Notas iniciais
"Escrito por Tabirth"

O longo tempo da viagem deu bastante tempo para Tabirth e Erold conversarem sobre tudo. Desde quando Erold resolveu virar um humano normal, sua filha, e tudo o resto. Tabirth contou sobre o que supostamente fazia como humano, e como ganhou tudo aquilo. O carro ainda tinha aquele cheiro de "carro novo". Os vidros estavam fechados, e o ar condicionado ligado a uma baixa temperatura. O carro estava consideravelmente rapido, em vista que estava quase a um terço a mais do limite de velocidade. Tabirth sempre teve seus motoristas, mas, para algo desse tipo, precisaria ir sozinho. Erold finalmente havia largado do apoio do carro, e segundos antes de Tabirth acabar contando algo totalmente inédito.

—Você ja quase teve uma familia? — Existia um obvio tom de surpresa a voz de Erold.
—Sim... — Assentiu Tabirth, com os olhos fixados na estrada — Ela tinha 32 anos, e era uma mãe solteira.
—E isso deve ter prejudicado sua... — Erold deu uma pausa, tentando escolher a palavra certa. — Média... De garotas.
—Isso mesmo — Tabirth assentiu. O tom estava claro que não se orgulhava do feito. — Saimos varias vezes, sem nenhum compromisso... Conheci o filho dela, e passamos um tempo nós três...
Erold acabou dando um sorriso afetivo. "No final, todos acabamos virando humanos", Pensou Erold "Até mesmo este piromaniaco"
—E o que aconteceu, colocastes na casa dela?
—Não... — negou com a cabeça — apenas paramos de nos ver, e nos falamos com menos frequencia.— Tabirth deu um suspiro de pesar. — Por um lado, ela estar longe de mim, significa que ela superou a depressão. Por outro...
Erold percebeu uma leve caida na voz do albino. "Seja la quem foi ela, realmente mexeu com ele" concluiu.
—Bom, mudando de assunto. —Disse Erold, mais animado. — Quem você acha que recebeu a carta tambem?
—Ah, devem ter poucos — o albino bufou. — A Irmandade era o unico meio de alguns deuses de ganharem fieis, e, quando ela acabou, varios perderam poderes... Se existir menos da metade ainda, não ficaria surpreso.
Erold assentiu, pensativo.
—Lembra-se... Das ultimas batalhas?
—Você diz... — Tabirth pensou um pouco — Das ultimas cruzadas?
—Exato!
—Lembro de partes...
Erold olhou para o lado, vendo a paisagem aberta.
—Bons tempos...
Tabirth escapou o olhar um pouco, e encarou a paisagem.
—Velhos tempos...

A mente de ambos se transportou como em um flashback para muitos anos atras, aonde a civilização passava por um periodo chamado Era Negra. Demônios eram presentes, e os deuses, em maior numero.

As Cruzadas, diferente das que foram feitas por humanos para re-conquistar territórios, estas foram feitas pela antiga irmandade, para expulsar os demônios.

Tanto deuses e demônios são frágeis. O campo de batalha final estava coberto por um leve chamuscar azulado e avermelhado. O Cavaleiro Erold estava com sua enorme espada azulada, a frente, a ergueu, e urrou a vitoria.
Os deuses urravam, como um exercito humano. As "panelinhas" se juntavam. Tabirth nunca foi de ficar com os mais poderosos. Preferia esperar, e ver os mortos. Antes de começar a andar, outro deus foi a frente dele. A moeda girava ao ar, e caia sobre a mão dele.
—Está ficando lento, Deus do fogo — Um sorriso cruel se fez a face.
—Balthazar... — Grunhiu o albino, com o isqueiro em mãos. — Não imaginava que um rato como você estivesse vivo ainda.

—Posso dizer o mesmo.

Ambos se aproximaram. Assim como Tabirth, Balthazar tinha um tique com sua arma: a moeda nao parava quieta. Rolando entre os dedos dele, ou voando e caindo. O isqueiro de Tabirth se acendeu, e Balthazar lançou a moeda para cima. Os que estavam ao redor deram um passo para trás. Halfgazer, que ja estava proximo de Erold bufou. Aquilo seria uma bela briga de cachorro grande, mas não era hora desse tipo de discussão, não ao fim da batalha, e com tantos aliados caidos.

—Ei, vocês dois — Berrou Halfgazer — Parem com isso, vocês tem aliados estendidos no chão, cuidem deles!
Balthazar ouviu tudo, com o rosto levemente virado. Encarou Tabirth.
—Você ouviu o homem, vá trabalhar.

Os dentes de Tabirth ficaram a mostra. De tudo que ja havia enfrentado, aquele cara era o pior.

Enquanto Balthazar foi para uma dos grupos da Irmandade, Tabirth se aproximou de uma das outras deusas que manipulavam o fogo, Amerye, que pareceu aliviada em vê-lo. Trocaram um abraço.
Erold suspirou, sua espada azulada e enorme cravada ao chão escurecido. Halfgazer apareceu ao seu lado.
—Tudo bem?
A roupa de batalha de Erold, a antiga armadura templaria balançava levemente, mas não tanto quanto o sobretudo de Halfgazer.
—Eu não sei, irmão — Disse o cavaleiro — Estamos proximos da vitória, mas ainda sim... Parecemos tão longe.
—Não se preocupe, cavaleiro — disse Halfgazer, em tom sério. — Logo, esta guerra estara acabada. — olhou para trás. O que via era um exercito desunido — Mas... Me preocupo com a batalha final.
—Por que?
—Nossa Irmandade ja não é mais a mesma... — bufou — preciso rever alguns conceitos perdidos por alguns dos escolhidos, mas... Não duvido que a Irmandade esteja nos seus últimos dias...
—Bom, foi bom enquanto durou — Erold deu de ombros, contentado.
Mas, Halfgazer encarava o exercito de maneira diferente. Eram crianças com poderes enormes, e isso era ruim.
A frente, outro exército de Demônios se formava. Halfgazer deu outro berro, sacando sua pistola.

—Atenção! Mais Demônios a frente!
Erold foi a frente, usando sua enorme espada para varrer a primeira linha de Demônios, e Halfgazer foi junto com os Deuses. Tabirth e Amerye se largaram, e.voltaram a batalha.

Brigas, lutas e desordem estavam ficando normais. E esses foram os fatores que fizeram a Irmandade ser desfeita ao longo do tempo. A cruzada levou mais 300 anos, e, pouco a pouco, os deuses foram sumindo, perdendo seus fieis, e junto disso, a força que tinham. Em uma das reuniões da Grande Mesa, Halfgazer finalmente havia decretado que a Irmandade havia acabado, alguns aceitaram, outros não.

Não demorou muito para a Grande Mesa virar palco de mais caos, o que deixava Halfgazer mais impassível do que nunca. Tabirth realmente não se importava mais com a Irmandade. Os valores haviam sido perdidos desde que Halfgazer assumiu a liderança (ao menos, era isso que ele achava). A unica coisa que o manteve vivo e la dentro era a figura com um vestido grego parado perto de uma das pilastras do castelo, de braços cruzados, e essa alguém era Amerye. Sua forma humana era grega, e tinha longos cabelos vermelhos que ondulavam sensualmente na altura do busto. Tabirth praticamente perdia os sentidos quando a via, e, poderia estar achando demais, mas achava que o sentimento era mutuo. Em meio ao caos, ambos se olharam, e saíram dali. Ficaram a observar o Céu noturno. Tabirth ouviu o que Amerye tinha a falar, sobre não querer a Irmandade extinta, e que não queria virar uma humana comum. Tabirth havia parado de escutar para contemplar a beleza. Ela ficava realmente muito atraente naquele vestido branco. Não se conteve em expressar os sentimentos por ela pousando a mão sobre a sua, e lhe tomando os lábios para si próprio. Foi uma surpresa saber que acabou tendo uma retribuição, e uma surpresa ainda maior em se ver entrelaçado com ela, sobre lençóis, enquanto o Caos reinava não muito distante, em uma das grandes salas do castelo. Foi a melhor experiencia que o rapaz teve em sua vida, e, na época, era uma das primeiras.

Até hoje, Tabirth nunca se arrependeu do que fez. Em sua fantasia perfeita, Amerye voltaria para seus braços, e eles teriam uma relação mais longa... Mas, ela havia sumido no dia seguinte, e desde então, Tabirth parece copiar ela com cada mulher que acabou se deitando ocasionalmente. A unica coisa que tinha para lembrar-se dela era um dos colares dourados que usava, que esta até hoje ou no pescoço de Tabirth, escondido, ou guardado consigo. Nunca esqueceram as trocas de afeto, e palavras prazerosas de amor que trocaram entre sussurros, por debaixo dos lençóis. As doces palavras dela sempre ecoam em sua cabeça até hoje, como o simbolo constante de "Você amou esta mulher, e ela te amou".

Voltando ao presente, Tabirth, chacoalhando a cabeça para se obrigar a voltar a se focar na estrada (Relembrar de Amerye realmente o distraia) agradecia por Deuses como Balthazar terem sido extinto, mas, se sentia extremamente mal por deusas como Amerye terem sumido. A mão se apertou ao volante. Quando percebeu, forçou menos o plastico, e olhou para o colega. Tambem estava pensativo. Tabirth manteve o silencio, afinal, estavam quase chegando. O tempo estava mais feio de novo, o que combinava de certa forma com o objetivo final.

—Estamos perto. — Disse Erold com um sorriso — Já sinto o Mau Humor de Halfgazer.
—É... — Disse Tabirth, encarando os últimos quilometros que se faziam na estrada.