Notas iniciais
Olá!
Bem, esse capítulo vai para as duas pessoas fofas que estão acompanhando a fic!!! Não sei quem são, mas espero "conhecer" vocês. Espero que todos que lerem gostem!!!
E também para Rafaela Abrahão que deixou um comentário!!!

Boa leitura!

CAPÍTULO I: A primeira

Nesta página quero lhes contar a primeira história que ouvi. A primeira narrativa que guardei nas páginas de meu diário e nos espaços do meu coração. Tudo isso que ouvi, eu jamais perderei de minha memória.

Não pense que lerá aqui grandes narrativas de amores, e nem pense que lhe contarei uma história de vida. O que vou lhe contar é um fragmento de amor, um acontecimento singelo, ou não, tudo depende da forma como você caro leitor, vai interpretar o que lê.

Não se preocupe em saber de que maneira eu abordo as pessoas, porque não vou revelar minhas táticas. O importante aqui é que vocês conheçam as histórias das quais eu sou guardiã.

E já adianto que, nunca defini qual sentimento eu queria que as pessoas me narrassem ao contar suas histórias, nunca disse “-Me conte uma história de amor, ou ódio, ou isso ou aquilo.”. Nunca me portei assim, eu apenas dizia “-Me conte uma história.” E tenho que lhe dizer que, o primeiro fato que constatei é que as pessoas gostam de falar muito de amor. Mas veja bem, o amor não é apenas algo entre um homem e uma mulher, o amor é isso e mais que isso. Contraditório? Talvez.

No entanto, a primeira história que ouvi e que agora vou partilhar é sobre o amor... Bem, não vou falar agora porque você verá.


Era um final de tarde de outono e finalmente eu ouviria a primeira história. Um homem desconhecido, que tinha já seus trinta anos talvez. Quando lhe pedi que me contasse uma história, um fragmento da vida dele, naturalmente ele me perguntou “Uma história de que?” e eu logo respondi “Do que você quiser.”. E ele me contou a história que eu achei a mais linda de todas, talvez porque tenha sido a primeira que ouvi. Isso não importa, pois o que importa é a narrativa que irei expor a seguir.



Bem, já que eu posso falar sobre o que eu quiser, eu vou te contar um fato que marcou minha história. Foi quando eu descobri não só o amor, mas o que ele significa e do que ele é capaz. Eu era jovem tinha apenas vinte e dois anos sabe. E eu sempre fui o tipo de cara vida louca, minhas marcas eram as bebedeiras pontuais com os amigos e as saídas sem compromisso com as mulheres. Mas tudo mudou quando ela conseguiu me enlaçar, a Nanda sabe. Ela sempre foi minha amiga e vivia me dizendo que um dia eu iria ser enlaçado por uma mulher que daria um jeito na minha vida, só que nós nunca imaginamos que essa mulher seria ela. Mas eu não vou te contar como que o mundo girou e acabou fazendo que nós começássemos a namorar.



Eu quero te contar uma parte difícil do nosso relacionamento. Como eu te disse, eu tinha vinte e dois anos e nós já estávamos juntos há quase um ano, faltava poucos meses. Foi nesse período que algo de ruim aconteceu comigo. Eu sofri um acidente de carro e não quebrei um osso sequer, mas não pense que sai ileso. Eu fiquei sete meses e nove dias sem enxergar, porque levei uma forte pancada na cabeça. Hoje eu te digo, foram nove meses e sete dias para eu voltar a começar a enxergar, mas naquela época eu achei que ficaria cego para sempre. Hoje eu enxergo bem, fiquei curado, mas eu não acreditei muito nessa cura. Eu sofri muito nesse período, eu não me adaptei àquela situação. Me tornei dependente das pessoas porque simplesmente eu não conseguia me virar sozinho. No começo estávamos todos otimistas, mas com o passar dos dias, o medo que eu tinha de não mais enxergar, começou a se alastrar para as pessoas que me cercavam. Eu pensei que a Nanda me largaria, que mais cedo ou mais tarde ela iria perceber que o cara que estava com ela não era mais o cara que pegava o carro e a levava para se divertir. A Nanda nunca foi boa dirigindo sabe.


Eu estava tão confuso com tudo aquilo, tão perdido que em certo ponto comecei a achar que ela estava comigo por pena e que não tardaria até ela terminar tudo. Eu jamais terminaria nosso namoro porque dentre todas as pessoas das quais eu era dependente, era da Nanda que eu mais precisava. Por isso todos os dias eu implorava a Deus que me curasse, para que eu pudesse olhar mais uma vez para os olhos castanhos que sempre me fascinaram. Naquela época eu cursava os últimos períodos da faculdade de engenharia e apesar da minha vontade de trancar o período, ninguém aceitou isso e eu acabei ficando para terminar o curso. Mas era sofrido, eu estudava a noite e a universidade era longe da minha casa, eu tinha medo de ir sozinho de ônibus e por isso meu pai precisava me levar e me buscar todos os dias, e quando não era possível, eu tomava um táxi.

Foi em um dos dias que meu pai não podia ir me buscar que aconteceu o episódio que mudaria minha história. Eu estava na faculdade e as aulas haviam acabado mais cedo, todos saíram animados para ir para o bar, era uma sexta feira. Eu não fui e apesar das insistências, eu recusei com firmeza que um de meus amigos perdesse a carona para me acompanhar até a saída, e assim eu fiquei sozinho. Desci as duas primeiras rampas e decidi ir ao banheiro. E aí estava o problema de não se enxergar: eu não podia ler o papel que estava na porta e que dizia que o banheiro estava interditado. Quando entrei percebi o cheiro muito forte de urina, e não muito tempo depois descobri o porquê disso: havia estourado um vaso e tinha aquela água suja de privada por todo o chão. Não preciso descrever o teor da água ali esparramada, apenas basta dizer que eu escorreguei.

Quando caí no chão acabei me molhando e me sujando todo, ainda mais porque eu usava uma camisa branca. Eu fiquei imundo. E eu me senti extremamente humilhado. Naquele momento o que senti foi pura impotência, incapacidade e fragilidade. A última coisa que eu queria era terminar de descer aquelas rampas, passar pelo pátio e pela cantina e ter que sentir todos os olhares sobre mim, olhares de pena que exprimiam o pensamento “Coitado, ele ficou cego.” Ou “O cego caiu, veja o estado dele.”

Assim que me recuperei um pouco, tentei me levantar do chão, peguei minha bengala e me sentei num canto daquele banheiro imundo. Eu chorava o mais silenciosamente possível e tentava a todo custo pensar numa maneira de sair daquela situação. Cheguei à conclusão de que seria impossível não passar por pessoas, seria impossível não chamar a atenção. Eu estava desesperado e a única ideia que me veio à mente foi ligar para Nanda. Me lembro até hoje da preocupação estampada na voz dela, oras, eu liguei para ela aos prantos quase nove da noite, ela também estava na faculdade, mas era uma outra, razoavelmente longe da minha. Lembro de ter dito “Nanda, vem me buscar.” E ela respondeu “Amor o que houve, você está chorando!” entre lágrimas e com um sentimento de humilhação eu disse que havia caído e ela ficou desesperada, dizendo que iria chamar o bombeiro, meus pais, enfim, foi aí que eu disse “Não me machuquei.”

Quando eu disse isso ela emudeceu do outro lado da linha. Nesse momento eu percebi que ela havia entendido que o problema não era eu ter me machucado ou não, o problema era que eu estava mal por ter caído. Diante do silêncio dela eu disse “Estou todo molhado e sujo.” Nada tira da minha cabeça que nesse momento a mudez dela se justificava em sua tentativa de não deixar que eu percebesse que ela estava chorando. Ela respirou fundo e disse “Estou indo aí.” Aquele tempo que fiquei sentado no chão daquele banheiro pareceu-me uma eternidade. Eu estava flutuando em meus pensamentos e mágoas, quando meu celular tocou, era a Nanda, ela havia chegado e queria saber onde eu estava. Não demorou muito e ela entrou no banheiro e constatou minha condição deplorável. “Gabriel meu amor...” foi o que ela disse ao se ajoelhar a meu lado e tocar meu rosto. Minhas lágrimas voltaram a cair e se misturaram as dela. O pior é que eu nem podia retribuir o gesto de lhe secar as lágrimas, com minhas mãos sujas como estavam. Senti o toque suave dos lábios dela nos meus e um afago em meus cabelos. Como choro controlado ela disse “Vamos embora.”

Ela me ajudou a levantar e quando percebi que ela intencionava passar um braço ao redor da minha cintura para assim me guiar, eu me afastei. Lembro de ter dito “Você vai se sujar.” E ela com o jeito meio bravo dela me respondeu “E não vai ser você que vai me impedir.” E então ela me abraçou e me guiou para fora daquele banheiro imundo. Descemos as rampas, passamos pelo pátio e pela cantina, esperamos por um bom tempo no ponto do ônibus, e em todo esse trajeto que fizemos, no qual eu estava cego, molhado, sujo e fedendo e no qual ela estava abraçada comigo, apesar disso tudo, me guiando pelo caminho, enfim, eu jamais saberei os olhares e reações que a Nanda teve que suportar ao passar comigo naquela situação. Jamais terei a real dimensão do quão difícil foi para ela sustentar aquela situação e jamais tirarei da cabeça que a humilhação que eu sentia, foi o maior peso que ela carregou naquela noite, isso porque sei o quanto ela sofria a me ver naquela situação. Mas ela me levou para casa e ela suportou tudo.

Quando chegamos a meu apartamento, já era mais de dez e meia da noite e ele estava deserto. Meus pais haviam ido numa pequena viagem e só retornariam na manhã seguinte. Eles acharam que eu iria conseguir me virar bem naquela noite. O que era uma noite sozinho, só uma noite? Sabe, fiquei decepcionado comigo mesmo por ter sido aquela noite a noite em que eu mais mostrei o quanto não podia cuidar de mim mesmo. Não havia nem dois meses que ocorrera o acidente, e minha dificuldade na adaptação talvez se justificasse, e hoje tenho certeza disso, no pensamento de que não seria necessário, porque eu já já ficaria curado. Mas nessa noite eu percebi que não deveria agir assim, percebi que precisava me adaptar. Não podia deixar a esperança passar entre meus dedos, mas também não podia me acomodar.

Eu estava cabisbaixo. E a Nanda percebeu isso. Ela fechou a porta do apartamento, a ouvi soltando um suspiro e caminhando até mim “Vou te ajudar a tomar banho”. Eu recusei de imediato, disse que poderia me virar e que ela devia ir para casa porque os pais dela deviam estar preocupados. Inventei mil e uma desculpas para justificar a partida dela, e ela estranhamente me deixou falar e quando meus argumentos acabaram as minhas lágrimas recomeçaram. Ela prontamente me abraçou e eu meio bruscamente a afastei “Você vai se sujar.” E com isso tateei em busca de uma cadeira, e me sentei. Ouvi que ela soltou outro suspiro, veio até mim e parou na minha frente, eu estava sentado, chorando com o rosto escondido em minhas mãos. Ela se ajoelhou e pousou suas mãos em meus joelhos “Gabriel, eu não vou embora.” Eu percebi que ela também estava chorando, liberei minhas mãos e segurei o rosto dela em minhas mãos “Olha para mim Nanda. Cego, sujo... Eu não quero isso para você.” E em seguida eu disse as palavras mais duras e difíceis da minha vida e que apesar dela ter tentado disfarçar, as machucaram muito. Mas ela não se deixou levar, porque ela sabia da dificuldade da situação. Eu lhe disse que ela não precisava ficar comigo mais, que ela não precisava se prender a mim, que eu a estava liberando do sentimento de pena que ainda a mantia preza a mim.

Duras as minhas palavras? Eu sei. E injustas também. No meio da dor, da humilhação e do desespero eu acabei pondo em dúvida o amor dela por mim e podia ter perdido ela ali para sempre. Mas não me julgue Malu. Não me diga que você não diria algo do tipo se estivesse na mesma situação? Bem, não há como saber né?

Ora, esse momento que estou te contando foi o meu fundo do poço, mas foi também o momento em que me reergui. Não pense que não me doeu dizer isso, porque foi a maior dor da minha vida. Não pense que não me senti um idiota e também não pense que o que eu mais desejava era que ela me largasse. Eu só disse o que disse por que eu não queria que ela continuasse naquele sofrimento comigo, apesar de que, o que eu mais queria era que ela continuasse. Contraditório? Eu sei que é. Mas a Nanda sempre me compreendeu, sempre soube mais de mim do que eu mesmo.

Desculpe minhas lágrimas Malu, estou estragando a gravação, mas é que sempre me emociono com essa história. Sabe, quando a Nanda ouviu essas minhas palavras horríveis, ela chorando aproximou seu rosto do meu e disse “Se eu sentisse pena de você, eu já teria te largado há muito tempo. Você sabe que pena é um sentimento fraco, não mantém as pessoas unidas. Eu estou aqui agora, eu estou com você até hoje e vou estar com você o resto da minha vida porque eu te amo. É o meu amor que me leva até você e é ele que me prende a você, e nada mais.” Eu nunca esqueci essas palavras, sabe, eu nunca esqueci. Essas palavras encheram meu peito de calor, minha alma de forças e meu sorriso de veracidade. Eu apenas fui capaz de dizer, entre meu choro, que a amava. Lembro que ela se levantou e sentou no meu colo, ela adora sentar no meu colo, sabe, sem maldade, só um gesto de carinho. Ela me encheu de beijinhos e sussurrou no meu ouvido “Não importa o que vai acontecer, eu te amo e nada vai mudar isso. Entendeu meu anjo?”


Quando o Gabriel terminou a história, eu estava aos prantos. Chorei como há muito não chorava. Ele terminou a sua fala dizendo “Esse é o fim da história”, fazendo um movimento de dedos que queria dizer que não era de fato o fim. Ele disse essas palavras com a voz muito falhada pelo choro.



Eu lhe disse que a história dele era linda, que se tratava de uma memória, uma experiência fascinante. E por fim lhe disse que, pela riqueza dos detalhes, tudo aquilo havia ficado gravado nele e ele me respondeu com as seguintes palavras “O que mais me doeu nisso tudo era não poder olhar para os olhos dela, porque eu tenho certeza que se eu pudesse, eles me dariam forças, e o maior medo que nutri era o de não mais ver seus olhos castanhos. E tudo isso me marcou, mas me marcou de forma profunda porque eu não gravei cenas em minha memória e em meu coração, eu estava cego. Marcou profundamente porque eu gravei sensações e sentimentos. Naquele dia o amor ficou gravado no meu coração, o amor da Nanda por mim. Foi nesse dia que eu descobri o amor, o que ele significa e do que ele é capaz.”



Já era de noitinha quando me despedi do Gabriel, que saiu correndo porque já estava atrasado, ele tinha que ir buscar a Nanda. Ele não me contou mais nada além daquela história e nunca mais eu o vi. Eu fiquei ali parada, depois da partida dele, analisando tudo que havia ocorrido. Era minha primeira história, a primeira que gravei no meu coração e que me fez refletir por dias. De todas as histórias que Gabriel poderia ter me contado, ele escolheu justo essa, dentre todas ele selecionou uma e dentre todas as pessoas que ele poderia ter falado, ele escolheu ela.


Depois que minhas emoções se acalmaram dei lugar a minha razão e comecei a trabalhar cientificamente a narrativa que ouvi. Comecei a detectar minhas falhas e meus acertos na abordagem que fiz, na minha primeira ação como pesquisadora. Mas isso não é de seu interesse caro leitor.

O que lhe interessa é a lição que essa história transmite. E não pense que aqui eu vou lhe dizer que lição é essa, isso não é uma fábula com uma moral no final. Isso é um fragmento de vida real, e você que leu, tire uma lição para você, porque tenho certeza que essa narrativa lhe tocou, para o bem ou para o mal, de uma forma ou de outra. Assim como aconteceu comigo.

E por favor, não me julgue por ter chorado na minha primeira “entrevista” para minha pesquisa! Eu lhe avisei que sou irremediavelmente romântica e sentimental, e acredite, eu luto bravamente para não deixar que isso atrapalhe minha pesquisa, e minha vida. Mas entenda, um cientista, principalmente o social, não é neutro. E sei que não te interessa minhas explicações científicas sobre isso.

Eu apenas peço que não me julgue por ter chorado. E não pense que me derramei em lágrimas devido apenas a narrativa que ouvi, sabe, não foi só a narrativa, foi a forma como os olhos dele me contaram essa história. Por que você meu caro leitor, pode pensar que eu chorei ao constatar a beleza dessa história, de como o Gabriel teve sorte por ter o amor da Nanda.

Talvez até mesmo o Gabriel, quando conta essa história, tenha o objetivo de mostrar o quanto ele foi abençoado com o amor da Nanda.

Mas você não viu os olhos dele, porque se tivesse visto, você também teria se emocionado, não por constatar o óbvio: o amor da garota por ele. Você, assim como eu, teria chorado por tudo que estava implícito nessa história, uma parte escondida que não foi dita pelos lábios do Gabriel, uma parte que me foi revelado pelos olhos dele.

Os olhos dele me contaram o quanto ele ama a Nanda. E isso me marcou profundamente.

E eu como socióloga digo a você: essa foi minha primeira experiência com o amor.

Notas finais
Espero que tenham curtido.
Bjs e até a próxima!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.