A Graduation of Nightmares
5 O lado bom do lado ruim da vida
Notas iniciais
“Mas não se queime
Mesmo se você gritar e berrar
Isso vai voltar para você
E eu estarei aqui para você
Oh, vou te levar para longe
Fogo e água para o seu amor
E vou te abraçar mais perto
Espero que o seu coração seja forte o suficiente
Quando a noite está caindo sobre você
Nós vamos encontrar um caminho através da escuridão”
– Through the Dark, One Direction
– Estamos há 5 minutos da liberdade, mas só temos 5 minutos para escapar!
Eric claramente era o capitão da fuga e seguíamos cada palavra sua a risca, não sabíamos se daria certo. Tinha de dar.
– Então, Sam e Mel saem e dizem para o guarda que estou chamando-o, contatam a polícia federal pelo comunicador dele enquanto eu e Carlos o enrolamos. Depois, com esse pedaço de vidro – Eric disse entregando a mim -, furem os pneus do jipe dele e, então, o Carlos desce para os fundos da cabana para fazer ligação direta no carrinho de expedição, não é muito veloz, mas vai servir. Lúcio vai vir do lado leste, então seguimos pelo oeste assim que o guarda sair da cabana para tentar vazar e dessa vez só teremos a confiança de estarmos seguros ao ver a luz do dia, ou no caso, noite, fora dessa floresta, entendido? – assentimos – Ótimo. Três minutos!
Samantha e eu descemos pela escada de madeira que possibilitava entrar na cabana, já que era suspensa em uma árvore e mais algumas estruturas. Dissemos ao guarda que Eric o chamava e cumprimos o serviço com excelência. Depois nos dirigimos ao local onde Eric indicou que o carrinho estaria e Carlos tinha acabado de fazer a ligação direta. Entramos le e esperamos Eric. Quarenta e sete torturantes segundos depois, ele apareceu e se pôs no banco do motorista acelerando, não demorou muito para que ouvíssemos o som de gritos e até alguns disparos.
*
– Ela abriu o olho! Eu vi! Ei, Melanie, você está bem? – assenti e me esforcei a dar um sorriso ao ver aqueles olhos negros em cima de mim com mechas azuis emoldurando o rosto moreno. – Ah, por céus! Eu estou tão feliz que estejam bem! Ainda podemos aproveitar alguns dias na praia e... ah! Como pude me esquecer? Tem alguém louco pra te ver. Eu poderia jurar que ele vai botar um ovo se não ver como está bem. Felipe? Felipe! Vem aqui! CRIATURA, A MEL ACORDOU! – logo escutei passos pesados e senti braços protetores ao meu redor.
– Melanie! Ai, meu Deus! Me desculpa, eu nunca mais vou te deixar! Ou melhor, não precisa me desculpar. É tudo culpa minha! Eu não devia cair nas suas idéias malucas! Mas vou te abraçar de novo e mesmo que não me desculpa, vou te abraçar para sempre! – ele afundou o rosto em meu ombro e a velocidade das palavras deixavam quase indistinguíveis suas falas.
– Lipe... Soph... se acalmem, eu to bem. Todos nós estamos. Eu só precisava dormir mesmo. Felipe, você ta chorando? – dei um sorriso confuso depois de tranqüilizá-los.
– Isso é ridículo, mas eu não sei o que faria se tivesse acontecido algo com você... com vocês. É, vocês.
– Calma, Romeu, sua donzela ta a salvo. – Soph disse zoando – Agora, se os pombinhos me dão licença, vou ver como estão Sam e meu namorado. Ah, e aquele gatinho também.
– Senti sua falta... – eu disse e se fez um silêncio ensurdecedor – Não sei como ninguém ainda te matou por estar na ala feminina.
– Por você vale a pena correr alguns riscos.
– Você é o melhor amigo que eu poderia ter.
– Você é a pior, onde já se viu me dar um susto desses?
~ Amigo. Melhor amigo. Era sempre isso que ele seria, pensou. O que você pensou? Você quase se declarou.
Ele estava num conflito interno enquanto ela lidava com a decepção de não ter tido as palavras sobre serem mais que amigos saírem da boca dele. Chega de ilusão, alertou-se. Ele nunca faria isso. ~
– Desculpa, Lipe.
– É impossível não te desculpar quando você me chama assim.
Depois Felipe se despediu com um beijo – na testa, infelizmente – e eu me arrumei para descer ao saguão, me ajeitei bem seguindo o conselho dele que disse que eu teria de lidar com alguns repórteres lá em baixo.
Falei com Carlos, Sam e Eric, estavam todos bem. Falei com minha mãe pelo skype e mandei mensagens respondendo a todos da minha família, falei com os professores e também com os colegas de turma. Respondi a todas as perguntas dos repórteres vagamente, não queria falar muito disso agora, já teria que lidar com tudo isso no tribunal. Mas uma dúvida percorria minha cabeça, o que acontecerá com Lúcio, os capangas e o guarda? Descobriria logo, logo.
Sair pra praia hoje? Nem pensar! Eu não queria ter que lidar com todos aqueles repórteres de novo. O pior é que algumas perguntas eram pessoais, perguntas irrelevantes, que não vinham a ter nada a ver com o seqüestro e, saíra até especulações! Coisas ridículas, sem nexo, cujo Felipe até brincou “esse é o preço pela fama” e recebeu um pedala na nuca. Mas, quem realmente parecia sofrer mais com toda aquela coisa, era o Eric. Saíram especulações de que a policia estava pretendendo prendê-lo também, mas assim que telefonei para eles, disseram que era apenas mais um boatos como muitas outras coisas. As perguntas mais relevantemente freqüentes e com um certo nexo eram “vocês foram violentados sexualmente?” “presenciaram a negociação de compra e venda de pessoas?” “lhes obrigaram a ser usuários da drogas?” “pode descrever seu agressor?” ah... essa perguntava revelava tudo... ainda não o tinham capturado. Ele estava solto. E se a polícia não o conseguiu pegar depois de tudo que tentamos, provavelmente seria mais um caso em vão envolvendo a quadrilha de Lúcio, mas uma que ele sai ileso.
*
Depois de milhões de negações e milhões de pedidos persuasivos, Sophia e Samantha acabaram me convencendo a aproveitar esses últimos momentos com um biquíni e o sol carioca escaldante. Fomos nós três, Felipe e Carlos. Eric não quis ir nem pelas súplicas de Sam, preferiu ficar lá e Luiz... bem, é o Luiz.
Chegamos na praia e montamos o guarda-sol a poucos metros do mar, as vezes a água chegava até nós.
– Ei, Mel, eu e Soph vamos pular ondinhas, quer vir? – Sam disse se levantando.
– Não, valeu, vou comprar uma água de coco e depois catar conchinhas com os meninos.
Ela disse que tudo bem e depois só se via duas lesadas em direção ao mar. Fui a barraca de coco e fiz o pedido a uma mulher com a cara enrugada e cabelo branco com dreads, e então eu olhei do outro lado da rua... e o vi.
– Moça? Moça, sua água de côco! – a senhora me tirou do transe.
– Han? Ah, obrigada! – paguei e saí.
– Mel, aconteceu alguma coisa? – Felipe me perguntou quando me aproximei.
– Ahn... não. Cadê Carlos?
– Pulando ondinhas... quer dizer, ele ta é mesmo prestando atenção na bunda da Sophia. E claro, fazendo Sam segurar vela.
– Sam já tem o novinho de olhos esmeralda dela. – eu disse e ele riu, até que percebi que estávamos nos encarando. Aqueles olhos... bem mais azuis que o mar... azuis como o céu...
– Você ainda ta afim de catar concinhas? – os mesmos olhos que me despertaram.
– Ahn, claro. – começamos a caminhar. – E a faculdade?
– Eu consegui uma bolsa de ciências na UNOPAR.
– Mas é claro, com seu currículo.
– Eles disseram que era quase inacreditável eu já ter participado de tantas olimpíadas no fundamental e era absurdo meu número dos mesmo no ensino médio, disseram que vou longe.
– Disso não duvido.
– Mas e você? Vai para a faculdade também no próximo ano, não é?
– Uhum, pena que só me interesso por coisas falíveis.
– Você se interessa por fotografia, música, teatro... são tudo coisas incríveis. E você é muito inteligente.
– Aí é que ta, são coisas incríveis, áreas onde só se consegue algo se você for incrível, e eu ser inteligente não é o mesmo de criativa ou até mesmo incrível.
– Você é a garota mais incrível que eu conheço.
Parei subitamente de andar quando ele também parou e se virou para mim. O sol da praia iluminando aqueles olhos safira, o cabelo por cortar bagunçado e o sorriso incrivelmente convidativo. Ele segurou um de minhas mãos e me aproximou. Centímetros de seu corpo. É agora, pensei. Fechei meus olhos por instinto e podia jurar que ele fechou no mesmo milésimo de segundo. Nossos corpos cada vez mais perto, a boca dele cada vez mais alcançável, eu podia sentir sua respiração roçando na pele de meu rosto e então... Foi. A boca macia, nossas línguas em sintonia, o cheiro que ele parecia sempre carregar, as mãos agora em minha cintura e as minhas subindo para sua nuca. Tudo perfeito. Tudo como devia ser. E quando paramos o beijo, sorrimos e eu pude sentir que via por dentro daqueles olhos, eu podia ver a alma dele e ela explodia em fogos de artifício, assim como a minha.
Eu descobri que o único lado bom do lado ruim da vida, é poder apreciar todo seu lado cotidiano como o lado maravilhoso. Ou simplesmente apreciar os olhos safira do seu melhor amigo, enquanto você tem pela primeira vez a demonstração de um sentimento que você sente que pode chamar de A.
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