A Grande Peça
5 Cartas na mesa
Notas iniciais
Glória também se levantou da mesa.
— Pai, pode me deixar na escola?
— Por que não vai com o Daniel como todos os dias?
— Porque hoje quero ir com o senhor.
Entraram no carro. A música que tocava era Piano Bar, Engenheiros do Hawaii. Anselmo estava calado e pensativo, Glória o observava. O homem não parava de pensar em Leda, no quanto ela era linda e nunca mais a veria. Teria que se conformar. Talvez devesse abandonar os casos extraconjugais e valorizar a família. Teria que se conformar também com a presença de Cecília e se acostumar com a sua beleza. Levaria uma vida como a de qualquer homem.
— Glória, o que acha de jantarmos em algum restaurante quando eu sair do trabalho? Eu, você, sua mãe, seu irmão e sua prima? – convidou a filha.
— Pai, eu vou ser bastante franca. A mamãe pode ser uma idiota, mas eu não sou. Pensa que eu não notei a forma como olhava para Cecília?
Anselmo estava nervoso. Sim, olhou para Cecília, é verdade. Quem não olharia? Todavia, não tinha o menor interesse na menina.
— Minha filha, você só pode estar brincando. Cecília realmente é uma moça muito bonita, mas eu não sei do que está falando.
— Eu só vou avisar uma coisa: se eu pelo menos sonhar que vocês estão tendo um caso, não vai nem precisar se dar ao trabalho de ir embora de casa. Eu vou. Ou ela, ou eu.
— Eu jamais verei sua prima como mulher.
Chegaram à escola de Glória. A menina, antes que pudesse descer do carro, avisou:
— O José Carlos vai jantar lá em casa hoje. Deixemos o jantar no restaurante para amanhã.
Na casa dos Montenegro, novamente encontravam-se apenas Cecília, Sandra e Conceição. A hóspede estava em seu quarto, com o celular em mãos. A criada batia à porta. A moça permitiu sua entrada.
— A dona Sandra tá chamando a senhora lá no quarto dela.
Ela dirigiu-se ao quarto da tia, a porta já estava aberta. Entrou e a mulher pediu que a sobrinha fechasse. Estava deitada na cama ouvindo Ouça, de Maysa. O ambiente parecia ser melancólico.
— O que foi, tia? – indagou Cecília.
— Cecília... Acho que você já soube do caso de Anselmo e Leda, não soube?
— Bom, eu ouvi a história por alto, apenas alguns comentários.
— Eu não sei de onde veio essa mulher e nem como se conheceram. Talvez assim tenha sido melhor, não acha?
— Eu não sei...
— Bom, você deve estar se perguntando onde quero chegar... Cecília, eu vi a sua troca de olhares com Anselmo. Eu realmente espero que tenha visto coisas demais. Eu sofri muito com Leda, tenho tentado superar... Mas... Leda não é minha sobrinha.
— Não estou entendendo a senhora, tia.
— Cecília, você é minha única sobrinha. Já pensou no quão desagradável seria se o seu pai viesse pegá-la aqui porque está causando... Problemas no casamento da tia? – perguntou, levantando a sobrancelha.
— Eu jamais faria isso.
— Acho que Leda também não, mas fez.
A sobrinha ficou indignada.
— O que a senhora quer dizer com isso? Quer me comparar à amante do seu marido? Está me ofendendo!
— Também fiquei ofendida com os olhares da manhã. Não esqueça que você é só uma hóspede, Cecília. Não fale comigo nesse tom. E... Bom, eu gostaria que ninguém ficasse sabendo da nossa conversa. Pode guardar nosso segredo?
— Sim. – respondeu de cabeça baixa, com ódio.
— Mais uma coisa, Cecília,
— Pode dizer.
— Eu posso parecer uma boba, mas engana-se quem pensa que sou idiota.
A menina dirigia-se à porta quando antes de pegar na maçaneta, virou-se novamente para a tia.
— Eu acho que não mereço ouvir isso. Se alguém deve ser chamado atenção, é o seu marido. Ele me olhava.
— Como eu já te disse, você é só uma hóspede. Ele paga as contas da casa. Você não.
Sandra dizia tudo tão calmamente que a raiva de Cecília só aumentava. Voltou para o seu quarto tremendo de ódio. A tia queria compará-la a Leda? Muito bem. Seria bem pior que Leda. Por capricho, conquistaria o tio. Teria todos os homens da casa em suas mãos. Os jogaria contra as mulheres.
Anselmo passava a ser o seu foco principal. O homem estava triste com a perda da amante e ela sabia que lhe achava bonita. Tinha tudo em suas mãos. Passaria a se arrumar ainda mais, aproveitaria momentos em que o visse sozinho para provocá-lo, então, chegaria um dia em que sua tia a mandaria embora e ele a defenderia. Daniel também.
O dia passou rápido. Era final da tarde quando José Carlos tocou a campainha. Conceição atendeu. Glória o esperava no escritório do pai, o noivo entrou e lhe deu um beijo. Era um rapaz relativamente bonito. Imagine um rapaz bonito que não chega a chamar atenção. Assim era José Carlos.
Daniel conversava com Cecília na sala quando os noivos apareceram. A prima sorriu para o rapaz, depois, debochou de Glória com o olhar.
Assim como os outros, José Carlos ficou paralisado diante da beleza que fora posta em sua frente. Sabia que a noiva extremamente ciumenta estava ao seu lado, porém, as chances de conseguir alguma coisa com aquela menina eram mínimas.
Anselmo chegou do trabalho e o jantar foi servido. Daniel costumava sentar ao lado do pai, no entanto, era muito amigo do cunhado e este sentava ao lado da cadeira que passava a ser de Cecília. O rapaz pediu à prima que trocassem de lugar. Era a melhor ideia que alguém poderia ter. Glória suspirou aliviada, Sandra olhava desesperada.
Durante as conversas, Cecília passava a mão na perna de Anselmo como quem não queria nada, depois tirava sem nem ao menos olhar para o tio, mas houve um momento na noite em que avançou um pouco mais e... Sim, o homem estava excitado. A desgraça começaria.
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