A Guardiã do Sol

3 Comida e guerra


Notas iniciais
Este não é um capítulo tão apresentativo ou cheio de ação como fiz com os dois anteriores, sinto que será uma leitura um tanto quanto pesada e chata, porém necessária para o desenrolar da história. Aqui há mais interação entre os personagens e indicação do que ocorrerá daqui para frente. Espero que gostem, pois fiz com muita dedicação.

Era quase noite quando retornou para o Santuário. O céu estava escondido sob um véu de nuvens densas e cinzas, impossibilitando a visão da lua ou das estrelas. Seu rosto estava inchado, os olhos vermelhos e o punho ensanguentado, e mesmo desejando ser discreta, alguns guardas Protetanos lançavam-lhe um olhar preocupado, quase abordando-a, porém não o faziam por medo e respeito. Era de se esperar, afinal, nenhum Guardião jamais portou-se daquela maneira, sempre sendo vistos como os intocáveis, os sagrados guerreiros, aqueles que jamais se ferem. Sange sentia um grande buraco em seu peito, como se uma parte de si tivesse se perdido juntamente da vida de Terrie, de sua carroça de trabalho e seu mais antigo animal.

Caminhava com passos pesados pelo grande castelo catedral, procurando por seus aposentos, querendo ficar sozinha. Viu um pouco de Cyana em si. Talvez, após esta perda, fosse ficar fria como ela. Atravessou um corredor e começou a subir escadas, encontrando-se com Joan que ia no sentido contrário.

— Sange? Você está bem? — Indagou o Guardião, notando sua situação. — Sua mão...

— Estou bem. — Respondeu rápida, com um tom choroso. Escondeu a mão sob a outra. — Estou bem... Obrigada por perguntar. Foi apenas um... Arranhão.

Joan tentou ampará-la, mas Sange desviou o assunto e continuou seu caminho. Enquanto subia, lembrou-se do sorriso de Terrie, da sua risada amiga e das músicas que gostava de tocar. A vontade de chorar inundou seu peito. Precisava ficar sozinha, encontrar algum lugar, com urgência. Apressou-se na subida, chegando finalmente em seu quarto, ou ao menos, ao cômodo que pensava ser seu quarto. Abriu a porta rigidamente, em meio a pensamentos turbulentos, adentrou e trancou a porta atrás de si. Escorou-se na porta, enquanto as lágrimas, pela segunda vez ao dia, caíam por sua face.

XxX

Joan estava caminhando para a sala de reuniões quando sentiu um soco na boca do estômago. Foi jogado para trás, batendo as costas na parede e perdendo todo seu ar. A mão de Cyana envolveu seu pescoço e apertou com firmeza. O Guardião das Estrelas sorriu, sem poder respirar e abriu os braços, como se debochasse de seu ataque surpresa. A Guardiã da Lua apenas encarava-o, com um olhar mais afiado do que o comum. Ele tossiu. Ela apertou um pouco mais. Seu olhar era gélido como o inverno, misterioso como a noite e profundo como a lua nova. O homem, duas cabeças mais alto que ela, mantinha o sorriso na face, ao mesmo tempo em que começava a ficar roxo. Cyana o largou lentamente. Uma crise de tosse se agravou, juntamente do ar que retornava pouco a pouco para os pulmões.

— O que você fez com ela? — Indagou, em tom ameaçador.

— Você agora se importa?

— Pare com seus joguinhos. — Apontou a espada para o pescoço do Guardião. — O que fez com ela?

— Eu? Nada. Mas meus homens...

Um corte na bochecha o silenciou, fazendo-o assumir um semblante sério. O sangue escorreu quente por sua bochecha, tocando seus lábios e trazendo a boca um gosto desagradável de ferro.

— Não me obrigue a machucá-la, Cy...

— Já disse para parar com seus joguinhos imbecis, Joan. Eu lhe prometi não me envolver e nem atrapalhar seus objetivos, mas ela não tem nada haver com isto. É só uma garota buscando uma vida nova.

— Como você foi um dia, não é? Por isto está tão empática.

O comentário de Joan fez a expressão de Cyana quebrar-se por um momento, e a mesma o atacou com a espada. O Guardião das Estrelas aparou seu golpe com o arco rúnico. Começaram a medir forças.

— Você não é um Guardião de verdade... — Disse Cyana, tentando resistir a força do antigo general da Capital. — Qual é seu verdadeiro objetivo?

— Quer quebrar uma promessa? Disse que não se envolveria com meus assuntos. E você sabe demais, já lhe faço um favor não a matando.

Cyana semicerrou os olhos, e separaram-se ao mesmo tempo, indo cada um para um lado oposto do corredor. Uma mecha loira caiu nos olhos de Joan e ele empurrou-a para trás, penteando seu cabelo com os dedos.

— Cy... Não precisamos brigar. Ela logo irá superar o ocorrido e tudo voltará ao normal. Apenas faça o seu papel que farei o meu, como sempre foi. Vamos, guarde sua espada.

A Guardiã da Lua hesitou por longos segundos, segurando o punho da espada com força, mas ao ver que ele não pretendia lutar, embainhou a arma.

— Todos os Protetanos são homens meus e não gostaria que vissem este tipo de coisa. Então, por favor, evite descontar suas raivas infantis em mim. — Sorridente, voltou a caminhar pelos corredores, mas parou repentinamente após alguns passos. — Espere! Como eu pude esquecer? Deixe-me te contar uma novidade: Ventobravo voltou-se contra a aliança do Reinado. A Capital foi convocada para destruí-los completamente, juntamente de Pontabaixa e Moeda Branca. Gostaria de ir junto de nosso Rei? Algum Guardião tem de estar lá, afinal.

— E deixar a Capital em suas mãos?

— É o Rei ou a Capital. Escolha sabiamente. — E desapareceu de seu campo de visão lentamente, como se ainda desse a ela a chance de atingi-lo.

Cyana mordeu o lábio, temendo o que o futuro lhe traria. O melhor que tinha a fazer no momento era esperar uma reunião real e declarar sua vontade de seguir com o Rei. Joan poderia ficar com o reino, mas não teria em suas mãos a vida da família real... A vida de sua família.

XxX

Sons na porta despertaram Sange, que havia adormecido sem perceber. Levantou-se do chão, ainda um pouco atordoada, parando para observar seu quarto. Em formato de cúpula, era mobiliada com móveis de tonalidade escura que realizavam um contraste com as paredes brancas, tendo também uma grande cama de casal ao centro, mais aconchegante do que teria desejado. Um brilho esbranquiçado invadia seu quarto pela varanda, demonstrando que a noite não estava nublada. Esta luz refletia em uma brilhosa armadura vermelha que estava em cima de sua cama. Estranhou o material, mas antes de analisá-lo, abriu a porta, coçando o olho.

— Posso entrar, senhorita? — Questionou Maed, tímido, sem ousar olhá-la nos olhos. Utilizava outro tipo de roupa, mudando o manto marrom de acólito por um branco em detalhes dourados. A cabeça estava raspada.

— O que houve com seu cabelo e suas roupas? — Perguntou Sange, dando um espaço para que ele entrasse, pensando no antigo cabelo castanho do acólito. — Por que está aqui?

— Quando um acólito é nomeado sacerdote, ele passa por este tipo de rito, senhorita. — Explicou, sem ainda entrar no quarto. Mantinha os olhos fixos nos calçados. — Senhorita Cyana me enviou, dizendo que eu tinha de tratá-la.

Sange ergueu uma sobrancelha, mais confusa do que poderia expressar, preenchendo-se de perguntas. Cyana havia enviado-o? Ela sabia do ocorrido? Afinal, ela se importava com alguém? Maed tirou os sapatos e entrou no quarto, carregando uma caixinha.

— Oh. — Exclamou. — Você ainda não tirou do lugar sua armadura sagrada?

— Eu... Não havia visto. Até agora.

— Você deveria usar, senhorita. — Aconselhou Maed, abrindo a caixa e tirando materiais curativos. — São importantes para mostrarem quem você é. E são produzidos de um metal raro que importamos de Ventrobravo... Ou melhor, exportávamos. Apenas o Grande Rei e os Guardiões possuem armaduras e armas feitas com esse metal.

— É algo realmente importante. — Impressionou-se Sange, sentando na beirada da cama. Maed ajoelhou-se aos seus pés e tomou sua mão. — Quais são as propriedades deste metal?

— Bem... — O sacerdote ficou pensativo por um instante. Parecia ser o tipo de assunto que lhe interessava, mas não tinha conhecimento ou estudos o bastante sobre. Emergiu a mão de Sange em uma bacia d'água, lavando com serenidade, tendo cuidado para não cutucar os ferimentos abertos. — Depende da maneira com que foram utilizados durante a forja. Podem ter todos os tipos de atributos... Diminuir impacto, ter resistência a cortes ou contusões... Realmente depende, senhorita. Onde você machucou esta sua mão? Sua falange está quase toda destruída e os ossos de seus dedos não voltarão a ter a mesma mobilidade tão cedo.

Sange sentiu-se envergonhada em responder, então permaneceu em silêncio, olhando-o enquanto o mesmo passava um pano em sua mão. Maed não pareceu se incomodar com a falta de resposta, talvez estivesse até acostumado. O careca desviou sua atenção para um conjunto de ervas que havia trazido, colocando-as em um potinho e começando a amassá-las, criando uma espécie de pasta curativa. Sange desviou o olhar para a armadura e levou a mão até a mesma, mas Maed segurou seu pulso.

— Evite se mover muito, eu ainda não terminei. — Pediu, em tom quase de ordem. — Você terá muito tempo para se vestir depois, senhorita.

— Desculpe. — Pediu, e o sacerdote assentiu com a cabeça. Pegando a pasta com um algodão, Maed passou o remédio nos ferimentos da mão de Sange, causando-lhe ardência. — Ai, ai, ai, o que você está passando aí?!

— Erva-de-lobo. Serve para inflamações, infecções e é analgésico. Acredite, você ficará melhor. — Dizia ao mesmo tempo em que fazia um curativo ao redor da mão. Sange suspirou.

— Cyana realmente te mandou vir aqui? — Voltou a perguntar, mudando o assunto.

— Sim, senhorita.

— ... — Por quê, desejava perguntar, mas sabia que ele não teria esta resposta. Maed não era o mais curioso dos homens e não tentava ultrapassar os limites que lhe eram impostos. O sacerdote começou a guardar seus materiais.

— Tudo pronto, sua mão estará melhor em poucas horas. Com a sua licença, senhorita, irei me retirar. — Fez uma reverência e voltou para a saída do quarto.

— Agradeça a ela por mim, por favor.

— O farei. — Fechou a porta.

Uma brisa adentrou o quarto, envolvendo-a, explorando o local e indo embora pela mesma varanda que veio. Sange encarou a própria mão enfaixada. O velho Terrie teria ótimas histórias sobre mãos para contá-la, mas não estava ali. Nunca mais estaria. Assim como seu pai e todos de sua terra natal.

— ... Me perdoem... Eu... Eu não... — Sua voz tinha um timbre fraco, passando de um sussurro para pequenos soluçares. — Não sou capaz de proteger ninguém...

Temendo voltar a chorar, cerrou ambos os punhos, e a dor de sua mão ferida a fez acordar dos devaneios, voltando a si. Não podia chorar agora, tinha de manter a calma e recuperar o fôlego, para que pudesse encontrar uma maneira de atacar a origem do Mercado Negro, destruindo seu líder e suas raízes. Seria uma ótima maneira de se vingar pela morte de Terrie. Outro vento tênue adentrou seu quarto, tirando sua atenção de seus planos e fazendo-a deitar os olhos na armadura que ainda estava ao seu lado, em cima da cama. Era uma armadura pesada, de placas vermelhas e resistentes, com um grande sol desenhado em detalhes pretos. O elmo tinha detalhes no visor de igual cor, assim como as botas. Ao lado da armadura, uma grande espada de duas mãos pousava dentro de uma bainha.

Tomou espada embainhada em mãos, levantou-se da cama e utilizando a mão ferida a desembainhou. A luz da lua correu pela lâmina avermelhada, e esta era tão pesada que Sange teve de segurá-la com ambas as mãos para empunhá-la. O gume era afiado, o metal pesado e provavelmente muito mais do que mortífero. Enquanto olhava para sua nova arma, esqueceu-se por um segundo tudo o que estava passando em seu dia. Só existia ela, o calor do momento e a espada.

— Um nome. — Sussurrou uma calorosa voz em sua mente, que não fez Sange estremecer ou arrepiar-se. Tinha certeza de que aquela voz vinha de algum lugar dentro de si, provavelmente de seu coração, e não lhe atribuía medo, apenas conforto. Nem quando estava prestes a ser executada sentiu-se tão Guardiã como agora. Mesmo sendo noite, podia sentir o sol ao seu lado, abraçando-a e dando-lhe forças. Estufou o peito de ar, abriu um sorriso cheio de dentes e exclamou.

— Alvorada! — E chamas ascenderam na lâmina avermelhada da arma, dançando no reflexo dos olhos de Sange, e iluminando todo o seu quarto.

XxX

Os raios da manhã bateram na face de Sange, despertando-a de seu sono profundo. A Guardiã havia passado metade da noite empunhando Alvorada, e a outra metade na varanda, observando o céu noturno. Foi apenas quando o sol começou a surgir no horizonte que deitou-se. Bocejou, levantando-se lentamente, sentindo o sono ainda pregando seus olhos, mas a voz do dever deu-a forças para se manter acordada. Fedia a suor, e reparou que não se banhava fazia dias. Isto talvez fosse normal para uma plebéia, mas agora, infelizmente, não o era mais e deveria manter as aparências.

Saiu de seu quarto, procurando por algum sacerdote, acólito ou Protetano que a auxiliasse. Por sorte, logo após a primeira virada do corredor, encontrou Folan conversando com uma acólita. A mulher era baixa, tinha longos cabelos dourados e cacheados, de pele alva e utilizava manto marrom. Ambos pareciam preocupados enquanto conversavam e não notaram a presença de Sange até ela chegar muito perto.

— Bom dia a vocês.
— Senhorita. — Reverenciou o Protetano, levemente.
— Guardiã do Sol. — Ajoelhou-se a acólita. Sange constrangeu-se com o gesto e ofereceu-lhe a mão para se levantar. Ela aceitou. — Precisa de algo?
— Na verdade, sim. — Confirmou Sange. — Só possuo as roupas do corpo. Estão velhas e precisam ser lavadas.
— Arranjar-lhe-ei uma muda de roupas, não se preocupe, senhorita
— Obrigada. Qualquer coisa simples me basta. Pode me encontrar no banho. — Disse, agradecida, e começou a se afastar, caminhando pelo castelo, indo em direção a área de banho, um dos poucos lugares que não esqueceu a localização depois da primeira vez que visitou.


A área de banho ficava nos porões do Santuário, logo após uma escada espiral. Toda sua estrutura era cavernosa, escura e cheia de vapor, pois as banheiras eram enchidas com água vinda de uma nascente de origem vulcânica, e por isso passava por todo seu leito e abastecia o Santuário ainda quente. Sange se aproximou de uma das banheiras e olhou para seu reflexo oscilante na água. Seus cabelos acobreados estavam desgrenhados e a pele bronzeada suja, mas ao menos, seus olhos castanhos ainda mantinham a aparência determinada. Encontrou no fino nariz uma cicatriz que não tinha visto até então. Suspirou, enquanto começava a se despir. Entrou na banheira, lentamente, e sua pele começou a reclamar do calor. A temperatura da água estava, de fato, quente, e apesar de sua pele se irritar, o resto de seu corpo gostava da quentura. Relaxou e apoiou a cabeça em um degrau. Finalmente poderia descansar.

Antes que fosse capaz de cerrar os olhos, reparou em movimentos na água, não muito longe de si. Assustou-se e cobriu os seios.

Um corpo curvilíneo levantou-se da água vagarosamente, quase de modo sensual. Sange passou o olhar de baixo para cima, ainda espantada. Cabelos prateados escorriam molhados por sobre os ombros, emoldurando o semblante sério de Cyana. Seus olhos azuis gelo fitaram-na em meio aos fios molhados, e, novamente, a lua e o sol se encontraram.

— Não sabia que você estava aqui. — Disse Sange, enquanto Cyana dava as costas para sair da banheira. A Guardiã do Sol encarou suas costas nuas, notando uma tatuagem de lua minguante. Parecia estar lá havia tempo.

A Guardiã da Lua não respondeu, saindo da banheira e caminhando até uma pedra onde colocara suas roupas, sem parecer ter pudor em andar nua. Um corpo realmente invejável, pensou consigo mesma Sange. A Guardiã da Lua pegou a toalha e a armadura e começou a vestir-se.

— Sua mão está melhor? — Indagou Cyana, colocando as primeiras partes de sua armadura negra. Apertou e ajeitou as fivelas.
— Sim... — Respondeu Sange, encarando a palma da mão. — Maed disse que no fim do dia posso tirar as ataduras.

Cyana meneou com a cabeça, antes de por o elmo. Pegou a espada bastarda que estava apoiada na parede e foi para a saída.

— Tenha cuidado com suas companhias, Guardiã do Sol. Você pode estar se metendo em uma armadilha da qual não conseguirá sair. — E, após estas palavras, retirou-se da casa de banho.

Saindo, entrou a acólita que Sange havia chamado. A mulher depositou uma muda de roupas na mesma pedra que Cyana deixara as dela, também deixou uma toalha e sua armadura, mas não trouxe a espada.

— Aqui está, senhorita. Com a sua licença, vou voltar aos meus afazeres.

— Obrigada. Qual seu nome?

— Leih, senhorita. — E tomou o próprio rumo.

Finalmente sozinha, Sange permaneceu no banho por mais tempo do que esperava, pensando na fala de Cyana. Queria ter conversado um pouco mais, comentado sobre a morte de Terrie e organizado uma maneira de destruir o Mercado Negro, seu principal objetivo. Era uma Guardiã, afinal, e este tipo de mercado ameaçava a paz da Capital. Mas agora suas palavras também ecoavam por sua mente, instáveis e incômodas. Companhias...? O que ela quis dizer com isto? Não tinha nenhum outro amigo na Capital, além de, claro, os outros Guardiões. Não tinha certeza se poderia chamá-los de amigos, mas desde o princípio demonstraram-se dispostos a ajudá-la. Sange arqueou as sobrancelhas, relembrando-se do momento em que conhecera Joan e daquele sentimento que a incomodava profundamente. Não tinha motivos para achá-lo suspeito, sentia como se sua intuição estivesse caçoando de si. Resolveu sair da banheira, indo se vestir.

Que ele não seja um inimigo, por favor.

Foi retornando para o quarto buscar sua espada, quando avistou Joan escorado na parede ao lado da porta de seu cômodo. O homem estava em sua armadura de costume, portando seu arco rúnico e, pela primeira vez, trazia consigo uma aljava. Seus cabelos loiros estavam despenteados, os olhos castanhos não refletiam nada além de escuridão e uma barba rala aparecera em sua face, envelhecendo-o alguns anos. Seu semblante era de quem assistira a própria família morrer em sua frente, centenas de vezes. Assim que a viu, amenizou a feição, voltando a parecer aquele Joan que conhecera, mas alto nele emitia uma amedrontadora sensação de pesar.

— Guardiã do Sol! Que honra vê-la. Estava aguardando-a. Encontrava-se no banho, percebo? — Falou, cortando o silêncio que havia no corredor.

— Sim, não tomava banho há alguns dias. — Forçou um sorriso. — Coisa de plebeu.

— De aventureiro, você quer dizer. — Corrigiu-lhe Joan. — Soube que você era uma.

— Meu pai era, na verdade. — Explicou, sem jeito, colocando a mão na cintura. — Antes de... De ser Guardiã, eu era apenas uma mercadora que viajava por todo o Reinado transportando itens.

Joan ouviu atentamente, como se estivesse realmente interessado, mas Sange tinha olhos afiados e desconfiava que ele estava apenas evitando comentar algo.

— Que bom que mencionou o Reinado. — Joan aproximou-se e tocou em seu ombro. — Talvez essa aliança não exista mais. Ventobravo se rebelou contra a Capital e nosso Grande Rei da Capital, abençoado pelos Celestes, deseja marchar e destruir o local. Seus aliados já confirmaram apoio militar, mas ele precisa de pelo menos um Guardião acompanhando-o.

— E o que foi decidido?

— Ainda será. — Continuou o Guardião das Estrelas — Almoçaremos com o Rei hoje, e teremos nossa reunião para decidir. Era sobre isso que eu vim falar contigo. Partiremos o mais rápido possível, quando acha estar pronta?

— Pegarei apenas minha arma e então estarei livre para acompanhá-lo. — Afirmou, e o loiro abriu um sorriso quase cruel.

— Há uma comitiva em frente ao Santuário, estarei lhe aguardando lá. Não demore.

— Cyana irá conosco? — O sorriso de Joan aumentou milimetricamente, mas Sange não reparou.

— Irá. É dever dos Guardiões participar de toda e qualquer reunião com o Grande Rei. — Soltou seu ombro e acenou. — Vejo-lhe depois, San.

Joan, em seu mesmo estilo costumeiro, voltou a caminhar pelo corredor, devagar e com pisadas fortes, como se procurasse chamar atenção. Encontrou algum guarda Protetano não muito longe e começou a conversar com o mesmo como se fossem velhos amigos. Sange, ainda parada, respirou profundamente e adentrou seu quarto. Dirigiu-se até a cama, onde Alvorada repousava dentro da bainha, tomou-a em mãos e colocou nas costas. A barriga roncou. Fazia quanto tempo que não comia algo? Talvez este almoço real não fosse má ideia. Suspirou profundamente, começando a sair do quarto.

Por que comida e guerra combinavam tão bem?

Notas finais
Mais uma vez venho por meio desta agradecer a todos que leram! E gostaria também de passar um recado: Se houver algum leitor fantasma, por favor, se manifeste. Ninguém aqui vai te julgar! E o seu comentário (sendo uma crítica construtiva ou não, ou sequer isso, talvez apenas um comentário avulso como "gostei, continue") me ajuda a continuar escrevendo, pois é um incentivo bom de receber... E é muito triste quando alguém acompanha a história mas não acha ela boa o bastante para receber um comentário. Então, por favor, comentem. Aqueles que já costumam comentar, um MUITO OBRIGADA! E espero pelo feedback de vocês :D