências de Caerys, pois nada se sabe sobre seus familiares. Após vencer sua primeira batalha, Caerys passou a ser conhecido apenas pelo seu primeiro nome, renegando seus familiares. Aqueles que sabiam hoje já não sabem. Mas fossem quem fossem, provavelmente tinham uma linhagem de moças e moços belos. Caerys era um homem dos cabelos finos, sedosos e negros. Seus olhos eram um azul escuro, quase como o alto mar. Tinha um corpo forte, resultado dos treinos infindáveis que realizava diariamente.
Além dos sete homens que lhe acompanhavam em toda batalha, Caerys seria um homem totalmente sozinho, não fosse seu irmão e sua mãe. Ambos haviam partido para Volantis com ele, embora seus sete companheiros houvessem ficado em Westeros. A mãe ele encontrara há pouco tempo, moça de cérebro fraco e corpo forte, tecelã talentosa. Tinha muito amor para dar, e seu filho era seu deus na terra. O irmão era uma criança ambiciosa, interessado em lutar tão bem quanto Caerys. Desde pequeno recebia lições dele, e já tinha um aprendizado muito grande. Treinavam todos os dias.
Inclusive naquele momento.
Caerys não se sentia numa batalha de verdade, mas não se podia dizer o mesmo de Varyn. Varyn tinha os cabelos como os dele, mas tinha uma face mais larga, e isso lhe fazia esboçar um sorriso tão largo quanto podia quando acertava um movimento e conseguia se defender dos golpes de Caerys. Usavam espadas de madeira. Varyn aprendera a dança dos pés enquanto lutava, e Caerys lhe cobrava essa lição com uma severidade fatal. Varyn já fora gravemente machucado. Caerys podia matar um homem, fosse mesmo com uma espada de água. Abaixavam-se e lutavam, e o som afinado da madeira cortando o vento podia ser ouvido pelos atentos ouvidos de Caerys. Varyn estava esperando por uma defesa quando empurrou seu corpo contra Caerys, com a ponta da espada apontada para sua barriga. Caerys nada fez senão dar um passo para trás fazendo-o errar. Não teria errado se não houvesse parado por dois segundos.
— Nunca hesite — Caerys soltou um sorriso amigável, levantando-se, pegando Varyn pelo braço e o arremessando à distância. Varyn ricocheteou com os pés numa das pedras amareladas e sumiu entre elas. Caerys tentou ouvir seus passos, mas o que ouviam eram trotes. Haviam cavalos por ali. Cerca de oitenta.
Varyn achara-o. Lutaram bravamente um contra o outro, os movimentos todos ensinados e decorados, as defesas perfeitamente sincronizadas e os ataques diferentes e exploradores. Varyn lhe prendeu a espada contra a parede e o olhou nos olhos, desafiador.
— Está nervoso, meu irmão? — e deu um sorriso galante.
Caerys soltou-se de seu golpe imobilizador e virou-se contra ele. Enquanto uma mão segurava a espada, a outra segurou o braço distraído do irmão e o empurrou contra uma parede, torcendo-o. A mão que empunhava a espada logo fez a espada cair das mãos de Varyn. A espada agora estava em seu pescoço, e o sorriso galante agora estava esboçado no rosto de Caerys.
— Não me vê tremendo? É claro que estou nervoso — zombou. Trocou a espada de mão e abaixou-se, permitindo que o irmão se livrasse e continuassem o treinamento.
O irmão libertou-se e tentou chutar-lhe os pés para derrubá-lo, mas Caerys pulou. Dançaram por mais algum tempo, e Varyn, entre um e outro golpe começou a questionar Caerys.
— Disse-me para não trocar a espada de mão — e desviou.
— Quando você souber usar a espada não precisará obedecer minhas ordens — prendeu a espada de Varyn e a chutou para longe com facilidade.
Deixou Varyn ao chão, rindo de sua própria derrota e foi até os equipamentos que deixara ao chão. Entre eles, uma enorme lança negra. Arremessou-a com força para onde já sabia que os cavalos vinham, a lança penetrou uma árvore, e Daeron Sandfield assustou-se, mas soltou uma gargalhada. Era um comportamento característico de Caerys.
Os cavalos de Daeron Sandfield vinham em cerca de setenta, diferente do que Caerys havia presumido. Daeron tinha seus cabelos negros cobertos pelo elmo que carregava os dois cães negros, um de cada lado, o estandarte da Casa Sandfield. Sua pele amarronzada coberta pelo avantajado cavanhaque. Assim que Daeron desceu de seu cavalo com um salto, Caerys foi até ele, com um sorriso no rosto. Perguntava-se como descobrira que estava em Volantis.
— A reputação de Caerys no que faz respeito a hospitalidade está virando uma lenda — Daeron puxou a lança da árvore e a jogou de volta à Caerys. Logo em seguida retirou seu elmo e o segurou na cintura, e soltou uma risada.
Caerys foi em direção a ele e empurrou Varyn para Daeron, que o amparou o irmão de Caerys com um aperto de mão, então lhe olhou nos olhos.
— Varyn, meu irmão — apresentou-o e o libertou de suas mãos, empurrando-o para o lado. Apresentou um sorriso para o velho amigo. — Daeron, Senhor de Sunsethall.
Daeron retribuiu o sorriso de Caerys e olhou para Varyn, apoiando uma mão sobre o ombro do irmão do guerreiro. Agora seu sorriso era dele.
— Varyn. Eu conheci o seu pai. Sinto falta dele — tentou não incomodar Caerys com aquilo, mas sabia que embora Caerys estivesse satisfeito com sua independência, Varyn poderia sentir falta de seus pais. Varyn assentiu silenciosamente, o sorriso quebrado mas ainda em sua boca. Voltou a olhar para Caerys. — Agora é esse aqui que toma conta de você, é? Treinando com o grande Caerys... — uma breve pausa fez um sorriso bajulador tomar conta. — Reis matariam por essa honra.
— Você está aqui a pedido de Ortos? — Caerys pretendia não levar aquela conversa muito longe antes de revelar seus verdadeiros princípios.
Daeron afagou seus bigodes e olhou para Caerys, e em seguida para Varyn.
— Precisamos conversar.
Caerys olhou Varyn e ele entendeu. Por um momento não pretendeu sair de lá, mas logo em seguida seguiu Daeron, somente para explicá-lo que não tinha nenhuma intenção de voltar a lutar pelos Black. Segurava sua espada de madeira, e Varyn se afastou.
— Não vou lutar por ele — Caerys deixou claro.
— Ah, Caerys — Daeron suspirou e soltou uma risada. — Não estou pedindo que lute por Ortos Black. Peço-lhe que lute pelo Norte e pela honra das terras onde nasceu.
— Por quê? — Caerys e Daeron pararam, olhando uns aos outros. — Os nortenhos cansaram de lutar uns contra os outros? — Varyn ouviu e soltou uma risada de orgulho.
— Por agora, sim — Daeron assentiu, dando uma risada da piada. — Agora que Ned Stark fora condenado por traição, o Norte precisa ser forte.
— Os sulistas nunca me fizeram mal, Daeron.
— Insultaram o Norte.
— Insultaram um nortenho — corrigiu, transformando o semblante piadista para sério e explicativo. — Um homem que não conseguiu segurar a sua esposa. Não vejo de que modo isso poderia ser um problema meu.
— Meu grande amigo — Daeron pediu silenciosamente a atenção de Caerys, que lhe deu. — O seu problema é a guerra.
— É? O homem não tem honra. Lutei ao lado de Artos Black, e assim que os boatos chegaram a Volantis, fiquei alegre em saber o que lhe aconteceu. É um estuprador, luta baixo.
— Então que Caerys lute pela honra e Ortos Black lute pelo poder — enquanto Daeron falava, Varyn tentou surpreender Caerys com um grito de guerra que defendia os nortistas e pulou em cima dele. Caerys defendeu-se e empurrou Varyn. Com um sorriso, Daeron continuou. — Que os Outros levem Ortos Black. Lute por mim, amigo! Minha esposa se sentirá melhor sabendo que você está lutando ao meu lado. Eu me sentirei melhor — avançou, dando uma risada enquanto Varyn e Caerys voltavam a batalhar com suas espadas de madeira. Mais uma vez, Caerys derrotou Varyn, e Daeron voltou a falar. — Ortos Black vai enviar a maior frota que já cruzou o mar. Mil navios, temos o apoio de Balon Greyjoy.
— Os Velaryon estão ao lado dos Blackwood. Lorde Monterys é um tão bom guerreiro como dizem? — perguntou Varyn, jogando sua espada ao chão.
— É o melhor dos sulistas, embora sua fama esteja ligada também às lâminas de Maz Trant, Sor Hugo Flint e seu herdeiro, Morrec Velaryon. Alguns dizem que o exército dos Velaryon poderia derrubar Poleiro do Corvo, ainda que Caerys estivesse lá — Caerys levou o cantil à boca. Sabia que aquilo era mais um dos truques persuasivos de Daeron. Conhecia o homem. Lutara com ele em diversas guerras, e nunca mostrara afinidade em amizade como mostrara por Daeron Sandfield. Caerys deu uma risada. — Ainda que seu irmão não parta conosco, espero que una-se a nós, Varyn. Faríamos bom uso de um braço forte como o seu — e bateu nos braços de Varyn.
— Jogue seus truques de víbora em mim — disse, com uma risada. — Não no meu irmão.
— Você tem sua espada, eu tenho os meus truques de víbora. Nós brincamos com os brinquedinhos que os deuses nos deram, Caerys — e sorriu. — Nós partimos para Árvore da Lua em três dias. Essa guerra não será esquecida, muito menos os homens que lutaram nela.
Então Daeron partiu, e com ele partiu toda a certeza que Caerys tinha de querer ficar isolado em Essos.
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