A Guerra Do Nosso Amor
1 Deus e sanduíches
- Prometa que vai largar Willian.
- Mas Dayse, eu...
- Prometa que vai largar o maldito exército, deixará o cabelo crescer ao menos um pouco e vai me dar um filho.
Deitados na cama, sonolentos e ainda com as roupas pesadas do dia a dia, Willian tinha sua mulher ruiva e mandona deitada em seu peito, como sempre, reclamando. Porém, após longas batalhas defendendo seu país, vendo a morte tocar sua alma e sair sorrateiramente avisando que vai voltar, o monólogo cansativo de Dayse não o incomodava ao contrário, o fazia rir.
- Do que está rindo bobão?
Dayse não sabia, mas a cara de brava que ela fazia, a ele, mais parecia à face de um anjo. Podem achar que estou exagerando e colocando açúcar demais, mas acreditem, uma guerra não é uma simples luta de escola onde o mais forte vence e o mais fraco sai sangrando. Uma guerra é ver seus amigos de longa data terem suas cabeças pisoteadas por cavalos inimigos e não ter a oportunidade de enterrá-los, ou pior, de derramar um vestígio de lágrima, e sabes porque?
Pois enquanto um chora, outro é esfaqueado pelas costas com uma faca simples, daquelas que você no conforto de sua casa usa para cortar uma fatia grossa de queijo. Outro, morre de frio e fome, enquanto pegas o pão no armário branco e de marfim da cozinha e por último, o soldado amigo, que deixava lágrimas escorrerem em sua face apenas para Deus e o Diabo ver, deixa a vida por um motivo patético como intoxicação alimentar, causada pelos vários presuntos e derivados que comeu e estavam vencidos. Pão, queijo e presunto... Temos um sanduíche. Morte, doença e tristeza... Temos uma guerra.
— Tudo bem ruivinha, farei todas as suas vontades se eu conseguir permanecer vivo.
Diferente da faca que corta e alguns segundos depois a dor e o sangue aparecem, as palavras tem um efeito instantâneo e imensuravelmente mais cortante. William não sabia que para Dayse, bastava seu silêncio, seu cheiro, seus cabelos ( ou a falta deles), seus olhos gentis, seus braços fortes e cheios de cicatrizes, sua postura torta por conta de duas costelas quebradas e, mal cuidadas pela falta de tempo, e é claro, seu sorriso alvo e desconcertante. Ele, esperto em estratégias de batalha, mas completamente inocente quando trata-se de sentimento e de feri-los, não sabia que divagar sobre a ideia de morrer em meio a guerra, para Dayse, era como uma facada empunhada bem no coração.
- Seu idiota! Como ousa dizer isso!
Os olhos dela já transbordavam e suas mãos já não podiam se controlar e tremiam como mendigos nas frias noites de inverno. Ela segurou forte na jaqueta dele jaqueta, sentindo-se o presidente da república, ou mesmo um capitão das forças armadas. Olhou fundo nas orbes azuis de seu marido e disse com toda a hesitante certeza do mundo.
- Você não vai morrer Willian. Você vai voltar ao seu posto, chutar a bunda de todos aqueles soldados inúteis, ir ao campo de batalha e trazer a cabeça do desgraçado do Hitler pra mim, ok?
Não, isso realmente não seria possível, afinal o Führer alemão, vivia cercado por exércitos, além de não parar em um lugar só por muito tempo, afinal estávamos em plena 2ª Guerra Mundial. Sim, os livros de história vão lhe dizer que ela foi causada pelo maldito corredor polonês, mas convenhamos, um território, e APENAS ESTE (Vale também para conflitos na Idade Média), não causa uma guerra. È necessário vontade por parte dos países influentes, pois como dizia Malthus, `` È necessário a guerra, para controle populacional ´´, vontade por parte da população, como a alemã instigada por um austríaco bigodudo a se vingar e fé, muita fé.
Eu não sei se Deus existe ou não e cá entre nós, acho que é normal ter essas dúvidas, mas uma coisa é certa, se não houvesse ele, não haveria guerras e sim coisa bem pior. Imagine um mundo sem religião e crenças em seres superiores e se tu imaginaste algo bonito e esclarecido, me desculpe, mas é hora de acordar. As pessoas não teriam motivos para não cometer o mal e então, viveríamos em guerra, e a guerra, seria o cotidiano, e é por isso que rezo a Deus todos os dias, pois ele existindo ou não, faz com que minha família durma mais uma noite ao lado de Morfeu.
Willian beijou suavemente os braços de sua amada, que já tinha o largado e parara de tremer. Passou a mão em seus cabelos, agora bagunçados pela agitação momentânea e então, pós um suspiro, falou.
- Não lhe garanto a cabeça dele, mas quem sabe um Mussolini?
Os dois riram. Riram como se fossem morrer amanhã.
- Pode ser este crápula sim Will.
- Ótimo, então vamos dormir.
E os dois dormiram como se a guerra tivesse, pelo menos na Inglaterra, casa dos dois, parado momentaneamente. Dormiram, como se as preocupações em viver, morrer, chorar, ter filhos, deixar o cabelo crescer e fazer sanduíches tivessem sumido. Dormiram, para que tudo aquilo fosse apenas um sonho. Não dos bons, mas não dos piores. Apenas mais um sonho.
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