Andei no meio da floresta, procurando, mas eu não conseguia encontrar em lugar algum.

Onde estava aquela bendita cama onde o Breu se escondia?

Andei, andei e nada. Já estava perdendo a paciência.

Meu plano basicamente era invadir o coviu do Breu, pegar a garota a força e, se desse, acabar com ele.

Mas aparentemente ele mudou de esconderijo. Zangado, me sentei no tronco de uma árvore cortada e me coloquei a pensar.

E agora?

Então eu vi bem mais ao fundo um corvo. Como estava longe, eu achei que era um corvo mesmo, mas alguma coisa dentro de mim disse que aquilo era perigoso. Então eu me levantei e fui até ele bem devagar.

Ao me aproximar eu percebi que ele era feito de pesadelo. Todo o sangue do meu rosto pareceu ter sumido.

O corvo estava olhando fixamente para mim, e então saiu voando na direção oposta.

”Droga!“ – pensei e saí correndo atrás. Breu devia ter colocado ele ali para espionar e avisá-lo caso alguém se aproximasse do seu antigo esconderijo. Eu queria pegar o Breu de surpresa, mas se o corvo fosse até ele e contasse que eu estava atrás então a emboscada ia por ralo abaixo. Não podia deixar que o corvo fugisse.

Persegui-o por um tempo, mas ele estava voando em zigue-zague. Enquanto eu o seguia, comecei a pensar:

“Eu não faço a menor ideia de onde está o Breu... mas esse corvo sabe. Se eu deixasse que ele fugisse até o seu mestre, então eu saberia onde está o seu novo esconderijo. Mas ele não irá voltar pro Breu até que eu o pare de perseguir, para que justamente isso não aconteça... o que eu faço então?”

Os pensamentos praticamente voavam na minha cabeça.

“Eu posso me afastar dele e deixar que ele pense que eu não estou mais atrás, e então eu o seguiria a uma distância segura. Mas a chance de perdê-lo de vista é muito grande, e então tudo o que eu faria seria avisar o Breu... mas acho que eu não tenho outra escolha.” – e, pensando isso, diminui o ritmo e deixe que a ave se afastasse.

A ave percebeu que eu parei, e então ela parou e ficou flutuando um pouco no ar, olhando em volta. Parecendo satisfeita, voou na minha direção.

Tinha que ser pra esse lado que o Breu estava?

O mais silenciosamente que eu pude, fui para trás de um tronco de árvore grosso, torcendo para que ela não me encontrasse. Parece que não, pois continuou reto e saiu a toda. Parecia até que dobrou a velocidade.

Trincando os dentes, fui atrás do melhor jeito possível, torcendo para que não escutasse.

E assim fomos por um tempo, até que o corvo brecou com tudo.

Surpreso, brequei com tudo também, batendo a cabeça no galho da árvore. A ave, escutando isso, olhou onde eu estava e me viu. E começou a voar para outra direção, novamente em zigue-zague.

“Tsc!” – pensei, irritado – “Esse corvo é esperto!”

Parei em cima do galho no qual eu bati a cabeça, encostei o meu corpo no tronco e fiquei observando a ave. Não estava dando certo, precisaria pensar em algo diferente.

Mas no quê? Não sabia mais o que fazer. O corvo parecia sempre saber como se livrar de mim.

E então eu congelei. Era isso!

Eu abri a bolsa que estava ao meu lado (já tinha até esquecido que estava carregando ela) e peguei o que estava dentro.

O globo do Norte. Uns tempos atrás ele havia me dado um, para caso um dia eu viesse precisar. Achei chato na hora, pois não queria ficar carregando isso por aí (por mais que as viagens sejam legais), mas agora nunca fiquei tão grato.

E então, com isso, eu abri um portal que dava direto no castelo da Fada dos Dentes.

O corvo, que estava voando em zigue-zague até agora, ao ver o portal cambaleou – devia ter se assustado. E então ele encarou um pouco e finalmente saiu a toda na direção do esconderijo. Ele percebeu que eu estava ocupado, e ia aproveitar a chance para escapar.

Trinquei os dentes novamente. Agora precisava ser rápido, se não ia perdê-lo de vista.

Olhei pelo portal. A Fada dos Dentes não estava em lugar nenhum, o que eu já esperava depois do que eu tinha visto pelas sombras, mas ainda assim fiquei triste. Tinha esperança de vê-la lá.

Tentando deixar esses pensamentos pra lá, eu olhei atentamente para o portal. Apesar da Fada não estar lá, as fadinhas ainda estavam. Estavam voando pra lá e pra cá, a maioria segurando um dente. Sem a Fada lá, devia estar um pouco desorganizado.

Mas então uma das fadinhas que estava voando pra lá e pra cá parou e olhou para o portal. Por mais que as fadinhas fossem parecidas, aquela eu reconhecia.

Era a minha amiga.

Ela veio voando pra cá e passou pelo portal, me dando um beliscãozinho na bochecha com o seu biquinho. Eu ri.

–Que saudades de você! – exclamei, dando um sorriso sincero – olha, eu sei que não nos vemos há um tempo, mas tenho uma favor a te pedir.

Ela fez um sim com a cabeça, me incentivando a continuar.

–Vê aquele corvo lá? – disse, apontando. Estava muito longe já, fazendo com que nós dois espremêssemos os olhos para poder ver melhor ele – então, eu preciso que você vá atrás dele e descubra para onde ele está indo, e então volte para me contar. É muito importante. Você poderia fazer isso por mim?

Ela fez novamente um sim com a cabeça, com uma expressão destemida no rosto.

–Muito obrigado, sério! Fico te devendo mais uma – eu ri. Mas então fiz uma expressão séria – Cuidado! Não deixe ele te ver!

Fazendo novamente um sim com a cabeça, ela me deu outro beliscãozinho e saiu voando atrás dele.

Vendo-a partir eu tirei o portal, sentei no galho da árvore e encostei as costas no tronco. Como eu estava em um galho bem alto, eu conseguia enxergar a cidade ao longe.

“Será que eu fiz certo?” – pensei, preocupado – “E se eu tiver colocado ela em perigo? Nunca iria me perdoar. Mas será que eu tinha outra escolha?”

E com esses pensamentos agoniastes eu esperei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.