A Garotinha: Sherry
10 Trecho de Capítulo
Notas iniciais

O cheiro de morte entrou mais uma vez em meu nariz, tão forte que me fez “voltar”. Olho em volta e percebo que estou mais uma vez nessa segunda dimensão. As paredes, o piso... completamente manchados de sangue, ferrugem. Faltam vários azulejos em ambos. O cheiro de fumaça e sangue está muito forte. Ainda continuo com o recado de Varla em minhas mãos e o rádio continua chiando alto.
Penso novamente sobre Varla. Se ela estiver aqui, com certeza vai querer me matar. Porém, se ela for o “demônio”, eu que a matarei. Penso em rir novamente, mas me contenho. Decido sair do hospital e verificar se a situação se iguala a daqui de dentro. Como esperado, enxergo a rua e vejo uma grande escuridão. A luz da lanterninha ilumina alguma coisa e vejo o asfalto completamente deteriorado. O rádio passa a chiar ainda mais alto, então aponto a lanterna para todos os lados.
À esquerda, observo alguma coisa cambaleando no meio da pista. Não consigo enxergas direito, mas a coisa parece não ter braços, muito menos uma cabeça bem definida. Meu coração acelera. A coisa começa a andar em minha direção.
Vejo um pouco mais de perto e percebo algo parecido a um ser humano com alguma espécie de camisa de força. Ele faz movimentos como se tentasse se libertar. Ele continua em minha direção.
Abro a mochila e puxo o TriCell de dentro. Se esse for p demônio, vou liquida-lo e voltar até Alexander atrás de Sherry. Fecho a mochila e seguro o objeto em minha mão direita. Não sei como ele age, então caso não aconteça nada, vou jogar o TriCell na coisa. A criatura se aproxima o TriCell não demonstra nenhuma reação. Ele não brilha, não faz barulho. Começo a repensar se isso realmente funciona ou se estou diante do “demônio”.
A meu olho, a criatura está a uns dez passos de mim. Consigo ouvir um guincho agudo que me faz colocar as mãos nos ouvidos. Seguro firme o TriCell na mão e uso toda a minha força para jogar na coisa. Vejo o objeto batendo na cabeça do monstro e caindo no chão, mas nada acontece. Ele continua caminhando em minha direção, está agora a uns sete passos.
____________||____________
Meu estômago está revirando. Alexander disse que pegaríamos um atalho, mas não sei que atalho foi esse. Estamos bem distantes da cidade, andando por uma floresta. As árvores estão muito estranhas, parece até que estão mortas. Sinto náuseas, não sei quanto tempo vou suportar de pá. Ele me leva pela mão, parece cauteloso em relação a algo, mas não sei como devo agir... sinto que vou desmaiar.
–Aléxia, você está bem? – Ele me pergunta em um tom de preocupação.
–Não... – respondo mesmo não sendo Aléxia – eu acho que vou desmaiar...
Meu corpo amolece, mas Alexander é mais rápido. Solta minha mão e me pega nos braços. Sinto uma certa proximidade, um certo afeto. Ele continua caminhando. A lanterna ajuda a enxergar o caminho, pois está muito escuro. Ele coloca uma espécie de colar em mim, com um pingente liso e parecido com um ovo pequeno. Não consigo ver exatamente o que é, mas acho que é alguma pedra.
–Já estamos chegando, filha.
Filha? Seria uma forma de tratar as pessoas ou ele realmente achava que eu era a filha dele? Penso em dizer que não sou Aléxia, que não sou que ele pensa que eu sou, mas não consigo. Fico em silêncio enquanto ele continua me levando para a floresta. Consigo visualizar melhor agora que meus olhos se adaptaram à escuridão. Vislumbro uma casa, não, uma casa muito grande no meio do mato. Acho que é pra lá que ele está me levando.
–Alexander...
–Sim?
–É para lá que nós vamos?
Não sei se sorrio ou se fico amedrontada. Não sei o que ele fez, mas me sinto segura com ele. Nos aproximamos mais.
–Bem vinda novamente, Aléxia. Esta é a Mansão Spencer!
____________||____________
Puxo o gatilho duas vezes e sinto o recuo da arma. A criatura cai no chão, exalando algum tipo de vapor cujas partículas tornam-se visíveis mediante a luz da pequena lanterna. Vejo o sangue escorrendo de sua cabeça, mas a coisa ainda se debate. Me aproximo tentando evitar tomar algum dano pelo vapor liberado pela criatura e pego o TriCell que está sobre o chão próximo a criatura.
Volto a entrar no hospital, colocando a arma e o objeto nos bolsos direito e esquerdo. Sento por um instante no banco tentando formular algum plano. Se aquilo não era o “demônio”, tenho que agir rápido. Mas se eu não usar o TriCell e aquilo for o demônio, terei problemas.
Penso por mais um instante e decido continuar. Sigo pelo corredor e abro a primeira porta, ou pelo menos tento. Ela está trancada. Vou para a segunda porta e ouço tiros vindos de dentro dessa sala. Imediatamente tento abrir a porta e consigo. Percebo na sala as mesmas características de antes: as paredes, o piso, o cheiro e o escuro. Vejo no chão com a ajuda da lanterninha um corpo de algo semelhante a um corvo, bem parecido com o que matei no J’s Bar sendo iluminado também por outra lanterna. Acompanho o foco até a fonte e vejo um homem de mais ou menos uns trinta anos de idade, cabelos castanhos e olhando atenciosamente para a criatura morta. Ele veste um terno sobre uma camisa branca e uma gravata vermelha. Ele olha pra mim e aponta a arma.
–Heeeyy! Sou um humano como você! – Falo levantando as mãos.
–Ah, me desculpe! – Ele responde um pouco ofegante. –Para mim, quase tudo é inimigo aqui.
–Imagino. Quem é você? –Pergunto como se tivesse alguma autoridade. Ele pareceu não se importar... imagino pelo que ele já passou por ele aqui.
–George Hamilton, diretor desse hospital. Também pesquiso plantas medicinais... nunca leu nenhum livro meu?
–Desculpa, não. Sou escritor, mas escrevo romances policiais.
Me volta a mente sobre a menina de cabelos cacheados correndo atrás de mim segurando uma faca na mão direita tentando me matar, Varla Linai.
–Ah, legal. Pelo menos um pouco de cultura aqui. E você, quem é?
–William Birkin. Eu estou procurando minha filha, Sherry. Você não a viu? Uma menina loira e branca, com uns dez anos de idade. Não vi muitas parecidas com ela por aqui.
Ele dispensou a piada.
–Ah, eu também não. –Disse fechando a cara com uma expressão séria e pensativa. –Se vê-la, te direi. Agora tenho que ir.
–Ir para onde?
–Minha pesquisa. Boa sorte com essas coisas por aí.
Aceno com a mão e o vejo sair pela porta que entrei. Ele pareceu tão acostumado com a situação da cidade que chega a me assustar um pouco. Sem contar que, quem em sua sã consciência continuaria com uma pesquisa com a cidade nesse estado? Decido vasculhar a sala. Vejo algumas estantes, e uma escrivaninha. A luz do abajur está acesa e enxergo um livro aberto. O livro lista sobre plantas de importância medicinal e consigo enxergar a que provavelmente George estava lendo. É a Nerium oleander. Segundo o livro, ela possui propriedades abortivas muito perigosas que chegam até a levar a mãe a óbito junto com o feto. Sinto um arrepio só de pensar em aborto. Fecho o livro e encontro uma carta pregada à capa. O destinatário é para mim, mas o remetente é... Varla Linai.
Rasgo o envelope e começo a ler.
– — — — — — — — — — — -
Varla caminhava lentamente até seu quarto, onde encontraria finalmente o descanso do dia. Cansada, ela pouco imaginava que o assassino poderia aparecer ali, em sua própria casa. Varla deitou na cama e tentou dormir. Algumas horas se passaram até que ela ouviu um barulho vindo da sala de estar.
–Não levante agora, Varla. Deixe-se descansar. Deve ser apenas mais um gato que invadiu a casa. –Ela pensou.
Varla tentou dormir novamente, mas não conseguiu. Ouviu passos subindo a escada, decidiu fazer alguma coisa. Com medo, ela tentou se esconder no banheiro cuja a porta ficava do lado da cama.
–Varlaaaa...?!
Era o seu irmão, Jack. Ela o queria ver, pois tinha medo de todos esses assassinatos que investigara acabassem levando o assassino a ameaçar seu irmão ou algo do tipo... afinal, para ela o caso estava quase que solucionado.
–Jack? Pode subir.
Ele abre a porta, caminha até ela.
–Varla... eu... levante-se, preciso de um abraço.
Ela se remexeu na cama por alguns segundos, mas por fim levantou. Ele se aproximou dela e a abraçou. Seus braços começaram a se mover pelo seu corpo, até que suas mãos chegaram ao seu pescoço.
–Jack... ?
Já era tarde. As mãos dele começaram a pressionar o seu pescoço interrompendo o fluxo sanguíneo que irrigava o cérebro...
–Sou eu, irmã. Eu sou o assassino que você procura. –Ele sussurrou no seu ouvido.
–Nãã...
Varla começou a revirar os olhos. Não conseguia respirar, sentia-se asfixiada. Ela começou a perder um a um os seus sentidos, até que Jack jogou seu corpo sem vida em cima da cama.
– — — — — — — — — — — -
Sinto um arrepio. É o trecho que escrevi. O capítulo final de Quatro Cores onde descrevo a morte de Varla pelo seu irmão, Jack. Mas... mas... Onde encontraram isso? Como? Sabiam que eu estaria aqui? Não consigo compreender.
Amasso o capítulo do livro e jogo no chão. Decido prosseguir. Saio da sala e volto ao corredor, tentando decidir em qual porta entrarei. O rádio chia.
Fale com o autor