Notas iniciais
Oie de novo! Mais um cap para vocês! Espero que gostem! ^^ — EDIT: 02/07/2023 - CAPÍTULO REESCRITO!

“Ugh... Eu odeio isso...” Jack murmurou ao terminar de escovar os dentes.

“Vai passar o café da manhã, então?” Coelhão perguntou da porta do banheiro.

“Hoje sim.” O rapaz reclamou.

“Você está bem?” Coelhão soava genuinamente preocupado.

“Sim, nada fora do normal. Só o típico vomito matinal, você sabe, Coelhão, parte da rotina.” Jack fez piada, acompanhando o coelho para fora do casarão de pedra. “Eu passo o café, mas então é melhor fazer algo muito bom para o almoço, tá me ouvindo?”

Coelhão revirou os olhos, mas riu, afagando o cabelo do rapaz, que se inclinou contra o toque. Os dois desceram as colinas, se sentando na relva verde, ao lado do rio colorido para continuar o trabalho com os ovos de Páscoa. Já tinha se tornado costumeiro para os dois fazerem aquilo juntos, normalmente em silêncio, ambos se focando no trabalho que tinham que fazer, mas com o silêncio sendo ocasionalmente interrompido por comentários, conversas curtas e piadas. A esse ponto Coelhão já estava tão acostumado, que ele se perguntava como tinha conseguido passar tantos séculos fazendo aquilo sozinho.

Ele sorriu para o rapaz, o estudando com os olhos.

Era cedo, Jack ainda não estava com barriga, mas ainda assim Coelhão pôde notar algumas mudanças no modo como o rapaz se movia. Ele continuava sendo o moleque agitado de sempre, mas havia uma sutileza nova em como ele fazia as coisas, e Coelhão tinha quase certeza de que Jack nem sequer tinha notado aquela mudança, como se fosse algo mais instintiva ou subconsciente.

O cheiro conhecido do rapaz também tinha mudado, não muito, mas o bastante para o focinho potente de Coelhão sentir. Havia uma doçura mais potente em seu cheiro típico de baunilha e gelo, quase intoxicante; fazia o Pooka querer envolve-lo em seus braços e nunca mais soltar.

Demorou um pouco para Coelhão notar que dois olhos azuis e brilhantes tinham se voltado para ele.

“O que foi?” Jack sorriu.

“Nada.” Coelhão balançou a cabeça, desviando os olhos de volta para os ovinhos que pintava.

“Bobo.” Jack riu baixinho e Coelhão teve de sorrir.

Eles continuaram trabalhando.

-G-

Coelhão parou enquanto guiava o novo grupo de ovos recém pintados na direção das campinas mais baixas. Suas orelhas enormes ergueram, captando alguma coisa que Jack não conseguia ouvir com suas orelhas de humano.

Mas antes que Jack pudesse perguntar o que era, Coelhão soltou um som baixo.

“Você tem visita.” Ele disse, voltando a atenção para os ovos novamente.

“O que?” Jack começou e ouviu o reconhecível som de vento.

Em instantes, passando por uma passagem de entrada para a Toca, o Espírito da Primavera flutuou até o casal, pousando gentilmente na relva verde.

“Olá, meus queridos!” Ela sorriu.

“Ah, oi, Bloom.” Jack sorriu para a garota, enquanto Coelhão simplesmente acenou com uma pata.

O sorriso de Bloom caiu por um momento, se transformando em um bico.

“Hum... Sua escolha em fashion continua questionável como sempre, não é?” Ela apontou para a camisa do outro espírito, a olhando de maneira desgostosa, mas brincalhona.

Jack riu, puxando a camisa azulada que tinha ganho de Cadance no natal passado que dizia “Snow Rulez”, não era de se admirar que o espírito da primavera não gostaria muito dela.

“Melhor do que andar de camisola todo santo dia.” Ele retrucou.

O rosto rosado de Bloom ganhou um tom mais avermelhado.

“É um vestido e você sabe!” Ela bufou, cruzando os braços, embora Jack soubesse que ela não estava realmente ofendida. “Nossa, eu vim aqui contar que a costureira que eu prometi ia fazer sua roupa de casamento finalmente acordou e é assim que você me trata?”

Jack piscou, processando a informação.

“Ah, ela acordou?” Ele murmurou. Já tinha se esquecido disso, mas assim que a novidade sobre o casamento se espalhou, Bloom tinha se oferecido para ir atrás de uma costureira em especial para fazer a roupa de casamento dele.

Ele disse que ela não precisava fazer aquilo, ele podia só pedir para os Iétis de Norte ajudarem com aquilo – um deles, Stewart, já tinha sido gentil o bastante para costurar alguns remendos em sua roupa de vez em quando, e, mesmo com aquelas mãos enormes, ele conseguia costurar coisas com pura perfeição!

Ainda assim, Bloom insistiu, afirmando que conhecia a pessoa perfeita para o trabalho, mas ela também avisou que, durante aquele tempo, essa tal costureira estava em hibernação. Jack se perguntou o que aquilo queria dizer e que tipo de criatura ela devia ser.

“Sim. Ela está esperando você para tirar suas medidas e tudo o mais.” Bloom sorriu, lançando um olhar na direção de Coelhão e dos ovos. “Você está livre?”

Jack imitou o movimento e o Pooka se virou para os espíritos.

“Vai.” Ele disse simplesmente, sorrindo torto. “Mal posso esperar para ver o vestido que ela vai fazer.”

Jack sentiu seu rosto ficar mais frio.

“Eu não vou usar um vestido!” Ele reclamou, mas tudo o que os outros fizeram foi rir.

Revirando os olhos, Jack falou para Bloom ir na frente e, ao se lançar no ar, ele teve certeza de jogar uma rajada de ar gelado na direção do Pooka.

-G-

Mesmo com o vento frio jogado em sua cara, Coelhão foi gentil o bastante para abrir um túnel para eles, os permitindo sair para o ar confortavelmente frio da Escócia.

“Você nunca visitou minha casa, não é?” Bloom perguntou enquanto os dois voavam junto ao vento.

“Você tem casa?” Jack sorriu torto.

“Diz o garoto que viveu num galho de árvore por trezentos anos!” Bloom revirou os olhos.

“Golpe baixo.” Jack murmurou, mas riu, girando o cajado, criando uma rajada de ar que jogou a garota para o alto.

Os dois brincaram no ar, desviando um do cajado do outro e das rajadas de ar – fria vindo do rapaz e quente vindo da garota – mas sem nunca se afastar da direção em que estavam seguindo.

Aos poucos eles se afastaram mais e mais das cidades grandes e das áreas mais populosas, até que o que mais havia embaixo de seus pés eram os galhos de árvore ao invés do teto de casas ou torres e fios de energia.

Bloom sorriu para o amigo e desceu por entre os galhos, os dois se balançando entre eles com a ajuda de seus cajados – Jack com mais facilidade, uma vez que seu cajado tinha o formato de um gancho. Eles continuaram entrando mais e mais na floresta, as árvores ficando cada vez mais próximas umas das outras.

Jack pôde sentir algo passar por seu corpo enquanto ele seguia o outro espírito, reconhecendo a energia de uma magia forte e antiga, parecida com a que ele sentia quando atravessava um dos portais dos globos de neve de Norte.

Eles chegaram a uma gruta, coberta por uma cortina natural de plantas. Bloom foi a primeira a entrar, fazendo sinal para o rapaz a acompanhar. Jack fez como indicado, finalmente vendo o que tinha do outro lado.

Uma enorme árvore no centro, cujos galhos e folhas cobriam um jardim extenso, como um grande dossel verde. A grama era verde e reluzente, coberta de flores de todos os tamanhos e cores, todas de algum modo convivendo em harmonia, mesmo com algumas sendo originais de lugares exóticos. Similarmente, árvores de todo canto do mundo enfeitavam o lugar, rondando um córrego de água cristalina.

“Uau.” Foi só o que Jack conseguiu dizer. Era exatamente o que ele esperava para um espírito da primavera.

“Lindo, não?” Bloom sorriu.

“Logo eu vou acabar vomitando arco-íris.” Jack mencionou.

“Vou tomar como um elogio.” A garota deu de ombros, seguindo a direção do rio até uma casinha, construída em um estilo antigo, pintada em branco e rosa. Ela abriu a porta enfeitada com flores. “Entre, por favor!”

Jack fez como oferecido, entrando em uma sala rosa coberta de flores. Ele tentou não torcer o nariz. Aquilo já era demais.

Ele parou.

À sua frente estava uma sala simples, com dois sofás de design vintage e, sentado em um deles, estava uma mulher. Jack nunca tinha a visto antes e não demorou em aceitar que essa devia ser a tal costureira que Bloom tinha mencionado.

Era uma mulher oriental, usando um kimono de cor escura e com os cabelos negros presos em um coque típico japonês. Ela encarou o guardião da diversão em silêncio por um momento, seu rosto sem expressão, mas com olhos poderosos, sem íris, apenas negros.

“Olá, Jack.” Ela se levantou e se curvou de modo educado. “É um prazer conhece-lo.”

“Oi...” Jack imitou o movimento, um pouco desconfortável com o modo que ela o encarava.

Bloom passou por Jack, parando ao lado da mulher e entrelaçando um braço com o dela como se elas fossem super amigas, ou talvez um casal. Jack notou como os lábios da outra se ergueram levemente com aquele gesto.

“Jack, essa é Saori, a Jorogumo e uma amiga minha!” Bloom a apresentou, um brilho em seus olhos. “Eu a chamei aqui porque ela é uma das melhores estilistas do mundo inteiro! E você merece só o melhor para o seu casamento!”

“Ah, claro...” Jack assentiu, ainda se sentindo desconfortável, principalmente ao saber que uma Jorogumo estava ali para fazer roupas para ele. “Digo, obrigado, por fazer isso...”

Saori sorriu dessa vez, um sorriso que deixava o rapaz se sentindo estranho.

“Por favor.” Ela disse, sua voz ainda suave, gentil, e desenrolou uma fita métrica que levavam na palma de sua mão. “Deixe-me tirar suas medidas.”

Jack assentiu, sem jeito. Ele deixou seu cajado de lado – mas ainda perto o bastante – enquanto Saori o media. O toque da mulher, mesmo por cima de sua roupa era frio e, embora Jack não se importasse com aquilo em uma situação normal, o toque dela era diferente. Mas era de se esperar, sendo que ela era uma Jorogumo.

“Alguma coisa especifica em mente?” Saori perguntou.

“Ah, acho que não.” Jack deu de ombros. “Só um terno clássico.”

“Que tal a ideia do vestido...?” Bloom perguntou, se inclinando sobre seu sofá.

Jack a lançou um olhar desgostoso.

“Não! Nada de vestido!” Ele disse rapidamente, seu rosto ficando azul.

“Tem certeza?” Saori perguntou, seu rosto a centímetros de distância do garoto, o que quase o fez pular para longe. Ela o examinou com os olhos, que pareciam menos potentes assim de perto, se é que isso fazia sentido. “Com o seu físico... Eu poderia fazer um vestido ficar muito bem em você.”

Jack se sentiu um tanto exposto em baixo do olhar da aranha.

“Não, não! Obrigado!” Ele disse rapidamente. “Terno e gravata!” Ele adicionou de modo decisivo. “Como eu disse, no máximo eu uso um véu, mas é só!”

“Chaaato...” Bloom reclamou e Jack mostrou a língua para ele.

“Cor?”

“O que?”

“Alguma cor em especial que prefira usar?” Saori perguntou ainda calma, ignorando o modo como os dois espíritos agiam como crianças.

“Eu não sei...” Jack murmurou. Ele não tinha pensado naquilo. Ternos normalmente eram pretos então ele tinha aceito que ia se casar de preto, mas agora ele se tocou que podia usar outras cores, uma vez que a roupa estava sendo feita especialmente para ele. “Talvez azul? Ou branco. São as cores que eu mais gosto...”

Bloom quase pulou do sofá.

“Ah! Branco! Sim! Perfeito!” Ela bateu palminhas como uma criança animada em seu aniversário. “Já que você não vai usar um vestido, então vai de terno branco!”

“Bloom, cala a boca.” Jack reclamou, já cansado de ouvir a palavra “vestido”.

“Ei!” O espírito da primavera retrucou. “Terno branco é muito mais bonito que terno escuro, tá legal? Simples fato!”

Jack abriu a boca para dizer alguma coisa.

“O que seu companheiro vai usar?” Saori interrompeu, continuando seu trabalho como uma profissional.

“Ah...” O guardião murmurou, se lembrando das conversas que ele tinha tido com Coelhão depois que tinham decidido que haveria um casamento.

O Pooka continuava mantendo suas roupas em segredo e, embora o rapaz já tivesse procurado em todo o lugar, ele não conseguia encontrar uma informaçãozinha sequer sobre aquilo. Jack até tentou arrancar informações dos outros guardiões, mas sem sucesso – nem mesmo de Norte, que adorava incomodar Coelhão e que Jack podia jurar iria estar do lado dele!

“Eu ainda não sei. Ele disse que vai usar vestes Pookanas, mas ele ainda não me disse como elas são nem me mostrou nada. E não foi por falta de tentar tirar isso dele...” Jack riu, dando de ombros.

Saori parou por um momento, seus olhos brilhando de modo estranho, mas ela sorriu.

“Ah, sim, você vai se casar com o Pooka.” Ela assentiu. “Então sua roupa precisa de detalhes. Roupas Pookanas são bem coloridas e detalhadas.”

“Você já viu elas?” Jack perguntou.

Saori fez um som baixo.

“Umas vezes, muitos séculos atrás. Milênios talvez.” Ela disse simplesmente e lançou um sorriso gentil para o outro. “Se você nunca viu seu Pooka vestindo mais do que aqueles braceletes, você vai se surpreender.”

“Assim você me deixa mais curioso...” O rapaz reclamou. “Não dá pra dar uma ideia de como é?”

Iie.” Saori balançou a cabeça negativamente. “Se ele não falou sobre isso, não falarei também.”

“Sem graça...” Bloom e Jack falaram ao mesmo tempo, o que os fez rir.

“Mas então, detalhes?” A Jorogumo continuou seu trabalho.

“Talvez... Flocos de neve...” O rapaz falou a primeira coisa que venho em sua cabeça.

“Que surpresa.”

“Cala a boca, Bloom.”

Saori riu.

-G-

“Então, o que acha?”

Coelhão suspirou, apertando os olhos com os dedos, como tinha feito desde o momento em que o Guardião das Maravilhas tinha o puxado por um portal para o Polo Norte.

“Nós tínhamos decidido que ia ser uma coisa pequena, Norte...”

“Mas é uma coisa pequena!” Norte retrucou, cruzando os braços.

“Não, não é!” Coelhão disse, seus olhos examinando os vários papeis, imagens e planos que seu amigo tinha o forçado a dar uma olhada. “A gente não precisa de tudo isso! Esses enfeites? Nada disso!” Ele balançou a cabeça para os laços e detalhes pomposos que Norte tinha desenhado. Tal homem estava abrindo a boca para falar, quando um dedo felpudo foi apontado em sua direção. “Ah-ah! Lembrando que tudo vai acontecer na minha Toca, ou seja, eu mando em tudo!”

Os dois se encararam silenciosamente por alguns segundos, como que esperando que um deles desistisse. Mas não demorou muito para Norte notar que não conseguiria mudar a mente de seu amigo.

“Bah, tudo bem, tudo bem, seu coelho teimoso!” Ele reclamou, movendo a mão vagamente, como se pudesse empurrar aquela conversa para longe daquele modo. “Vamos fazer do seu jeito!”

“Obrigado.” Coelhão disse simplesmente, incapaz de segurar um sorriso com seu triunfo, mesmo que pequeno.

“Mas realmente não tem nada que tenha o interessado aqui? Nadinha?” Norte perguntou, seus olhos examinando os vários planos e rabiscos que ele tinha feito.

Coelhão quase se sentiu mal com o tom de voz de seu amigo. Honestamente aquelas eram boas ideias, infelizmente elas só não eram o estilo de Coelhão, ou de Jack para falar a verdade. Ele até mesmo tinha dito para Norte guardar aquilo para um outro momento, para um outro casamento.

Mas, ele tinha que admitir uma coisa...

“Hum, talvez uma coisa ou outra não seja tão ruim...” Coelhão empurrou as mãos de Norte, agarrando um papel em especial.

-G-

Quando Jack voltou para a Toca, havia algo em uma das campinas verdes que não estava lá antes.

“Então...?” Coelhão perguntou e ele quase parecia nervoso.

Jack riu, envolvendo o braço do Pooka com um seu. Era bom estar de volta em casa, seu rosto ficando menos gelado uma vez que ele estava longe de Bloom e Saori, que já tinha o apresentado rascunhos de como seu terno de casamento iria ficar.

“Ah, ficou legal.” Ele disse e estava sendo honesto.

“Ótimo.” Coelhão assentiu e Jack tentou não rir com o tom aliviado do outro. Ele inclinou a cabeça para o lado e Jack fez o mesmo. “Só precisa ser enfeitado com flores...”

“Qual flores?”

“O que você gostaria de ver?” Coelhão perguntou.

Jack piscou uma ou duas vezes, seu rosto ficando azul novamente. Ele não estava esperando ganhar a responsabilidade daquela escolha, afinal, Coelhão era o cara que sabia e entendia de flores, não ele.

Ele desviou os olhos para o arco que Norte e Coelhão havia colocado ali, não muito longe da casinha de pedra em que o ninho deles estava localizado. Jack tentou imaginar aquele lugar pela primeira vez cheio de pessoas ao invés de ovinhos coloridos e não pôde deixar de sorrir.

“Hum... Não rosas, porque elas são bem, meh...” Ele murmurou. De fato o arco parecia triste sem enfeite algum, mas o que? Ele olhou em volta, tentando pensar. Talvez algumas das tulipas coloridas? Não já tinha o bastante delas por ali. Jack desviou os olhos para Coelhão, encontrando o Pooka o observando, esperando por sua reposta. E Jack finalmente decidiu. “Ah, eu já sei quais!”

“Quais?”

“Ásteres.” Ele sorriu.

Coelhão piscou e balançou a cabeça, rindo baixinho.

Notas finais
Nota: Para quem não sabe, ou não se lembra, Ásters são as flores que Coelhão deixa para trás quando um túnel se fecha.