Notas iniciais
“Eu estou bem, Coelhão...” Jack revirou os olhos.
“Você não está bem, Jack.” Coelhão bufou. Ele apertou a pata contra a testa do garoto mais uma vez, depois repetindo o ato, mas dessa vez conectando seu nariz contra a pele de Jack. “Hum, você não está quente...”
“Eu raramente estou.” Jack disse, mas foi claramente ignorado pelo Pooka. Ele deixou que Coelhão continuasse o examinando, procurando por algo nele que o rapaz não sabia o que era. “Coelhão, eu estou me sentindo muito bem agora! Eu só estava enjoado hoje cedo, nada demais!”
“Seria nada demais caso você não estivesse se sentindo enjoado por uma semana inteira.” Coelhão reclamou. Ele parou de estudar o rapaz de gelo à sua frente, as sobrancelhas unidas mostrando sua confusão com o fato de que não havia encontrado algo que o ajudasse a entender porque Jack estava se sentindo mal. Ele suspirou, por fim. “Certo, um chá é o máximo que posso fazer sem entender o que está acontecendo...”
“Já estou bebendo chá faz tempo e o enjoo continua vindo.” Jack reclamou, se deixando cair de novo no ninho. O Guardião da Diversão criou pequenos flocos de neve no ar, os fazendo dançar em cima de sua cabeça.
“Exatamente.” O Pooka disse com um suspiro. “Meus chás sempre ajudam. Mas isso me preocupa, Jack... Tem alguma coisa errada.”
Jack ergueu a cabeça, os flocos de neve caindo nas cobertas e derretendo rapidamente. Ele estudou o Guardião da Esperança, de pé no outro lado do ninho, as orelhas baixas e os olhos sérios. Em apenas alguns anos juntos, Jack já tinha aprendido bem como ler seu namorado, ele reconhecia mais além de seriedade naqueles olhos verdes e potentes.
Desde a derrota de Sheila as coisas continuavam um pouco tensas. Coelhão não queria deixar Jack fora de sua vista. Jack teria reclamado, se ele mesmo não estivesse se sentindo ainda abalado por tudo que tinha acontecido.
Ele se levantou do ninho, se aproximando de seu namorado e o envolvendo com os braços.
“Ei, eu estou bem, tá legal?” Jack disse, apertando o rosto contra o lado felpudo do Pooka. “É só um enjoo matutino, nada demais.”
“É...” Coelhão assentiu lentamente e então seus olhos se abriram um pouco mais. “É...? Sempre de manhã, não é?”
“As vezes de noite. Que nem ontem.” Jack deu de ombros.
“Sim...” Coelhão murmurou, lentamente se voltando para Jack, o forçando a soltar-se de seu abraço. O garoto encarou o Pooka com as sobrancelhas unidas, incapaz de ler o que havia na expressão do outro. “E você... Você não anda comendo muito bem ultimamente...”
“Ei, sua comida é ótima, Coelhão! Não tente agir como se eu não gosto!” Jack disse rapidamente, sorrindo, mas Coelhão não sorriu de volta. “É o enjoo, eu acho. Sei lá... Talvez eu só tenha que tomar uma pausa e comer algo diferente, sabe?”
“Enjoo, revulsão à comida...” Coelhão listou, sua voz grave e baixa. “Faz tempo que você não sai pra jogar neve por aí...”
“Eu ando meio cansado. Eu não sei, eu quase me sinto pesado ultimamente.” Jack deu de ombros. “E de qualquer modo a marmota não viu a sombra então... Pfft...” Ele colocou a língua pra fora, como uma criança desapontada.
Dessa vez o Pooka ficou em silêncio.
Jack esperou, mas nada.
“Coelhão?” Ele inclinou a cabeça para tentar conseguir a atenção daqueles olhos verdes, até acenou a mão na frente deles. “Ei, terra para Coelhão? Tudo bem?”
“Não...” Coelhão estava murmurando e era como se tivesse alguma coisa presa em sua garganta. Jack notou a expressão estranha no rosto de seu namorado, reconhecendo confusão e até mesmo choque. “Não pode ser...”
“O que?” Jack perguntou rapidamente, agarrando o Pooka pelo pelo cinza-azulado. “Coelhão o que foi? Você está me deixando nervoso...”
“Jack, eu quero que você faça uma coisa...” Coelhão disse finalmente.
Depois de explicar tudo o que Coelhão desejava que o garoto fizesse, os dois se encontraram de pé frente à um pequeno montinho de terra em uma área mais fechada da Toca. Ambos calados e o garoto completamente confuso, encarando o chão com bochechas azuladas.
Jack agarrou o cajado, seus dedos se flexionando nervosamente.
“Isso é... Esquisito...” Ele murmurou, decidindo que aquela era a melhor palavra para descrever aquilo. “Porque eu tenho que fazer isso mesmo? É algum tipo de diagnóstico natural se a planta crescer ou não crescer de algum modo? Tipo, ela vai crescer amarela ou coisa assim?” Ele fez piada para tentar afastar um pouco da tensão.
“Sim e não. Respectivamente.” Coelhão suspirou. “Eu só quero ter certeza de uma coisa.”
Jack se virou para seu namorado novamente, tentando encontrar mais informações no rosto do Pooka, mas Coelhão desviava o olhar, ainda perdido em pensamentos. Choque ainda estava claro em seus olhos, mas ao mesmo tempo eles pareciam calculados e profundos.
Okay, aquilo podia ser estranho, mas Jack sabia que tudo o que Coelhão queria era ajuda-lo, então...
“Tá certo...” Ele assentiu, cutucando o Pooka com a ponta do dedo. Coelhão tremeu. “Eu vou dar uma chance à sua ciência natural, canguru.”
—G-
Alguns dias depois, Jack foi atrás de Coelhão, ouvindo a voz do Pooka o chamando daquele cantinho escondido da Toca. Quando o espírito chegou lá, encontrou o Guardião parado ao lado do montinho de terra. Perto de suas patas, um pequeno broto havia surgido entre os grãos de terra.
Coelhão o encarava com olhos arregalados, respirando com rapidez, como se estivesse tentando se impedir de hiperventilar. Jack se sentiu nervoso enquanto se aproximava do Pooka, que nem reagiu, como se o garoto não estivesse ali.
“Ela cresceu, não é isso que plantas fazem?” Jack perguntou hesitantemente. “Você tem conexão com a primavera, não eu. Eu não entendo dessas coisas.”
Ele tentou fazer piada, mas o Pooka continuou calado, suas orelhas tremendo levemente, mas abaixadas.
“Coelhão?” Jack chamou, tocando o braço de seu namorado.
Coelhão finalmente se voltou para ele e seus olhos pareciam ainda mais profundos, a confusão e o choque ainda mais aparentes.
“Jack...” Ele murmurou, sua voz apenas um sussurro. “Pela lua, Jack, você...”
Mas antes que ele pudesse falar alguma coisa, o céu mágico da Toca se iluminou em verde e azul.
“Droga, o que é agora?” Jack sibilou, ao mesmo tempo irritado com o momento em que as Auroras de Norte surgiram e agradecido por elas terem surgido agora. Ele se voltou para Coelhão, que ainda o encarava, como se não tivesse notado as luzes no céu. Jack se sentiu desconfortável. “A gente pode falar sobre isso depois, tá bem?”
Ele girou o cajado e aquilo pareceu acordar Coelhão, que bateu com o pé no chão, abrindo um túnel.
—G-
Jack e Coelhão pularam de dentro do túnel para o Salão do Globo na oficina do Papai Noel. Sandman havia chegado ao mesmo tempo, enquanto Norte e Dentiana esperavam por todos.
“Ah! Aí estão vocês!” Norte exclamou, parecendo ao mesmo tempo cheio de energia e irritação, nada fora do normal. “Porque demoraram tanto?”
“O que aconteceu, Norte?” Jack rapidamente perguntou, apertando bem o cajado em sua mão. Ele ergueu a mão para Emma quando essa voou do lado de Dentiana para o irmão, descansando nos dedos desse. Mas no momento Jack estava focado no que estava acontecendo para lhe dar atenção. “Sheila? Breu?”
“Não! Não! Nada do tipo!” Norte disse rapidamente, rindo alto, para a surpresa dos três outros Guardiões. “Não há perigo algum!”
Sandy, Jack e Coelhão se entreolharam.
“O que...? Então porque diabos nos chamou aqui?!” O Pooka retrucou, desgostoso.
“São boas notícias! Ótimas! As melhores!” Norte praticamente gritou cada palavra, fazendo as orelhas sensíveis de Coelhão tremeram, desconfortáveis. Uma mão pequena pousou no ombro do cossaco e a mudança foi instantânea, Norte sorrindo de modo mais controlado, enquanto tomava a mão minúscula da Fada dos Dentes na sua. “Lyubimaya moya?”
Dentiana sorriu para ele, parecendo respirar fundo antes de se voltar para os demais Guardiões, enquanto esses esperavam, prendendo a respiração.
“Eu estou grávida.” Ela disse.
“Ela está grávida!” Norte gritou junto com Dentiana, a fazendo rir baixinho.
Houve uma pausa.
O primeiro a reagir foi Sandman, batendo palmas silenciosas e criando pequenos fogos de artificio em cima de sua cabeça, ele flutuou até o casal, os parabenizando com um sorriso largo no rosto.
Jack ainda estava processando o que tinha ouvido, mas se sentiu sorrindo, vendo a alegria dos demais Guardiões. Ele se voltou para Coelhão, mas o Pooka não estava sorrindo; na verdade ele ainda estava com aquela expressão estranha no rosto, a mesma que Jack tinha visto na Toca antes dos dois serem chamados para o Polo Norte.
Ele fez uma nota mental para perguntar o que estava acontecendo, mas no momento.
“Denti...!” Jack não foi capaz de se segurar antes de examinar a fada com os olhos, tentando encontrar algum sinal de que ela estava realmente grávida, mas devia ser cedo demais para ver qualquer coisa. “Uau, meus parabéns!”
“Obrigada!” A Fada disse com uma risadinha tímida, aceitando um abraço do rapaz.
Emma trinou no ombro de Jack.
“Ah, você sabia disso e não me contou Emma?” O rapaz disse em um tom de falsa ofensa, fazendo as fadas rirem.
Norte se aproximou de Coelhão, notando como o Pooka estava parado, observando a cena em silêncio. Ele colocou as mãos na cintura, erguendo uma sobrancelha grossa; havia um tom de ofensa em sua expressão.
“O que foi, Coelhão?!” O Guardião das Maravilhas exclamou, erguendo uma mão e batendo com força nas costas do outro. Coelhão quase caiu para frente. “Eu esperaria que você ficasse contente, meu amigo!” Norte se inclinou com um sorriso brincalhão. “Não é a sua celebração que tem tudo a ver com ‘nova vida’?”
Coelhão piscou, fazendo uma careta ao ouvir as palavras do russo, mas deixou aquilo de lado com facilidade.
“Não, não! Quero dizer, eu estou muito feliz... Por vocês dois...” Ele disse rapidamente, pousando uma pata no braço de Norte e se voltando para Dentiana também. Ele sorria, um sorriso claramente genuíno, mas nem mesmo isso foi capaz de esconder como o Pooka não estava totalmente no momento. “Meus parabéns...”
“Mas o que foi?” Norte perguntou.
“É, Coelhão.” Jack se apressou a dizer, sabendo que com a presença dos demais Guardiões, talvez o Pooka sentisse mais pressão para falar. “Você tem agido estranho desde aquele dia em que você me disse para eu mijar naquelas plantas.” Ele notou como os outros olharam para ele e sentiu suas bochechas esfriarem. “O que? Foi o que ele pediu pra eu fazer! E eu nem sei o porquê!”
“A...” Dentiana foi a primeira a falar. Seus olhos caíram sob Jack, o olhando da cabeça aos pés, antes delas se voltar para o Pooka. “A planta cresceu, Coelhão?”
“Sim.” Coelhão disse, soando distante.
“O que? Você sabe disso também?” Jack perguntou, se sentindo cada vez mais confuso e exasperado com o passar dos segundos. Uma tensão estranha tinha crescido no ar entre ele e os Guardiões, todos se entreolhando. “O que quer dizer se a planta cresceu ou não?” Ninguém respondeu de primeira, todos se entreolhando como se todos estivessem processando algum segredo apenas entre os quatro. Irritação se uniu à confusão e o nervoso. “Olha, eu estava me sentindo enjoada, mas eu não estava doente com nada, mas daí o Coelhão me disse para fazer aquilo e agora--”
“Enjoado a quanto tempo?” Dentiana perguntou, suas asas se eriçando.
Jack hesitou.
“Uh... Uma, duas semanas?” Ele respondeu tentativamente.
“É principalmente de manhã?” Os olhos violetas da fada se arregalaram.
“Sim! O que está acontecendo?!” Jack tentou segurar a vontade de gritar, agarrando seu cajado com força. “Vocês estão me assustando!”
Os Guardiões apenas se entreolharam novamente, o que só piorou o estado do rapaz.
Até que Dentiana se aproximou dele, sua mão diminuta tocando o ombro do espírito do inverno, fazendo com que esse a encarasse nos olhos.
“Jack...” Ela disse, devagar, como se achasse que o garoto não iria entender suas palavras. “Isso são todos sinais de gravidez.”
Silêncio.
“... O que...?” Jack não chegou a ouvir sua voz, o som de seu coração batendo com força em seus ouvidos.
“Você...” Dentiana hesitou mais uma vez, olhando do coelho gigante para o garoto de gelo. “Jack você está grávido...”
Jack piscou uma vez, piscou uma segunda vez. Ele tinha ouvido direito?
Jack desviou os olhos da Fada dos Dentes para o Coelho da Páscoa. As orelhas de Coelhão estavam abaixadas e suas sobrancelhas unidas, mas havia algo em seus olhos. Se sentindo nervoso, Jack desviou os olhos para os outros Guardiões, Sandman parecia tão chocado quanto o rapaz se sentia e Norte tão confuso quanto ele.
Os olhos de Jack se voltaram par Coelhão mais uma vez. Aquele brilho diferente ainda estava nos olhos do Pooka, mostrando, sem palavras, que ele acreditava que Dentiana estava certa, que Jack realmente estava...
“O que?!”
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