A Guerra Divina

1 Sonny - Introdução


Notas iniciais
- Em um dado momento, Sonny insulta um adversário chamando-o de Varg Vikernes. Varg, para quem não sabe, é o vocalista e fundador da banda de Black Metal Burzum. Ele é (ou era) assumidamente satanista, queimava igrejas e foi preso após matar seu amigo e ex-companheiro de banda (do Mayhem) Euronymous a facadas;

- O flashback se passa no Rio de Janeiro. Mais sobre a história antes da conversão vai ser abordada futuramente.

- Os nomes da deusa Kalyah é uma adaptação/estilização de Kali, uma esposa do deus hindu Vishnu. Kali é uma guerreira que carrega um colar de crânios ao redor do pescoço e possui múltiplos braços. Ela devora homens e é considerada até como um demônio por alguns. Por essa imagem forte, eu quis associar Kali à deusa da guerra, de alguma forma. "Kalyah", também, tem uma estética de nome afro-americano (mais usado nos EUA, já que aqui os negros foram praticamente renomeados pela tradição católica do batismo). A pronúncia da palavra também me lembra um episódio da antiga série "O Clube do terror" em que uma cabeça encolhida (uma tsantsa da tribo dos Shuara) era possuída por um espírito e voava, com os olhos brilhando, gritando "calía", que era, de alguma forma, um feitiço.

- Honan veio de um nome que eu sempre achei muito bonito, Ronan. Ronan, porém, significa "pequena foca" e eu não achei que escrito com R pudesse cair muito bem, tanto esteticamente quanto sonoramente (graças à mudança da pronúncia padrão do r em línguas diferentes). Honan é, curiosamente, o nome de uma região no centro da China onde a indústria têxtil é bastante forte. Separadamente, o nome chinês Ho (sobrenome, leitura cantonesa do mandarim He) é bem comum na China, podendo significar carregar (ou arcar), como, porquê (e variantes), como, o quê e qual. Nan significa sul. Eu pensei em botar algo como norte-sul em chinês, mas achei que "Beinan" ia ficar feio. Deixarei o Bei (ou Bak) pra um uso futuro.

- O padrão das listras que cobre o ponho de Sonny e as imagens deles eu deixo para um futuro capítulo. Mas para imaginar a aparência do rosto do protagonista, fica aqui uma imagem MAIS OU MENOS de como é (embora eu veja ele com o rosto um pouco mais quadrado e com cabelo): http://img.spokeo.com/public/900-600/waylon_reavis_2012_04_17.jpg

- E se alguém aí luta e/ou gosta de artes marciais e tiver curiosidade: Sonny é o representante do estilo Shaolin do Norte da história. Ray Preach luta Sanda e o amigo dele, que vai salvá-lo, luta Suai. Eu ainda não pensei em um nome pra ele, mas ele vai aparecer no capítulo que vem, então, é.

Chovia na cidade de Chicago. Era uma tarde de domingo e a Rua Wabash Ave estava quase vazia. A movimentação que havia a alguns minutos ali sumira, todos fugiram quando a parede de um armazém da rua foi quebrada de forma abrupta. A causa do estrago, que esteticamente se assimilava à de uma bola de demolição, foi a projeção de um homem contra a parede. A violência foi tamanha que a parede quebrou e o homem que caiu dentro do estabelecimento ainda quebrou algumas caixas antes de aterrissar no chão. O fato de ele não ter morrido teria sido surpreendente para qualquer outra pessoa que o estivesse vendo ali, deitado. Uma pena, porém, que todos fugiram. Apenas o seu algoz, o homem que o arremessou na parede, estava lá pra vê-lo, caçá-lo e intimidá-lo.

Na cabeça de Sonny Engels, aquele que fora jogado armazém adentro, só há um grande desejo: O fim. O fim dessa luta e o fim de toda a história que o levou até ali. Nem que o fim seja só pra ele. Junto com esse desejo, mil pensamentos e a amargura de que nada vai ser tão fácil quanto ele desejaria.

Chega a ser engraçado estar aqui, caído, jogado no meio dessas caixas. Triste, também, mas engraçado. Pra quem semana passada estava desejando fortemente um Xbox One, quebrar vários deles com o corpo não é uma idéia agradável, né? Hahahaha. Se alguém pudesse ouvir a minha história, o que eu tenho pra dizer, o que eu tenho a pensar, talvez, então, eu não estivesse tão triste. Talvez eu estivesse mais animado. Eu nunca esperei, por exemplo, me encontrar aqui, em pleno domingão, lutando contra um homem que eu não conheço por um fim que eu sequer compreendo direito. Eu, que nunca servi as forças armadas, posso dizer que entendo perfeitamente os soldados conscritos. Eu não escolhi a guerra. A guerra que me escolheu... E eu sequer tenho a chance de morrer pra acabar com esse tormento. Eu não posso morrer nem que eu queira. Não sou eu que decido mais sobre isso. Que inferno! É. Essa é a palavra. E pra melhorar ainda mais, as lembranças passam na minha cabeça como um filme. Eu nunca pensei em ser um grande guerreiro em uma guerra mística. Quer dizer, quando criança sim. Isso é bem legal em histórias em quadrinhos, mas aqui, no mundo real?

Tudo teve início em Setembro, setembro de 2015. Eu era apenas um jovem escrivão em um cartório e voltava do trabalho quando, de repente, vi uma gangue espancar um padre em um beco. Tamanha vergonha, jamais havia presenciado. Eu, que nem sou católico, não poderia ficar parado. Corri em socorro do sacerdote e fui brutalmente batido também. Apesar de ter treinado anos de Kung Fu, até as técnicas mais perigosas pareciam falhar. Golpes baixos, no testículo, olho e garganta pareciam não ter metade do efeito esperado e sempre eram seguidos de uma reação violenta. O que me salvou esse dia foi que minha intervenção ganhou tempo pro padre, que sentou e rezou. Sim, rezou. Como isso me salvou, eu só vim entender bem depois. Mas a reza dele resultou num clarão emanado do rosário que ele segurava. Clarão esse que cegou e enfraqueceu a gangue, praticamente paralisando-os. Era minha chance. Com o pouco de energia que faltava, avancei sobre todos eles e nocauteei-os, para poder, então, sair correndo juntamente com o padre.

– Você, meu filho... Você é cristão? – Indagou o padre, quando já estávamos escondidos na paróquia.

– Não, senhor. – Respondi. – Eu acredito em alguma coisa, mas não defini o quê. Só que definitivamente não sou cristão.

– Eu entendo... Bem, muito obrigado por ter me salvado. – concluiu antes de se recolher para os aposentos que lhe guardavam ao fundo da paróquia.

– ESPERE! – Clamei – O senhor pode me explicar o que foi aquilo, pelo menos? Por que aqueles caras estavam atrás do senhor?

– É, bem... Talvez eu lhe deva alguma explicação. Mas não sei se é apropriado. Veja bem, você não compartilha da minha fé e os mistérios da fé só se revelam aos escolhidos, os que vivem a fé. Mas, em resumo, eu sou padre e eles, demônios. Por isso que você não conseguia vencê-los. Somente a reza a Deus, pai todo-poderoso, que julga os vivos e mortos, que deu seu filho em sacrifício, pode detê-los. E foi assim que eu retribuí o favor em me salvar. Agora, eu preciso me recolher. Fique à vontade na igreja, quando se sentir melhor pode ir pra casa. – terminou, entrando. Mas logo em seguida voltou com uma caixinha na mão – Aqui tem alguns algodões, gazes, antisséptico e pomadas. Ande por onde quiser, mas não entre aqui dentro. Boa tarde, filho. – E partiu.

Agradeci, me limpei rápido e rápido fui embora. Não havia motivo pra continuar na igreja àquele ponto. As palavras daquele padre, sobre demônios e preces, me balançaram, mas não o suficiente pra me converter ou, ao menos, convencer. Em um ponto, porém, ele tinha razão: Só depois daquele clarão eu consegui vencê-los. Foi apenas quando cheguei em casa, que eu percebi a merda que tinha feito na minha vida.

Assim que cheguei, vi a porta arrombada, o apartamento estava destruído, virado do avesso. Para completar, um apagão acabara de acontecer e estava um perfeito breu. Quis gritar por Bella, minha colega de apartamento, mas tive medo que mais alguém estivesse ali. Um grande barulho poderia atrair os ladrões facilmente pra mim, que era um alvo fixo. Resolvi ir andando. Tirei o sapato antes de entrar e fui tateando minha caminhada pelos cômodos, passando pela sala e seguindo direto para o quarto da minha amiga. Estava tudo inteiro, apesar da porta quebrada, ele parecia intacto. Aquilo me atiçou a curiosidade, demais até, pra perceber que algo se mexia atrás de mim. Quando finalmente senti, virei e fui recebido com uma forte pancada no rosto, que me jogou no chão, mas não forte o suficiente pra me apagar.

Eu nem quis acreditar, quando vi. Quem havia me atacado era Bella, mas não era. Eu a via ali, na minha frente, punhos cerrados, olhos fixos, tomados pela raiva. Pensei em drogas, mas ela nunca foi de se drogar. Concluí que haviam drogado-a. Se a drogaram, com certeza ainda estavam por ali e eu precisava cuidar deles antes que ela cuidasse de mim. Sem dar chance para um segundo ataque, levantei o mais rápido que pude, desviei do campo de alcance e saí correndo em direção ao meu quarto, onde poderia pegar minha arma e minhas algemas, resquícios do tempo como policial civil, e montar uma estratégia de contra-ataque.

Assim que abri a porta, que estava fechada, logo vi meu quarto destruído. Mas como poderia estar revirado assim se a porta estava trancada? Joguei-me, sem pensar muito nessa dúvida, em direção ao criado-mudo onde guardava as ferramentas. Quebrei a tranca da gaveta, achei as algemas, mas a caixa estava vazia.

– Procurando por isto, Sr. Engels? – perguntou um homem estranho, de manto preto com uma marca peculiar impressa nele.

– Quem é você? O que quer? – Indaguei raivoso, enquanto estava parado, no chão, rendido pelo fato de que a minha única defesa contra ele, no momento, estava em poder dele mesmo.

– O que eu quero? Ora... Não vê meu manto? Tem certeza que não reconhece esse símbolo? – O símbolo, lembrei, era o mesmo da jaqueta da gangue. Mas como poderia saber? Não fazia sequer uma hora e meia da briga e ele já havia destruído toda a minha casa? Isso me assustou, mas não podia fazer muito mais.

– Então você quer vingança? – Indaguei – É isso mesmo? Se for, sinta-se à vontade... Mas, por favor, deixe a Bella fora dessa história.

– Não... Não, não, Sonny. Eu não quero vingança! – disse, amassando minha arma com apenas uma mão – Eu quero devoção!

Com esse último grito, a voz dele havia mudado. De um timbre limpo de baixo, passou a um som gutural como um urso. Seus longos cabelos negros pareciam levantar e seus olhos brilhavam um mesclo de amarelo rodeado por um vermelho que provavelmente viria do sangue de seus olhos.

– Você é bom, Sonny Engels! Eu quero a sua alma, a sua vida, como peguei de sua amiga! Você vai se curvar pra mim agora! Vai obedecer meus comandos e me ajudar a tomar a terra! E o mundo conhecerá a verdade e a dor de Be...

Ele não terminou a frase. Com a arma destruída, eu perdi o medo. Peguei o primeiro caco de vidro que vi e avancei sobre o pescoço dele, encurralando-o na parede.

– Escuta aqui, ô, Varg Vikernes! Eu não sei quem você é nem quem te deu essa piração de que eu iria servir alguém que não fosse eu mesmo. Mas meu senso de justiça NUNCA vai me permitir render pra alguém tão imbecil, tão insignificante e, principalmente, tão inescrupuloso. Você vai morrer aqui e quem mais estiver do teu lado e eu vou achar um jeito de curar a minha amiga dessa fossa em que você a jogou!

Eu estava bufando. Rasguei a garganta dele e saí do quarto com algemas em mãos pra prender a Bella. Como se já não tivesse surpresas o bastante para o dia, ela não estava mais sozinha. Acompanhada de mais quatro, todos me cercavam, mantendo no rosto a mesma expressão do homem que eu havia acabado de matar.

– Eu não sou um – diziam em uníssono – Eu sou nós! E nós somos Legião!

– É, eu ouvi isso na catequese também...

Meu espírito pobre e perdido jamais me permitiria ver, mas eles estavam verdadeiramente possuídos por algum demônio. Todos estavam ali prontos pra me matar às ordens e eu pensei que fosse acontecer exatamente isso quando o mesmo homem que eu rasguei o pescoço levantou e me agarrou por trás. Foi quando, mais uma vez, se instalou um clarão na sala e eu fiquei cego.

Quando consegui enxergar, haviam duas novas pessoas na minha sala. Um homem, branco a um nível pálido, careca, que trajava um meio-termo entre uma toga e uma roupa de monge shaolin, e uma mulher, negra, alta, que vestia uma armadura de ferro sobre o peito, os ombros, os braços e as pernas. Ambos carregavam objetos bem específicos. A mulher carregava uma espada larga e longa, de formato similar a uma cimitarra, na cintura. O homem, por sua vez, carregava uma haste arqueada, nas pontas da qual se instalavam dois baldes. Por um dado momento, o homem deixou os baldes no chão e me estendeu a mão. Eu nunca vou entender por que eu simplesmente dei, mas confiei o suficiente para estender a minha de volta. Enquanto ele apertava minha mão, a moça tirava Bella do chão e mais um clarão veio para me tirar a visão.

Quando consegui enxergar novamente, eu não estava mais no meu apartamento. O lugar parecia ser branco, cheio de uma fumaça que era mais similar a como vemos as nuvens no céu. Essas tais nuvens é que, na verdade, ditavam a cor do ambiente e elas sempre alternavam em tons similares de branco (como mármore), mas conseguia chegar a tons absurdamente destoantes da maioria, como cinza escuro, marrom, escarlate e até mesmo preto.

– Sonny – escutei uma voz branda me chamar. Era o homem que me salvou.

– Eu... – respondi, atônito

– Eu sou Honan. Você deve estar se perguntando muitas coisas, mas eu vou esclarecer pra você tudo. Antes de mais nada: Você tem alguma religião?

– De novo? Mais um pregador? Não, eu não tenho. Nunca tive.

– Entendo. Mas você acredita em deus?

– De que isso importa? Que pergunta escrota. Eu quase morri duas vezes e todas as vezes que eu consigo sair, a pessoa que me salva pergunta. Eu devo acreditar, sei lá. Mas não como as religiões pregam. Não me contento. Vivo sem uma religião, mas não creio que ele não existe ou descreio que ele existe. Aliás, nem creio que seja ele. Pode ser ela, sei lá, foda-se.

– Sonny... Deus existe.

– Ah é? Como pode afirmar com tanta certeza?

– Eu sou Deus.

Fiquei irado:

– DEUS? O grande senhor de todo o universo que deu seu filho imolado na cruz? O grande que deu a Noé uma arca? Ele não chama Jeová? Você? Sei lá. O mesmo que diz que é benevolente e deixa crianças morrendo de fome?

– Não, não esse deus. Eu sou Honan. Sou o deus da harmonia, da vida e da morte. Eu sou o deus da prosperidade, da perseverança, da luta, da luz e das trevas.

– É sério, é? Eu nunca ouvi falar de ti. Que religião tu fazes parte? Qual teu mito, teu folclore? Qual tribo te propaga?

– Nenhuma, jovem afobado. Eu sou um novo deus, o líder da liga dos deuses neonatos.

– Neonatos?

– Sim. Nascemos da necessidade e da evolução humana. Da transformação de essências, de pensamentos, da mudança constante à qual sua raça passa.

– Então a cada, digamos, geração, nasce um deus novo?

– Não exatamente. A cada grande acontecimento e consciência um deus toma forma. Os deuses, nós, sempre existimos. Afinal, nós somos a existência. Mas tomamos forma de acordo com o despertar de uma consciência. Afinal, vocês humanos ainda são limitados demais. Não fossem tantas limitações, não seriam humanos, seriam deuses.

– Como assim, Honan?

– Nós somos uma essência, Engels. Tudo que você vê aqui é fruto da forma que a sua consciência pode conceber da minha essência...

– Exatamente! – exclamou a mulher negra, que estava junto de Honan – O que você vê é apenas a forma de percepção que a sua mente consegue processar. Existe muito mais em nós do que você vê. No seu mundo também. As cores e formas que você percebe ainda não são nada. Mas em gerações talvez os humanos vejam.

– Sim. Apenas talvez, Kalyah. – Lamentou Honan. – Ah sim, Sonny. Essa é Kalyah, a deusa...

– Da guerra, da morte, do orgulho, da força, da voz, da dignidade, do respeito, da liberdade, das artes e da poesia. – completou a deusa.

– Um pouco contraditório ser deusa da dignidade, da guerra, da liberdade, das artes e da poesia, não?

– Nem toda guerra é travada com ferro e fogo, Sonny. Nem muito menos por ódio. Por que você acha que me vê como me vê, se a minha forma é apenas fruto de uma percepção coletiva?

– Uma mulher, negra...

– Exato! – cortou Honan – Mas não temos tempo para filosofia agora. Sonny, eu estou te convocando a me ajudar. Uma guerra se instalou na Terra, pessoas vão morrer e pode ser até mais do que o esperado. Nós precisamos de um representante e precisamos buscar aliados. Como a guerra é sobre uma atitude humana, de nada adianta eu buscar os outros deuses aqui. Javé está guardado em seu Éden, protegido pelos anjos, escalar a guerra para o nível astral é a última coisa que queremos. O que você viu com o padre, hoje, é apenas uma amostra do que ainda está por vir. Mas antes, eu preciso que você voe aos Est...

– Espera aí! Por que eu?! Por que não outra pessoa?! Um soldado? Por que vocês mesmos não vão, como fizeram antes?

– Porque a guerra é humana, Sonny. E nós já nos arriscamos muito entrando no seu mundo. – disse Kalyah – Nenhum deus pode interferir diretamente no mundo terreno.

– E é por isso que precisamos de você. Seja nosso representante. Seu equilíbrio e senso de justiça, sua capacidade de pensar em uma boa estratégia e sua habilidade em artes marciais serão cruciais. Nenhum de nós quer mais pessoas mortas. Alguns buscam novos aliados. Outros, novos servos. Eu quero você como aliado, Sonny. Seja meu avatar. Represente o equilíbrio na terra.

– E enfrentar aqueles demônios novamente? E a Bella?

– Estamos cuidando dela – garantiu Kalyah – Deixe que dela nós cuidamos.

– Para essa luta, você terá a nossa proteção. A minha, especialmente. Eu vou cuidar dos teus passos e não vou te deixar morrer. Apenas quero que você repita, em voz alta, o que lhe digo agora, assim que acordar em seu quarto.

– E o que é? – indaguei, logo antes de acordar no meu quarto.

O apartamento estava inteiro novamente. Apenas minha arma estava quebrada, praticamente derretida. Tinha encarado tudo como um sonho a princípio, mas o pedaço do manto de um dos agressores no chão avisou que eu, agora, estava comprometido com uma missão que nem compreendia. Só precisava selar o compromisso. Com os olhos fechados, bradei:

– Em belielik Ais taakirgen! Maas kwann tan sie Honan Dhe-os kwan!

“O que foi isso?” eu me perguntava. Mas minha mente compreendia, como se estivesse escrito no ar. “Eu lutarei na guerra. Meus punhos serão os de Honan”.

Depois disso, eu só esperava não precisar mais falar nenhuma língua estranha – ou inexistente — , mas não foi bem assim. Logo no dia seguinte, fui demitido do meu emprego sem razão aparente, com uma multa bastante gorda pela rescisão do contrato. Em casa, um panfleto sobre viagens aos estados unidos me esperava, junto com uma pequena mensagem divina que me mandava ir pra Chicago. Bom, pelo menos era inglês, apesar de eu falar melhor alemão, graças ao meu pai.

E foi com essa mensagem que eu peguei minhas coisas e parti para Chicago, em Illinóis, para caçar um homem chamado Raymond “Ray” Preach, um, ironicamente, cético que enlouqueceu ao presenciar uma ação de demônios, seguido de um verdadeiro exorcismo. Ele, que sempre foi do “só acredito vendo”, mas que nunca esperou que fosse ver algo se encontrou tomado por múltiplos demônios e, implorando salvação a qualquer coisa que pudesse tirá-lo dessa, acabou sendo tomado por Loki, o deus nórdico da loucura e do caos.


Chovia muito. A aproximação eminente do algoz não assustava Sonny, de forma alguma. Sabia que, de qualquer forma, ele iria lutar até alguém se render ou algum milagre teria que acontecer parar que a luta parasse. Então resolveu levantar. Limpou a sujeira da roupa e, finalmente tirou o terno que vestia, além de ter afrouxado a gravata. Não precisava daquilo, de verdade, mas era simbólico. A briga começava, de verdade, ali, naquela hora.


Ray Preach, o então inimigo de Engels, sorrira ao ver a determinação de Sonny:
– Gosto de ver essa tua coragem, Sonny. Uma pena, porém, que ela será em vão. – clamou, antes de partir para o ataque.

A peleja foi breve, mas violenta. Os primeiros socos de Ray foram fenomenalmente desviados, até que um quarto acertou Sonny no rosto, embora não tenha sido forte o suficiente para derrubá-lo, fazendo com que Engels reagisse logo de imediato com uma forte sequência de chutes, os quais todos acertaram algum ponto. O primeiro, chute baixo, desequilibrou o americano ao acertá-lo na coxa, fazendo-o cair com um joelho no chão. Logo em seguida, veio uma pisada no joelho que estava pra cima, seguido de um frontal no rosto.
Pronto. O joelho de Ray havia quebrado. Pra uma pessoa qualquer, era o fim de um confronto, uma derrota. Para ele não. Com uma perna a menos, Ray levantou-se e manteve a guarda de combate fechada. A dor, porém, estava ali presente e ele tivera que lidar com ela.

Na volta do combate, mais socos de Ray. Dessa vez, Sonny não desviou de nenhum, apenas bloqueou todos, revidando dois cruzados com cotoveladas. A abertura de um corte sobre o supercílio de Preach fez com que sangue escorresse sobre seus olhos. Isso, somado ao desequilíbrio ainda causado pelos golpes anteriores, possibilitou uma abertura na guarda. Era o momento certo para um ataque final.


Eu realmente não sei o que está havendo. Eu não pedi pra que acontecesse. Mas aconteceu. Agora eu tenho que lutar e nem sempre eu tenho consciência de quando ganho. Às vezes parece até que meus punhos fogem aos meus comandos, mesmo que eu tenha sido garantido ter a minha independência. Lá vamos nós de novo. O despertar do poder... Aparecimento dos símbolos. É agora. Eu vou quebrar a alma desse homem, mais do que já está quebrada.



Fechando o punho direito com força, que agora está pálido e, ainda, coberto por marcas negras, Sonny desferiu um golpe fatal no peito de Ray, que o deixou desacordado. Ray não caiu, porém. Ficou paralisado ali, em pé, com expressão de horror. Os demônios que haviam no corpo de Ray deveriam ser exorcizados, mas não dava tempo. O brasileiro percebera a presença de outra pessoa ali, alguém que também não era nada normal. Essa terceira pessoa, também, estava definitivamente com raiva.
– RAY! NÃO!


Ele voou em cima de Sonny, que logo tratou de evadir da investida. Vendo o sangue e o ódio nos olhos do novo adversário, Sonny apenas esperou uma segunda investida, para evadir novamente e nocauteá-lo com uma palmada no pescoço. Para sua infelicidade, porém, com essa distração Ray havia sumido. E assim ele deveria fazê-lo também, pois não havia mais razão para continuar naquele lugar.


Eu não acredito nisso. Mais uma vez esse cara some. Eu me pergunto o que será que Kao quer com ele. Mas acho que deveria me preocupar mais com o que Honan quer comigo. E do que se trata toda essa tal “guerra”.


Notas finais
Espero que gostem da minha primeira história aqui (e a primeira a qual eu me dedico a escrever). Se acharem que vale o review, não deixem de dar. :3 Obrigado!