Notas iniciais
30/11/2023 - CAPÍTULO REESCRITO! Se vocês não sabem, hoje é o aniversário de lançamento de A Origem dos Guardiões no Brasil! 11 anos! Como o tempo passa rápido!

Jack acordou mais cedo que o normal, feliz em não sentir nem um pouquinho de enjoo. Ele rolou no ninho, encontrando-se sozinho, como já era de se esperar.

Na cozinha ele encontrou o café-da-manhã feito, esperando por ele, mas Coelhão não estava em lugar algum. Jack deu de ombros, se sentando à mesa e tomando seu café antes de ir se juntar a seu noivo.

O Pooka tinha ficado mais tenso nesses últimos dias, contando e recontando todos os ovinhos para ter certeza de que tinha o bastante e que nada faltava. E, como sempre fazia desde que tinham começado a namorar, Jack se manteve ao lado de Coelhão, o ajudando sempre que necessário – além de tentar encontrar jeitos para ajudar o Guardião a relaxar de vez em quando.

Tomando um último gole do suco fresco que Coelhão tinha feito, Jack pegou seu cajado e flutuou para fora da casa de pedra para encontrar seu noivo.

Como esperado, Jack o encontrou supervisionando os vários ovinhos coloridos que pulavam do córrego colorido para entre as flores e plantas da Toca, correndo e seguindo em filas longas e ordenadas em uma só direção. Os ovos guardiões estavam acordados, montando guarda entre os caminhos e também monitorando os ovos enquanto esses se dirigiam para as passagens mágicas.

Jack tomou um momento para examinar o Pooka enquanto se aproximava.

Diferente dessas últimas semanas, Coelhão não tinha mais as sobrancelhas constantemente unidas e os lábios apertados em uma linha fina; agora ele parecia uma pessoa completamente diferente. Mas aquilo não era nada novo para Jack.

Enquanto o Guardião da Esperança podia ter aquela fachada séria e imponente, mas por trás dela ele era gentil, doce e tão, tão fofo. Coelhão parecia arrogante, mas Jack admitia que nunca tinha conhecido alguém mais generoso e amoroso em toda a sua vida – antes e depois de seus poderes. Na opinião de Jack, Coelhão era, entre eles, o que mais merecia sua posição como um Guardião.

Coelhão sorria daquele modo que fazia o coração de Jack pular uma batida – ou duas – mesmo com o sorriso sendo dirigido para os ovinhos e não pare ele. E quando suas orelhas tremeram, captando a aproximação do Espírito do Inverno, ele ergueu seu sorriso para o rapaz, seus olhos verdes pareciam brilhar.

Pela Lua, Jack adorava aquele Pooka.

“Bom dia.” Coelhão disse, mas ele soava distraído, focado mais em guiar os ovos na direção correta.

“Bom dia.” Jack sorriu. “Está na hora?”

“Está na hora.” Coelhão assentiu, suas orelhas balançando com o movimento. E seu sorriso era tão largo, iluminando seu rosto felpudo, que Jack sentiu um gelo confortável tomar suas bochechas.

Coelhão estava positivamente radiante.

Corretamente falando, não era o próprio Coelhão que escondia os ovos; com suas perninhas, os ovos podiam se esconder por conta própria, e tudo o que o Pooka tinha que fazer era supervisionar. Mas, é claro, que ele não podia deixar de esconder alguns ovos por si só de vez em quando – como quando uma criança não podia sair de casa para procurar pelos ovos, por qualquer motivo, e ele escondia alguns para serem encontrados em seus quartos ou pela casa.

Após o começo do relacionamento, Jack ganhou seu lugar naquele dia especial. Era fácil, tudo o que ele tinha que fazer era ficar de olho para ter certeza de que os ovinhos tinham se escondido certinho, prontos para serem encontrados pelas crianças.

Era um pouco entediante na opinião de Jack, mas quando ele pensava no quanto aquilo significava para Coelhão, e sempre que ele voltava para o Pooka, só para encontra-lo cansado, mas com um largo sorriso no rosto, ele sentia que valia a pena participar.

“Você quer ir para o oeste ou para o leste esse ano?” Jack perguntou de cima de um dos ovos sentinelas, observando os ovinhos sumirem pelos portais.

“Para onde você quer ir?” Coelhão perguntou.

“Oeste! Pra dar uma passada lá na casa do Jamie e da Sophie no caminho!” Jack sorriu, flutuando de volta ao chão.

“Então vamos para oeste.” Coelhão assentiu com um sorriso, ele esperou um último ovinho subir na cesta esperando a seu lado, e a ergueu em uma pata.

“‘Vamos’?” Jack perguntou, pegando sua própria cesta, também cheia de ovinhos.

“Sim, vamos juntos.” Coelhão assentiu novamente, começando a seguir atrás dos ovos.

Jack processou aquelas palavras enquanto acompanhava seu noivo, suas bochechas esfriando consideravelmente enquanto ele sorria.

“Faz tempo que a gente não vai aos mesmos lugares juntos.” Ele mencionou.

“É um problema?” Coelhão ergueu uma sobrancelha.

“Não, não.” O Espírito do Inverno riu, batendo o ombro contra o do Pooka. “Só não esperava por isso.” Ele disse, agarrando a pata de Coelhão na sua e o puxando. “Vamos! A Sophie vai ficar tão feliz de te ver!”

Graças aos portais mágicos do Pooka, tudo ficava muito mais fácil, e os dois começaram o trabalho que o Coelho da Páscoa já fazia há tantos anos.

Jack gostava disso, quando os dois trabalhavam juntos; ele nunca tinha pensado que iria gostar de trabalhar com outra pessoa ao seu lado, mas cá estava ele. Ele gostava de observar como Coelhão fazia as coisas, delicado com os ovinhos coloridos e sendo minucioso com todos os detalhes.

De acordo com Coelhão escolher o lugar para esconder os ovos era algo sério. Ele tinha que levar várias coisas em consideração: se o lugar era seguro para crianças, se o esconderijo era bom o bastante para oferecer uma busca mais intensa sem ser difícil demais, se a quantia de ovos era suficiente para o numero de crianças que vivia por ali, etc... Tudo o que Jack podia fazer era revirar os olhos, mas ao mesmo tempo, ele admirava como Coelhão pensava em todos aqueles detalhes para tornar aquele dia uma boa experiência para as crianças.

Jack sorriu quando os dois chegaram em Burgess, apostando corrida com o Pooka até a casa dos Bennett. Coelhão revirou os olhos, falando que “eles tinham coisas mais importantes para fazer do que apostar corrida”, mas Jack notou como ele apressou seus passos e pulos enquanto acompanhava o rapaz.

Sophie, como sempre, estava esperando por eles. Ela já tinha 11 anos de idade, mas era só ver o coelho da Páscoa, que era como se ela voltasse a ser uma criancinha, correndo e abraçando o Pooka enquanto gritava “Coelhinho! Coelhinho!”.

E Jamie também esperava pelos Guardiões, agora já um adolescente, mas ainda acreditando com todo o seu coração.

Jack tentava não pensar muito em como o tempo passava rápido e como aquelas crianças já não era mais crianças... Ainda assim, ele carregava em seu coração o fato de que aqueles dois nunca iriam deixar de acreditar, e isso já era o bastante para empurrar um pouco da melancolia deixada pelo tempo.

Jack acenou para os irmãos após deixarem com eles dois ovinhos especiais – pintados especialmente para eles pelo Pooka – e, com um sorriso, ele cutucou o Pooka com o cotovelo, notando que o fato de que Jamie ainda acreditava, mesmo naquela idade, tinha o afetado tanto quanto afetara o Espírito do Inverno. Coelhão só fez uma careta, mas seus olhos brilhavam, mesmo quando foram revirados com uma irritação falsa.

Os dois continuaram com o trabalho, ambos cobrindo vários campos de distância, mas nunca ficando muito longe um do outro. Jack conseguia sentir os olhos de Coelhão focados nele quando eles trabalhavam em áreas mais perto um do outro ou quando cruzavam o caminho, às vezes ele até se virou para encontrar o Pooka o observando. Ele acenou nas primeiras vezes, mas depois de um tempo tudo o que ele podia oferecer para seu noivo era um revirar de olhos.

Incomodado, Jack tentou se afastar mais de Coelhão, tentando se focar em supervisionar os ovos. Ele sabia que, fazendo isso, ele estava forçando o Pooka a escolher entre dar toda a sua atenção aos ovinhos ou ao rapaz; e ele sabia que, embora Coelhão gostasse dele, ele tinha que colocar sua missão em primeiro lugar – Jack não tinha problema com aquele pensamento, afinal a missão dos Guardiões era muito maior e mais importante do que eles próprios.

Depois de manter uma grande distância entre eles, Jack notou a mudança na expressão do Pooka cada vez que cruzavam caminho. Coelhão o lançou um olhar irritado, mas não havia fogo por trás de seus olhos verdes, ao contrário, ele parecia mais aliviado do que qualquer outra coisa quando via o rapaz; antes de franzir o senho novamente cada vez que Jack o lançava um beijinho.

Era como se Coelhão quisesse manter Jack sempre em seu radar, sempre perto... Ah. A bochechas de Jack ficaram azuis e ele revirou os olhos com uma risada contente ao entender o que se passava na cabeça de seu companheiro.

Jack ficou perto após eles pularem por um túnel que os levou de um continente para outro.

“Ah, entendi agora...” Ele mencionou.

“O que?” Coelhão desviou os olhos dos ovinhos que se escondiam entre as moitas.

“Você só quer ficar de olho em mim, não é?” Jack sorriu, se inclinado com o cajado em mãos.

Os bigodes do coelho tremeram e ele voltou a atenção para os ovos novamente antes de dar de ombros. Jack sabia que, se o outro fosse humano, ele estaria corando. Aquilo só serviu como confirmação.

“Bobo~” Jack cantarolou, virando de ponta cabeça no ar e ficando cara a cara com o Pooka, que só o encarou com a expressão de alguém que já estava bem acostumado com as peripécias do rapaz. Ele assoprou um ar gelado contra o focinho do outro. “Preocupadão~”

“Cale-se.” Coelhão resmungou, girando o braço no ar como que para atingir o rapaz, mas Jack desviou com facilidade, rindo alto.

“Desse jeito vai demorar mais pra gente esconder os ovos...” Ele mencionou, ajudando um ovinho a pular um pequeno morrinho com seu cajado.

“Eu sempre fiz tudo sozinho até alguns anos atrás sem problema algum.” O Guardião da Esperança disse simplesmente. “Se eu demorar, a culpa é sua.”

“Uhum, sei.” Jack revirou os olhos. “Eu estou grávido, não invalido.”

Coelhão riu baixinho e Jack teve de sorrir.

Os dois continuaram o trabalho sem problema algum, embora Jack não pudesse deixar de jogar uma bola de neve na direção do Pooka de vez em quando, ou de assoprar um vento frio na direção dele, só pra mexer com ele. Coelhão reclamou múltiplas vezes, tentando empurrar o rapaz de onde ele estava empoleirado, mas sem realmente ter força por trás de seus empurrões.

Mas Coelhão não o culpava. Jack era o Guardião da Diversão no final das contas. E o Pooka tinha que admitir que estava se divertindo.

“Ei...” Coelhão ergueu as orelhas quando Jack se pronunciou novamente, quando eles já estavam terminando o trabalho naquele continente. “Quando o bebê nascer. O que acontece então?”

“Como assim?” O Pooka perguntou.

“Com a Páscoa?” Jack deu de ombros.

“Qual o problema?” Ele ainda não entendeu o que o rapaz estava querendo dizer.

“Nós vamos trazer o bebê com a gente?”

Ah.

Coelhão desviou os olhos dos ovos que estava ajudando a se esconder em uma das moitas. Jack o encarava do topo de uma árvore velha, virando a cabeça para o lado; sua silhueta contra o céu lhe dava a aparência similar ao de uma coruja curiosa.

Ele tentou processar o que se passava por trás daqueles olhos azuis, mas tudo o que conseguia encontrar era curiosidade.

“... Sim? Por que não?”

“Não, não é como se fosse um problema!” Jack foi rápido em dizer, descendo do galho em que estava empoleirado, se segurando a ele com a ponta curva do cajado e se balançando. “Eu só estava pensando...” Ele deu de ombros, sorrindo para o outro um sorriso torto, mas quase inocente em aparência. “É bom ensinar desde pequeno, né?”

Coelhão teve de sorrir em resposta. Ele adorava quando Jack olhava para ele daquele modo.

“É...”

Jack desviou os olhos, brincando com o cajado com os dedos, e Coelhão já conhecia aquela expressão vaga no rosto do rapaz, mostrando que ele estava pensando, possivelmente imaginando coisas...

“Haha, o Coelho da Páscoa saltitando por aí com um mini coelhinho em sua cola, escondendo ovinhos.” Jack riu, puxando o cajado e pousando na grama rala na ponta dos pés. Coelhão viu que seus olhos azuis brilhavam, como a luz do sol refletindo na neve caída. “Legal.”

“É...” Ele assentiu.

Mas em sua mente, ao invés de ser só ele, com um coelhinho o acompanhando, Jack também estava lá, brincando e distraindo o pequeno enquanto Coelhão tentava trabalhar. Ele sentiu seu peito aquecer.

“O que foi?” A voz de Jack o tirou de seus pensamentos e Coelhão ergueu uma sobrancelha, notando que as bochechas do rapaz estavam um pouco azuladas. “Você anda ficando com essa cara de bobo mais vezes ultimamente...”

“Nada.” Coelhão disse simplesmente, voltando sua atenção para os ovos mais uma vez.

Jack riu, mas deixou aquilo de lado. Não era como se ele não gostasse do modo que Coelhão olhava pra ele, muito pelo contrário; o modo como aqueles olhos verdes o encaravam de modo gentil, completamente apaixonado, sempre mexia com ele.

“Ah! E no inverno eu posso levar ele comigo pra brincar na neve!” Ele disse com um sorriso, notando um pouco de gelo subindo por seu cajado.

“Não todos os dias.” Coelhão mencionou, seu tom um pouco mais sério que antes.

“É claro que não!” Jack revirou os olhos. “Mas de vez em quando sim.” Ele balançou a cabeça, inclinando contra a parede de uma casa enquanto Coelhão escondia alguns ovos no jardim. “De qual você acha que ele vai gostar mais, hm? Sabe, nossos trabalhos?”

Coelhão soltou um som que parecia um misto de risada e bufado.

“Que pergunta.”

“É claro, claro.” Jack assentiu de modo solene, girando no ar e pousando ao lado do Pooka. “Inverno.”

“Como é?” Coelhão se voltou para o rapaz, uma sobrancelha erguida. “A Páscoa com certeza vai ser a favorita.”

“E posso saber por que?” Jack inclinou a cabeça para o lado, as mãos nos bolsos, com um ar de moleque irritante que ele sabia afetava o outro mais do que ele queria admitir. Mas tudo o que Coelhão fez foi revirar os olhos, dando-lhe as costas. “Durante o inverno nós temos neve! E tantas brincadeiras pra aproveitar a estação!”

“Sim.” O Guardião maior concedeu.

“Enquanto a Páscoa é só um dia.”

“Exatamente por isso, meu querido.” E, dizendo isso, Coelhão se voltou para o garoto mais uma vez, as patas na cintura e encarando o outro com um sorriso torto, satisfeito em ver a reação que conseguia dele com apenas aquilo. “Inverno dura por meses. A Páscoa é só um dia.” E, dizendo isso, ele tirou um dos ovos da cesta que carregava, o estendendo para Jack como se fosse um presente. “Para crianças, a antecipação até esse dia é quase tão boa quanto o dia em si.”

“Uhum, sei...” Jack murmurou, tentando desviar o rosto para que o outro não visse o quão azul suas bochechas tinham ficado. Ele tomou o ovo em suas mãos com delicadeza, antes de se abaixar e esconder o ovinho em baixo da escadaria que levava para o jardim.

“E no final eles conseguem chocolate.” Coelhão continuou falando.

“Hm...” Jack inclinou a cabeça. “Durante o inverno tem chocolate quente~”

“Qualquer um pode tomar chocolate quente quando bem quiser.” O Pooka deu de ombros.

“E qualquer um pode comprar barras de chocolate quando bem quiser!” O Espírito do Inverno retrucou.

Mas ambos estavam rindo.

-G-

Quando Jack acordou, ele se sentiu... Desorientado...

Ele se sentia quente e seu corpo estava molhado de suor – algo que ele não gostava muito –, mas era de se esperar.

Ele piscou uma ou duas vezes, aos poucos voltando para o mundo acordado e aos poucos reorientando sua mente. E ele notou que estava envolto por algo bem quente e felpudo, que se movia lentamente num ritmo confortável; ele ouviu a batida rítmica de um coração contra seu ouvido.

Jack sorriu, erguendo a cabeça para ver melhor o seu noivo.

Coelhão estava totalmente apagado para o mundo, a expressão relaxada, embora seu focinho e seus bigodes tremessem de vez em quando, e Jack sabia que ele iria continuar assim até daqui alguns dias. E por mais que Jack quisesse ficar abraçado e aconchegado com o Pooka, ele tinha outras coisas para fazer.

Com uma facilidade adquirida graças às outras vezes que ele teve de fazer o mesmo, o Espírito do Inverno deslizou para fora do abraço do Pooka, se sentando na ponta do ninho e se esticando; todas as partes de seu corpo pareciam rígidas e se mover doía um pouco, tanto que quando suas costas soltou um alto estalo, Jack gemeu baixinho e ele não sabia se era de prazer ou de dor.

Ele se voltou para Coelhão mais uma vez, o encontrando ainda na mesma posição de antes, seus braços agora envolvendo o vazio deixado pelo rapaz. Por um momento ele ficou ali, admirando seu noivo.

Jack adorava ficar vendo Coelhão dormir, ele não sabia por que, talvez só porque ele parecia fofo, completamente relaxado entre seus travesseiros; talvez fosse o focinho e os bigodes que as vezes tremiam e remexiam, ou as orelhas que faziam o mesmo; ou talvez fosse o modo como as vezes os lábios dele acabavam entreabertos, revelando um pouco os incisivos grandes, fazendo Jack pensar em como é senti-los contra sua pele, sua própria boca...

Jack sentiu gelo tomar conta de suas bochechas e balançou a cabeça.

Ele se inclinou, pressionando um beijinho contra a testa de Coelhão e esse nem reagiu – a não ser que a leve vibração em uma de suas orelhas fosse uma reação aos lábios gelados do rapaz.

Jack foi ao banheiro primeiro, antes de se dirigir à cozinha.

No caminho ele passou pelo relógio que ficava no corredor entre o quarto e a cozinha. Era uma beleza de relógio, que não se parecia em nada com o que um relógio normal deveria parecer. Era enorme, circular e com detalhes intrincados, mostrando não horas, mas o movimento dos planetas ao redor do sol e várias constelações, entre elas algumas desconhecidas para humanos.

Jack não tinha entendido como Coelhão conseguia entender aquilo, saber que horas eram a partir do pequeno circulo que representava a Terra, mas ele tinha aprendido um pouco como identificar pelo menos quando era dia ou noite no lado de fora da Toca mágica.

E, graças a isso, Jack podia afirmar que tinha dormido por cerca de vinte e duas horas, mais ou menos. Não era de se admirar que ele estava cansado e com fome.

Era de se esperar, a Páscoa podia ser um dia de diversão e festa para as crianças, mas era um dia de muito trabalho para o Coelho da Páscoa. E como Jack tinha se juntado a ele, era de se esperar que ambos se sentiriam praticamente esgotados.

E ele notou como, no mundo lá fora, era noite. Jack gostava da noite.

Ele preparou um jantar rápido, feliz em lembrar que Coelhão tinha preparado algumas coisas para ele antes do grande dia, sabendo que, com o apetite que ele tinha hoje em dia, era bom ter algumas coisas prontas.

Enquanto comia, Jack desviou a mão para a barriga. Ela ainda estava pequena, nada mais que uma curvatura de nada que era facilmente escondida por sua jaqueta azul. Às vezes era até fácil para ele esquecer que estava grávido...

Ele pensou na conversa que tinha tido com Coelhão, sobre dividir seu trabalho, sua missão, com seu filhote, e sorriu. Ele sabia que criar uma criança não era só um mar de rosas, ele sabia que aquilo era coisa séria, mas só pensar naqueles momentos especiais fazia ele sentir que tudo devia valer a pena, não é?

E só pensar em Coelhão sendo um pai...

De vez em quando Jack pensava nas coisas que Coelhão tinha contado, sobre sua vida antes dos Guardiões, antes mesmo de Breu. Ele imaginou Coelhão com seus filhotes, doze deles. Ele se lembrava do modo como o Pooka tinha interagido e cuidado de Sophie, como ele a acalentou em seus braços quando ela dormiu, e só agora Jack notou como ele nunca tinha se perguntando por que tudo tinha parecido tão instintivo para Coelhão, como se ele já tinha feito aquilo várias vezes antes. O fato era que ele tinha. Mas, depois de tanto tempo, ele precisou de uma ajudazinha para se deixar relaxar ao redor de Sophie...

Era claro que os outros Guardiões sabiam um pouco sobre a história de Coelhão, mas Jack sentia que ele era o primeiro a ter ouvido mais sobre sua vida, sua família, seus momentos mais íntimos, diretamente do Pooka. Por milhares de anos, Coelhão tinha se fechado, mantido tudo aquilo só para si mesmo... Só para dividir aquilo com Jack, um jovem Espírito de Inverno, a quem ele só tinha desprezo cerca de sete anos atrás...

Jack se sentia honrado.

E ainda assim seu coração doía um pouco em pensar naquilo tudo.

Jack não tinha dúvidas de que Coelhão tinha sido um ótimo pai, e ele sabia que, mesmo depois de tanto tempo, ele iria continuar sendo assim.

Sua barriga teve um reboliço.

“É, eu sei...” Ele murmurou com um sorriso, embora soubesse que era bobagem. O filhote era pequeno demais ainda para ele sentir qualquer coisa, aquilo provavelmente era só seu estômago respondendo à comida depois de tantas horas vazio. Ainda assim, era engraçado imaginar que era o filhote reagindo àquele pensamento.

Jack desviou os olhos para o corredor, sem poder ver o quarto, mas ele sabia que Coelhão ainda dormia.

E era noite. Jack gostava da noite. E ele precisava limpar a cabeça um pouco.

Ele se levantou, deixando os pratos de lado e decidindo que podia lavar a louça uma outra hora. Sua barriga virou novamente.

“Ei, calminha aí. Eu fiquei parado por muito tempo, eu sei, tá?” Jack riu, pegando seu cajado e se esticando mais uma vez. “Eu espero que você seja bem calminho quanto estiver crescido, valeu?” Ele disse, como se esperasse alguma resposta, mas só balançou a cabeça com mais uma risada.

Só para ter certeza de que Coelhão não iria se preocupar – embora ele soubesse que o Pooka não iria acordar logo – ele deixou uma nota na mesa, ao lado de uma cenoura por que ele gosta de ser irritante. E finalmente ele flutuou para fora da casa de pedra.

Um portal o levou para fora da Toca e Jack respirou fundo, sentindo o ar do mundo de fora. Havia algo de diferente entre o ar de fora e dentro da Toca, mas o rapaz nunca conseguia entender o que era.

Com a ajuda do vento, ele subiu até o topo de um dos Moai, desviando os olhos para a lua brilhante acima dele. Ele sorriu, acenando, sabendo que o Homem da Lua podia ver.

Jack se lançou no ar, deixando que o vento o levasse para além da Ilha de Páscoa, rindo ao se ver tão perto do céu e tão longe da terra lá em baixo. Isso, sim, era o que ele adorava!

Coelhão não gostava de voar, mas isso não impedia Jack de tentar levantar o Pooka no ar, rindo enquanto o outro gritava insultos e ameaças até ser devolvido ao chão.

No ar, Jack se sentia livre, capaz de tudo.

E por um momento ele se perguntou se seu filhote iria gostar daquilo também... Ele esperava que sim.

Jack pousou no topo de uma torre de igreja, se encarapitando no topo como Homem-Aranha e examinando a cidade adormecida, iluminada apenas pelos postes de rua.

Até que outra luz, uma luz dourada e familiar, cortou a escuridão.

Jack sorriu, correndo atrás da luz.

“Ei, Sandy!”

Sandy pulou em sua nuvem e se virou, claramente pego de surpresa. Ele sorriu, acenando para o rapaz, deixando que alguns tentáculos de areia se esticassem até Jack, servindo de passarela para o rapaz se aproximar com mais facilidade.

Jack envolveu a força roliça do homenzinho com seus braços, o apertando, e recebendo um outro aperto – ainda mais forte! – em resposta. Se tinha uma coisa que Jack adorava – e não tinha vergonha de admitir à esse ponto – eram abraços e, depois de Coelhão, ele acreditava que não havia ninguém melhor para se abraçar nesse mundo que Sandman.

“Que bom te ver!” Jack sorriu quando os dois se afastaram.

Sandy continuou sorrindo, fazendo imagens aparecerem em cima de sua cabeça. Um ovo e um ponto de interrogação.

“É, né, tudo aconteceu direitinho!” Jack disse e, embora ele tivesse visto Coelhão apenas algumas horas atrás, ele sentiu seu coração saltar ao pensar no seu noivo, relembrando seu trabalho alguns dias atrás. “Ah, Sandy, você tem que ver como o Coelhão fica nesse dia... Adorável!”

O homenzinho riu sem som algum, balançando a cabeça com aquelas palavras, e perguntando pelo Pooka.

“Tá descansando agora. E acho que ele vai ficar lá no ninho até o próximo fim de semana.” Jack riu. “Ele não me deixou ajudar do mesmo modo que eu ajudo todo ano por que eu estou grávido. Bobo...”

Sandy assentiu, desviando o olhar para a barriga de Jack, sem precisar mostrar imagem alguma para transmitir o que estava perguntando ao rapaz.

“Ah, tá tudo bem.” Jack disse. Ainda era um pouco estranho quando as pessoas perguntavam sobre aquilo e ele se sentiu puxando a jaqueta um pouco para baixo, como que para se cobrir melhor. “Até agora nada demais.”

Pelo jeito o Guardião dos Sonhos notou aquilo, porque sua próxima pergunta não se focava totalmente no rapaz e como ele se sentia, mas em outra coisa que ele tinha ouvido falar há alguns dias.

Os olhos de Jack brilharam e Sandy sorriu.

“Sim! Sandy, você devia estar lá! Tipo, tá, ele não passa de uma coisinha sem forma, mas a gente pôde ver!” Jack disse. “É, no Polo Norte. Mas o Coelhão também fez alguma coisa com a mágica dele e tudo o mais...” Ele se lembrou de como tinha pedido para Coelhão fazer aquilo de novo alguns dias atrás e como o Pooka concordou, mesmo que revirando os olhos. “Pena que você não estava lá. Mas você soube que o Norte e a Denti vão ter gêmeos, não soube?”

Sandman assentiu, fazendo alguns símbolos rápidos e animados sobre como tinha ouvido a mensagem de uma das fadinhas de Dentiana quando ele se esbarrou com elas uma noite. E logo em seguida ele começou a explicar que tinha andado um tanto ocupado esses últimos dias, mas quem sabe um outro dia, quando for a hora para outro ultrassom ele estaria lá.

“Ah, bom, é... Mas não é como se você tivesse perdido muita coisa. Eles são umas coisinhas de nada.” Jack deu de ombros, mostrando o tamanho com os dedos, o que fez o outro rir. “Mas é meio estranho que a gente não cruzou caminho durante todos esses dias. Você está tão ocupado assim?”

Jack tinha que admitir que uma das coisas que ele mais adorava sobre voar de noite era se encontrar com Sandman. Sandy tinha sido um dos primeiros à dar atenção para Jack, mesmo que pouco, já que o garoto não tinha muito jeito para socialização na época, o que colocou o homenzinho de areia em um lugar especial no coração do garoto. Era até estranho passar por uma cidade de noite e não o encontrar no caminho...

Com aquelas palavras, Jack notou como as bochechas de Sandman pareciam ter ficado levemente escuras, um laranja forte que contrastava um pouco com sua pele dourada. Em resposta, Sandy balançou a cabeça, fazendo sinais de areia que diziam de modo entrecortado que ele andava ocupado, não só com sua missão, mas também dormindo em sua ilha de areia do sono.

Jack quis dizer alguma coisa. Ele sentia que o Guardião dos Sonhos não estava lhe contando, mas decidiu que talvez não fosse de sua conta.

“Uhum, sei...” Ele murmurou mesmo assim e as bochechas de Sandy ficaram ainda mais escuras. Contente com aquela reação, ele decidiu deixar o homenzinho em paz. “Aliás, eu queria te perguntar...” Sandy se voltou para ele, ainda parecendo um pouco nervoso a julgar pelo modo que brincava com seus dedos. Jack sentiu seu rosto gelar um pouco ao pensar no que ia perguntar. “O que bebês sonham? Tipo, dentro da barriga, quando eles estão grandes, eles sonham também, né?”

Sandman sorriu, pelo jeito feliz com a mudança de tema. Ele explicou calmamente que sim, bebês sonham, até mesmo dentro da barriga, mas como eles não tinham visto nada do mundo ainda, tudo o que normalmente aparecia em seus sonhos eram formas sem sentido.

Jack ouviu com atenção enquanto Sandy contava que ele já viu várias vezes o sonho de bebês conterem apenas a voz dos pais, as palavras soando sempre abafadas e sem fazer sentido algum, até mesmo para alguém que conhecesse a língua.

Jack não pôde deixar de rir. Ele nunca tinha ligado muito para sua voz, ele a achava boa, mas não lá grande coisa, enquanto isso a voz de Coelhão... Uff, a voz de Coelhão sempre mexia com ele. Ele não se surpreenderia caso o filhote acabasse adorando a voz do pai tanto quanto ele adorava.

“É, isso faz sentido.” Jack assentiu e então um pensamento diferente passou por sua mente, afastando a alegria dos pensamentos anteriores em apenas um instante. “Mas e... Pesadelos...? Eles podem ter também?”

Uma pausa.

Jack voltou os olhos para Sandy. O homenzinho suspirou, parecendo desconfortável, mas Jack não podia culpa-lo.

E então Sandy assentiu e Jack sentiu seu peito doer um pouco, ele não sabia realmente o porquê, um misto de medo ou então preocupação tomando o lugar da alegria de antes, junto com muito mais do que uma pitada de raiva. É claro que Breu faria algo tão diabólico quanto dar pesadelos à bebês, o que esperar do Bicho-Papão?

Sandman explicou com seus símbolos que, assim como sonhos, os pesadelos de bebês não são feitos de nada material. Eles não representam o medo de alguma coisa, mas sim o medo em si. Afinal, bebês não conhecem o mundo e as coisas nele, sejam elas boas ou ruins.

“O próprio medo...” Jack se sentiu desconfortável com aquelas palavras.

Mas então Sandy sorriu, fazendo um sinal com a mão para ter a atenção do rapaz de volta nele. Ele encheu seu peito, batendo nele com um punho pequeno, mostrando sem palavras para Jack que ele não ia permitir que Breu incomodasse seu bebê.

Jack teve de sorrir, por que ele sabia que podia confiar no Guardião dos Sonhos.

“Valeu, Sandy. Você é demais.”

Sandy balançou a mão como se dizendo que “não era nada demais” e inclinou a cabeça para o lado, erguendo as sobrancelhas enquanto a imagem de sinos tocando surgiu acima de sua cabeça, seguido pelo que parecia ser Jack e Coelhão de mão dadas.

“Ah, a gente ainda tá ajeitando as coisas pro casamento...” O Espírito do Inverno disse, feliz com a mudança de tema. “Eu nem sei bem como é que... Um casamento de Papoff Noelen é... Talvez eu devesse dar uma olhada na biblioteca do Coelhão...” Ele pensa um pouco. “Você sabe?”

Sandy encolheu os ombros.

“Ah, tá bem, então estamos ambos no escuro.” Os dois riram. “Aliás, eu queria perguntar uma coisa...” Sandman se inclinou para frente, dizendo sem palavras que estava ouvindo. “Tipo, eu não sei bem, se é algo que faz parte desse tipo de casamento. Ou se isso sequer importa.”

Jack parou, de repente sem jeito, seu rosto congelando consideravelmente. Sandy educadamente esperou, inclinando a cabeça para o lado e fazendo um gesto simples com a mão, como que dizendo para o rapaz “sem pressa”.

Jack sorriu, era incrível como o Guardião conseguia o fazer se sentir melhor com algo tão simples quanto aquilo. Ele suspirou.

“O caso é que, antes de tudo isso, de eu virar um Guardião, você foi um dos únicos Guardiões que realmente... Sempre deu tempo pra mim.” Jack começou a contar e a expressão de Sandy se suavizou com um sorriso. O garoto ignorou o azul em suas bochechas. “Mesmo que pouco, por que você é um dos mais atarefados entre a gente, né?” Ele sorriu e o Guardião dos Sonhos riu sem som algum, erguendo o polegar. “Eu só queria dizer obrigado. E...” Jack respirou fundo mais uma vez. “Eu queria perguntar se você quer... Sabe, ser o padrinho dessa coisinha aqui?”

Os olhos dourados, quase laranjas, de Sandy piscaram uma ou duas vezes.

“Isso não quer dizer que você precisa fazer alguma coisa!” Jack disse rapidamente. “Tipo, eu sei que existe essa ideia de que... Os padrinhos e madrinhas são um segundo par de pais para as crianças. Não.” Ele desviou o olhar, dando de ombros. “A não ser se você quiser, é claro... Eu só acho que... Você merece ter esse... Sabe, esse reconhecimento.” E sorriu para o homenzinho de areia. “Você é um grande amigo, Sandy, é isso que eu quero dizer...”

Sandman abriu a boca, como se fosse falar alguma coisa, mas então fechou, sorrindo e balançando a cabeça de modo gentil. E antes que Jack pudesse pensar que aquilo significava um “não”, uma mão pequena e dourada pousou sobre a sua, e Sandy assentiu.

“Obrigado, Sandy.” Jack sorriu, envolvendo Sandy em mais um abraço que foi retribuído com o mesmo ardor de antes.

E por um momento Jack se lembrou das vezes que tinha acompanhado o Guardião dos Sonhos, sempre mantendo distância, sem saber o que o outro pensaria dele, a julgar pelo modo como os outros Guardiões tinham reagido com ele – ele nunca tinha conhecido o Papai Noel de perto, nem as Fadinhas nem a própria Fada dos Dentes não pareciam ter tempo para ele e Coelhão... Bem...

E agora cá estava ele, com todas aquelas pessoas sendo uma parte tão importante de sua vida.

Uma família.

Que logo iria crescer ainda mais...