A Guerra Divina

2 Os filhos dos orixás.


Notas iniciais
- A música cantarolada por Roberto enquanto o mesmo se dirigia à Gávea é Ogum, de Zeca Pagodinho.

- Eu não possuo nenhum direito de imagem e nem pretendo sobre qualquer coisa relacionada ao verdadeiro grupo Muzenza de capoeira. Quando eu comecei a descrever o símbolo, pensei em algo simples de ser desenhado, e pensei em chamar o grupo de Grupo Quilombo, em homenagem ao grupo em que pratiquei capoeira aqui na minha cidade. O grupo, porém, possui um símbolo muito difícil de descrever, e como eu buscava algo que desse a ideia de vida real, acabei optando por Muzenza. Peço toda a compreensão de algum eventual membro do grupo que venha a ler isto e peço que não se sinta ofendido, pois tenho todo o respeito pelo grupo.

- Muzenza é o nome dado no Candomblé Bantu para os filhos de santo inciantes.

- Mandinga, no Candomblé, é um termo que designa feitiço, sortilégio. Na capoeira, Mandinga também significa manha, malícia. Essa dualidade de termos é bem abordada em músicas de capoeira, onde se chama "mandingueiro" lutador ardiloso, traiçoeiro. (Ex.: "Capoeira é luta de mandingueiro, é luta de nego nagô...")

- Cambono, na Umbanda, é o nome/título dos médiuns dedicados à canalização espiritual. Eles mantém pensamentos elevados para energizar o ambiente da tenda, impedindo que espíritos mal intencionados perturbem a sessão espírita.

- Como eu NÃO sou do Rio, eu não conheço bem o morro da Urca. Eu descrevo boa parte dele, ou da parte em que acontece nele, como uma trilha de terra, apesar de eu saber que a trilha principal é pavimentada (é asfaltada também?). Mas, bem, a obra é fictícia, então não tem muito o que falar. Além disso, o morro é enorme, nada impede que alguém comece a puxar uma trilha pra um canto ali sem asfaltamento até 2015 (na verdade, impede sim. Mas enfim).

- A descrição da luta final foi deveras chata, mas eu estava já transtornado de não conseguir terminar esse capítulo e acabei acelerando e mudando os planos múltiplas vezes.

- Belial é um demônio da mitologia abraâmica, chegando a ser considerado o rei do inferno, o senhor das trevas e a representação de tudo oposto à luz, o bem e Jesus Cristo.

- That's it. Enjoy!

Mais de um mês se passou desde meu último confronto. Por mais que eu caçasse o tal do Preach, nem sinal tinha dele. Perguntava-me frequentemente quem era o amigo dele que me atacou. E por que eu atribuí a Loki o título de Kao. Mas nada disso importava, eu precisava voltar pra casa. Não que eu não gostasse dos Estados Unidos, mas não fazia mais sentido rodar Illinois procurando por um fantasma. Onde quer que tenha ido, não se limitou às fronteiras de onde estava. Pudera, também, se estava guiado por um deus.

Desconfortável descrevia a chegada ao aeroporto. Apesar da promessa de não me deixar morrer, eu temia que algum maníaco pudesse tentar tomar o avião e derrubá-lo, matando pessoas inocentes. Como estrangeiro brasileiro e mero advogado, eu não tenho como portar arma em avião nem se quisesse muito. Mas tudo correu muito bem, a única ocorrência foi desmantelada por agentes de segurança da INTERPOL que estavam no vôo junto comigo. Com a boa viagem e chegada tranquila ao meu Rio de Janeiro, pude descansar em casa, finalmente, antes de voltar pra rotina.

Eram seis da manhã de sábado, 29 de outubro. Saindo da rocinha e caminhando rumo à Gávea, seguia um jovem negro, de porte físico forte, olhos negros, cabelo crespo e curto, vestindo calças brancas e calçando havaianas, com uma camisa branca estampada com o texto “Grupo Muzenza Capoeira” em torno de um desenho de um berimbau.

Apesar de andar sozinho, o jovem não estava só. Desde a saída de sua casa à chegada à Gávea, aos poucos, vinham se juntando a ele muitas outras pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todas vestidas de branco. Aparentemente alheio a tudo, porém, o jovem ia cantarolando a música que tocava em seus fones de ouvido:

- Sim, vou pro terreiro batucar o meu tambor. Bato cabeça e firmo ponto, sim senhor. Eu canto pra Ogum! [...]
Quando chegaram todos à Praça da Cidade haviam ainda mais pessoas de branco. Todos estavam amontoados em uma área espaçosa faziam uma roda, à qual ele logo se juntou, abandonando seus fones. Empunhando um berimbau que lhe estendera outro rapaz, começava a batucar e embalar a roda de capoeira que ali se iniciava. Puxou a ladainha inicial e depois emendou em outras músicas ainda mais rápidas, sob as quais jogavam diversas pessoas, jovens ou velhas, independente de sexo. Após um tempo, muitos curiosos, transeuntes, haviam parado para assistir. Fechando as músicas, o jovem se apresentou:

- Senhoras e senhores, muito bom dia! Nós somos o grupo Muzenza de Capoeira! Nosso grupo é amplamente difundido no Brasil e no mundo. Eu sou Contramestre Mandinga e coordeno uma fração do pessoal daqui. Nós levamos a Capoeira às escolas e aos becos das comunidades carentes, dando às crianças da favela uma nova perspectiva. E eu falo isso porque eu vim da Rocinha. É uma grande honra e um grande orgulho estar aqui apresentando nossa arte nobre pros senhores. Mas chega de papo, vamo pra roda!
A apresentação foi prolongada. Em ritmos rápidos, Mandinga guiava os jogos de capoeira regional em ritmo acelerado, até que, por um tempo, a roda parecia vazia. De repente, para a surpresa dos curiosos, um dos capoeiristas entrou na roda com uma faca em mãos. A polícia que havia ali por perto correu em direção à roda com armas em punho, mas já era tarde: o capoeirista desarmado havia interceptado o golpe de faca com a mão e derrubado o agressor com um chute giratório. A polícia aproximava-se pra prender o indivíduo quando o mesmo foi solto, guardou a faca e voltou pra roda como se nada houvesse acontecido. Ficou claro que era apenas uma demonstração.
A demonstração seguiu com várias simulações de ataques gratuitos, que eram revidados com maestria. Chamou muita a atenção dos ataques contra mulheres, que eram sempre bem respondidos por uma jovem de cabelo trançado pela raiz. Após uma pausa, Mandinga voltou a se pronunciar:
— Gente, gente! Perdão qualquer susto! Essa foi nossa demonstração de capoeira regional, dinâmica e efetiva. Fizemos aqui algumas demonstrações de ataque e defesa pessoal, esperamos que não tenha assustado muito. Perdão aos senhores policiais também! Bom. Agora, pra fechar, vamos numa apresentação de respeito. Vamos mostrar nossas raízes! – clamou, seguido pelo aplauso dos membros da roda que foram logo acompanhados pelos aplausos dos transeuntes.
Mandinga de pronto largou o berimbau. Entregou a outro jovem e se posicionou na roda.
— Isso, meus amigos, é Capoeira de Angola! É um jogo bem gingado, bem cheio de malícia, lentinho, mas mortal. É o jogo que libertou meus avós e os de muitos daqui. Que nos arrancou da senzala, nos levou pros quilombo, nos trouxe aqui, negros livres. Apreciem!
Pouco após se pronunciar, agachou-se. Ao início do toque do berimbau, cumprimentou o companheiro e lentamente passou para o lado com um rolamento lateral. Com ginga, ritmo e paciência, Mandinga derrubava todos os capoeiristas que o tiravam no jogo de angola como se fossem de papel. Seu movimento era fluido como água e seus oponentes pareciam dentes-de-leão ao vento, despedaçando-se e caindo a cada leve toque. O jogo durou 15 minutos, até que cessou.
— Gente! Muitíssimo obrigado a todos os que assistiram! Uma vez por mês, no fim do mês, nós viemos aqui nos apresentar. Os senhores podem procurar nosso grupo na internet, tem o endereço mais próximo pra quem quiser praticar conosco! Será uma honra receber a todos. A quem se interessa, estamos indo agora para o Morro da Urca, onde haverá uma apresentação de cultura afro-brasileira, batuque, um show da galera do AfroReggae, roda de samba de gafieira, e um culto aberto de Candomblé, tudo em diferentes pontos do morro. Estamos indo lá e fica o convite a todos! Obrigado!
Despedindo-se, abraçou todos os companheiros e seguiram juntos a uma parada, onde algumas vans esperavam. Por não haver espaço suficiente para todos, ficou e esperou o quinhentos e onze, que faz o rumo Leblon-Urca, e embarcou nele junto ao morro.
Assim que chegou ao morro da Urca, subiu a trilha, cumprimentando e sorrindo a todos os que estavam organizando o lugar. Subiu a trilha, entrou em um ramal, escalou algumas pedras, só pelo gosto, e chegou ao culto aberto de candomblé. Lá, seria rodante, mas pediram que não. Como filho de santo, ele deveria auxiliar a mãe de santo na preparação do ebó. Assim o fez, ascendendo as velas e dispondo as oferendas – já previamente sacrificadas para não ofender o público – em ordem correta.
Ao redor do culto, avistava-se uma pequena tropa do batalhão de choque da PMERJ, que portava escudos e armas de borracha. Estavam lá para impedir qualquer ataque aos participantes. Apesar da presença, o espaço era aberto para todos verem. Muitos de branco, alguns com roupas mais colorida, assistiam ao culto até que, ao final, foram saindo um a um enquanto os candomblecistas iam arrumando suas coisas.

Por trás de Mandinga, aproximava-se um homem branco, de aproximadamente 1,75, vestindo um conjunto de paletó completo, branco, com gravata vermelha e chapéu panamá, anel dourado no anelar direito com uma pedra de rubi e fumando um charuto. O homem parara a cerca de dois metros e meio de distância e, sem nem mesmo virar o pescoço, Mandinga já foi falando:

- Alemão... Tá parecendo o Zé Pelintra nessas roupas.

Confesso que fiquei surpreso com a rápida reação do meu velho amigo, embora já devesse estar esperando. Retruquei de pronto:

- Gostou, Roberto? Vim em tua homenagem. O protetor dos malandros, não é?

- Exatamente, alemão. Sagaz mesmo. – disse, levantando-se e virando calmamente pra minha direção – Mas é uma pena que o Zé Pelintra seja uma figura forte na Umbanda e não no Candomblé. Miúda que ia gostar disso. Lembra dela?

- Lembro sim. A tua estagiária, né, Contramestre? Qual era o nome dela mesmo...? Renata, certo? Onde ela tá?

- É a Renatinha, ratinha. Ela não vem aqui não, ela é da Umbanda. Tu ainda confundes, né? Ela é cambono na tenda dela, mas nada tem a ver com nossa religião. Mas e aí, que te traz aqui? Vejo que trouxe a Belinha também.

Quase havia me esquecido da Bella ali. Pra mim, ainda estava sendo guardada por Kalyah. Tolice minha foi esquecer que, de fato, ainda estava.

- Oi, Roberto! Quanto tempo! Como você tá? – dizia Bella, à medida que chegava mais próximo.

- Eu to bem, eu. E tu, tá bem?

- Melhorando, melhorando.

- Então, – interrompi – eu preciso falar com você, Roberto. Tá com tempo?

- Claro, eu sempre tenho tempo pra um velho amigo! Só deixa eu terminar uma coisa aqui?

- Tudo bem. – disse uma voz feminina de alguém que não estava presente. Logo reconheci Kalyah, mas imaginei que apenas eu iria escutar.

- Opa, você eu não vi. – virou-se Roberto de pronto, disfarçando o susto com um sorriso. – Sou Roberto, desculpa ter te ignorado. Desculpa também os modos do meu amigo Sonny. E você é?

- Kalyah, prazer.

Igual a Roberto, disfarcei o susto, desconversando:

- Achei que estaria ocupada hoje, Kalyah.

- Não, a ocasião foi muito especial. Bem, eu preciso ir até ali mais em cima do morro. Tu me acompanhas, Bella?

- Claro! – Respondeu Isabella, que logo saiu de mãos dadas com Kalyah.

- Aí, alemão. A Bella eu sei que não rola, mas abre o jogo: Essa morena tu tens alguma coisa, né?

- Ahn... É, até que tenho, ó. Mas é complicado te explicar agora.

- IA-HÁ! Eu sabia! – Disse gargalhando, enquanto voltava para arrumar o que lhe restava.

- Er... Então, Roberto. Me diz, como tá Dona Dinorá?

- Ah, a mãe tá bem. Ficou no terreiro hoje, em trabalho. Aliás, pense numa mulher trabalhadora. Graças a vocês, é claro, pudemos ter um crescimento melhor no nosso negócio, apesar de eu nunca largar a minha comunidade. A única coisa que permanece nela é a falta do papai, né... Mas o que Olorun tira de um filho fiel, ele retorna em dobro. Nunca vou ter palavras pra agradecer seu Odwald...

- Deixa disso, rapaz. O importante é que tá todo mundo bem. Onde ela tá morando?

- Tá no Camorim. Conseguiu se construir pra lá e tem se dado bem, administrando tanto a cozinha quanto o terreiro. Bom é que quando tem reunião fora de culto, por lá, os trabalhadores comem do bom e do melhor. – Disse Roberto sorridente, terminando de amarrar alguns panos, levantando e batendo a poeira das mãos nas calças.

- Eu que sei quão é bom! Vejo que terminou aí. Me acompanha agora?

- Ah, claro. O que é, Sonny?

- Bem, eu prefiro irmos pra um lugar menos movimentado.

Apesar de já haverem poucas pessoas no lugar, ainda ouvia o suficiente pra escutar o que não deveria ser escutado. A preocupação me fez seguir a trilha pra cima do Morro, onde não havia mais ninguém, exceto Isabella que fora acompanhar Kalyah.

- Bom, eu te conheço há bastante tempo, eu vejo quão dedicado tu és. Começou a iniciação criança, logo cedo foi filho de santo. E é por isso que eu preciso da tua ajuda. – declarei enquanto subíamos devagar, alternando falas com as respirações levemente ofegantes e puxadas ocasionais no charuto, que havia largado pra segundo plano.

- Qual é? Quer um trabalho? Que eu faça um ebó pra pedir por ti, interceder?

- Mais ou menos. Preciso da ajuda dos orixás. Preciso falar com Ogum.

- FALAR com Ogum? Mas nem eu falo com Ogum, rapaz. Como é que tu esperas já ir falando com orixá assim, tá achando que é bagunça?

Com a frase terminada, havíamos chegado a um ponto do morro onde não havia mais ninguém além de nós dois. À nossa frente, porém, havia um ebó já preparado, com velas e uma guia jogada ao chão. Por trás de nós, surgiu Isabella, com os olhos brilhando e a voz alterada. Roberto, porém, olhava para Bella por cima de seu ombro, como se visse alguém atrás dela. Foi quando eu ouvi uma voz na minha mente gritando “Abre os olhos!”. Era Honan. Prontamente que falou, eu enxerguei, novamente, Kalyah. Ela estava ali protegendo Isabella e mantendo-a segura, ao mesmo tempo em que usando dela para se manifestar aqui sem quebrar, diretamente, o acordo. De repente, porém, Kalyah parecia largar o ombro de Bella e pegar no meu, fazendo com que a mesma andasse alguns passos e caísse de joelhos em frente ao ebó. Por mim, a manifestação foi em uníssono, dada a minha já forte ligação por ser escolhido como o Avatar de seu panteão:

- Roberto Ferreira. Mandinga. Do ferro, do fogo e do axé, eu te peço, pegue a guia e evoque teu senhor, Ogum, orixá das guerras, do fogo, do ferro e da tecnologia.

- Ê, rapaz! Que história é essa?! – indagou o capoeirista, assustado. – Como é que isso tá havendo?

O céu parecia se mexer mais rápido por um momento, as nuvens andaram em uma velocidade anormal e, então, estabilizaram. Um vento forte batia onde estávamos, mas as chamas das velas continuavam acesas. Roberto, que sentia-se cheio de energia, foi puxado para perto de Isabella. Pegando a guia de conta e colocando nos braços, fez a Ogum suas preces, pedindo força. Foi quando, então, o vento cessou e as velas apagaram. Roberto perdeu a consciência e ficou como Isabella, parado. A esse ponto, Kalyah não mais estava comigo e eu podia senti-la, mas não mais vê-la, próxima de Isabella, que havia acordado e levantado de onde estava, afastando-se devagar.

Em um susto, Roberto levantou-se. Tremera um pouco, alongou o pescoço e olhou fixamente para nós dois.

- Esse corpo está carregado de Axé! Mas não é pai de santo. Eu protejo esse homem, mas nunca o deixei em transe. Se alguém aqui forçou essa ligação, que se manifeste! – proclamou furioso.

- Eu o fiz! – respondeu Isabella. – Eu preciso falar com você, Ogum.

- Então cá estou. E tu, quem és?

- Eu sou Kalyah, deusa da guerra, da morte, do orgulho, da força, da voz, da dignidade, do respeito, da liberdade, das artes e da poesia. Sou da consciência contemporânea, dos neonatos, dos mestiços.

- E o que tu queres comigo?

- Parceria. Creio que o senhor tenha visto o que aconteceu recentemente.

- Eu vejo. Mas não me afeta...

- Ainda. O seu povo tem ligação com meu escolhido.

- Toda guerra tem suas baixas...

- Mas uma baixa valiosa quanto o melhor representante de você? Guerreiro, grato, religioso, engenhoso, orgulhoso de suas raízes...

- Eu vejo... E o que eu ganho?

- Além da segurança do seu povo, que vai precisar muito quando essa guerra estourar, ganha parceiros nas nossas dimensões. Viemos ambos da mesma essência, consciência e povo. Não sente?

- Sinto. Certo. E o que eu posso fazer? Se eu entrar no mundo humano, quebrarei o pacto.

- Não precisa entrar diretamente. Nós sugerimos ao senhor que use Mandinga. – sugeriu Kalyah.

Eu me mantinha calado. Assistir àquela conversa me levou a um estado de torpor total. Era uma experiência nunca tida antes na minha dimensão. Se antes eu via manifestações e incorporações como pessoas em movimentos ou falas aleatórias, esse dia eu estava compreendendo exatamente o que acontecia. Ou, ao menos, nesse específico caso. A sensação de amolecimento do corpo, porém, não foi pura surpresa. Minha pele, já clara, foi empalidecendo até ficar completamente branca. As covas oculares foram expostas por marcas escuras, formando uma sombra negra ao redor dos olhos. A voz modificada denotava a presença de outro ser ali e a ausência de mim como pensante, mas apenas expectador. Eu podia ter certeza que tinha sido projetado pra fora do corpo, se tivesse tido essa sensação antes.

- Esse aqui é Sonny Engels. Ele compartilha tudo que nos representa, com alguns detalhes. Mas é quem nós escolhemos. A seita que evocou o demônio inicial, que atiçou a vontade de Loki, que desordenou o fluxo energético, que causou todo o transtorno, foi atrás dele. E por sua bravura em defender a todos, sem exceção, foi que nós o escolhemos. – falava Honan, por meu corpo.

- Mas ninguém veio atrás de mim nem do meu povo até agora. Só vocês. A menos que sugiram que lutemos agora, não vejo razões. – murmurara Ogum, suspeito.

- Longe de nós, grande Ogum. – disse Kalyah, tentando acalmar o orixá – Nós queremos a sua ajuda. Para rastrear a seita, neutralizar os efeitos cósmicos, pra impedir uma guerra, pedimos que nos ceda sua ajuda bem como um representante. Ao redor do globo estão havendo mobilizações, inúmeras, espirituais. Gangues, sacerdotes, monges, devotos... Cada um com suas experiências, consciências e energias, estão se mexendo para a colisão. A Igreja Católica está em vigília para o dia do juízo, com medo da fúria de Jeová. De tão forte que estão ficando, os corrompidos começaram ataques avulsos. A igreja pode tentar atacar qualquer um de fora, pela forma fechada como sempre agem. A ideia é travar um combate para não travar uma guerra.

- Ogum, por favor! – intercedeu Honan – Alia a nós Roberto. Dê a ele poder, representação. Dê a ele a capacidade de interceder pelos homens em unidade contigo e com teus irmãos orixás. Faz desse Ogan o teu próprio Babalorixá. Enche-o de axé e firme conosco o pacto de proteção.

- Certo, então. Me aliarei a vocês. Eu sinto a boa vibração de vocês. Deixo ao cargo do panteão e do campeão decidir como se formará. Mas darei ao meu filho bênçãos e forças. Mandinga: Nego nagô, filho de santo, filho de Ogum, dos Orixás. De mim, hoje, tu recebes a força do axé. Hoje eu te faço meu Babalorixá. Teu corpo será fechado, benzido por mim, por Xangô, por Oxalá, Oxossi, Iansã, Iemanjá, Olodumaré, Ossaim e por todos os outros. Exu, o Orixá mensageiro, será contigo um e te fará de mensageiro do nosso mundo pro teu e do teu pro nosso. Hoje, tu és um orixá encarnado, como os antepassados do teu povo. Vá!

Terminada a conversa, logo todos os deuses dali sumiram. Eu, porém, fui o único que não desmaiei após a retomada de consciência. Talvez pelo costume, me mantive de pé enquanto tanto Isabella quanto Roberto haviam caído no chão. O céu estava escuro e o relógio já marcava 18h30 e era boa hora pra ir pra casa.

Mal tinha eu acordado Isabella, tão logo ouço um grito seguido de uma explosão. Alguém estava tentando invadir o morro da Urca e subir para o ponto de expressão aberta do Candomblé, tendo jogado um coquetel molotov em direção ao campo que serviu de terreiro. A polícia logo entrou em confronto com o grupo e sons de tiros e gritos cortavam a paz dos presentes e interromperam o samba que se ouvia antes tocar aos pés do morro. Num reflexo de desespero, corri para acudir Roberto, que ainda estava inconsciente, e que voltou a si num grande susto.

- CARA! Eu tive um sonho surreal! – exclamou meu velho amigo.

- Não foi um sonho, Roberto. – retruquei – Foi bem real. Agora abaixa, tenho que falar contigo.

- Real? Peraí... Tu tá me dizendo que eu realmente fui acudido por Exu? Que Pai Ogum me tomou o corpo?

- Sim, nem preciso dizer mais nada. Olha, estão atacando o morro. A gente tem que se mexer e proteger alguém que esteja no meio do fogo cruzado.

- Mas por que tentariam invadir a Urca? – indagou.

- Eu não faço ideia.

Uma massa andava em direção à parte de cima do morro, agredindo todos os participantes do festival cultural e jogando pedras e bombas em direção à polícia. Em um determinado momento, pude perceber a mudança de estratégia dos membros da PMERJ, que largaram as espingardas nãoletais e passaram a sacar armas letais de curto calibre, enquanto uma linha de retaguarda corria pelos arredores em direção aos carros.

- É uma guerra, Beto! A gente tem que ir, salvar os teus amigos! — exclamei.

- Como, Alemão?! Os home tão armados! Nós vamos morrer!

- Não se você souber como se mexer.

De pronto tirei meu terno, apaguei o charuto, fechei os olhos e os punhos. Preparei-me pra orar ou me comunicar, de alguma forma, com Honan. Meu esforço porém, logo foi interrompido quando minha mão foi puxada. Isabella me encarava profundamente e seus olhos, antes castanhos claros, brilhavam em um tom de roxo claro que penetrou profundamente em meu ser. Senti como se meu corpo estivesse em chamas, minha força tivesse subitamente aumentado e minha pele, escurecido. Foi então que ela se deitou no chão com as mãos na cabeça e se escondeu próximo a uma rocha. Sem que eu percebesse, também, em minhas mãos agora morenas haviam emergido marcas que representavam a lua, na mão esquerda, e o sol, na mão direita.

Com essa nova sensação de poder e confiança, eu levantei do meu lugar e sorri para Roberto, que também levantou. De pronto corremos em direção ao conflito, tentando desviar de pedras e coquetéis molotov.

A sensação de perigo não era grave, apesar de sabermos dos riscos, até que, em um dado momento, uma explosão derrubou uma fração inteira da tropa de choque que ficava logo à frente da trilha principal, abrindo espaço para que boa parte das pessoas pudesse subir e nos alcançar antes de sequer termos tido um resgate realmente eficiente.

Naquele momento, me via cercado. Eu e mais um contra cerca de quinze inimigos, todos com algo na mão, fossem paus, pedras, facas ou bombas. O mais próximo de nós era uma pedra grande e algumas flores que cresciam ao seu redor. Inútil, para um combate direto. Eu me perguntava como poderia sair daquilo sem machucar as pessoas que, pra mim, eram inocentes, mas sem pista. Foi quando aconteceu.

Sentindo-se encurralado e com o pé apoiado na pedra, Roberto impulsionou-se em um salto mortal duplo, caindo por fora do cerco que nos cobria, criando então uma distração de foco.

Aproveitando-se da situação adversa, Roberto acabou roubando de um homem um pedaço de pau, agarrando o objeto enquanto desferia um chute circular na têmpora do mesmo. Pulando pra trás e mantendo posição de defesa, a batalha estava iniciada.

Antecipando o ataque, corri para a direita e encurtei a distância entre os que vetavam a passagem à trilha de onde eu havia saído, e onde o cerco estava defasado. Com um soco em um homem distraído mais à esquerda, passei também pro lado de fora do círculo, ficando eu e Roberto livres pra enfrentar treze homens.

À medida que se aproximavam os homens, Roberto avançava sobre os mesmos usando o bastão, desferindo golpes circulares sempre na horizontal ou diagonal, a fim de intimidar os agressores e acertar qualquer um que eventualmente se aventurasse a avançar. O plano, porém, era falho porque cada golpe criava um atraso pra Roberto encaixar outro, o que fez com que dois homens viessem correndo de lados opostos, ambos com faca na mão, a fim de acertar o capoeirista. Sonny interceptou o que vinha pela esquerda, com a mão erguida, chutando sua costela direita. O que vinha pela direita também levou um chute, porém de Roberto, simultaneamente à defesa aplicada com o bastão pra interceptara facada que vinha de cima para baixo.

O ataque dos dois homens criou na dupla um momento de fragilidade, ocasião que aproveitaram os outros onze que estavam ainda de pé. Um ajudou o colega acertado por Sonny a levantar, três jogavam pedras, cinco avançaram e dois correram para a retaguarda. Com o ataque eminente de sete homens, Sonny antecipou novamente o conflito e correu em direção ao homem com a faca, que ele havia derrubado anteriormente.

Antes que o homem pudesse levantar completamente, Sonny voara com uma joelhada no rosto, caindo ao lado do colega que o ajudava e de frente para mais dois que iam na sua direção. Assim que Sonny caiu, o homem que ajudou o companheiro caído de pronto pegou a faca do amigo e virou-se para acertar a cabeça de Engels. O movimento circular, porém, foi parado com uma defesa usando a faca da mão de Sonny contra o pulso do agressor. A defesa logo encaixou-se em uma chave de braço, ao fazer com que a mão que bloqueou segurasse o pulso do adversário e empurrasse-a contra uma alavanca feita pelo braço esquerdo. O golpe culminou na queda do homem armado, junto com a quebra do seu braço quando a força foi bruscamente projetada durante um movimento circular que Engels fez para chutar um dos agressores que vinham em sua direção.

Paralelamente, Roberto viu a aproximação rápida de três homens. Em um movimento brusco, pulou pra direita, direção que lhe proporcionava maior espaço de ação, e logo golpeou o agressor mais próximo com um golpe no tornozelo. Vendo a quantidade de inimigos restantes, Mandinga quebrou o bastão em dois com a perna e, tomando cada metade em uma mão, correu em direção aos outros dois que vinham lhe atacar, pulando sobre eles e acertando-lhes um chute na têmpora de cada um, com as pernas abertas, caindo em tempo de tentar um ataque à distância contra o adversário que ainda ia em direção de Sonny. O ataque, porém, foi frustrado quando uma pedra atingiu-lhe a cabeça, logo seguida de um grito:

- VOLTA!

O grito acordou, surpreendentemente, todos os que haviam sido nocauteados e os fez voltar correndo para a posição onde estavam. Tão logo voltaram, voaram, por detrás do grupo, dois coquetéis molotov, que explodiram próximo a Roberto, que estava caído devido à pedrada, e colocaram todo o campo em chamas, alimentadas pela madeira e as plantas que cresciam próximas à trilha que levava aos lugares mais altos e pelos móveis que ainda ficaram pra trás na desmontagem do improviso de terreiro. Num desespero, Sonny pensou em correr para achar Roberto, mas logo foi frustrado por dois ataques simultâneos, socos dos atacantes que foram em massa em sua direção para miná-lo sozinho.

Engels, que já estava desiludido da possibilidade de Roberto ainda estar vivo e, então, posicionou-se no meio da trilha de forma a não deixar ninguém subir, com medo de que fossem atacar Isabella.

Lutando um a um no caminho fechado, sempre buscando evitar invasão pelos flancos, Sonny foi segurando o quanto pôde. Por mais que estivesse protegido pela força de Kalyah, eram muitos oponentes que estavam, igualmente, tomados por alguma força. Mesmo aquele que tivera o braço quebrado ainda lutava fortemente, de forma mais animalesca. Com a chegada do cansaço e buscando uma melhor estratégia, Sonny relutantemente recuava para abrir espaço e desferir golpes longos, a fim de atacar sem ser pego por nenhum golpe adversário. No terceiro passo para trás, vacilou sobre uma pedra, perdeu o equilíbrio e caiu no chão.

Por mais que continuasse lutando, mesmo com toda uma gangue por cima chutando-o de todos os lados, a batalha parecia perdida. A força e a resistência do germânico eram suficientes pra segurar as pancadas por algum, mas não muito tempo.Fechado em posição fetal, com as pernas protegendo os testículos e os braços protegendo o rosto, Engels se perguntava como poderia sair dali ou o que fazer. Foi então quando, de repente, viu cinco dos agressores caírem de uma vez após um clarão que vinha por trás. Tentando enxergar através dos braços, tudo que o escrivão pôde ver foi uma grande labareda de fogo tomar os agressores remanescentes. Para não se queimar, ou não queimar as roupas, levantou-se logo e correu na direção oposta à origem das chamas, se abanando. Mal se recompôs, virou pra frente pra ver de onde vinha o fogo e se surpreendeu: Era Roberto. O contramestre havia levantado das chamas, intacto, e controlado o fluxo do fogo como uma arma, uma extensão de si.

- Corpo fechado não entra fogo. Meu senhor, Ogum, me protege. Diga aí, alemão: tu te passa na malandragem!

A visão de Roberto de volta do fogo, intacto, foi inacreditável. Mas o fato de eu mesmo não apresentar muito mais que alguns arranhões ajudou a superar. Apesar de surpreso, fiquei feliz em vê-lo bem e ter sido salvo por ele. Na ironia, porém, precisava retrucar:

- Nunca! Eu tava quase acabando com eles! Hahahaha

- Aham. E meu nome é Madame Satã. – Debochou Mandinga – Vem, pega a belinha e vamos embora antes que corra a polícia aqui pra ver esses corpos queimando.

De pronto, segui a ideia. Peguei Isabella, ainda desacordada, no colo e fui descendo o morro com ele. Aparentemente Kalyah tinha me deixado, porque percebia minhas mãos voltando ao tom claro que tinham. Roberto, porém, parecia estar muito atento, pois sua íris parecia mais clara que o negro comum, e sua esclera estava vermelha.

Antes de chegar ao pé do morro, no meio da trilha, já sob sons de helicópteros que rondavam para dar apoio aos soldados, surge um grupo de cinco homens, todos fortemente armados com AK-47 e M-16, vestindo camisas de times ou trapos velhos, rostos cobertos com máscaras improvisadas. O que estava logo no meio, porém, tinha algo de especial: O fuzil que portava estava nas costas. Na mão direita, segurava um revólver de calibre 38, que apontava para uma moça com um saco na cabeça, a qual ele segurava com a mão esquerda. Logo que nos viram, pararam. O homem com a refém tomou a frente, abaixou a máscara e, com olhar odioso, indagou:

- Lembra de mim, Sonny?

- Não. – respondi, seco – Por quê? Já te prendi?

- Não, Sonny. Mas já me matou...

- Definitivamente eu não lembro! – exclamei, com raiva – Mas, acredite, se eu tivesse matado, você não estava aqui. Diz logo, o que tu queres?

- Eu te quero de joelhos, Engels. – disse, com a voz alterada. – Eu te quero de joelhos para Belial!

Ao terminar a frase, o homem puxara o saco que cobria o rosto da moça, revelando que era Renata, a estagiária de Mandinga. Ela estava inconsciente e seu rosto inchado, com sangue seco, sinal de que fora espancada ou sufocada.

- MIÚDA! – exclamou Roberto – POR QUÊ?!

Roberto estava em frenesi. Tremeu muito, em ira, e por pouco não avançou sobre a gangue.

- Se vier, eu juro que mato! – declarou o bandido, puxando o cão do revolver apontado para Renata. – É melhor ficar quietinho.

O medo e a insegurança batiam no capoeirista. Ver um amigo daquele jeito e não poder fazer nada, também, me deixou nervosíssimo. Impotente, vi Isabella acordar apenas para o seu terror. Tão logo ela ficou de pé, me abraçou com medo, e passei-a pras minhas costas, para que não fosse atingida por nenhum eventual projétil.

- Tu vais se render agora, Engels? – indagou novamente o bandido.

Quase inconsciente, quase involuntário, quase chorando, de pronto me pus a gritar que sim. Mas quando gritei, disse “não”. E foi o não sonoro que fez com que os outros quatro, armados de fuzil, apontassem para nós.

- Uma pena, então... Você teria sido útil. Agora você vai ser fuzilado, você, o nego e a vagabunda que eu já tomei antes. Depois eu levo essa baixinha de vestido nas minhas mãos. Atirem.

Sob a ordem, os quatro mascarados começaram a atirar. A saraivada de balas foi longa, e com os olhos fechados eu rezava que não fosse o fim. Não foi.

O que eu não havia percebido era que conforme Kalyah me deixava, e minha pele clareava, ela foi ficando ainda cada vez mais pálida, e àquele momento eu já estava completamente branco, com marcas oscilantes a aparecer nas mãos. Ao abrir os olhos, eu vi as balas, todas, em linha, próximas ao meu rosto. Era como se o tempo houvesse parado, mas eu podia me mexer sem problemas. As balas, os inimigos, todos se mexiam, porém muito mais lentos que eu. Olhando pro lado, para ver Roberto, percebi que o mesmo ainda estava em fúria, com lágrimas nos olhos. Não tinha como salvá-lo a tempo de tudo, então tudo que fiz foi isolar as balas que vinham e a Isabella da mesma direção, desviando das que vinham em minha direção e dela, mentalmente dando adeus ao parceiro.

O tempo voltou a correr normalmente, pra mim, após desviar um a um os tiros projetados. Ao virar para o lado, vi Roberto igualmente de pé, com o mesmo semblante furioso e triste. As balas que haviam sido disparadas ficaram em frente a ele, inertes, e logo após o fim da enxurrada, caíram no chão.

- Vocês devem ser mesmo muito insolentes. Ou inconsequentes. – Disse Mandinga. – Eu sou filho do pai e pai do santo, pai de Ogum, o senhor do ferro e do fogo. Homem nenhum me mata, nem com ferro, nem com fogo...

Dando um passo à frente, Mandinga viu a ameaça se concretizar. O líder havia puxado o gatilho. O tiro, porém, ficou preso no cano da arma, que estava engatado, e acabou explodindo dentro do próprio tambor, sem o projétil ser cuspido.

O som da explosão foi suficiente para acordar Renata, que tratou de chutar o sequestrador e correr para frente. Logo que o mesmo sacou o fuzil, foi desarmado pelo contramestre, que havia voado em sua direção com um chute giratório cruzado, que veio acompanhado de fogo e acabou queimando o peito do líder.

Após a queda do marginal do meio, os outros de pronto largaram os fuzis e partiram pra cima de Roberto. Apesar de sua habilidade, o fato de serem muitos contra um e ninguém se render ou cair dificultou o tempo pro mesmo, o que forçava Renata a correr pra ajudar.

- Miúda! – gritei – Não vai! Fica aqui, preciso que cuide da Isabella.

- Mas eu preciso ajudar! – retrucou

- Você ajuda cuidando aqui. Acredite, você não vai querer brigar com essa galera.

Saindo em corrida na direção dos agressores, fui me posicionando pra pegar um a um pela cabeça e tirar-lhes o equilíbrio e a possibilidade de manter esse fluxo de energia. Carregado com as forças de Honan, quebrar o espírito dos pobre-coitados seria tranquilo O ambiente do lugar, porém, não permitiu.

- Você nunca vai ganhar. Onde houver sacrifício, sangue e morte é onde eu vou me alimentar, pra você padecer! – exclamou o mesmo homem, o único desmascarado.

De fato, ele estava certo. Tudo que já havia acontecido no ambiente o deixou mais forte e a peleja foi ficando apertada. Por mais que os golpes fossem energizados, a aura de cada um daqueles ali estava forte, de forma tal que estava impossível manter a luta a um nível de igualdade.

Um soco certeiro no queixo acabou derrubando Contramestre, enquanto um chute machado na cabeça me colocou no chão idem. Pela segunda vez, me senti impotente. Foi quando eu ouvi de um Roberto caído um último grito.

- RATINHA! LIMPA O TERRENO!

Renata, que estava a segurar Isabella, nervosa e se segurando pra não entrar na luta, acabou por sentar. Sentada, com as mãos na coxa e olhos fechados, sussurrava palavras que eu não ouvia, e fez isso com uma paixão incrível. A princípio eu não sabia, mas Renata, como cambono, tinha essa capacidade e função de harmonizar a energia de um ambiente, entrando em contato com espíritos e dimensões superiores. A compenetração dela no purificar do ambiente foi forte, fazendo perceptível a mudança da harmonia no ambiente, retirando o desequilíbrio local e favorecendo as energias de benéficas.

Nesse momento, com maior energia presente, eu então pude ver em minha pele as marcas pretas se formando. Na pele negra de Roberto, também, havia uma formação de marcas brancas, como pintura de guerra africana. Foi aí então que levantamos, ambos. Era a deixa perfeita pra começar a lutar sério e a lutar com força, já que nos sentíamos revigorados.

Com chutes poderosíssimos, Roberto foi derrubado um a um, sempre encaixando um chute lateral na cabeça ou frontal no queixo, seus chutes mais fortes. Os que me cabiam acabavam nocauteados com uma derrubada e dois socos ou simplesmente com um uppercut no queijo. E foi com essa deixa que eu me deixei possuir completamente, entreguei o corpo a Honan, e quebrei o espírito de todos os inimigos ali presentes com o destruidor de almas.

Com a batalha finalmente acabada, cansado e ferido, me desfiz das bênçãos, das posses e dos poderes e logo olhei para Roberto, que havia guardado seu corpo pra si naquele instante. Sem falar uma palavra, nos dirigimos às duas garotas, Isabella e Renata, que estavam sentadas, Isabella segurando um dos braços de Renata, e Renata ainda com os olhos fechados.

- Ei, ratinha. – Disse Mandinga, cutucando-a. – Acorda aí, ratinha miúda. Acabou. Vamos embora.

- Oi? – Disse Renata – Já?

- Já... Acabou. Vamos?

- Vamos sim. Vem, Isabella? – convidou Renata.

- Claro, vamos, vamos... Mas vamos aonde? – indagou Bella.

Todos se olharam disfarçando o riso. Depois de tudo, realmente, não tinha bem pra onde ir. A polícia estava a caminho e os segundos que passaram foram suficientes pro helicóptero ter achado corpos de policiais carbonizados morro acima, deixa perfeita pra ir embora antes de ser incriminado. A pressa de ir, a falta de vontade de prestar contas divinas com a polícia, o cansaço, a fome e os ferimentos da roupa só podiam me dar uma mensagem, que foi a minha resposta quase imediata aos olhares apontados:

- Vamos todos pra minha casa, trocar essa roupa, que depois comemos churrasco. Eu pago!

- Aí eu botei fé, ó, alemão! Seguinte, a gente ainda tem um bocado pra conversar mesmo, né? – falou o capoeirista.

- Sim, Roberto... Temos sim.

E dessa onda, partimos pra uma bem melhor, pegando o carro e saindo da Urca pra Lapa, onde estaríamos todos em casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.