Notas iniciais
Sabe, por muito tempo eu quis arranjar um projeto que eu gostasse de me dedicar e quebrar a cabeça para produzir, e parece que finalmente encontrei. Gostaria que aproveitassem este capítulo, está menor que o anterior, mas espero que esteja tão bom quanto! Aqui há apresentação de novos personagens — essenciais para a trama — e o aparecimento de uns que já foram vistos. Fiquem atentos ÒwÓ ~Enjoy

As nuvens densas vindas do sul tornaram o amanhecer um emaranhado cinzento e frio, mas nem por isso a manhã deixou de ser clara. A luz que rompia das nuvens adentrava os grandes salões do Santuário, o castelo designado a moradia dos Guardiões e de sua guarda responsável, a guarda Protetana. Os salões eram todos de formosas e belas paredes de pedra, decorados com tapeçarias, grandes candelabros e vitrais que representavam as mais épicas cenas de batalha, em sua maioria retratando os líderes da Capital contra seus mais famosos inimigos — que, hoje, já não vivem. Tudo seguia como ditava a regra, os Protetanos faziam sua patrulha, rodeando e cuidando do Santuário, alguns acólitos limpavam e arrumavam cômodos, ou abriam os vitrais para que o ar circulasse, e Joan saia de seus aposentos, vestido em sua armadura, portando seu arco e procurando sua superior.

Joan deveria ter seus trinta anos de idade, ex general da Capital e filho mais novo da família Fanin. Era um homem robusto, de cabelos loiros e olhos castanhos, com traços faciais delicados, quase como os de uma mulher. Amado pelo povo, era um gênio em estratégia, aclamado muitas vezes pelo próprio Rei. Ascendeu como Guardião durante uma batalha, onde quase perdera sua vida. Representava o Guardião das Estrelas.

Suas passadas eram lentas e ecoavam pelas escadas, como se desejasse chamar atenção de quem ali passasse. Por sorte, encontraria o que buscava logo que alcançasse o fim dos degraus, pois ela nunca se mexia demais. Quando finalmente a avistou, no fundo da torre, pigarreou.

— Estou atrapalhando? — Indagou, aproximando-se. Dirigia-se a uma mulher sentada aos pés de um vitral fechado, azul escuro, com o desenho uma grande lua cheia vermelha. O único que não representava uma luta. Ela olhava para algum canto além do vidro, com uma espada bastarda entre as pernas.

— Sim. — Respondeu-lhe, com uma natural arrogância. Sequer virou o olhar para o homem. Joan abriu um sorriso desgostoso.

— Desculpe-me, senhora. Não quis incomodá-la em seu “nada”.

A mulher finalmente virou a face para o homem, fitando-o com um olhar gélido. Tinha olhos extremamente azuis, quase brancos, que emitiam superioridade. Não parecia estar ofendida, mas talvez viu-se obrigada a olhá-lo nos olhos. Joan manteve o sorriso, mas mudando-o de decepcionado para convencido.

— Creio que ouviu falar da nova Guardiã. A que fugiu da morte. — Começou, desviando o olhar. Mesmo rígida, era uma mulher bela, que causava-lhe um certo desconforto. Afinal, como uma beldade poderia ser tão insensível?

— Executada por ir contra os mercantes negros, mas em seu último momento foi banhada por uma luz provinda dos céus. — Voltou a olhar para além do vitral. Tinha cabelos platinados que caíam em cascata pelos ombros, de um modo provocante e intocável. — ... A Guardiã do Sol.

— Você nunca sai daqui, e mesmo assim sabe de todas as coisas. Tem alguma habilidade sobrenatural que eu desconheça? — Brincou, mas antes que recebesse alguma resposta desagradável, suspirou. — Não responda.

A mulher nada disse, mantendo-se focada no que estava fazendo.

— Acho que irei recebê-la, Cyana. Não vem comigo? É nosso dever como Guardiões abrir os braços para os mais novos.

Esperou uma resposta, mas esta não lhe foi dada.

— Você deveria se importar mais. — Comentou Joan, coçando a cabeça. —Você nunca se importa. As pessoas lá fora precisam de você. Elas precisam de Guardiões. E você... É a figura mais elevada que eles conhecem, ficando abaixo apenas dos celestiais. Você é a Guardiã da Lua, Cya-- — A mulher de cabelos platinados se levantou, interrompendo-o de repentino, e começou a caminhar para fora do salão. Joan calou-se, olhando-a ir embora com aquele andar determinado e superior. Não saberia dizer se ela resolveu dar-lhe ouvidos, ou se só queria ficar longe dele. De toda forma, mostrou que sua voz valia de algo para ela. Sorriu. — Você é nova demais para ser tão chata assim, garota.

XxX

Sange não tivera tempo de ir embora, de procurar por Terrie ou sua carroça. O sacerdote e o acólito, chamados de Raroa e Maed, logo ao fim da execução — que, por algum milagre, havia se livrado — levaram-na até uma carruagem que os guiaria para um local mais afastado da Capital, mas ainda dentro de seus perímetros, a que chamavam de Santuário. Durante toda a viagem, tentaram-lhe resumir o ocorrido e qual seria sua missão de agora em diante, mas nada conseguia entrar em sua cabeça. Sange era apenas uma transportadora de mercadorias, fadada a enfrentar bandidos clichês e a ser roubada em meio de tempestades, aquela situação era complexa demais para sua mente plebéia.

— Vou lhe explicar pela quinta vez, senhorita. Mas prometa-me que ouvirá, tudo bem? — Pediu Raroa, com uma paciência quase divina. — Já estamos chegando, e você precisa ficar a par de tudo antes de descermos daqui.

— Tudo bem. — Concordou Sange, concentrando os olhos castanhos nos lábios finos e enrugados do prior. Ele tinha uma boa voz, mas sua dicção não era das melhores. Maed, por sua vez, possuía os dois, mas era tímido demais para usá-los. — Pode falar.

— Os Guardiões são pessoas com o chamado do Celeste, os deuses da Capital. Eles existem desde que a Capital passou a chamar-se “Capital”, e possuem capacidades sobre-humanas. — Gesticulou, e Sange olhou para as próprias mãos. Ainda se sentia completamente humana. — E todo aquele que é chamado torna-se inviolável, é levado para o Santuário e recebe uma armadura respectiva ao seu chamado. Eles vivem em favor da Capital, lutando suas guerras e ajudando os que necessitam. Possuem uma guarda própria, os Protetanos, que os servem e os ajudam a manter a lei na Capital. Claro, abaixo do Rei. Está compreendendo?

Os pastos ao lado de fora estendiam-se por quilômetros imensuráveis, dando uma energia incrível de paz. Animais pastavam a relva verde, agricultores caminhavam cuidando de seus afazeres e grandes fazendas quase encostavam-se de tão próximas.

— Senhorita? — Chamou o prior.

Apesar de nublado, o dia não estava de todo um mal. Hav--

— SENHORITA! — Gritou o sacerdote, tirando o olhar de Sange da janela e interrompendo a narração. Ela havia se distraído novamente. Abriu um sorriso sem graça.

— Desculpe. Eu entendi.

— Ótimo. — Resfolegou. — Em seus últimos momentos, uma forte luz dourada caiu do céu e inundou todo o palco. Isto desacordou os guardas e assustou o Rei, mas também indicou que você foi escolhida para ser uma Guardiã. Você é a Guardiã do Sol.

Ao fim do diálogo, a carruagem parou de andar. Maed foi o primeiro a descer, e foi quem manteve a porta aberta para o sacerdote e a Guardiã. Assim que Sange saiu da carruagem, ficou boquiaberta. Era, no mínimo, a maior catedral que já havia visto em sua vida, talvez maior do que um castelo. E muito bonito. Raroa tocou em seu ombro, contudo, não conseguiu desprendê-la da admiração.

— Sim, eu sei, tive a mesma reação a primeira vez que vim. Lindo, não é? Chamamos de Santuário, o local onde os Guardiões repousam.

— Eu... — Não conseguia por as palavras no lugar. Quando criança, ouvia muitas história de seu pai sobre grandiosos castelos e locais inimagináveis, mas nunca pensou que veria um tão de perto. — Erm... Eu irei... Morar aí?

— Ser guardiã não parece ser tão ruim agora, não é, senhorita Sange?

— Creio que se acostumará com tudo isto em breve. — Comentou Joan, se aproximando em passos lentos. Quando Raroa e Maed o avistaram, ajoelharam-se.

— Senhor Guardião das Estrelas. — Disseram, em uníssono. Joan abriu um sorriso gentil, enquanto coçava o queixo talhado.

Sange dirigiu um olhar analítico para Joan. Utilizava uma armadura que permitia movimentos ágeis ao mesmo tempo em que protegia-o bem, e pela meia idade explícita, parecia ser um guerreiro experiente. Carregava em sua mão direita um arco curvado rúnico de coloração esverdeada. Tinha cabelos curtos, loiros e penteados para trás. Os olhos eram castanhos, cheios de malícia.

— Devo me ajoelhar também? — Perguntou, sem graça.

— Um Guardião jamais se rebaixa a outro Guardião. — Comentou, ainda com o sorriso gentil. Apesar do semblante amigável, algo nele não satisfazia Sange. — Mas pode apertar minha mão, para começar.

Deram-se as mãos, e Joan depositou-lhe um beijo.

— Será um grande prazer apresentar-lhe o Santuário, Guardiã do Sol. — Continuou a dizer Joan. — Oh, esqueci de me apresentar. Sou Joan, o Guardião das Estrelas. — Voltou a olhar para os sacerdotes. — Podem se levantar, minha casa sempre está de portas abertas para qualquer agente Celeste.

Raroa e Maed se levantaram, satisfeitos por mais um trabalho concluído.

— Iremos nos retirar, com a licença de vocês, senhores. Temos que retornar para os afazeres da Capital. — Concluiu Raroa. Maed fez um meneio com a cabeça, concordando.

— Mas já? — Perguntou Sange.

— São cidadãos ocupados, de fato. Foi bom revê-los, sacerdotes. — Acenou e começou a caminhar em direção ao Santuário. Sange estava prestes a se despedir, quando Raroa apenas negou com a cabeça.

— Nos veremos em breve, senhorita. Não precisa se preocupar com despedidas. — E dera as costas, retornando para encalço do cocheiro.

XxX

Demorou pouco mais de três horas para visitar todos os cômodos, pátios, sala de reuniões, jardins externos e internos e alguns dos guardas que por lá circulavam. A medida com que ia conhecendo sua nova casa, Sange se sentia mais e mais inquieta, pois havia no local uma aura que não a faria se acostumar a viver lá tão cedo.

Subiam ambos os Guardiões as escadas para a torre mais alta do Santuário, onde havia um gigantesco sino. Ao chegarem, Sange percebeu que o local não era muito visitado, pois dentre todos os outros lugares aquele era o único que tinha resquícios de poeira. Não que se incomodasse, pelo contrário, julgou aquela pequena torre a melhor parte de todo o belíssimo castelo. Não haviam grandes tapetes, candelabros ou lustres. Havia apenas um grande sino no teto e belíssimos vitrais decorando as paredes. Joan apontou para o fundo, para uma silhueta solitária.

— Há uma pessoa que quero que conheça, Sange. — Comentou Joan, apoiando o arco que portava no ombro. Tinha um tom hesitante na voz. — E peço que tenha paciência com ela... Digamos que ela seja um pouco pavio curto.

Sange apenas o acompanhou, em silêncio, em direção a silhueta que ia se formando pouco a pouco, até que esta revelou-se uma mulher. Deveria ter uma idade semelhante a sua, possuía belos e longos cabelos prateados, trajava uma armadura negra como a noite e apoiava-se em uma espada.

— Esta é Cyana, a Guardiã da Lua. — Apresentou Joan. Cyana virou-se para eles, encarando Sange. Trocaram olhares.

Eram olhos que, além de belos, mostravam-se perigosos. De um azul quase branco, Cyana encarava-a com arrogância e superioridade. Sange devolveu o olhar a seu modo, abrindo um sorriso de lado, gentilmente. Acreditava que cada um dava ao próximo o melhor que possuía. Quando a Guardiã da Lua reparou em seu sorriso amigável, quis desviar o olhar, mas manteve-se fixa. A lua e o sol encontraram-se, então, pela primeira vez.

— Acabarão se matando desta maneira. — Interrompeu Joan, e ambas voltaram-se para ele, parando de se encarar. — Devo continuar as apresentações?

— Deixe que eu me apresento, Joan. — Pediu Sange, ainda com o sorriso desenhado na face. — Sou Sange, a provável Guardiã do Sol. Muito prazer, Cyana.

— Eu não queria conhecê-la, Joan. Sabes disto. — Direcionou as palavras para o Guardião das Estrelas. — Por que está forçando este desagradável encontro?

— Não precisa ser rude, Cy. — Orientou Joan, mas a rigidez de Cyana permanecia a mesma, implacável.

— Não me chame de “Cy”. Você sabe a opinião que tenho sobre tudo isso. — Respondeu, enfatizando as últimas palavras. Sange percebeu que sua antipatia não era apenas consigo, mas com tudo ao redor. — Pouparei minhas palavras e não desperdiçarei meu tempo com vocês. Podem se retirar.

Bateu a espada no chão, levemente, e tudo pareceu ficar mais pesado. Foi como se de repente Sange estivesse carregando o dobro de seu peso nas costas. Curvou-se, e dirigiu um olhar de apelo para Joan, que estava de punhos cerrados, mas com as costas eretas. A Guardiã da Lua não os dava mais atenção, mas aquela mudança de atmosfera parecia ter sido originada dela. Joan começou a arrastar os pés para longe, tomando distância.

— Siga-me se não quiser ficar cada vez mais pesada, Sange. — Sugeriu Joan, dando um sorriso, que sumiu rapidamente para dar lugar a uma feição desagradável. — A lua não está na melhor de suas fases.

— Certo... — E assim o fez, com grande dificuldade. Quanto mais se afastava da Guardiã, mais leve se sentia, e quando alcançou as escadas para descer da torre já conseguia manter-se totalmente de pé. Tocou no ombro de Joan. — O que foi aquilo?

— Cyana... Ela... Tem... — Parecia escolher as palavras que usava. — Teve um passado difícil. Isso a moldou para se tornar a pedra de gelo que é hoje.

— Não estou falando da personalidade, mas sim, “daquilo”. — Imitou-se curvada e Joan exclamou um “ah” de compreensão.

— É uma das habilidades de Guardião dela. Controlar a gravidade.

Sange queria questionar mais, contudo, silenciou-se e deixou-se cair em profundos pensamentos. Se Cyana tinha este tipo de habilidade, significa que ela poderia ser realmente um adversário forte, ou quem sabe invencível. Preferia não tê-la como inimiga. E que tipo de habilidades teria, agora que descobriu-se Guardiã do Sol? Se descobrisse em breve, talvez pudesse utilizar o poder para enfrentar os mercantes negros. Espere, pensou, os mercantes negros! Foi então que lembrou-se de sua carroça e de Terrie. Gelou.

— Joan... — O chamou, e o mais velho olhou para trás.

— Sim?

— Eu posso sair daqui?

— Quer ir para seu quarto?

— Não, sair do Santuário, quero dizer. — Explicou. — Eu tenho essa permissão?

— Você é uma Guardiã, tem total liberdade para exercer sua vontade. Só não pense que isto a deixará impune de crimes. — Deu de ombros.

Já deixou, lembrou-se mentalmente. Mesmo que não fosse um crime meu.

— Neste caso, tenho que visitar um amigo. Não o vejo faz um dia e prometi que voltaria. Ele deve estar preocupado. — Afirmou.

— Não prefere mandar uma mensagem para ele? Podemos enviar um Protetano.

Sange negou com a cabeça.

— Eu, de fato, preciso ir vê-lo. Posso pegar um dos cavalos do estábulo?

— Sim, você pode...

— Certo, obrigada! — E dirigiu-se em passos apressados para o estábulo do Santuário, dando as costas para Joan. Este, por sua vez, pegou o arco e sumulou um ataque, mirando-a.

— Uma flecha aqui... — Sussurrou, enquanto a mantinha em sua mira. — E você estaria acabada. Uma pena eu não ter flechas agora. Mas... Sabe... Eu gostei de você. — E abaixou o arco. Sorriu. — Vamos ver o quanto tempo você suporta me divertir.

Enquanto corria, Sange quase esbarrou em uma estátua, um tapete e um guarda. Entretanto, por ser autoridade máxima no local, nem o guarda, nem o tapete e nem a estátua reclamaram sua pressa. Sussurrou um “ainda bem” quando finalmente chegou no estábulo, pois jurou ter se perdido umas cinco vezes durante a corrida. O estábulo lembrava a fazenda de um amigo de infância, porém muito mais luxuoso. Todos os cavalos que lá haviam possuíam porte e eram treinados para a guerra, tendo apenas alguns reservados a carga. Acabou optando pelo mais velinho que encontrou, satisfeita por este lembrá-la o seu velho palafrém. Enquanto colocava a sela no animal, um guarda a interceptou.

— Então nos encontramos novamente. Fico feliz por isto. — E abriu um sorriso familiar. Sange parou o que estava fazendo para observá-lo. O homem utilizava a armadura dos Protetanos, pesada e acobreada, com um símbolo de cruz atravessada por uma espada. Tinha os lados da cabeça raspados, mas no topo havia uma cabeleira rebelde e negra. Os olhos eram caídos, castanhos, e sua face sustentava uma barba espessa. Tinha diversas cicatrizes ao longo do rosto quadrado, mas seu sorriso a fez recordar-se de quem ele era. Estacou.

— Você é... — As memórias de estar no calabouço da Capital retornaram para sua mente, seu pulso e tornozelos formigaram e se recordou daquele que a havia tirado de lá para encaminhá-la para a execução. — Você é aquele o guarda Atroriano que conversou comigo na cela... O que faz aqui?

— Engano seu quando diz que sou Atroriano, senhorita. Meu trabalho não é para com o reino, mas sim, para os Guardiões. — Explicou, aproximando-se e ajudando a colocar as rédeas no animal. O cavalo parecia ser receptivo com ele. — Fui enviado em nome de Joan para presenciar e guiar a execução. As vezes é entediante ser só o “cara do cavalo”.

— Você parecia muito mais cruel quando eu estava algemada. — Comentou, enquanto acariciava a crina branca do alazão.

— Desculpe por tudo o que te fiz. — Pediu, abaixando a cabeça e estendendo as rédeas para ela. Ele não parecia de todo arrependido, dizia aquelas palavras como se fosse sua obrigação. — Você é minha superior, tenho que ter absoluto respeito por você. E tenho. Você é uma Guardiã, afinal... A força Celeste habita em você.

Tomou as rédeas do cavalo e montou no mesmo, torcendo o nariz para o que acabava de ouvir. Os capitanos possuíam uma idolatria absurda por quem quer que possuísse ligação com o “Celeste”, e isto a incomodava de uma maneira profunda. Se alguém estivesse em Véu da Noiva, por exemplo, e dissesse que se mataria por algum sentido celestial, ririam e o humilhariam. Mas não deixaria isto explícito, ao menos, não naquele momento. Ser uma Guardiã estava evitando inimigos, e isto era o que mais desejava no momento.

— Agradeço... — Arqueou as sobrancelhas, esperando que completasse a frase.

— Folan. Folan Highonnor.

— Agradeço, Folan Highonnor. — Ele tem o mesmo sobrenome que o nobre, reparou. Não trocaram nem olhares e nem últimas palavras. Esporeou o cavalo, saindo então do estábulo.

XxX

O centro comercial da Capital parecia completamente normal, com exceção dos olhares que agora recebia. Antes, era um ser invisível, uma simples feirante, e ainda se vestia como tal, mas agora olhavam para seu título. Ser uma Guardiã atribuía um misto de respeito e medo. Muitos pareciam ainda ter desgosto por ser uma ex-criminosa, contudo, tinham medo de demonstrar isto. Abriam caminho para ela, alguns até a reverenciavam, e os mais ousados acenavam. Enquanto trotava em direção à taverna de Terrie, acabou avistando o pequeno Jour, que mendigava em algum lugar próximo, mas o mesmo fingiu não conhecê-la. Isto não a decepcionou, pelo contrário, sentiu-se nostálgica por retornar a ser plebeia, mesmo que por um único segundo.

Chegando na taverna, puxou as rédeas do cavalo e as amarrou em um devido local. Não havia sinal de sua carroça ou de seu velho palafrém. A taverna de Terrie estava estranhamente quieta, percebeu. Quando tentou abrir as portas, reparou que estavam trancadas. Ele jamais as trancaria em um dia útil. Algo não cheirava bem ali.

Deu a volta na taverna, chegando aos fundos, onde sabia que havia uma falha na parede, o que permitira sua entrada. Encontrou a tábua velha, quebrou-a as cotoveladas e forçou as demais, abrindo um pequeno buraco por onde conseguiria entrar. Não havia luz vindo de dentro.

— Terrie? — Chamou, enquanto se arrastava para dentro do buraco, saindo dentro de seu armazém. Os barris de vinho estavam intactos, intocados, até mesmo aqueles que ele costumava trocar diariamente. — Bardo?

Ninguém lhe respondia.

— Maldição... — Sussurrou. Enquanto caminhava em direção ao balcão da taverna, acabou por inalar um odor podre, que causou-lhe náuseas e ativou em si um medo instintivo. Pouco a pouco, percebia que as coisas estavam muito mais do que simplesmente estranhas. Pairava no ar uma sensação fúnebre, aterrorizadora, e seu coração acelerava a cada passo. Chegou em frente a porta que separava o armazém do balcão e o cheiro tornou-se insuportável dali. Prendeu a respiração o máximo que pode e abriu a porta.

Mesmo escuro, conseguiu ver cada detalhe com a clareza da manhã. A taverna permanecia em ordem, com exceção do cadáver de Terrie que jazia desmembrado e espalhado por todo o canto. Moscas pairavam em cima de seu corpo, suas vestes estavam rasgadas e a cabeça de seu amigo estava pousada em suas nádegas, em um sinal de desrespeito. Sange perdeu todo o fôlego, tal como a força em suas pernas e desabou ali mesmo, começando a cair em prantos. As lágrimas desciam ardentes de seus olhos, os gritos agonizados prendiam-se em sua garganta arranhando toda sua extensão. Os olhos de Terrie foram arrancados da face e postos dentro de um copo cheio de sangue, como um aperitivo. Havia ali uma mensagem, mas Sange não queria vê-la. Mal tinha forças para se levantar e ir buscar. O cheiro de morte adentrou seus pulmões e vomitou.

— TERRIE! — Berrou, desferindo um soco no chão. — TERRIE! — Tudo o que era capaz de fazer era gritar pelo amigo, como se isso pudesse trazê-lo de volta a vida. Deu outro soco, e outro, e outro, até que sua mão encontrava-se em puro sangue. Sua tristeza e pavor transformaram-se em raiva. Suas forças retornaram para seu corpo, e Sange se ergueu lentamente. — Eu irei matar... Aquele que fez isto com você...

Arrastou-se como um zumbi para o balcão, dando um tapa que jogou o copo com os olhos do amigo para longe, quebrando-se em algum lugar fora de sua visão. Olhou a mensagem de sangue.

“O mercado negro manda lembranças.”

Cerrou os punhos e rangeu os dentes. Pelo menos, agora já tinha uma confirmação, bastava apenas confrontá-los... E destruí-los para sempre.

Notas finais
Ufa, se você leu até aqui, está de parabéns. Aguentou alguns minutos de tortura *risadas de cavalos relinchando e focas batendo palmas* Por favor, deixe seu feedback :D