A Guardiã Das Almas
2 Primeiras descobertas
Dei um grito extremamente alto quando senti uma agulha entrando em meu braço. Isso foi o bastante para me acordar. Abri meus olhos com uma certa dificuldade, com a minha cabeça ainda girando. Percebi que estava deitada em uma mesa dura e gelada, em uma sala enorme, escura e totalmente desconhecida.
- Isso vai fazer a tontura passar. — ouvi alguém falar.
Pisquei algumas centenas de vezes, fazendo meus olhos se acostumarem com o que viam. Gemi um pouquinho, porque meu corpo ainda não estava normal. Aquilo era a pior sensação que eu já sentira em minha vida. Alguém precisava fazer aquilo parar.
- Como você está? — alguém perguntou. Com certa dificuldade, reconheci Eric. Aos poucos fui me sentando aonde quer que estivesse deitada e encarei Eric.
- Não estou nos meus melhores momentos Eric, mas acho que vou ficar bem. — assim que falei, olhei meu antebraço. Continuava a mesma coisa, com aquela cicatriz em forma de cruz. Em seguida, olhei ao redor. — Onde estamos?
- Anna.. Você já vai saber tudo o que precisa, tá legal? Só confie em mim. — falou, olhando nos meus olhos.
- A última vez que eu confiei em alguém, eu me auto mutilei e senti meu corpo virando rocha. E bem.. Eu não sei exatamente aonde estou. — respondi meio grosseira.
- Eu já passei por isso. — falou. Não entendi muito bem, até ele esticar seu braço e me mostrar a mesma cicatriz que a minha, mas em tamanho menor.
- O que? — encarei seu braço e em seguida o meu. — Por que? A srta. Woldardt fez isso com você também? Mas por que? Olha, eu sempre desconfiei que ela não fosse muito com a minha cara, mas você?
- Não é isso, querida. — ouvi a voz da srta. Woldardt. Senti meu rosto corando. Eu não estava falando mal dela, mas também ela não precisava escutar. — Eu não odeio você e muito menos o seu irmão. — parou ao lado de Eric e o olhou, sorrindo. — Mas eu precisava fazer isso. Recebo ordens.
- De quem? Quem é o louco que manda a senhora fazer uma cara de imploro para fazer as pessoas concordarem em se auto mutilarem? — franzi minha testa.
- Seu humor é muito controverso, Savannah. — ela riu, junto de Eric.
- Não importa. — respondi, grosseira. — Só quero que alguém me explique o que está acontecendo.
Ouvi um barulho ensurdecer, como uma porta rangendo ou um metal gigante sendo arrastado no chão. Senti a claridade invadindo aquela sala onde eu estava, e forçando meus olhos a se fecharem. Aquilo tudo estava me deixando com muita raiva.
- Eu posso explicar para você, querida. — um homem alto e careca se aproximou. Ele usava um tapa-olho em seu olho esquerdo. Se é que havia um olho ali debaixo. O mais estranho é que, também do lado esquerdo, mais precisamente na mão esquerda, ele usava uma luva de couro extremamente grossa. — Eu me chamo Aidan. — sorriu, assim que parou em minha frente.
- Muito prazer Aidan, eu sou a Savannah e preciso que me explique onde é que eu estou.
- Você está em um mundo subterrâneo, chamado Galdera. — respondeu rapidamente. Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo.
- Tá legal. — encarei-o, pensando em mil e um motivo para aquilo tudo ocorrer. — E por que estou aqui? Aliás — encarei Eric -, por que o Eric também está aqui e não está surpreso?
- Quando vocês nasceram, seus destinos já estavam traçados. Vocês são chamados de Guerreiros e devem proteger Galdera de todas as criaturas místicas que nos ameaçam.
- Ah tá. — respondi. — Olha Aidan, você sabe atuar muito bem. Adorei essa sua piada e o jeito como você respondeu tão seriamente. — me levantei da mesa. — Eric, me leve pra casa. — falei. Mas Eric não moveu um único músculo do seu corpo. — Eric! — chamei-o. — Eu não sei o que está acontecendo, mas eu não nasci pra ser uma Guerreira ou seja o que for.
- Nasceu, Savannah. — Aidan retrucou. — Todos os adolescentes que habitam Galdera, nasceram pra isso.
- Todos? — repeti. — Então, não é só a minha família que é estranha?
- Não. — Aidan riu. — Seu irmão falou que sua ironia e sarcasmo eram aguçados.
- O humor também, Aidan, não esqueça. — srta. Woldardt comentou rindo.
- Vocês querem parar? — gritei. — Não tem nada engraçado nisso. Eu posso ter nascido pra essas coisas e pode ser tudo verdade, mas no momento, estou usando meu sarcasmo para que eu não enlouqueça de vez. Estou usando a ironia, pra levar tudo isso de uma maneira positiva. E meu humor eu uso porque é o único jeito que encontro de me defender daquilo que me atinge. — encarava todos, sentindo meus olhos arderem. Segui até Eric e parei em sua frente. — Eric, me diz que quando eu dormir e acordar depois, tudo isso não estará acontecendo.
Senti lágrimas caindo sobre meu rosto. Eric não conseguia olhar em meus olhos, ele apenas manteve seus braços cruzados.
- Eric! — gritava, me desesperando já. — Fala pra mim. — chorava como uma criança pedindo colo.
Deixei meu corpo cair sobre Eric, como uma forma de realmente pedir colo. Talvez eu ainda seja uma criança que apenas precise de proteção. E só Eric conseguia fazer isso. Ele se desfez dos braços cruzados e me abraçou. Senti que ele também chorava.
- Desculpa Anna, mas em relação à isso.. — tentava se manter calmo. — Eu não consegui fazer nada. Me desculpa.
Eu o abracei já que não conseguia falar que não precisava se desculpar. Nós choramos por algum tempo, até que ele levantou minha cabeça e olhou em meus olhos, secando minhas lágrimas.
- Mas vai ficar tudo bem, ok? — falou. — Eu sempre estarei aqui para o que você precisar. E Anna.. Eu sempre te achei uma guerreira. — sorriu. — Eu sei que você sempre lutou contra as memórias da nossa infância, porque eu sei que não são as mais agradáveis.. E eu sei que você sempre lutou para me mostrar que estava tudo bem. Você é forte Anna, vai saber lidar muito bem com isso tudo.
- Mas eu não sou forte, Eric, e não está tudo bem. — desabei no choro de novo.
- Anna, você precisa compreender. Eu também sou um Guerreiro, eu também tive a mesma reação quando descobri para o que eu havia nascido. Mas olha pelo lado bom, você tem a mim. Não vai ter que passar pelo mesmo que eu, de querer chorar e não ter um colo.
Parei de chorar, pensando na situação de Eric. Eu tinha ele nessa situação, e quando ocorreu com ele, ele realmente não tinha ninguém. Sequei minhas lágrimas e olhei em seus olhos.
- Sinto muito, Eric. — falei. — Você sabe que se eu pudesse, eu estaria aqui com você, não é? E se eu preciso compreender tudo isso, vai ser por você. Por mais que eu acha isso tudo muito estranho, eu farei o possível, por ti. — abracei-o.
- Essa é minha garota. — falou, me mantendo em seu abraço.
- E olha – olhei-o novamente –, não tem cara mais guerreiro que você. Eu não sei como você aguentou, Eric, cuidar de mim desde que éramos crianças, batalhar para que eu tivesse um vida aparentemente normal e tranquila. Eu sempre soube que meu irmão era o melhor. — sorri.
- Por isso a família de vocês é tão especial. — ouvi a voz de Aidan. Ainda abraçando meu irmão, me virei para ele. — Todos sabem que os Algenfritz são os melhores Guerreiros que existe em Galdera.
- Espera, então isso não começou comigo e com Eric? — perguntei.
- Não. — Aidan respondeu. — A geração de vocês é a mais velha e antiga que existe entre os dois mundos. Por isso, vocês não podem fazer nada em relação à isso. Quando o tataravô de vocês começou com tudo, isso acabou se tornando eterno. Ou seja, os filhos de vocês serão Guerreiros, assim como seus netos e bisnetos e assim por diante.
- É muita informação pra minha cabeça. — comentei.
- Bem, você pode descansar, até porque o horário aqui no Mundo Galdera é o mesmo e na parte da tarde podemos conversar mais. — comentou Aidan.
- Não se preocupe Savannah, muitas crianças se sentem exatamente assim. Você terá tempo de digerir qualquer informação que queira, até porque é costume isso levar um certo tempo. O seu irmão levou algumas semanas. — ela riu, olhando Eric.
- Bem, é complicado, né?! — tentou explicar-se.
- Tudo bem. — respondi. — Acho que realmente preciso descansar um pouco. Minha cabeça ainda dói e meu corpo parece metal enferrujado. — soltei um riso.
- Vem, eu levo você até seu novo quarto.
Aquilo soou realmente estranho. Aliás, tudo o que eu ouvi desde que acordei do meu desmaio, soaram muito estranho.
No momento, eu preferia nem ter acordado..
Fale com o autor