A Guardiã Das Almas
6 Honrando o nome
Notas iniciais
“Hoje faz uma semana que conheci o inferno – literalmente. É o pior lugar do mundo, o último que eu gostaria de estar.. E ironicamente, é o lugar de onde eu não posso sair. Eu gostaria de fazer uma rebelião, pegar aqueles adolescentes que não querem ficar aqui e lutar contra todos, até conseguirmos sair. Um pensamento meio doentio, mas nas minhas condições eu faria qualquer coisa. Eric fala coisas como “isso não é tão ruim”, porra, ter a responsabilidade de cuidar de um mundo, onde pessoas depositam suas esperanças em ti, não é ruim, imagina, coisa normal hoje em dia, qualquer um faz e adora. Adrenalina pura.
É igual você levar uma facada na cabeça, não é tão ruim.”
Guardei meu caderno de desenhos debaixo do travesseiro da minha cama. Não tinha costume de escrever nele, mas hoje eu senti necessidade. Eu precisava liberar esses pensamentos de dentro de mim, mesmo que ninguém iria ler. Pelo menos eu consegui liberá-los pela escrita. Já sentia um alivio vindo de dentro do peito.
É pressão demais. No decorrer da semana, nas minhas aulas teóricas, eles falaram muito sobre o quão importante Galdera é. Eu preferia falar o quão irritada eu fico com essa merda. Mas ninguém se importa, eles só querem saber de você se tornar sábia e treinada o suficiente para enfrentar demônios que querem dominar Galdera, por ser o país com mais recursos para manter o Mundo Superior do jeito que está. Ninguém quer saber que eu não dou a mínima pra isso.
Isso tudo já é irritante, mas tendo Bryan dormindo no mesmo ambiente fechado que eu, piora toda a situação. Eu tenho vontade de pegar e dar uma facada nele, aproveitar e arrancar aqueles olhos alaranjados.
Saí do meu quarto comunitário e me dirigi até o térreo do dormitório. Lá em cima haviam mesas e cadeiras, onde você podia relaxar (o que é muito impossível de fazer). É como uma área de lazer para descontrair. Não que seja confortante, mas é um bom lugar para se isolar do resto e pensar em todas as coisas que você deixou pra trás.
– O que faz aqui? — Joshua se aproximou quando me avistou.
– Nada. — sorri, tentando parecer simpática. — Quer dizer, só passando o tempo.. Pensando um pouco. — suspirei, me recostando na cadeira.
– Não pense demais, Savannah. — comentou, sentando-se na cadeira vaga. — Isso atrapalha ainda mais. Enche mais a cabeça. Resumindo, fode tudo. — soltou um riso.
– Você já pensou? Quer dizer, no mundo lá fora? — observei-o atenta.
– Muito! Ainda mais no começo. Não tinha um dia que eu não pensasse no mundo lá fora ou nas coisas que acabei deixando. Foi complicado no início, meu único desejo era sair daqui. Por isso minha situação atual. — gargalhou.
– Você pensou o que? — sorri, acrescentando: — Que não mostrando interesse ganhando boas notas, eles deixariam você sair?
– Sim. — confirmou, ainda gargalhando.
– Sem ofender, mas isso foi um pouco imaturo. — gargalhei junto dele. — Eles não se importam com o que você sente Joshua, só querem que você se dedique à eles. E pra eles, tempo não é problema.
– É. Ou você descobre que se não subir de categoria você se torna um ninguém aqui dentro.
– Então agora você precisa tomar o seu rumo nessa história. Você sabe o que tem de fazer, não perde mais tempo não. — aconselhei-o. — Olha, a gente pode fingir que chegamos a recém e enfrentamos isso juntos. — sorri, encarando-o.
– Adorei sua ideia. — sorriu de volta.
A expressão de Joshua ainda era cansativa. Não por motivos da escola, mas outro que por sinal eu não tinha conhecimento. Talvez seja o fato dele não conseguir avançar de categoria e se sentir inferior aos outros. Mas ele vai conseguir.
Assim como eu. O que tiver de fazer, farei. Acordei em uma manhã decidida à me entregar de corpo e alma à Galdera. Mesmo com a obrigação e a pressão que eles impunham. Não deve ser tão ruim, até porque sempre quis fazer alguma coisa que fugisse da minha rotina.
– O que as pessoas fazem no fim de semana presas nesse lugar? — perguntei à Joshua.
– Tem a casa noturna das fadas.
– O que? — arregalei os olhos, surpresa.
– Sério. — gargalhou. — As fadas tem uma casa noturna. As festas de lá são boas. — me encarou, segurando a gargalhada. — Você deveria ir lá para conhecer.
– Um dia quem sabe. — respondi, rindo. — Mas e fora isso?
– Ah, fora isso não tem nada. — deu de ombros. — Tem a biblioteca, as salas de músicas que é onde mais as outras pessoas ficam.. Tem cinema também, mas só passa filme de ficção. — fez cara de nojo.
– Deve ser um saco! Eu queria começar a treinar a parte prática logo. — comentei, sem muita emoção.
– Relaxa, é na próxima semana já. Cada semana é um tipo de treino. Não te falaram isso? — franziu a sobrancelha. Neguei. — Acho que Aidan fica dando muito atenção ao Bryan e esquece de contar as coisas para os novatos. — pensou alto, rindo em seguida.
– Como é? — perguntei, curiosa.
– O Bryan, amigo do seu irmão. — comentou. — Os Vistosos sempre ficam adorando e glorificando o Bryan. Não sei por quê, o cara nem é tudo isso. Se acha o Gladiador..
– Não sabia que você e Bryan não se davam bem.
– Nos damos bem, mas é que sei lá.. Odeio o jeito como ele age com as pessoas. — me olhou nos olhos. — Também nunca parei para saber por qual motivo ele faz isso, mas que me irrita pra caralho, isso eu sei.
– Bryan é um babaca. — comentei. Ele arregalou os olhos, surpreso com minha reação. — Vive me tratando mal, sendo grosso e estúpido comigo. No Mundo Superior, quando ele passava horas na minha casa, a gente vivia se alfinetando. — lembrei das inúmeras vezes que troquei farpas com o Bryan. — Ele é ridículo! — grunhi de raiva.
– Eu sei. — gargalhou. — Mas não vamos perder nosso tempo falando dele. — me olhou nos olhos novamente.
Não sei por qual motivo, mas cada vez que Joshua me olhava nos olhos, meu coração palpitava. Acelerava de uma maneira estranha, coisa que nunca senti na vida.. Chegava a ter a sensação de desconforto. Tenho que parar com essa merda, mesmo que eu nem saiba o que é.
– Que tal jogarmos uma partida de futebol americano? — sugeri.
– Ótimo! Adoro jogar futebol. — se mostrou animado. — Vamos chamar a Jade e mais alguns adolescentes. Isso vai ser demais. — já foi levantando e me puxando.
Seguimos até o parque de Galdera e reunimos uma pequena multidão de adolescentes, formando dois times. Foi divertido. Me derrubaram diversas vezes no chão, o que deixou minha roupa encardida. Mas eu ri bastante. Me diverti muito, pela primeira vez desde que cheguei. Essa gente precisa de distração quando não estão sendo forçadas à lutar contra monstros. Eu pensava no que eu queria, mas parando pra repensar, as outras pessoas também precisavam. Desde que pisei em Galdera, não teve um único dia que minha cabeça não latejou de dor, por conta da pressão que colocaram em cima de mim. Imagina o pessoal que está há mais tempo nisso! Essa deve ser a explicação para o Bryan ser tão rabugento: falta de animação.
Eu poderia ajudar Galdera, mas eu precisava cuidar de mim também. Ficar trancada naquele quarto comunitário, seguindo ao térreo, seguindo à escola e voltando para o quarto, não iria ajudar minha mente em nada. Complicado, uma hora quero fugir daqui, outra hora adoro a ideia.
– Vai Savannah! — ouvi Jade gritando enquanto eu corria com a bola em mãos.
Ouvia risadas, gargalhadas, torcidas, vibrações, cantoria, tudo o que me motivava a continuar correndo. E morando ali. Fazendo parte, junto deles, de uma nação de jovens guerreiros, nascidos para proteger um mundo subterrâneo de demônios místicos. Eu nunca nem sonhei com uma situação dessas.
Eu poderia estar sonhando com tudo isso, porque é surreal. Ainda lembro direitinho o jeito que meu estômago embrulhou vendo Aidan piscar o olho de sua mão esquerda. Mas eu precisava me acostumar, precisava enfrentar os meus próprios medos, negar minhas fraquezas. Eu precisava honrar o nome de Guerreira que me foi colocado. Eu precisava dar o melhor de mim, precisava mostrar que era capaz. E se a minha mãe fez parte disso, eu quero ser que nem ela.. Se ela estivesse aqui, tenho certeza que se orgulharia de mim. Eu seria sua garota crescida, fazendo o que é certo. E faço isso por Eric também. O único guerreiro que, até então, eu conhecia. Minha família foi feita de guerreiros e eu irei honrar isso.
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