Notas iniciais
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Enfim, final da tarde. Passei a tarde descansando, cuidando de pequenos arranhões que tive com a queda daquele pterossauro sobre mim, hoje cedo. Eu não achava isso ruim, pelo contrário, achava o máximo. Quem sonhara que eu teria arranhões pelo corpo por que lutei contra um pterossauro? Ninguém! Nem eu mesma. Isso era demais. Mas é a única parte boa disso tudo.

Depois de descansar e cochilar algumas horas, resolvi sair do meu quarto e ir até a cozinha. Preparei uma xícara de café e segui até a pequena sala de biblioteca que havia em Braga; fiquei lendo revistas, sentindo a calmaria do local.

Quando achei que poderia ficar em paz e quieta no meu conto, Bryan apareceu na sala. Entre trezentas e tantas, que existiam por Galdera, ele foi justamente na qual eu estava.

– Só o que faltava. — resmunguei, tomando um gole de meu café.

– O que disse? — se aproximou, sentando na poltrona logo ao meu lado.

– Nada. — sorri, sem olhar em seu rosto, folheando aquele revista sobre o meu colo.

– Você sabia que ninguém aqui lê essas revistas, não é?

– E..? — o encarei por fim. Ele olhou em meus olhos e deu de ombros, não tendo uma boa explicação. — Viu.. — tomei mais um gole, voltando minha atenção para a revista –, foda-se.

Ele ficou em silêncio, apenas encarando a parede a sua frente, mexendo naqueles longos fios negros de seu cabelo. Eu não sabia de fato o que ele queria por ali; o encarava de canto às vezes, para ver o que ele estava fazendo.

– O que faz aqui? — fechei minha revista, voltando minha atenção para ele, apoiando meu cotovelo no braço do sofá, me aproximando um pouco dele.

– Ué, tô afim de descansar um pouco, sabe, não quero fazer nada no momento.

– Qual é, Bryan?! Tem pelo menos umas trezentas e quinze salas por aí, você decidiu vir justamente aqui? — falava num tom normal, mas o encarava no fundo dos olhos.

– Estou te incomodando? — aproximou seu rosto do meu, me encarando nos olhos e sorrindo.

– Muito. Tua presença não me agrada nem um pouco. — sorri forçadamente.

– Ok.. — ele suspirou, recostando-se na poltrona. — Só queria saber se você estava bem.

– Por que? Você nunca se importou.

– Eu sei, mas aqui é mais sério do que lá em cima, Savannah. Lá não tinha as ameaças que tem aqui e nem os perigos. Você não sabe o que você tem que enfrentar. — me encarava, olhando profundamente no fundo dos meus olhos.

– Mesmo assim, Bryan, você não precisa me cuidar, não precisa se preocupar com o meu bem-estar.. Eu consigo fazer isso sozinha.

– Ah, claro que sim. — debochou. — Como hoje cedo que quase foi atacada por trás por um pterossauro, não é? — ironizou.

– O que você queria? Foi o meu primeiro teste. — joguei a revista de lado, larguei minha caneca de café no chão e o encarei, tremendo de raiva.

– O jeito como você fala, parece que é muito experiente. — comentou, diminuindo o tom de voz, acrescentando: — O que faz as pessoas esperaram o máximo de ti.

– Me desculpa se eu não consegui ser o que você esperava que eu fosse. Mas que saber? Eu não me importo. Eu não tô aqui pra te agradar, Bryan. — me levantei, rodando aquela sala que com a presença dele, se tornava pequena. — Aliás, o que você faz aqui mesmo? Ainda não entendi.

– Eu estou aqui pra te alertar, Savannah. — levantou-se, se aproximando de mim o máximo que podia, com fogo nos olhos, gritando feito um doente. — Você acha que tudo isso aqui é brincadeira? Acha que está de férias aprendendo coisas novas? — foi me empurrando com o seu corpo, até eu sentir minhas costas batendo contra a parede.

– Será que, pelo amor de Deus, você consegue entender que faz DUAS SEMANAS que eu estou vivenciando essa merda toda? — gritei de raiva, sentindo-me explodindo.

Ele se afastou, balançando a cabeça positivamente. Acho que ele finalmente tinha entendido que eu estava apenas começando isso tudo e ele, bem, ele está nisso há mais de cinco anos. Ele já viveu mais do que eu, ele sabe mais do que eu. Eu não posso avançar, por mais que eu queira, o meu ritmo nisso tudo. Eu preciso me acostumar, preciso compreender. Eu preciso ter calma. Eu preciso seguir as palavras que Aidan me disse desde que cheguei.

– Tudo bem. — falou, finalmente se acalmando. — Eu vou.. — olhou em torno da sala. — Vou deixar você sozinha. — me encarou por fim, e logo saiu da sala.

Não sei ao certo o que acabou de acontecer e meu corpo inteiro tremia. Bryan me irritava, me tirava do sério sem precisar de muito esforço. Não sabia realmente o que acabara de acontecer. Bryan se preocupando comigo? Nunca mostrou um pingo de importância, de compaixão. Foda-se se isso aqui é perigoso, vou mostrar pra ele o quanto eu posso me cuidar sozinha. Eu não preciso que ninguém fique cuidando tudo o que eu faço. Quero crescer.

Eu precisava do Eric, de mais ninguém. Só dele.

Permaneci encostada naquela parede gelada, visualizando a sala que, por fim, estava fazia. O ar ficou gelado e meu corpo ainda tremia. Tentava, fracassadamente, faze-o parar com a tremedeira. Deslizei-me pela parede, sentando no chão. Abracei meus joelhos próximos ao meu peito e ali fiquei. Eu não sabia o que fazer. Estava com as mesmas sensações de quando cheguei aqui. Vazio, tristeza, perda, solidão. Tudo o que eu podia sentir de ruim, eu sentia.

Ouvi passos se aproximando de onde estava, e em um pulo me levantei do chão. Funguei o nariz e fui atrás da revista que tinha jogado ao canto, e guardei-a, fingindo que nada havia acontecido. Recolhi minha xícara que estava sobre o chão e me virei, dando de cara com Jasmine.

– Pra terminar o dia maravilhosamente bem.. — sussurrei, tendo a certeza de que ela não ouvira.

– Savannah. — falou, aproximando-se alegremente. — Podemos conversar?

– Ah.. — tentei pensar em alguma desculpa para despistá-la, mas com o turbilhão de pensamentos que rolavam na minha cabeça, não consegui pensar em nada. — Claro, podemos sim.

– Eu sei que nós não tivemos um recepção agradável e eu nem pareci um pouco simpática..

– Pois é. – comentei

– Enfim – me olhou desconfiada –, como vamos conviver no mesmo local por algum tempo, pensei em talvez esclarecer as coisas. Não tenho nada contra você, pelo contrário, adoraria que tivéssemos ter uma relação agradável. Nos últimos dias minha cabeça esteve um pouco atormentada, ainda mais com essa coisa de alunos novos, eu não sou muito animada pra isso.

– Eu entendo. — tentei sorrir parecendo simpática.

– Então, tudo certo entre nós?

– Claro, Jasmine. Sem ressentimento. — falei por fim.

Ela falou mais alguma que não dei muita atenção e logo foi embora. As pessoas daqui geralmente são assim? Esquisitas? Agem estranhamente o tempo todo? Vai ser difícil me acostumar com tudo isso. E eu que achei que enfrentar demônios era a pior parte.

***

Saí de Braga e segui direto para Fenoi. Além de Eric, a única pessoa que eu sentia confiança era Aidan. A única pessoa que eu conseguia sentir proteção.

– Ei, pequena guerreira. — falou, quando apareci na porta dos Vistosos.

– Oi Aidan. — me encostei na parede e dei um sorriso fraco. — Oi Isaiah. — me aproximei assim que pediram. A sala era comum, nada fora do normal. Haviam cadeiras, uma mesa pequena, um sofá, tudo na coloração branca. Sentei no sofá e me acomodei.

– O que houve? — Aidan indagou.

– Estou cansada. — falei, sentindo um nó se formar na minha garganta. — Isso aqui está me cansando Aidan. Eu não consigo manter as coisas de uma forma positiva.. Estou surtando.

– Você precisa manter a calma, Savannah. — se aproximou, sentando ao meu lado. Isaiah, sentado em uma cadeira próxima, concordou.

– Você precisa mostrar aos outros o quão é forte, mostrar a sua garra. Savannah, todos aqui sabem o quanto você é capaz de honrar o nome guerreira.

– Vocês estão errados. Eu não sou assim, não consigo ser. — falei, impedindo que o nó se desfizesse, inundando meu rosto com lágrimas.

– Claro que é, menina. — Aidan comentou. — Você não sabe, mas nós sabemos. Um guerreiro sempre adquire a personalidade dos pais. Você é igual sua mãe. — sorriu, com um olhar confiante.

– Você tinha que ver como ela era. — Isaiah se pronunciou. — Ela era fantástica. E se nós estamos falando isso pra você, não duvide. Você é capaz, sim.

– Mas eu não aguento. Eu sinto tudo desmoronando em cima de mim, e eu não tenho forças pra aguentar. Isso está me cansando. Eu não sei como reagir, as pessoas daqui parecem levar tudo numa boa. E eu.. Bem, eu simplesmente não consigo.

– Escute: você precisa acreditar em si mesma. Se fizer isso, as coisas vão melhorar. Olhe seu colar, guerreira. A magia que há em você, reconhece a sua força de vontade e sua confiança. Se você não acreditar em si mesma, a magia enfraquece. Ao contrário, você terá ainda mais disposição. Tudo o que precisa fazer é acreditar. — encarei meu colar enquanto Aidan falava.

Era verdade. A luz do colar estava enfraquecida, quase que apagada por completo. Isso me fez pensar. Pensar no que eu poderia fazer e pensar em minha mãe. Eu a conheci, mas não lembro nenhum traço dela em que eu tenha visto com meus próprios olhos. Apenas uma foto que era de Eric, mas ele acabou me dando ela. Eu precisava ser como ela. Por honra e por algo como preservar a lembrança que os outros tem dela.

Eu nunca fiz nada para agradar ninguém, mas isso havia mudado de direção. Se tratava da minha mãe agora.

– Eu não sei como vocês fazem isso, mas é um alívio falar com vocês. — sorri, abraçando Aidan rapidamente. — Obrigada. — me levantar, abracei Isaiah e logo saí.

Estava revigorada. Havia nascido de novo. Dessa vez mais forte, mais corajosa e muito mais determinada. Vamos acabar logo com essa merda.

Notas finais
Espero que gostem. ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.